As pratas dos chocolates
"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"
José Valentim é um alentejano de Barbacena (Elvas), cujo percurso de vida contém estórias dignas de serem partilhadas.
Começa por nos dizer que teve uma infância feliz. As cores das telas que pinta e tem exposto, revelam essa faceta da sua existência.
Poeta, pintor e cantador de modas do Baixo Alentejo no grupo “Amigos do Alentejo”, do Feijó, oriundo de uma região onde as “Saias” são a expressão musical dominante, quisemos conhecer o trajecto de um homem que durante perto de uma década viveu em Miranda do Douro.
“Éramos oito filhos, eu sou o sétimo, quase todos nasceram no Monte do Alcaide e noutro, ao lado (nessa altura, o meu pai era feitor dos montes).Tínhamos muitas limitações próprias da época. O meu pai foi enfermeiro da Casa do Povo e foi regedor da freguesia. Fui muito feliz! A minha avó paterna era professora regente e também pintava. Casou com o meu avô que emigrou para França, que mandava muito dinheiro. Ela vivia bem. Foi criada num asilo de freiras, tinha muitos conhecimentos. Nunca houve faltas. Os pagamentos ao meu pai era ir a todas as hortas e escolher o que quisesse. A minha rua era em volta do castelo. Ao cimo da rua, havia a madrinha, com as vacas. Chegávamos a fazer refeições de sopas de leite. Era um jantar. A minha mãe tinha um tacho daqueles amarelos grandes, fazia jantar de arroz doce. Nos montes havia sempre gulosices (marmelada). Éramos muito felizes, dentro das nossas limitações.
Nós morávamos no meio da rua.
Na parte de baixo, viviam as Caldeirinhas. Nunca comprávamos queijos. Dava-me sempre meia dúzia. Dinheiro, o meu pai só tinha no São Mateus, em Elvas. Trabalhava para todos de graça. Eles davam alqueires de trigo, cevada. Era quando ele nos vestia e calçava.
O meu pai era médico, dentista e veterinário. Fazia isto tudo.
O médico local, acabado de formar, teve no meu pai o seu braço direito.
Tínhamos três quartos. Recolhíamos toda a gente. Na minha rua- 15 de Dezembro (por causa do foral de 1519) a casa não tinha fechadura e o meu pai foi parteiro da minha geração toda. Era assim um Zé do Telhado.
A minha tia tinha todas as doenças. O meu pai dizia-lhe que tinha recebido injecções novas e dava-lhe injecções de soro. As pessoas diziam "és um grande psicólogo”.
O meu pai recebia muitos caçadores, amigos do médico e dispensava o quarto dele. Do meu pai tenho as melhores recordações.”
José Valentim esteve no Alentejo até aos 13 anos e quando a mãe faleceu em Julho de 1958 a irmã mais velha que estava em Miranda do Douro ficou com ele e sua irmã Rosa.
O marido da irmã que vivia em Miranda era da EDP, ela tinha tirado um curso de corte, costura e bordados (os quais vendia a 150 escudos!)
“A minha irmã não fez distinção entre mim e os meus sobrinhos. Tive dois pais e duas mães.”
“Fui muito feliz!” (ao longo da entrevista, Valentim repetirá várias vezes esta frase. Olhando para a sua pintura, pelos tons utilizados, percebe-se que essa felicidade inundou os primeiros anos da sua vida.
“Os meus estudos forma no Liceu, em Almada (vim para cá quando regressei do Ultramar, estive em Moçambique). Em Miranda fui muito bem tratado e arranjei lá amigos.
Quando vim da tropa, fiquei a trabalhar na Setúbal Auto (nas oficinas, como empregado de peças). Meti os curriculuns para a banca, para três bancos. Todos me aceitaram. Entrei em 70 no Totta & Açores. Reformei-me em 2000.”
E como surgiu o Cante na sua vida?
“Um amigo indicou-me o senhor José Pereira do Grupo Coral Amigos do Alentejo. Estou no Grupo há oito anos. Já pintava, mas estava muito só. A minha mulher tinha falecido. Adaptei-me bem. Comecei a dizer poesia nos nossos jantares. Ainda hoje sei declamar poemas que a minha avó me ensinou aos oito anos à lareira.” Valentim declama sem hesitar a fala dos animais de Afonso Lopes Vieira.
E a Pintura?
“Eu nunca vi a minha avó pintar. Quando me reformei, sempre fiz desenhos. Disseram-me que na Associação 1º de Dezembro estava lá uma senhora (Laurinda Romeiras) que ensinava a pintar. Travámos grande amizade e estive oito anos a pintar com ela.”
Os temas foram sempre escolhidos pelo senhor Valentim, com as cores marcantes do Alentejo. Expôs em Barbacena (todos os anos) Vila Fernando, Casebres. Tem quadros expostos permanentemente num restaurante em Vaiamonte (Monforte).
Acrescenta que os Amigos do Alentejo já cantaram com Trigacheiro, Buba Espinho e até com uma orquestra da Austrália.
Em termos de projectos, quer continuar a pintar enquanto puder.
“Estou cantando muito bem”, assinala. Mas nos sítios de actuação, tem dificuldades para entrar e sair do palco.
Desejamos que a vida lhe continue a sorrir e a palavra feliz nunca desvaneça nos seus lábios e coração.
Ana Isabel Veiga
Luís Filipe Maçarico
(Publicado na revista nº 38 da revista Aldraba- Outubro de 2025)
Ao longo de duas décadas, a Aldraba, enquanto Associação do Espaço e Património Popular realizou Encontros em torno de valores patrimoniais de diversos concelhos do Centro (Idanha-a-Nova, Fundão) até ao Sul (Loulé, Mértola). Esta revista espelhou durante 38 números, numa edição semestral, esses eventos e muita temática relacionada. Com as suas páginas abertas a autodidatas, académicos, associados e amigos, divulgámos artigos acerca da gastronomia, doçaria, territórios como o Couto Misto, práticas e ofícios onde se inserem Moinhos, Chafarizes, Aldeias de Xisto ou paisagens naturais, que são identitárias.
A nossa ida a locais como Querença, Castro Marim, Pias, Moura, Alenquer, Alpedrinha, Póvoa de Atalaia, Fundão, Souto da Casa, Salvaterra do Extremo, Vilarelhos, etc. deixou rasto. Ficou a revista, ficou o nosso compromisso na salvaguarda do saber-fazer, também com os dois cadernos temáticos editados sobre aldrabas e batentes de porta e cataventos do concelho de Moura.
A participação em manifestações culturais como o Encontro transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em meio rural que se efectua no final de Julho, em Alfândega da Fé ou a Festa dos Chocalhos no 3º fim de semana de Setembro, em Alpedrinha, onde recentemente participámos na iniciativa “Ecos dos Chocalhos”, amplia- pela divulgação da nossa revista – a mensagem que desde a fundação pretendemos partilhar.
A vida colectiva está ferida de amnésia. O património sofre atentados, como há poucos meses sucedeu no Ginjal (Almada). Terraplanando a memória de Romeu Correia e Columbano Bordalo Pinheiro, ali nascidos. Há alguns anos, o Palácio do Barão de Quintela, no Chiado, viu surgirem seis comedouros para turistas. A CML teve pudor em colocar um marco, assinalando que na 1ª Invasão Napoleónica, Junot alojou-se ali, “comendo à grande e à francesa”, ficando “a ver navios”…
Chegámos a 2025 mais pobres. Uma parte das lojas tradicionais foram sendo abatidas com rendas incomportáveis, devido à gentrificação que prejudicou bastante outras cidades europeias (Barcelona, Veneza, Dubrovnik).
Centenas de baiúcas emergiram como cogumelos na zona histórica, vendendo o mesmo; águas, cachecóis, souvenirs de cortiça irrelevantes e ímans para frigoríficos, servindo um turismo de “pé descalço”, que vem desalvorado aos milhares por dia, em navios de cruzeiro.
A Aldraba continua a obra iniciada em 25 de Abril de 2005 e desenvolvida por voluntários inesquecíveis, que entretanto partiram pela lei natural da existência. Seguiremos os seus ensinamentos e valores de cidadania, com a vontade de fazer sempre bem e melhor.
Luís Filipe Maçarico
Dizia-me hoje no churrasco da Graça, uma senhora bem simpática: A televisão faz muita companhia.
E eu respondi: Mas é uma companhia tóxica. Está sempre a infantilizar as pessoas e sobretudo a apresentar comentadeiros que falam das guerras como se percebessem alguma coisa, dizendo sempre o contrário do que se passa. A anunciar todos os dias vitórias inexistentes, em vez de defender a paz.
Em vez de mostrarem aqueles que fazem coisas boas para os outros, seguem até ao vómito os monstros de mundo e todas as noites pressagiam o fim do mundo.
E no fim de cada ano, a factura da electricidade sobe para o triplo com a taxa da contribuição audiovisual.
Abomino esta sociedade de matriz judaico-cristã, também conhecida como capitalista.
LFM