"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, julho 21, 2015

Poesia nas paredes e árvores de Morille, durante o PAN




O XIII Encontro e Festival Transfronteiriço, de Poesia, Património e Arte de Vanguarda, em Morille (Salamanca) concretiza o espírito de um cartaz de Maria Helena Vieira da Silva, onde se afirma que A Poesia Está Na Rua!

Efectivamente, os Poetas que são convidados para o evento, encontram os seus trabalhos, nas paredes e nas árvores.

E o povo de Morille bebe os versos, naqueles excertos de poemas, tentando sentir o aroma enluarado de estrofes e rimas. E reflecte acerca dos motivos para os autores escreverem sobre Abril, mãos, carícias e olhos.

 A banda filarmónica de Carviçais percorrendo a localidade, iluminou sílabas, espalhando sons festivos.

Já me estão a fazer falta, os ares e o silêncio de pássaros das manhãs de Morille....


Texto de Luís Filipe Maçarico. Fotografias de Sara Tomóteo e Renato Roque.

segunda-feira, julho 20, 2015

No Poetódromo do XIII Encontro e Festival Transfronteiriço, de Poesia, Património e Arte de Vanguarda, em Morille (Salamanca)


Conseguem imaginar um Poetódromo, que em vez de futebolistas, só funciona com vates de todas as idades e declamadores, partilhando poesia, em castelhano ou português, frente a um público que aplaude, nas bancadas?

Morille tem esse equipamento, simples, mas grandioso em avanço cultural, no largo da Fonte, o qual se encheu de sentido, com muitos dos seus habitantes, assistindo à declamação de adultos, como Suzo Sudón, Sara Timóteo, José Reis Fontão, João Mendes Rosa, José Amaral, Montserrat Villar González, Carlos d'Abreu, entre tantos outros, intercalados com crianças, que também vieram dizer os versos dos criadores transfronteiriços.

Na tarde de sábado, aconteceu Poesia, na voz dos próprios, diante daquele povo que participa e gosta de escutar. Levei o poema "Olho nos olhos estes velhos", do livro "Morada da Poesia" e "Elegia para a Avó Beduína de Sidi Boulifa", do livro "Os Pastores do Sol". 

Viva a Natureza e a Cultura!
Viva Morille e o seu Festival de Poesia, Património e Arte! Viva o PAN!


Texto de Luís Filipe Maçarico e fotografias de José Amaral e LFM

Notícias do 13º PAN, Encontro e Festival Transfronteiriço, de Poesia, Património e Arte de Vanguarda, em Morille (Salamanca).



Quinta feira passada rumei ao Fundão, desta vez para me encontrar com o Dr. João Mendes Rosa, director do Museu de Arqueologia local, homem de cultura, que além de assegurar a investigação, nas entranhas da  Gardunha, e de apresentar obras relevantes, em torno da temática arqueológica e histórica, é Poeta distinguido, que há 13 edições se envolve entusiasticamente no PAN, Encontro e Festival Transfronteiriço, de Poesia, Património e Arte de Vanguarda, em Morille (Salamanca), cujo director é o respectivo alcaide, Manuel Ambrosio Sánchez Sánchez, coadjuvado por António Sá Gué, Carlos d'Abreu e pelo próprio João Mendes Rosa. 
Desta vez o tema escolhido foi: DIFÍCIL.
Entre sexta 17 e domingo 19, todas as emoções foram possíveis [e indiscritíveis], salientando-se a exposição de poemas dos autores convidados, em árvores e nas paredes, pelas ruas de Morille, mostras de Arte [poesia visual, fotografias e aguarelas referentes à linha do Sabor que fazia a ligação entre Trás-os-Montes com Salamanca, pintura, escultura e vídeos], concertos de uma enorme diversidade, alguns dos quais de grande qualidade, como foi o caso de Miguel Angel Gómez Naharro, que cantou Bella Ciao, e ainda um dos cânticos dos republicanos espanhóis, durante a Guerra Civil Espanhola, o hino dos mineiros e "Grândola Vila Morena". Isto, a par da declamação de poemas pelos autores presentes no Poetódromo, ao lado de crianças, que também disseram poesia e da presença na livraria do Festival, de várias editoras e livreiros, como o fraterno António, da Traga-Mundos.]


Calhou-me na sessão de Poesia Ferroviária interpretar o "Comboio Malandro" de António Jacinto, que Fausto cantou. Para apresentar o poema, lembrei-me de Elsa Noronha e tentei seguir a metodologia que utiliza, para nos presentear com a poesia africana de grande quilate. Penso que resultou. Quem lá esteve sabe do que estou a falar.

Houve ainda um Concerto e animação pela centenária banda filarmónica de Carviçais (Torre de Moncorvo), onde este ano, no próximo fim de semana, se realiza a 1ª réplica do PAN em terras lusas. Reflectiram-se e discutiu-se sobre as raízes da escrita. António Salvado, ausente, foi homenageado e tive o privilégio de ler poemas deste celebrado poeta da Beira, de linguagem universal e uma obra de referência no panorama literário português.
Renato Roque apresentou um trabalho sobre Carlos de Oliveira. Os jovens Fábio e Teresa apresentaram um atelier sobre Flautas de Pan, no Museu do Comércio.

Sara Timóteo, uma das grandes surpresas deste Festival [e encantamento], pela poesia luminosa e original, fez a apresentação de um belo livro "Os Passos de Sólon" e comentou anteriores intervenções, dos jovens poetas presentes, oriundos de Espanha, designadamente dos apresentadores da comunicação "El Patarrealismo Selvaje", que consideram a inspiração uma ideia romântica do que é a Poesia, enquanto Montserrat Vilar González, poetisa de Ourense, concordou com o facto da escrita poética poder servir para sobreviver e resistir (como é o meu caso), tentando através dos versos, superar uma realidade, por vezes insuportável, onde se perdeu a escala humana. Aquela reflexão colectiva foi moderada por Hugo Milhanas Machado, que saúdo!
Destaque, entre os poetas presentes, para Suzo Sudón, cuja poesia nos questiona, enquanto seres - ditos -  sensíveis e para Fernando Fitas leu poemas do seu livro premiado em Almada, "Alforge de Heranças", onde a ausência do Alentejo dói, pelas lembranças que evoca, de espaços e familiares desaparecidos.

No Cemitério de Arte, um impressionante projecto consolidado, foram realizados dois funerais. No sábado foi transportado um banco, que pertencera ao pintor José Antonio Arribas, tendo a sua obra sido evocada pela neta e no domingo, sempre ao entardecer, foi representada pelo Teatro Nova Morada, uma peça para marionetas, de Leandro Vale, "Uma nova maneira de contar Abril", seguindo-se uma curta metragem onde o encenador, falecido há meses, encena e representa a própria morte. Ao som da carvalhesa, o televisor foi enterrado, assinalando uma lápide de 500 quilos "Aqui jaz a minha casa"...
Comoventes, estes dois momentos muito especiais, num espaço único no Mundo.

Foi a terceira internacionalização da minha poesia. Em 1995, fiz chegar uma centena de exemplares dos meus "Pastores do Sol" à Tunísia, à Biblioteca Nacional, e às mãos de amigos entre Tunis e Tozeur, entre Jerba e da embaixada daquele país, em Lisboa. Em 1996, em Poitiers, o mesmo livro chegou em nova edição ao "Monde en Fête", um evento organizado pela Associação "Le Toit du Monde", na Rue des Trois Rois.  
Cheguei agora a Espanha, no singular PAN e tenho de estar grato à vida, por este percurso. E como perceberam, senti-me em casa. Uma vez mais agradeço ao João, à Sara Timóteo, à Teresa Domingues, à Rute Campanha e ao Fábio Marques, o companheirismo, a partilha, a aprendizagem de algo fabuloso, que concretiza o abraço em redondo, tão caro a Artur Bual. 

Luís Filipe Maçarico (texto) LFM, José Amaral, José Reis Fontão e Rute (fotos)

sexta-feira, julho 10, 2015

Montepio da Rua Prior do Crato: Era Uma Vez....

É com pesar que vejo o Montepio Geral abandonar as instalações, que durante os últimos anos manteve na Praça da Armada, ocupando o espaço que ao longo de décadas foi uma tasca.
Cada vez mais este banco, nascido há quase dois séculos como caixa económica mutualista, tem derivado para conceitos economicistas, onde as pessoas valem pouco e o que importa é estimular o consumo.
Também eu em tempos recebi um cartão, incentivando-me a gastar o que não tenho, nem nunca terei e não foi qualquer outro banco, mas este, que descobri, afinal igual aos outros...

Recebi uma carta informando-me da deslocalização do balcão para Santos.
A farmácia da mesma rua, uns passos abaixo, onde durante uma vida fui atendido e cuidado, comprando por lá os remédios vitais, desapareceu há muitos meses. O Millenium idem. Os CTT que também estavam perto, saíram para a Rua de Sant'Ana à Lapa.
A própria CP decidiu suprimir nos fins de semana os comboios da linha da Azambuja que saíam de Alcântara Terra.
Alguns autocarros também não ligam o resto da cidade a esta zona, aos sábados e domingos.
Resta a Caixa Geral de Depósitos, três cafés e mercearias de paquistaneses e amáveis nepaleses.
Nesta rua de Lisboa, a Rua Prior do Crato, ainda passam autocarros da Carris, senão sentir-me-ia em Segura, Salvaterra do Extremo, para falar de terras do interior, da raia desertificada.
Sem qualquer preocupação visível da Câmara Municipal de Lisboa ou da Junta de Freguesia da Estrela.

A directora do Marketing e Comunicação do Montepio justifica que esta "reformulação" "tem por objectivo melhorar a qualidade dos serviços"daquele banco.
Gostava de saber em quê.

Luís Filipe Maçarico

quarta-feira, julho 08, 2015

Papoilas para Maria Barroso

"Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.”
 
Papoilas, para Maria Barroso, que entre muitos, disse este poema de Sophia Mello Breyner Andresen.
 
Papoilas rubras, por ter divulgado versos, de poetas proibidos, na margem sul, nas colectividades dos operários, quando a liberdade estava refém. 
 
Papoilas, por também ter recitado Carlos Oliveira, David Mourão Ferreira, Joaquim Namorado [“Abafai-me os gritos com mordaças / maior será a minha ânsia de gritá-los!”]e Manuel da Fonseca. 
 
Papoilas para Maria Barroso, por ter lutado para podermos respirar o ar de liberdade que conquistámos, graças a pessoas como ela. Acabei de escutá-la na Antena 1, numa entrevista de 2008. Citou um poeta inglês, que escreveu: "Não há morte de um homem que não me diga respeito, porque pertence à Humanidade." 
 
Luís Filipe Maçarico 

sábado, julho 04, 2015

"A TERCEIRA MISÉRIA", DE HÉLIA CORREIA


 
Hélia Correia nasceu em Lisboa. 
Escutei-a em Alpedrinha, no Teatro Clube, com Albano Martins, Teolinda Gersão, Deana Barroqueiro, no passado Outono, aquando do primeiro Encontro de Poetas da Gardunha.
Gostei de a escutar. A Mulher, a Romancista, a Dramaturga, a Poetisa, possui nessas diversas facetas uma transparência e uma eloquência envolventes, apesar da sua modéstia.
Em 17 de Junho, entrevistada para o "Público" declarou sobre a Grécia, que "a raiva tira-me as palavras todas" e quanto ao prémio Camões, com que acabava de ser galardoada afirmou: " É como se me premiassem por ter olhos castanhos".
Hélia ficou na galeria, onde figuram Torga, Saramago, Sophia, Eugénio,Maria Velho da Costa, Manuel António Pina, entre outros, e também Mia Couto, Pepetela, Craveirinha e Luandino Vieira.


"A Terceira Miséria" é o seu mais recente livro de Poesia. Releio, desde a compra e a primeira reflexão, que aquelas palavras me causaram. Vai ser oferta para aniversariantes. 
Em jeito de aperitivo, - e como amanhã há referendo na pátria de Platão, - deixo alguns excertos da obra, distinguida nas "Correntes D' Escritas", 2013:

"Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
(...)
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis.
(...)
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

                                       Onde está ela,
A tua bela Atenas, a que viu 
Aparecer entre os homens a justiça
E a livre palavra e, ainda mais,
A visibilidade, as contas públicas,
Uma altivez de iguais. O que disseram
Ao imperador persa? "Simplesmente,
Lutamos bem, lutamos por nós mesmos 
E pela nossa pátria. Não lutamos
A mando de ninguém. Não veneramos
Nem nos submetemos a mortais."
(...)

A terceira miséria é esta, a de hoje,
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda."

Hélia Correia, "A Terceira Miséria" (Excertos)

Luís Filipe Maçarico (texto introdutório e fotografias)
Fotografia retirada do "Público" on line, da autoria de  Enric Vives-Rubio. 
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/helia-correia-e-a-vencedora-do-premio-camoes-1699305

sexta-feira, julho 03, 2015

O Reconhecimento das Comunidades pela Caminhada do Poeta

Nos passados dias 28 de Junho, em Alpedrinha e 2 de Julho, no Feijó, a minha Poesia  entrelaçou-se com a de vários poetas. Na Beira Baixa, com beirões; no Feijó, com alentejanos (Rosa Dias, Maria de Lurdes Brás, Alice Ruivo).
Sabe bem ter o reconhecimento das Comunidades, pela caminhada de uma vida, onde a Poesia foi / é respiração.
Ainda neste mês, pelo interesse que os meus versos seguramente despertam, irei a Espanha participar num festival poético transfronteiriço. E em Outubro, num palco da Margem Sul, estarei a dizer os meus poemas, com a moldura humana do Cante.
Os convites têm-se sucedido neste 2015.
Durante muitos anos, neste aspecto, fiz um trajecto discreto, dizendo poemas, apenas no Encontro de Poetas, em Alpedrinha, uma vez por ano, portanto. 
O Poeta, que sempre fui, mas que o Antropólogo tinha deixado em pousio, está a ressuscitar.
Obrigado a todos os que apreciam o que escrevo e assim me distinguem.



Grato à Liga dos Amigos de Alpedrinha, cuja direcção, composta por cinco mulheres, me convidou. Grato a Rosa Dias que me envolveu na Tertúlia da União de Juntas de Laranjeiro e Feijó. Grato a João Mendes Rosa e a Joaquim Afonso, pelos convites muito fraternos.
Grande orgulho em poder ser útil ao meu Povo!

Luís Filipe Maçarico (texto) Fotografias de LFM, Monia Roxo e Rosa Dias.