Graças ao poeta João Mendes Rosa, conheci a Sara Timóteo - em julho de 2015 - na quinta daquele então co-organizador do Encontro Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural, onde jantámos e pernoitámos para seguir em viagem até à bela Salamanca, onde nos quedámos extasiados na Plaza Mayor, antes de nos dirigirmos para o Ayuntamiento de Morille onde durante um fim de semana se realizava o 13.º PAN.
Escrevi isto no meu blogue:
"Sara Timóteo, companheira de viagem, poetisa convidada pela organização, já com vários títulos publicados, apesar da sua juventude, ajudou-me num lapso. Chegado a Morille, percebi que ia vivenciar uma experiência comunitária. Refeitório colectivo e camaratas, no Albergue dos Peregrinos. Nem sequer levei toalha.
Fruímos, nesse Verão, de poesia nas paredes, fomos ao poetódromo e, graças ao Carlos Abreu, celebrámos a "última morada", vídeo-testamento de Leandro Vale e um teatro de fantoches pelo grupo Casa Nova sobre o 25 de Abril no cementério de Arte.
Um dia, fugi do molho cor de laranja da cozinheira Rosa, com a qual a Sara (à moda de Gil Vicente) tentou aproximar de mim - suposto namorado anónimo - e fui tentar melhor na tasca da Isa. Contudo, o petisco idealizado (uma qualquer tapa) vinha embebido no tal molho (gordurento) cor de laranja da cozinha comunal.
Ao PAN de 2017 (15.º Encontro) sugeri a ida até Morille de Rodrigo Dias (que apresentou a exposição "O minotauro e lendas da minha terra" numa "cochera" onde as telas foram expostas, com suportes ligados à ruralidade: trilhas e manjedouras.
Nesse ano, a Laurinda Figueiras foi apresentada, com a obra em co-autoria sobre José Figueiras, seu pai, "Por feitiço, por magia".
Em 2018, propus Fernando Duarte em Morille e apresentei o seu livro "As palavras que faltam".
No XIX PAN em Morille, Sara Timóteo, companheira destas andanças, fotografou a apresentação da minha antologia "Na manhã azul acorda para cantar". Escrevi nesse tempo sobre a participação da Sara: "Sara Timóteo, uma das grandes surpresas deste festival [e encantamento] pela poesia luminosa e original, fez a apresentação de um belo livro "Os passos de Sólon".
Entretanto, a versão portuguesa do PAN criado por Manuel Ambrosio Sánchez Sánchez passou de Carviçais a Vilarelhos. Lembro-me de a Sara chegar a ir áquela aldeia de Alfândega da Fé, vinda de Mirandela e, noutra vez em que não pôde estar, li um poema do seu livro "Romances" que ficou numa rua daquela terra onde a poesia floresce.
Ainda voltámos a Morille, onde estreámos - eu, a Sara e a Laurinda - uma casa de turismo rural (Vila Manfarita de Thais Fortuna), tendo partilhado todos momentos de fraternidade e paz que são marcos de um companheirismo inesquecível. Todos os amigos que mencionei interagiram e continuam a interagir com a Sara.
Conversámos sempre bastante ao longo destes felizes encontros anuais. A Sara partilha saberes e tem um nível cultural fora de série. Sabe crioulo e ainda me recordo de lhe ter perguntado o significado da reza colectiva de um grupo de brasileiras acompanhadas por um rapaz sarahoui que conduziu uma burra e do por quê da fulana que urinou de pé para uma cova onde deitaram esconjuros. E sobre tudo ela me elucidou, espantando-me. A Sara é o exemplo de quem não desiste perante a adversidade e regressa sempre para enfrentar os escolhos que a vida espalhou no seu caminho.
Quero deter-me agora na sua poesia. E cito a pág. 24 de Nomologia: "O grito jamais cessa/no interior dos meus gestos" (Fogo negro) e destaco na pág. 56 "Febre": "Só é meu o grito/que lancei ao vento". Sara Tióteo exibe o domínio das palavras e grande mestria na síntese das emoções contidas em Nomologia. Na badana, a autora pergunta: "Existirá uma poética do luto?"
Na sua antologia de "Dispersos" publicados desde 2011, diz que "os amantes da poesia procuram/o compasso simples de todas as coisas/ quando nascem/e morrem" (2014, p,16). Para Sara, "todo o poema é uma cavalgada sem fim/pela Eternidade" (p. 23, "Esfera").
Revejo-me na sua escrita singular.
"Os poetas morreram de sede/as máquinas tomaram conta das palavras/e penduraram as sílabas no estendal. Amanhã, passarão os homens a ferro." (p. 71).
A poesia e a forma de estar, a vida da Sara têm ritmo, musicalidade, a névoa de Pascoaes e a maresia triste de António Nobre espreitam.
Na terra madrasta, com a luz coada das sílabas, surge a magia da avó Ernestina "Sobreirinha" do meigo, esplêndido húmus das palavras cantadas entre a sombra e o secreto rumorejo dos búzios. Visualizo o nácar do sorriso da outra avó e detenho-me em duas estrofes:
"Construí para mim uma casa
Onde os pássaros não morrem" (p.86)
E chego a Romances, onde recolho da página 87 um poema em francês:
"Même le ciel ne peut arrêter
tout a qui doit mourir"
Da Sara Timóteo podemos dizer que as suas aparições são sempre "o regresso da guerreira":
aquela miúda resistente que reencontrei ao revisitar os livros que partilhou comigo, com a ternura e gentileza de quem não vive sem o Outro. Renascendo no voo das palavras para construir o templo da poesia. Com o sonho, cantando a luz, nos lábios do Mar. Bem hajas, mágica rapariga, por escreveres Amor nas páginas do nosso destino!
Luís Filipe Maçarico
29-31/01/2026
Intervenção na sessão em honra da autora Sara Timóteo, na Biblioteca Municipal da Póvoa de Santa Iria (Palácio de N. Sª da Piedade)
Agradeço à Sara a gentileza de me ter digitado este texto, que lhe entreguei manuscrito.

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