"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, agosto 08, 2020

REGRESSO A ALCOBAÇA

 


Desde os tempos da Escola Preparatória Francisco Arruda que não visitava Alcobaça. Decorridas seis décadas voltei ao lugar, que encerra tanta simbologia, memória, Arte e História.

Ou seja: desta vez e graças aos Amigos Fernando Duarte e Rita Fernandes, fiquei a conhecer com mais profundidade esta jóia da arquitectura religiosa e do património de Portugal, tendo fruído momentos maravilhosos neste território monumental da Estremadura.

Fundado por D. Afonso Henriques, em 8 de Abril de 1153, é um dos maiores edifícios da Ordem de Cister, tendo começado a ser construído em 1178.

Integra a lista do Património Mundial da UNESCO desde Dezembro de 1989, tendo por base alguns critérios, entre outros, como: a grandeza das suas dimensões, pureza e luminosidade arquitectónicas, beleza do material, rigor na execução, obra-prima da arte gótica cisterciense, túmulos de D. Pedro e de D. Inês, consideradas das mais belas esculturas funerárias góticas.

Vale a pena neste Verão visitar o Mosteiro de Alcobaça e almoçar um bom frango na púcara ou sardinhada, como fizemos, com bastante agrado, pagando pouco, num dos restaurantes ali perto.

Após o tempo da visita e da refeição escutámos com enorme satisfação uma trabalhadora da restauração local a elogiar a atitude dos portugueses que ainda o podem fazer, escolhendo terras como aquela para ajudar na recuperação económica dos lugares.

Atitude bem diferente da lamúria que se escuta noutros lugares que lamentam a falta de estrangeiros, principalmente ingleses, pois afirmaram-se durante anos contra os naturais, alicerçando a sua actividade turística na subserviência, que era visível até nas ementas que relegavam a língua portuguesa para lugar secundário...

Luís Filipe Maçarico (Texto, recolha documental e fotografias)

sexta-feira, agosto 07, 2020

TRADIÇÃO DA ARTE XÁVEGA RESISTE NA COSTA DA CAPARICA


A Arte Xávega, outrora pujante na costa portuguesa, persiste ainda em praias como Costa da Caparica e Fonte da Telha, Nazaré, Vieira de Leiria, Vagueira, Torreira, Espinho, entre outras. Trata-se de uma pesca artesanal, realizada com rede de cerco. O longo cabo culmina num saco de rede em forma cúbica designado xalavar. Longe do litoral, uma embarcação coloca a rede no mar, sendo esta depois puxada por tractores e força braçal.

O termo xávega tem origem árabe (xábaka), tendo esta arte sido desenvolvida no sul de Portugal.

Na década de 80, com o amigo Luís Castanheira, - que me deu a conhecer dunas repletas de camarinhas, umas bagas maravilhosas que as peixeiras vendiam nas praias de Aveiro, - e  Cristina Pombinho com quem falei há poucos dias acerca das memórias fotográficas que guardámos, observei as redes a serem puxadas por juntas de bois e tracção manual, na praia da Torreira (Murtosa). Os barcos utilizados na zona vareira tinham a forma de crescente da lua, diferenciando-se dos utilizados no sul, que tinham menos capacidade de carga, embora por todo o lado se praticasse a pesca conhecida por xávega.

Em tempos numa ida a Faro, jantei no restaurante Xalavar, inspirado nas redes da arte xávega, com o presidente da direcção da Aldraba, José Alberto Franco e a associada (do barrocal algarvio) Sónia Tomé, que nos deu a conhecer aquele mítico lugar, onde se evocavam cantores de Abril, ligados ao património popular.

Recentemente nas praias do concelho de Almada, é recorrente ao fim da tarde, o barco ser levado ao mar por um tractor que depois o traz para o areal, usando os pescadores dois tractores para puxarem a rede. No início de 2017 a arte xávega passou a fazer parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, por iniciativa do executivo Municipal, liderado por Joaquim Judas. Esta técnica de pesca, terá sido trazida para a região por comunidades piscatórias de Ílhavo e Olhão que povoaram o território da Caparica.

Segundo um artigo do "Público" de 25-3-2016, assinado por Sara Dias Oliveira, terão existido em Ovar, nos finais do século XIX 7000 pescadores nas companhas da arte xávega. O município terá apresentado candidatura idêntica à referida anteriormente.

Nos anos 60, Paulo Rocha, um dos realizadores do novo cinema português filmou este tipo de pesca no filme "Mudar de Vida".

Luís Filipe Maçarico (recolha, texto e fotografias - na Costa da Caparica)

segunda-feira, agosto 03, 2020

GRÂOZINHO DE PUREZA


hei-de partir em paz
por deixar este mundo
ensandecido onde tro pe ço
em barreiras
que ensombram
o encanto dos dias

Podíamos ser melhores?
Talvez
mas inventamos os infernos
que consomem as a s a s

Porém, por rejeitar
a tristeza
juro que hei-de
morrer com um grãozinho
de pureza.

Luís Filipe Maçarico (poema) Jorge Cabral (fotografia)

domingo, julho 19, 2020

Na Espuma dos Dias

É bom viajar
na espuma dos dias
os calcanhares dentro das sílabas
a energia à espera de florir
sobre o papel a música do mar
num bálsamo de gestos
onde o entardecer
se aninha entre uma sinfonia
de rumores e uma paleta
de versos...

17 e 18-2-2019
19-7-2020

Luís Filipe Maçarico (Poema e Fotografia)

quarta-feira, julho 01, 2020

"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer"

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprias filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."

José Saramago (excerto do discurso que fez, aquando da entrega do Nobel da Literatura)

segunda-feira, junho 08, 2020

O Castelo de Sandriás




Em 21 de Outubro de 2014, viajando com os Amigos Dina Simão, transmontana e José Rodrigues, alentejano, decidimos ir a Santiago de Compostela, a partir de Santa Marta de Penaguião, terra natal da Dina.
Pouco depois de atravessar a fronteira em Tourém (Montalegre) fomos conhecendo vários concelhos galegos, chegando a um lugar que despertou atenção pela silhueta de uma torre e pelo nome (Santa Ana) pois o José é natural de Moreanes, freguesia de Santana de Cambas (Mértola).
Percorremos caminhos ancestrais e descobrimos edifícios perto da torre decadentes, rodeados de esplêndida vegetação.
No outeiro onde existira um Castro, foi construído o castelo de Sandriás (nome do concelho onde se localiza) no século XII oferecendo vistas estupendas, havendo imensas lendas em torno do monumento, que foi disputado por Afonso VII de Leão e Castela e D. Afonso Henriques, por pertencer então ao condado de Limia e os reinos ansiarem expandir territórios. Sempre cobiçado, foi assaltado em 1386 pelo duque de Lencastre, arrasado em 1467 por um movimento que contestava os senhores, destruíndo os seus castelos (revolta Irmandinha), sendo reconstruído. Nele se concentraram tropas, durante a guerra da restauração portuguesa (1640-1668).
Tal como estes meus queridos Amigos recordo esta descoberta com imensa felicidade, acrescentando dois links que nos remetem para o conhecimento deste monumento considerado bem de interesse cultural do património histórico espanhol.


Luís Filipe Maçarico (Recolha histórica e fotografias)

sexta-feira, junho 05, 2020

Ary dos Santos Canto Franciscano

Canto Franciscano
(José Carlos Ary dos Santos)

Por onde passaste tu
que não soubeste passar?
Pela sandália do tempo
pelo cílio do luar
pelo cílio do vento
pelo tímpano do mar?
Por onde passaste tu
que não soubeste passar?

Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro
tenaz do fogo divino
irmão pinho ou aloendro?
Por onde passaste tu
que me ficaste cá dentro?

Pois bem: nos campos da fome
ou nos caminhos do frio
se eu encontrasse o teu nome
lançava-te o desafio:
por onde passaste tu
pétala viva dos cerdos
rei das chagas e dos podres
- por onde passaste tu
não passaram as minhas dores!

Nasci da mãe que não tive
do pai que nunca terei
e aquilo que sobrevive
é o irmão que não sei:
uma espécie de fogueira
de corpo que me deslumbra.
Tudo o mais à minha beira
é uma réstia de sombra.
- Por onde passaste tu
com artelhos de penumbra?

Eis-me. Eis-me incendiado
por não saber perdoar.
Meu irmão passa de lado
- Eu sei como hei-de passar.

Fotografia de LFM (Jerba, Tunísia)