aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, julho 15, 2021

Realizou-se o Festival Transfronteiriço de Poesia, Arte de Vanguarda e Património em Meio Rural, em Vilarelhos, no passado sábado 10 de Julho de 2021


                                       

                                       







Decorreu durante o sábado dia 10 de Julho de 2021 o PAN mínimo de Vilarelhos, que retomou, embora de forma reduzida um evento que acompanhei entre 2018 e 2019. Essencialmente consistiu numa troca de impressões entre os organizadores e alguns dos convidados que puderam comparecer, os quais falaram na forma como enfrentaram a pandemia e que perspectivas têm para o PAN de 2022. 

Após o almoço e visita à Galeria Municipal de Arte em Alfândega da Fé, junto ao Solar do Morgado realizou-se um recital de Poesia, em que os poetas e recitadores foram acompanhados pela jovem cantora local, Joana Cancela.

Antes do encerramento, os participantes jantaram e confraternizaram, realçando a qualidade da cozinha, a cargo das senhoras que sempre participam nesta verdadeira mostra de gastronomia e gentileza.

Ir a este Festival Transfronteiriço de Poesia, Arte de Vanguarda e Património em Meio Rural, que nasceu há duas décadas em Morille (Salamanca) sob a égide de Manuel Ambrósio Sanchez Sanchez,  alcalde daquele município, também professor da Universidade de Salamanca e deputado provincial, tendo tido vários subdirectores do Festival, enquanto representantes e angariadores dos artistas portugueses que participaram nas várias edições, ir a este Festival, dizia, é neste tempo tão difícil, um Renascimento.

Actualmente e com agrado, Francisco Lopes e António Sá Gué são os dois subdirectores, ambos transmontanos, tendo as primeiras edições do PAN em Portugal decorrido em Carviçais (Torre de Moncorvo). Parabéns à organização, aos participantes e ao Povo deste belo concelho de trás-os-Montes.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

domingo, junho 13, 2021

Monografia de Mosteiro, de João Coelho apresentada na Associação Mosteirense, com numeroso público





Após a evocação do centenário da ponte sobre a Ribeira de Pera e dos zeladores da água que corre por magníficas levadas, que um grupo numeroso de cidadãos percorreu, foi apresentada a Monografia de Mosteiro (Pedrógão Grande) da autoria de João Coelho, no espaço da associação local e na presença de autarcas, amigos, associativistas da Aldraba e povo da localidade.
Na ocasião tive o ensejo de intervir, por sugestão do autor.
Eis o que disse:
"O evento que testemunhamos hoje é a festa de um povo que fica mais honrado com um livro idealizado e escrito por um dos últimos carolas do associativismo voluntário, que tem um percurso que fala por si, não necessitando de acrescentar ao curriculum para vaidade pessoal este título.
O esforço que está à vista nas páginas da obra foi enorme, vencendo vicissitudes, teimosamente, para entregar à posteridade, aos vindouros, as memórias, as sabedorias, a vida difícil dos antepassados.
Trata-se de um profundo levantamento etnográfico, onde a geografia humana se evidencia. As tradições os costumes, o saber médico do povo, a natureza pródiga envolvem-nos de tal modo que apetece ler este livro até ao fim.
Enriquecemo-nos todos ao sabermos que um lugar entre serras, com uma ribeira mágica a cantar com os pássaros, tem tanto para contar."
Luís Filipe Maçarico (Texto e fotografias)

sábado, junho 05, 2021

Contra a Subserviência

                                           



Pela primeira vez ouvi na rádio, um responsável português (não formatado às ziguezagueantes decisões do governo de Londres) louvar a atitude dos nacionais, que a exemplo de 2020 estão a fazer reservas em grande número para o Algarve.

Após anos de subserviência à Inglaterra, por parte de alguns cromos (para evitar chamar nomes feios) do Turismo, Hotelaria e Restauração algarvios, alguém pôs o dedo na ferida:

1º O Reino Unido saiu da União Europeia (O "Brexit" já aconteceu)

2º O Governo Inglês quer que os seus súbditos gastem as poupanças, passando férias lá dentro;

3º Têm de ser cativados turistas do espaço europeu, que integra quse três dezenas de países, o que equivale a muitos milhões de  possíveis visitantes.

Por este andar, ainda poderíamos assistir à criação de uma Comunidade Autónoma Inglesa do Algarve, com estatuto, legislação e governo próprio, a orientar e a ser porta-voz dos milhares de residentes, com lacaios tão leais que se confundem com os capachos que os artesãos de antanho criaram...

As carpideiras do capitalismo mais estúpido deveriam mudar de narrativa, eliminando os queixumes sistemáticos que já não suportamos escutar todas as semanas desde há dois verões, pois já cheira mal a discursata aziaga, que só fala de prejuízo, de encerramento, de despedimentos, como se não houvesse mais mundo.

Já basta de domínio inglês no Douro e o facto de comprarem casas por todo o lado, asfixiando o povo deste país com tanta especulação, não cria qualquer empatia por parte de quem teve de abandonar cidades onde viveu toda uma vida para surgirem os Alojamentos Locais. Ou até colectividades que desapareceram para os prédios onde estavam localizadas passarem a ter como proprietários estrangeiros com poder económico, o que sucedeu com palácios alienados do governo central e municipal (o dos CTT e o do Machadinho p. ex.)

Dispenso esta gentalha (a que vem embebedar-se para cá e não respeita as regras e os que tudo permitem para andarem à babugem do lucro).

          LFM (Foto e texto) 


ASSEMBLEIA GERAL E ELEIÇÃO DOS NOVOS CORPOS SOCIAIS DA ALDRABA

 

     
                                       



Realizou-se ontem, na Biblioteca da Casa do Alentejo, a Assembleia Geral Ordinária da Aldraba, que discutiu (com bastantes intervenções e sugestões), aprovando por unanimidade os documentos que relatam a actividade desenvolvida em 2020 e respectivas contas e o Plano e Orçamento para 2021, que prevê inúmeras iniciativas, se a situação pandémica que continuamos a viver o permitir.

Procedeu-se à votaçãoda única lista candidata  (aprovada por unanimidade também) , com 12 votos por correspondência e 18 presenciais, num total de 30 votos, contados e conferidos pela Mesa da Assembleia Geral, que volta a ser presidida por João Coelho, mantendo-se Jose´Alberto como coordenador da Direcção cujos elementos transitam do anterior elenco. Leonel Costa continua a ser o Presidente do Conselho Fiscal, havendo a entrada de novos elementos para este orgão e para a AG.

LFM (Texto e Fotografias)

quarta-feira, junho 02, 2021

ASSEMBLEIA GERAL DA CASA DO ALENTEJO


 



Realizou-se ontem a Assembleia Geral da Casa do Alentejo, com perto de 30 pessoas. Os documentos apresentados para discussão (Relatório e Contas de 2020 e Plano de Actividades e Orçamento 2021) foram votados por UNANIMIDADE.
O Presidente da Direcção João Proença colocou a hipótese de ter de alterar o Plano, consoante a evolução da situação pandémica.
O Presidente do Conselho Fiscal advertiu para se estar atento, considerando que a situação - pelo apoio da CML e pela votação unânime na Assembleia da República, que demonstrou apreço pelo Património Material e Imaterial que esta Instituição simboliza - será gratificante. "Temos que gerir o passivo e liquidar os empréstimos, se a pandemia deixar!"
LFM (texto e fotos)

domingo, maio 30, 2021

“GENTES QUE MARCAM A VIDA DA GENTE”, DE ROSA CALADO”: TESTEMUNHO DRAMÁTICO DE UMA SAGA EXPERIMENTADA, ONDE PERPASSA O REALISMO MÁGICO E CINTILA UMA LINGUAGEM FLUIDA"






Em boa hora a Colibri editou este livro - “Gentes que Marcam a Vida da Gente”.

O título não podia ser melhor escolhido, pois define todo um repositório de conhecimentos e experiências, onde o Povo de Ferreira do Alentejo protagoniza esta saga.

 

Escrito no tempo disponível que o segundo confinamento proporcionou à autora, é resultado de uma memória pujante acerca das vivências marcantes da sua aprendizagem, enquanto pessoa, observando a geografia humana em redor, do sul das injustiças à capital do Império, donde emanavam as restrições.

 

“Gentes que Marcam a Vida da Gente” recorda as transformações de toda uma época, desde uma Pensão que era o Microcosmos da Comunidade, onde Rosa Calado, aliás Teresinha, criou as suas raízes.

A “informação experimentada” dá-nos a conhecer o mundo dos rendeiros agrícolas, dos seareiros, dos pequenos lavradores, das meninas descalças e dos que lutaram contra a ditadura, sendo o tio João o herói, expoente máximo na Vila, dessa luta sofrendo prisões e torturas.


Com um néon luminoso, a “Nova Pensão” tinha a porta sempre aberta.

A mãe, exímia cozinheira usava com mestria os ingredientes da terra, enquanto o pai era exemplar na arte de receber, cativando pelo sentido de humor.

Teresinha adorava ler Poesia, privilegiando o Teatro, que fomentou em adulta, encenando muitos dos seus alunos.

Os hóspedes eram notários, oficiais das finanças, professores e médicos, entre outros funcionários públicos.

 

O espaço foi-se renovando e ampliando fazendo juz ao nome. Teresinha cirandava e brincava escutando ao pai frases que transmitiam valores. Que a Terra estava mal distribuída, que os padres - dos quais se esperavam atitudes fraternas, com humildade e amor ao próximo - pela postura altiva mereciam o anticlericalismo militante dele.

 

Fala-se de Maria, oriunda de Huelva, que servia as refeições e higienizava os quartos, dos tontinhos e da cadeia que tanto impressionavam Teresinha, bem como dos embuçados com fome mas muita dignidade, que recusavam a caridade, detestada por José, o pai.

 

Autobiográfico, com palavras bem escolhidas, Rosa Calado pinta telas onde a marca profunda da estratificação social e o controle do regime impunha e formatava costumes, tradições e mentalidades (p. 70); como um clarão irrompem nas descrições onde a PIDE aparece, através de homens cinzentos e a miséria afronta os pensamentos pueris da jovem.

 

No ciclo anual das Festas, há Mastros, Presépios, Férias nas Caldas de Monchique, o cinema na esplanada cujo écran possuía a dimensão daquele que era possível fruir no Monumental de Lisboa e a Feira Franca, com uma barraca de sopa dos pobres, exibindo a caridadezinha odiosa.

 

Os anos 60 trazem sinais que irão enfraquecer o Estado Novo. A Guerra de Angola, a Fuga de Peniche, a queda de Salazar.

Depois da escola e do colégio, dirigido por um padre que insulta a família de Teresa, da revelação de um suicídio, da percepção do clube dos ricos, restritivo e da associação recreativa, acessível a todos, surge o Liceu de Beja, onde Martinho Marques, o prefaciador, era colega da autora, realizando-se uma inesquecível excursão a Sevilha, Granada e Córdova. A evocação de Gonçalves Correia, o libertário que soltava pássaros das gaiolas e as eleições de 69 são igualmente marcantes.

 

Já em Lisboa, primeiro na Faculdade de Direito, onde tem um professor chamado Marcelo Caetano, que virá a ser primeiro - ministro, tentando maquilhar o regime, Teresa casa-se com Francisco, mudando para a Faculdade de Letras.

 

As leituras, desde “O Romance da Raposa” de Aquilino e “Constantino, Guardador de Vacas”, de Redol, livros oferecidos pelo tio João, Urbano Tavares Rodrigues, Maria Judite de Carvalho e Manuel da Fonseca, são autores de referência que vai descobrindo.

 

Não é por acaso que a narrativa termina com um belíssimo poema de Eduardo Olímpio, após o testemunho do decisivo desempenho do pai, que influenciou o irmão João para abraçar a resistência, o pai “fazedor de trilhos”, culminando no Abril de todos os sonhos.

 

Para trás ficavam as tias, a mercearia, a beata que nas procissões se punha debaixo do andor, humilhada por um clérigo, o anão sábio e tantas figuras que Rosa Calado apresenta ao leitor.

 

“Gentes que Marcam a Vida da Gente” lê-se de uma assentada, tal é a fluidez da linguagem, o encantamento, o prodígio de uma infância feliz, o cenário com escala humana de desigualdades e combate político.

Pela força dos episódios contados, há qualquer coisa de realismo mágico em certos momentos do texto.

Por isso, parabenizo Rosa Calado e Fernando Mão de Ferro, por esta aventura.

Recomendo vivamente “Gentes que Marcam a Vida da Gente”. E aplaudo!

 

Almada, 10-5-2021

Luís Filipe Maçarico (Antropólogo e Poeta)

Reportagem Fotográfica: Fernando Duarte. Intervenções, entre outras, de Rosa Calado, Eduardo Olímpio e LFM. Com Maria Eugénia Gomes e Maria José Balancho. E a assistência.

sábado, maio 22, 2021

A Trepadeira de Alcanena e o País dos Excessos sem Culpa


De Norte a Sul, ao fim de semana, muitas localidades parecem aldeias (ou vilas) fantasma. Verifico isso já desde o tempo da troika. Em Lisboa, a Rua dos Fanqueiros nessa altura era um imenso deserto de lojas fechadas. Muitos edifícios, porque os proprietários envelheceram, faleceram ou desinteressaram-se, ou os próprios filhos tiveram a mesma atitude de abandono, viram crescer as trepadeiras como é o caso da fotografia que partilho, realizada esta tarde em Alcanena, onde vários palacetes oferecem o ar desolador bem visível na janela invadida por uma trepadeira, perto da Biblioteca Municipal.

Enquanto isto, no Algarve exige-se que para enfrentar a concorrência do turismo inglês em Espanha, não seja pedido a quem chega da Inglaterra um documento comprovativo de imunidade ao Covid...
A Sic mostra os ingleses (80% dos hotéis cheios) a curtir sem máscara e papalvos como eu estão há quase ano e meio a usar máscara e a viver com mil cuidados. 

Somos mesmo o caixote de lixo dos que têm dinheiro para comprar um país de pedintes, onde empresários com muitas aspas tentam influenciar decisões, porque a economia é a deusa de todas as vontades. 

Ao mesmo tempo, a pandemia agiganta-se em Lisboa e os especialistas dizem que o descontrole dos festejos leoninos levou a mais este retrocesso. 
Ninguém teve culpa. Mas as consequências sofremos todos. 

A trepadeira é o tempo a invadir tudo, antes da derrocada. E gente benfazeja fala da imunidade de grupo, havendo entidades super protectoras que em desespero inventam que só gente da mesma família se pode sentar lado a lado ou frente a frente num restaurante.

Será para levar a sério, este país?

LFM (Textoe e foto)