aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, dezembro 08, 2018

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA "ALDRABA" Nº 24


A HISTÓRIA DE UM ENCONTRO DO PATRIMÓNIO TRANSFRONTEIRIÇO



1.O PAN DE MORILLE. ORIGEM DO NOME, OBJECTIVOS E SEUS CRIADORES



Sopram bons ventos de Espanha, desde o início do século XXI, através da realização anual, em Morille, do Encontro Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural, que completou em 2018 as dezasseis edições. Manuel Ambrosio Sánchez Sánchez[1], alcalde daquele município, da província de Salamanca, comunidade autónoma de Castela e Leão, que tem 22,94km2 e 258 habitantes[2] contou-nos como nasceu este evento: “O PAN surgiu na Primavera de 2003, numa casa particular em Morille, em torno de uma mesa composta pelo então estudante universitário Germán Labrador Méndez, pela professora do ensino secundário Nuria Benito Manjón e pelo próprio Manuel, vereador do Ayuntamiento local, que desejava pôr em marcha um acontecimento cultural, anual, com alcance internacional.

A Poesia seria a coluna vertebral - e o Festival surgiu, também, com Arte de Vanguarda e espectáculos de todo o tipo. O seu carácter rural, festivo (daí o nome do deus grego PAN - que presidia às festas campestres) promoveria o encontro entre escritores, artistas visitantes e a população local. Desde as primeiras edições, quisemos destacar os contactos com Portugal, dotando o encontro de um deliberado carácter hispano-português. A secção “Património” foi incluída mais tarde. A direcção do PAN esteve nas mãos de Fabio Rodriguez de la Flor, editor de prestígio.”[3]

Nos últimos anos, além do autarca, “a equipa integra o escritor e editor António Lopes, Carlos de Abreu, homem multifacetado, geógrafo, escritor e em 2018, Francisco José Lopes, escritor e gestor cultural”.[4]

Na Internet lê-se que o PAN de Morille ocorre durante o 2º ou 3º fim - de - semana de Julho, sendo seus objectivos, além da vocação transfronteiriça, uma orientação interdisciplinar e multicultural, onde se incorpora a provocação e o inconformismo.[5]

2.O CEMENTERIO DE ARTE



Segundo um artigo de Paola Maulén, intitulado “Museo Mausoleo - Cementerio de Arte de Morille Una nueva tipologia de museo?”[6], este espaço nasceu em 17-12-2005, tendo a autarquia local cedido o terreno (90.000m2) e Manuel Ambrosio assumido o compromisso da elaboração, desenvolvimento e financiamento do projecto.

Idealizado pelos artistas Domingo Sánchez Blanco, Javier Utray e pelo crítico de Arte, Fernando Castro Flórez, em 2016 já teriam sido enterradas 31 obras de Arte.

Através da observação-participante, em 2015 assistimos ao enterramento de um objecto de estúdio, pela filha do pintor Jose Antonio Arribas, cuja magnífica exposição “El Quijote”, estava patente no refeitório do Encontro e Leandro Vale (que várias vezes visitou o PAN) falecido em Abril desse ano, foi homenageado com uma peça de fantoches, de sua autoria, “Uma Outra Forma de Contar Abril”, pelo grupo “Nova Morada” e através da curta - metragem, de Rui Pilão, “Aqui Jaz a Minha Casa” (iniciativas bastante concorridas, com uma parte da população da terra a assistir, tendo sido sepultado o televisor, que continuava a exibir o filme).

Em 2017, Maria Lino cujo atelier, em Trancoso, se chama “Temos Tempo”, enterrou uma peça escultórica de sua autoria, em protesto contra a falta de apoio à Cultura, no seu país e em 2018, outra portuguesa, Laurinda Figueiras, com a filha Carolina, celebraram a memória do pai e avô, o poeta e etnógrafo, criador da Ronda Típica da Meadela, José Figueiras, depondo ali, numa caixa, o diploma de mérito, concedido ao ilustre minhoto, a título póstumo, pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, ao som de uma salva de tiros, disparada por cinco rapazes.



3-LITERATURA, PATRIMÓNIO E ESPECTÁCULOS



Obras de escritores ibéricos foram apresentadas em 2015, 2017 e 2018, no Saalón de Plenos”, e todos confluíram no Poetódromo, um recanto especial, com bancadas, em pleno campo, rodeado de pastagens, onde os vates de vários lugares de Espanha e Portugal mostraram o seu lirismo.

Em 2015, o poeta albicastrense António Salvado, foi alvo de tributo, com o lançamento do seu livro “Igaedus”.

Jovens poetas, de entre os quais Suso Sudón, Fernando Dias San Miguel ou Raúl Vacas, ombrearam com nomes consagrados, como Monserrat Vilar e Ana Rossetti, só para citar alguns. Portugueses, como Fernando Fitas, João Rasteiro, Aurelino Costa, Carlos de Abreu, Fernando Duarte, Cristina Pombinho, Leocádia Regalo, Sara Timóteo e Maria José Fernandes, além de muitos outros, completaram o elenco dos protagonistas luso-espanhóis.

A presença das filarmónicas transmontanas e do teatro de cariz popular integrou a animação de rua, em Salamanca, Morille e Vilarelhos.

O contributo do Património evidenciou-se na exposição, no volume e declamação de poemas, relativos a viagens de comboio, com “A linha do Vale do Sabor: Um Caminho-de-ferro raiano do Pocinho a Zamora” (2015). Mas também em “Caminhos de Santiago”, “O Saber Médico do Povo”, da autarca de Alfândega da Fé, a médica Berta Nunes, as “Línguas Raianas estudadas por Leite de Vasconcelos, “Usanças de Antanho”, de Laurinda Figueiras (2018).

A Arte de Vanguarda levou a Morille o pintor Rodrigo Dias, que por não poder pregar pregos no espaço ao seu dispor, uma cochera, expôs as telas da colecção “O Minotauro e Lendas da Minha Terra”, em trilhos e manjedouras (2017), tendo pintado ao vivo, quer na sede do Encontro, como na réplica portuguesa, na encantada Vilarelhos[7]

Ao longo das edições que acompanhámos, assistimos a Concertos Musicais significativos, dos quais salientamos “Sonidos del mundo” do argentino Pablo Messelani, Salamenco e o memorável cantautor estremenho Miguel Ángel Gómez Naharro que brincou o auditório repleto cantando “Bella Ciao”, “Ay Carmela” e “Grândola Vila Morena” (2015).

Morille e o seu PAN, como ficou largamente demonstrado, é um lugar muito especial na raia, pela sua oferta cultural, tendo o apoio da Diputación de Salamanca e Junta de Castilla y Léon. Oxalá se mantenham as parcerias, com Alfândega da Fé e Fundão, com quem foi firmado um protocolo pelos respectivos edis, e que num futuro próximo, a Aldraba participe, para falar da caminhada em torno do património imperceptível e pela salvaguarda da sabedoria material e imaterial do povo português. Quem sabe?

Luís Filipe Maçarico



[1] Professor do Departamento de Literatura Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de Salamanca. Além de Presidente da Câmara Municipal, é Deputado na Diputácion Provincial.
[2] www.lagacetadesalamanca.es/viva-mi-pueblo/morille [Gazeta de Salamanca, on line, consultada em 23-9-2018]
[3] Testemunho de Manuel Ambrosio Sánchez Sánchez, em mensagem de correio electrónico, 16-9-2018.
[4] Ibidem.
[6] Fonte: Sophia Austral nº 17, 1er semestre, 2016-1-14, on line [Consultado em 23-9-2018]
[7] Anteriormente houve uma versão em Carviçais, Torre de Moncorvo, com a curta duração de dois anos.

PRÉ-PUBLICAÇÃO DE ARTIGO PARA A SEGUNDA REVISTA DA CASA DO ALENTEJO QUE ELABOREI COM ROSA CALADO




DE QUE FALAMOS, QUANDO FALAMOS DO ALENTEJO?

Do Alentejo, dizem estatísticas recentes, sai todos os dias uma dezena de habitantes.

Continuará a ser assim?

Que fazem as autarquias - permitam-me a pertinência da pergunta - para estancar esta sangria demográfica?

Apesar dos constrangimentos económicos, com que as Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia se confrontam, desde a pressão junto do Governo até à atribuição de benefícios fiscais, incentivos à natalidade e à fixação de jovens, que medidas para apoiar a população residente, designadamente na criação de emprego, têm apresentado ( e desenvolvido) os autarcas? E no sentido da esperada regionalização, que mais passos poderão ser dados?

Só gerir o dia - a - dia, afigura-se pouco. A criatividade de quem governa o território, nas diversas escalas é urgente.



Na comunicação social, o Alentejo genuíno passa despercebido, como aconteceu no caso de Pias, que habitualmente celebra a sua Festa Rija, no derradeiro fim - de - semana de Agosto.

O cortejo etnográfico deste ano, com quase quarenta carros alegóricos, apareceu numa vertigem visual, sendo dado enorme relevo ao artista que encabeçava o cartaz dos espectáculos.

Para alguns, o Alentejo continua a ser cenário e as suas gentes ignoradas, mantendo-se uma espécie de estigma, que vem de longe, quando articulistas do estado novo consideravam esta região do país desinteressante…

O prodigioso cortejo, onde se evidenciam profissões e tradições extintas e a alma de um Povo, no que tem de grandioso, não interessam às televisões, que menorizam aqueles que, com o seu esforço, contribuem para que Portugal continue a ser um lugar, onde se viva com dignidade.



Vão do Alentejo para a Beira Baixa, os Chocalheiros de Ficalho, sendo talvez a principal atracção da Festa dos Chocalhos, em Alpedrinha, uma festa inventada, que evoca os caminhos da transumância dos grandes rebanhos, que demandavam no sul a alternativa de pastos, que a invernia gelava na Estrela.

Perto desta localidade, em Póvoa de Atalaia, nasceu o Poeta Eugénio de Andrade, que afirmou nos seus escritos tratar-se de um lugar que prolongava o Alentejo.

No desfile festivo, pelas ruas de Alpedrinha, freguesia do concelho do Fundão, onde durante o terceiro fim - de - semana de Setembro, se revivem antigas tradições e se reflectem aspectos das vivências pastoris e de uma ruralidade residual, nos costumes, gestos e comportamentos quotidianos, “contaminados” pela mentalidade urbana (tornou-se usual o karaoke e dançar ao som da selecção de DiskJokey), o sul marca uma forte presença simbólica, através da performance de homens de antanho, habituados a trabalhar a terra e a celebrar a Vida, debaixo de um clima impiedoso.



Entretanto, Évora homenageou o escultor Cutileiro, expondo a magnífica obra deste artista, que exalta o Alentejo, em poemas de pedra, na beleza de uma escrita de amor, derramada no mármore de figuras eternas, que povoam cidades, adornadas com cerâmicas e esculturas felizes.

Évora, cidade aberta ao Mundo, será sempre um lugar luminoso, para as suas mãos criativas. Évora, através de Cutileiro, exprime o melhor que o Alentejo tem.



Dizia a poetisa “Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”.

A monstruosidade do “arranque de milhões de árvores, a maioria centenárias mas também milenares” (Público, 21-9-2018, página 21), foi consumada sem evidente oposição popular ou política. Se existiram posições opostas, foram alvo de censura nos meios de comunicação social e nunca chegaram à opinião pública.

Por todo o lado (já alastrou à região de Santarém) a oliveira arbusto, de cultivo intenso, em nome de maior produção de azeite, ocupa desmesurado espaço. Todavia, o ministro da Agricultura, afirma que “não há olival a mais” (Público, 17/9/2018, página 19).

Os investigadores asseguram que esta cultura intensiva mata a biodiversidade

Depois do facto consumado, que ocorreu perante o silêncio de algumas autoridades, constatámos notícias, que fazem eco das preocupações de ecologistas e das abordagens de alguns eleitos, como é o caso das declarações de um deputado, exigindo “que os rótulos do azeite indiquem a sua origem e sistema produtivo” (Público, 21-9-2018, p. 21) ou do Presidente da Câmara Municipal de Serpa, Tomé Pires, que se mostrou apreensivo com “a ausência de regulação na gestão do território sob influência do Alqueva”, desconhecendo “qual o tipo de monitorização” no impacto das culturas intensivas na biodiversidade e no ambiente” (Ibidem, 6-10-2018, pp. 16-17)

A própria Assembleia Municipal de Serpa, aprovou uma moção, alertando para a falta de um plano de desenvolvimento agrícola para a região (…), cuja gestão de território se encontra na “dependência de centros de decisão longe do país (…) havendo um uso excessivo de fungicidas, herbicidas, insecticidas e fertilizantes (…) com a consequente morte da biodiversidade e saturação dos solos”, tudo através de trabalho precário, sem direitos (Ibidem).



De que falamos, quando falamos do Alentejo?

O “celeiro da Nação”, repetido no cante, os trigais da juventude dos nossos anciãos, como que se evaporaram.

O azeite produzido por oliveiras que eram verdadeiramente monumentos da Natureza, é agora conseguido, à custa dos produtos fito - farmacêuticos (designação actual para os pesticidas e demais químicos) e a existência do tão ansiado Alqueva, que novas realidades revela?

Quando falamos do Alentejo, que campos são estes, afinal, que vislumbramos, quando saímos de Lisboa à procura do paraíso, com horizontes desmedidos e um silêncio repousante, idealizado com o colorido coro da passarada?

A manipulação desenfreada deste capitalismo (não tenhamos medo de chamar os bois pelos nomes), sem escala humana, está a transformar muita coisa.

Parece que para pior.



Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

quarta-feira, novembro 14, 2018

Texto de Alexandra Leandro lido na Casa do Alentejo em 29 de Outubro de 2019 por Flávio Gil



UMA CASA EM LISBOA



Conheci o Luís em Janeiro de 1990, quando ambos iniciávamos a nossa aventura no Curso de Antropologia. A partir dessa altura, a nossa amizade foi crescendo, e a casa da Praça da Armada passou a ser, para mim, um dos locais mais bem estimados da cidade de Lisboa.


Na Praça da Armada havia uma casa, a casa do meu amigo Luís, que veio a tornar-se, também, um pouco minha.


Nesta casa foram vividos momentos únicos, irrepetíveis, poéticos, e que são património de todos aqueles que a habitaram.



Era uma Casa em Lisboa.

Uma Casa protegida dos ruídos televisivos.

Uma Casa pequena, capaz de albergar memórias e sonhos.

Uma Casa em que era possível estender o tempo.

Uma Casa em que as conversas nos embalavam e encantavam, numa interminável partilha.

Uma Casa em que podíamos ser nós mesmos, e algo mais.

Uma Casa que acolhia o calor ameno das noites de Verão, e nos oferecia o bater ritmado da chuva.

Uma Casa humanista e humanizada.

Uma Casa-Refúgio.

Uma Casa colorida de fotografias, quadros, palavras.

Uma Casa que oferecia luz mesmo na escuridão da Noite.

Uma Casa em que comungávamos refeições mágicas, ao som de música e poesia.

Uma Casa em que trabalhávamos ideias, pesquisas, projetos.

Uma Casa em que cada um de nós ocupava um lugar especial, e em que nos sentíamos mais fortes por não estarmos sós.

Uma Casa-Memória, na qual percorremos vários tempos, e que ainda hoje nos habita.




Alexandra Leandro

Lisboa, 29 de Outubro de 2018

domingo, novembro 04, 2018

UMA CASA ASSIM, DO TAMANHO DO DESTINO, FICA TATUADA NA PELE E NA ALMA



Na passada segunda feira 29 de Outubro, durante o lançamento de "Uma Casa É Como Uma Árvore Por Dentro" li o seguinte texto, da minha lavra, para contextualizar a aparição deste volume de Poemas (o 22º): 



Mia Couto escreveu que “O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora” (in “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra”)



E Manuel António Pina diz “assim chega o viajante à tardia idade/ em que se confundem ele e o caminho” (“Como se desenha uma casa”, p. 13) acrescentando: “Para trás ficam portos, ilhas, lembranças,/ cidades, estações do ano (…) a porta está fechada na palavra porta/ para sempre” (Ibidem, p. 17)



Quando elaborei “Uma Casa É Como Uma Árvore Por Dentro”, juntando poemas dispersos, escritos durante a caminhada, senti que se fechava um ciclo de vida - um longo ciclo de vida; um tempo longo de mais de seis décadas, onde a casa era o cais de chegadas e partidas.



Recordo Eugénio de Andrade: “Às vezes entra-se em casa com o outono/ preso por um fio,/ dorme-se então melhor,/ mesmo o silêncio acabou por se calar” (“O Sal da Língua”, p. 30) São ainda do Poeta de “Com Palavras Amo” estas estrofes: “No meu corpo uma casa se levanta./ sem portas, sem paredes, sem telhado” (Op. Cit. P. 89)



Tudo começou nos distantes anos 50 do século XX, quando a criança que fui, perseguia com o olhar o voo dos pássaros sobre as árvores do largo e a azáfama dos transeuntes, na ida para o trabalho ou para as compras.

Via as varinas, os saltimbancos, os vendedores de hortaliças, que chegavam nas carroças e as procissões compassadas, que convocavam multidões de devotos, desfiles da cavalaria de honra da GNR, acompanhando embaixadores e outras individualidades, rumo ao Palácio das Necessidades e a famosa Maria Rapaz descendo dos autocarros, em andamento, com cigarro ao canto da boca e pés certeiros chutando bolas feitas de meias velhas.

Via tudo isso desde o parapeito- beiral da janela, sonhando viagens, para lá do horizonte, para conhecer o Mundo.



Amadeu Ferreira, sob o pseudónimo de Fracisco Niebro, adverte “nunca esqueças o caminho para a casa/ (…) porque o caminho para casa/ é feito de memória” (“Ars Vivendi Ars Moriendi”, p. 108)



A casa foi lugar de alegrias e lágrimas, de solidão e abraços; ali despertei para a leitura e a escrita, tão estimulantes. Eugénio de Andrade confirma: “Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitas”. Era linda a minha velha casa!

Um corrupio de rostos e vozes invadia esse palco de emoções e ausências. Na constante aprendizagem dos dias, na luta pela sobrevivência, a casa foi o ninho onde congeminei sonhos e projectos, renascendo das cinzas que o desencanto e a traição originam.



Muitas vezes, como Sophia de Mello Breyner Andresen indica “Em redor da chama/ Que a menor brisa doma/ E que um suspiro apaga/ A casa fica muda (…) Apenas se ouve o bater do relógio do tempo” (“Geografia”, pp. 37-39)



Pela casa amei, cantei, sorri, sentindo a Natureza renascida ao espreitar na vidraça das janelas, e entre suspiros e mágoas, vi o jardim em frente despir-se das folhas cobreadas, que antes tinham sido refulgentes, de verde.



Uma casa assim, que é do tamanho do destino, entre paredes, segredos e mistérios, fica tatuada na pele e na alma. Mesmo depois de a deixarmos. Ouçamos Pablo Neruda, em “Plenos Poderes”: “Pergunto-me, onde/ está a cidade? (…) / Agora onde estou outras vidas há/ (…) Devo encontrar em mim os ausentes,/ (…) e dalguma forma decidir/ onde plantar as árvores novamente” (Op. Cit. Pp. 111, 113,115 e 117)



Não poderia deixar de vos dizer que a habitação tornou-se num direito ameaçado.

Como se sobrevive com pensões miseráveis? Que comem aqueles que têm de dividir a magra maquia com medicamentos? E quem poderá pagar rendas subitamente elevadas, sem possuir recursos? Para onde vão viver as pessoas despejadas que não têm alternativa?



No meu caso, no quarto onde em criança a chuva caía na cama, aos 63 anos, no dia seguinte a ter apresentado o “É de Noite Que Me Invento”, choveu ao pé do ouvido, tendo acordado sobressaltado com o regresso ao passado.

Colocado na situação limite do “tem direitos adquiridos, mas os co - proprietários não vão fazer obras”, optei por deixar Lisboa e rumar à margem sul.



O final não é feliz. Há um sabor a exílio, a perda irremediável na nova morada. E de acordo com o que acontece no Planeta, continuo a tentar participar, no sentido do Futuro não ser pior. Foi Bertolt Brecht que escreveu:

“Nos velhos livros vem o que é ser sábio:/ Manter-se alheio à luta do mundo, e o curto tempo/ Passá-lo sem receio./ Também viver sem violência/ Pagar o mal com o bem/ Não satisfazer os desejos, mas esquecer/ Vale por sábio./ E tudo isso é que eu não posso:/ Em verdade, vivo em tempos escuros!” ( “Poemas e Canções”, p. 246)



Almada, 9 e 12 Outubro 2018      



Luís Filipe Maçarico (texto) Autores Vários (Fotografias)

sexta-feira, novembro 02, 2018

Maria José Balancho apresentou novo livro de Poesia (o 22º) de Luís Filipe Maçarico


No passado dia 29 de Outubro, foi lançado na Casa do Alentejo, com uma numerosa assistência, o 22º livro de Poesia de Luís Filipe Maçarico. 
Vera Inácio Cordeniz, cantora lírica, com o jovem pianista Thiago Tortaro, iniciaram a sessão, com grande agrado dos presentes. Depois, Rosa Calado, da direcção da CA saudou o público e caracterizou o perfil humano e artístico do autor aniversariante (66º aniversário). Maria José Balancho apresentou a obra (texto na íntegra a seguir), Flávio Gil, actor, poeta, associativista, disse poesia do livro, o poeta fez uma intervenção e, antes dos autógrafos, deu a palavra aos leitores, interessados em declamar versos deste novo título. Pelas reacções recebidas na ocasião e posteriormente por telefone e ou email, "Uma Casa é Como Uma Árvore Por Dentro" deixou boa energia e satisfação, pela interacção conseguida, naquela segunda feira chuvosa e fria.

“UMA CASA É COMO UMA ÁRVORE POR DENTRO”

de Luís Filipe Maçarico


Meu amigo Luís:

Atrevo-me a chamar-te amigo porque, desde que nos conhecemos, que os “nossos santos se cruzaram”, sem sabermos ainda o como ou porquê.

Aconteceu numa noite em Pias, no Alentejo, numa noite mágica e quente em que a poesia foi protagonista e as palavras, as sílabas e os sons se conjugavam em simbioses e sinestesias com a natureza do momento.

Foi tudo tão simples e tão forte (a magia das pequenas coisas): parecia que as almas se “tocavam” e se “trocavam”, num prazer quase absoluto naquela simbologia poética de uma noite de verão.

A nossa amizade começou por aí…

Em raros encontros e alguns telefonemas, percebemos que o timbre das nossas vozes e sensibilidades soava tão próximo, quase em uníssono. Nesse momento, conhecemo-nos melhor: sentimos as mesmas raízes crescendo dentro de nós e os mesmos valores a acotovelarem-se numa cumplicidade quase ancestral.

E agora apareceste, também num dia quente de verão, e colocaste nas minhas mãos o teu último livro, como se fosse um filho, para que eu o lesse e cuidasse dele.

“Uma casa é como uma árvore por dentro”

Gostei muito do título e senti-o como a síntese primeira desta obra.

A capa, de Marta Barata, a alma gémea deste livro.

Ao ler cada poema, quase sem querer, fui analisando as palavras, as imagens, as metáforas, a fonética e senti-me levada no deambular constante que imprimes à tua poesia. Perdi-me no labirinto deste vai e vem constante que todos os poemas indiciam.

Mas tudo tem uma lógica, até mesmo a Poesia, ainda que as conotações se confundam. Precisei de encontrar uma frase ou uma expressão que condensasse toda a obra, para que eu a pudesse ler como um todo. Os teus poemas, que eu lia e relia com tanto prazer, continuavam a desafiar-me.

De repente, deparei-me com o último livro de Mia Couto cujo título é “O Bebedor de Horizontes”. Voilá! Nesse momento senti que tinha chegado à essência do Poeta, à tua essência Luís. Penso ter compreendido, finalmente, a sede do teu constante partir e do teu constante chegar e ficar, permanecer.

Ficas porque é na “casa”, no ninho que te aconchegas, que meditas, que te reinventas, que recuperas forças para novas caminhadas. Partes, então, pelos ramos longos da tua árvore, levas raízes, folhas e frutos, e partes, sim, com a ânsia de quem tem sede, à procura doutros sonhos em diferentes horizontes.

A tua poesia adquire, por vezes, um movimento impaciente que desafia o tempo e o espaço, entre o ir e o voltar.

Quando regressas a casa e nela permaneces, usas palavras mais suaves, vogais fechadas, ditongos, sons nasalados, verbos no gerúndio que adoçam as frases e alongam o tempo - o tempo do pensar, do amadurecer.


NÚMERO VINTE E SEIS


Na implacável contabilidade

Das noites onde envelheço,

À janela da velha casa

Entre as brisas de Junho e

Os nevoeiros de Dezembro

Permaneço.


Esperando o quê?


Cicatrizando mágoas. Ausências,

O peso do tempo,

Escutando o vento…

À janela da velha casa

Eu venço!


Acima de tudo

Procuro o verso

Onde respira o Mundo

E permaneço.


Quando partes em deambulações por Lisboa ou agarras o verão com todos os sentidos, a tua poesia ganha a sensualidade dos locais, das experiências, das paixões, numa embriaguez Beaudelairiana (no poema Ivresse)… “Il faut être toujours ivre: de vin, de poesie ou de vertue, à votre guise, mais enivrez vous!”

Mas regressas ao ninho, sempre, onde as lembranças te assaltam, as memórias te perseguem e o passado te atormenta.

E, voltas a partir, inquieto, na perseguição dos teus sonhos, mas, curiosamente, à procura de novos ninhos, de outras casas que sentes também como tuas.


“OS HORIZONTES LARGOS DA POESIA”



Esta manhã mesmo com

Chuva e nevoeiro Beja

É a minha estrela d’alvorada.

Busco o seu espaço

Com fome de Terra.

A alma pede-me luz

A luz do meu Alentejo

A luz dos olhos dos amigos e

Os horizontes largos da poesia.

Venho beber palavras verdes

Cristais de alegria nos prados

De Fevereiro.

Esta manhã deixo tudo

Para lamber feridas

Na minha casa que é o sul.


Tens o Sul, mas vais mais além (Alpedrinha, Espanha, Norte de África), horizontes exóticos, destinos culturais diferentes… cordialidades diferentes, amizades desejadas - “Inchalah!”


O último poema,

“Uma casa é como uma árvore por dentro”, revela a genialidade de um grande poeta: a síntese total de uma narrativa que tu vives por dentro e por fora, a auto-exposição despudorada que só os poetas consentem, a certeza de um eterno movimento - permanecer, partir, voltar, permanecer.


“UMA CASA É COMO UMA ÁRVORE POR DENTRO”


Uma casa é como

Uma árvore por dentro

Crescemos e somos raízes

Emaranhadas pelas paredes,

E das varandas abertas

Chegam, desde a infância

O ar o vento o sol

Que são a seiva dos dias.

Uma casa é como um

Melro que resiste cantando

Na gaiola onde sonha

Voos infindáveis. Por isso as

Casas serão sempre portas de

Partidas e chegadas

Imaginadas no beiral

Ao parapeito

Da infância e realizadas

Ao longo da vida.

Cada casa é uma veia

Que alimenta

O poema prestes a

Nascer. Respiração de

Pássaros prontos para

Viajar…


Gostei muito, amigo Luís! És um grande poeta. E volta sempre a casa com a alegre convicção de que tudo o que vemos, pensamos e sentimos, é Poesia…

- um pingo de chuva a escorrer sobre uma flor

- o céu cheio de estrelas numa noite de verão

- o riso de um velho que nos conta uma história

- uma fotografia

- uma história de amor ou de amizade

- uma paisagem que apetece olhar muitas vezes

- o sorriso ou o choro de uma criança


Poesia é, talvez, um pássaro que se solta de um texto em prosa e leva nas asas as palavras mais bonitas.


Maria José Balancho - 29 de Outubro 2018, Casa do Alentejo
Fotografias de Mário Sousa.

sábado, outubro 20, 2018

Uma Comunicação Social Sensacionalista, sem rigor e boçal

Cansa-me ler certos disparates, que enchem cada vez mais as páginas dos nossos jornais.
Os escrevinhadores falam de Portugal como um país na crista da onda dos recordes.
E dizem que Setembro de 2018 foi o mais quente em cem anos.
E da tempestade Leslie asseguram que terá sido a pior, desde 1842.
Os estragos foram enormes, mas a verdade é que não morreu ninguém no território português.
Que dizer então (tenho memória de ter lido revistas da época) do ciclone de 1941 que matou centenas de pessoas, segundo relatos da época?
Procurem saber mais senhores escribas deste século que deveria ser avançado e está repleto de recuos em tudo. Os povos estão cada vez mais ignorantes. A comunicação social tem alguma culpa na desinformação...esta questão dos ciclones é apenas um exemplo da desbragada  manipulação e estupidez que assola televisões, rádios e jornais.
Cada vez menos acredito no jornalismo actual: sensacionalista, sem rigor, boçal.
Que Futuro nos espera, perante esta situação?

LFM

terça-feira, outubro 16, 2018

Lançamento de "Uma Casa É Como Uma Árvore Por Dentro"


Na próxima segunda feira dia 29 de Outubro de 2018, às 18:30, na Casa do Alentejo, Rua das Portas de Santo Antão, nº 58, Lançamento do 22º livro de Poesia de Luís Filipe Maçarico "Uma Casa é como uma Árvore por Dentro".

A apresentação será de Maria José Balancho, Professora, autora de obras sobre a didática da Língua e da Literatura e de Maria Alexandra Leandro, Formadora, doutorada em Antropologia.

A cerimónia conta com a actuação da cantora Vera Cordeniz, acompanhada pelo pianista Thiago Tortaro.
O Actor Flávio Gil fará a leitura de poemas deste volume.

Texto e fotografia de LFM