"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, março 07, 2013

Resiliência

De repente, à passagem pela Praça das Flores, do vaivém 773, uma idosa aponta para um prédio e exclama "Morei ali, tinha nove anos...e por baixo, era a Mocidade Portuguesa, parece que ainda é..."
Estremeço...
Olho para um título de jornal e reparo, que o Primeiro Ministro afirmou, que a austeridade vai prosseguir, pois ele tem muita resiliência, ou seja, capacidade para lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas...
Concluo: Resiliente sou eu e tu e tu, leitores, cidadãos flagelados pela ignorância, que tem sido quem mais ordena, quanto às escolhas eleitorais, para a Assembleia da República e pela arrogância dos diversos ocupantes das cadeiras do Poder.
A Nova Política, que pode e deve transformar o País, só está dependente da verdadeira mudança e essa não contempla o voto nos partidos alternadeiros...

De manifestação em manifestação, caminhamos para a meta do próximo testa de ferro (ou preferem que lhe chame capataz?), que irá repetir os ataques aos contribuintes, ao povo indefeso, aos jovens sem futuro, aos velhos sem direito à vida, a todos os que foram invadidos pelo medo de sonhar e viver.
Resiliência é ter a coragem de fazer outras escolhas, de dizer Basta ao infindável carrocel de corruptos e mentirosos, que se têm alternado, com promessas incumpridas.

E fico a pensar: se calhar a velhota do autocarro, que saiu de Alcântara, percorrendo a Fonte Santa, a Lapa, a Estrela, São Bento, o Príncipe Real até desembocar no Largo do Rato, é capaz de ter razão. A Mocidade Portuguesa, quiçá o Fascismo, respiram, encontrando-se porventura com uma clandestina energia (resiliente?) e nós a pensar que tudo isto é Democracia, tudo isto é Vida!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografia)

domingo, fevereiro 24, 2013

Santiago Macias, o candidato do PCP a Moura

Conheço-o das crónicas, que escreveu para o "Diário do Alentejo". Li as obras de investigação, sobre a passagem dos Árabes por Mértola e a Herança dessa Civilização na nossa matriz cultural, que publicou, com o seu Mestre e Amigo, Cláudio Torres.
Acompanho-o há anos, no seu blogue  http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/
Foi meu professor, no segundo mestrado, que frequentei no Campo Arqueológico de Mértola: "Portugal Islâmico e o Mediterrâneo". Aprendi coisas importantes com este académico, que é comunista.
Salvé, Professor Doutor Santiago Macias!

É um homem fraterno e sábio, que me envaidece ter como Amigo. E só uma pessoa assim, me faria sair de Lisboa, num dia frio.
Fui este sábado a Moura, participar na sessão de apresentação da sua candidatura, a presidente da Câmara Municipal de Moura, sua terra natal, onde já foi, nos anos 90, presidente da Assembleia Municipal, sendo há dois mandatos vereador.
Se morasse em Moura, era nele que votava.

Faço votos para que ganhe e tenha muitas felicidades, no seu desempenho autárquico. E que o seu percurso, seja tão bem sucedido, quanto a excelente intervenção que proferiu de improviso, com muita categoria.
Tenho lido o que outros candidatos dizem, mas este, de longe, tem uma qualidade incomparável e uma escala humana notável, na forma como olha para a actualidade, o que é um bálsamo, em tempo de entediantes discursatas, sem alma, duma mediocridade gritante.
Parabéns ao PCP, por ter escolhido um candidato deste calibre, em Moura, que aposta no progresso e no desenvolvimento, prosseguindo o bom trabalho do ainda presidente José Maria Pós de Mina.
Talvez não seja por acaso, que inúmeros casais muito novos, com os filhos pequenos, se encontravam no espaço Xerazade, repleto de rostos jovens, oriundos da população mourense, de várias áreas políticas, que aplaudiram imenso os oradores. 


Devo dizer, para meu espanto, pois pensei - erradamente, e o Santiago que desculpe a minha ignorância - que só os comunistas mais velhotes poderiam aparecer, mantendo fidelidade ao Partido. 
Durante uma hora, não pararam de entrar na sala, dezenas e dezenas de pessoas de todas as idades...
Com esta escolha, o PCP está a mostrar que há futuro, para o que defende, apresentando um candidato de muito valor, que dá a cara, pela valorização de uma das mais nobres actividades, infelizmente mal vista, devido aos oportunistas, que têm passado pelos sucessivos governos e alguns municípios.



Texto e fotografias de Luís Filipe Maçarico

Património de Moura: Cataventos.

Tendo passeado por Moura, na tarde deste sábado, deliciei-me a ver (e fotografar) uma diversidade de cataventos que, sobre os telhados da cidade, anunciam ventos, mudanças de tempo, evocando figuras históricas, como o cavaleiro da diligência, ou do quotidiano, como o caçador ou o tractorista, mas também animais simbólicos, como o galo, que anuncia a luz, na voz do seu canto, ou a velocidade espantosa do animal mitológico, conhecido como Pégaso, cavalo alado, símbolo da imortalidade. 
José Prista, fundador da Aldraba e meteorologista, escreveu um artigo,muito interessante, que se recomenda:


É bom sentir que nas nossas cidades, vilas e aldeias do interior, as marcas patrimoniais e identitárias, são orgulho das gentes, resistindo na paisagem humana, promovendo, como é o caso, roteiros de descoberta e admiração.
Parabéns à Câmara de Moura e à sua população, pela qualidade desta memória, ainda viva, que evoca a
criatividade dos ferreiros!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

Pimbalhosos & Heróis

Embora já pouco me surpreenda, confesso que ainda me perturba saber que há grupos, que sendo património da música popular, por apostarem, em tempo de estupidificação, na recolha e divulgação da música tradicional, são preteridos, - quando não pressionados, a aceitarem quantias irrisórias, - a favor de cantaroleiros pimbalhosos, cujo cachet apresenta as modalidades gargarejo, a qual pode custar dezenas de milhar de euros, ou ginástica labial, vulgo play back, pela módica importância de metade daquele preço.

Conheço casos de convites televisivos, a cantores e grupos lusos de qualidade, pela TV da Galiza, aquando da celebração do 25 de Abril, em terras de Rosalia de Castro, enquanto as televisões portuguesas, ignoram o trabalho desses heróis, que insistem na valorização da cultura, genuinamente popular, e, em vez dos setenta ou oitenta espectáculos anuais, que realizavam, pelos concelhos portugueses, fazem dez actuações, na melhor das hipóteses...

A Quadrilha, os Navegante, a Ronda dos Quatro Caminhos e alguns outros, cujas actuações apresentam e exaltam a criatividade e beleza do imaginário popular, merecem que lhes compremos discos, que os sigamos, que trauteemos os temas, que adaptaram e tornaram conhecidos.
É uma forma de amarmos o que é nosso, sem nacionalismos bacocos, mas com a vaidade de nos revermos nesses vocábulos e acordes, de ganharmos asas, de sermos melhores.

Porque chupar os peitos da cabritinha ou meter e tirar o carro na garagem da vizinha, é uma cuspidela, um piscar malicioso, apelando ao riso boçal, quando se bebeu de mais. Como quem dá um traque, na casa de banho, ao fazer força, para defecar...

Luís Filipe Maçarico (texto e foto)


domingo, fevereiro 17, 2013

Intercidades e Surrealismo na linha da Beira Baixa e no Ramal de Beja

As estatísticas revelam menor utilização do comboio.
Pudera! Com a emigração de muitos milhares de portugueses, com a impossibilidade de outros tantos estudarem ou trabalharem, devido ao aumento das propinas e do desemprego, inevitavelmente os números terão de reflectir o duro contexto em que vivemos.
Todavia, acresce a isso tudo o desconforto sentido em algumas linhas, como é o caso dos surrealistas Intercidades, que circulam entre Casa Branca e Beja, ou entre Lisboa e a Covilhã.
A inexistência de bar, a ausência do conforto apresentado ao longo dos anos, com carruagens e assentos cómodos, a higiene, tudo isso desapareceu.
Uma viagem, como aquela da linha da Beira Baixa, que em grande parte do percurso se desenrola, rente ao Tejo, mereceria vidros asseados.
Não é porém hábito da CP que cobra preços mais elevados pelo transporte de passageiros em carroças dos anos 70, nos trajectos referidos, cuidar da fidelização dos passageiros.
Chegamos ao destino, com as costas doridas, os olhos magoados da paisagem emporcalhada, através de janelas sujas.
E não há instituição que nos proteja, pois as reclamações deparam sempre com respostas que não correspondem a uma actuação reparadora.
Luís Filipe Maçarico

domingo, fevereiro 03, 2013

Santa Justa: Entre o Sorraia e o Alentejo

Para lá de uma paisagem, com rio e pinhais, naquelas casas há uma gente rija, forjada nas agruras das inúmeras lutas, contra um regime que dificultou - durante décadas - a vida, aos que se manifestavam, contra a fome, a repressão, a falta de liberdade.
Olho para Custódia Marques, que chega de umas compras, e ela diz que ter estado presa, cinco anos, em Caxias, no tempo do fascismo, lhe deu força para enfrentar os problemas. 
Que se não tivesse passado pelas dificuldades enfrentadas, seria igual aos que fazem escolhas eleitorais contra eles mesmos....
Olho para Joaquim José e ele diz - com um sorriso sábio e paciente - que estudou na prisão de Peniche, onde esteve onze anos. Que apesar de todo o mal, tentou extrair, como se fosse mineiro, o lado positivo, rumo a um futuro mais que merecido.

Um vento gélido contrasta com o céu azul, o sol que não chega a aquecer. Contradição, como aquela dos filhos dos que sofreram, terem partido,com a Democracia, para outras paragens, deixando a aldeia envelhecida a despovoar-se...

Nas fachadas das casas prolifera a narração, em azulejos diversos, que remete para tradições e patrimónios de uma identidade rural perdida... 
À soleira das portas, os velhos estão mudos e quedos, rodeados por cães de olhar assustado, abandonados por famílias que emigraram de novo para as Suíças e Franças, do acolhimento que seus familiares, tiveram, a meio do século XIX.
Todos abandonados, entre o rio e a pequena elevação, para lá da qual fica o Alentejo, de onde vieram alguns avós.

No Couço, a solidão dói. Dezenas de casas e lojas estão desabitadas, à venda. Há um silêncio enorme, um desmedido vazio...
Todo o país interior é uma ferida aberta, que o desprezo dos governantes não deixa respirar. 
Por isso, escutar estas pessoas, entre laranjais e fotografias dos seus ausentes, é perceber que Portugal está decadente e agoniza devagar...embora com palavras, que ainda têm o sabor da esperança...

Quando o carro deixa para trás o canito branco, procurando um dono, entre os idosos que fruem o sol da tarde, percebemos que os deixamos a todos, humanos e bichos, entregues a uma sorte, que é pouco luminosa. Aqui viveram e ficaram. Têm muita família sepultada no cemitério altaneiro.
E o rio Sorraia continua a correr.
A luta, desta vez, contra a falta de arranjo da ponte Joaquim Casanova do Beco, tempera o aço, de que são feitos estes resistentes. É a razão maior da sua existência.
Nasceram as primeiras papoilas...

Luís Filipe Maçarico

domingo, janeiro 20, 2013

Concerto de Ano Novo e Apresentação do Maestro Luís Ferreira na Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense


Esta manhã, os mais de sessenta músicos, executantes, da Banda da Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense, interpretaram sete obras, muito variadas, escolhidas pelo jovem Maestro Luís Ferreira, para celebrar o Ano Novo. Outro Luís, que sucede a Luís Rego, o anterior maestro da SFUCO, sobre quem escrevi: 

Para o Maestro Luís Rego
Sob a batuta do Maestro Luís Rego, gerações de jovens saborearam viagens imaginárias, - entre instrumentos e sonoridades - que certamente os marcaram para o resto da existência, pelo prazer de conhecerem a essência da Música, ao executarem pautas e pela honra de aprenderem com um pedagogo, músico brilhante e homem de qualidade.
Também eu, simples mas deslumbrado espectador viajei desde 1996, aquando da primeira Festa das Colectividades de Lisboa, com o timbre dos sopros e das percussões, até aos mais envolventes paraísos, com os quais a Música permite sonhar.
Enquanto escutava a banda da Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense, dirigida pelo maestro Luís Rego, o enigmático Oriente, o velho Oeste dos cow-boys , a esfusiante Espanha, a cosmopolita Nova Iorque e a diversidade portuguesa (etnomusicalmente falando) revelaram-se em sons, que estimularam a imaginação, como se acompanhando clarinetes, saxofones e tímbales todos os segredos e delícias me fossem revelados.
O requinte, o rigor, o brilhantismo a que Luís Rego habituou o público das sessões solenes da colectividade, como aquela Rapsódia in Blue de George Gwershin, que um dia escutei comovido, ou as fantásticas melodias de filmes, que me fizeram afirmar que estava na presença de uma verdadeira orquestra, permitem acreditar que o seu empenho de mais de vinte anos é a argamassa do futuro.
Porque a banda, pelos ensinamentos colhidos dessa força da Natureza que é este homem exemplar, prosseguirá a caminhada, animada em tão peculiar fonte de sabedoria.
A Comunidade dos Músicos que nasceram na SFUCO, pela mão do Maestro Luís Rego continuará a ser digna de toda a Luz partilhada, elevando o nome do Artista e da Colectividade, até novos momentos de sonho e criatividade.
Bem Haja, Maestro, pela Obra que deixa em cada olivalense - que consigo aprendeu a formação musical e cívica, - em suma: em cada Músico que por esse país, pratica uma das artes mais maravilhosas do Ser Humano!

Luís Filipe Henriques Ferreira, nascido em 1974, oriundo de Alcobaça, freguesia de Maiorga, foi apresentado como o novo Maestro da Banda, com a qual começou a trabalhar, no início de Novembro. 

A SFUCO,Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense nasceu em 1-6-1886, há 126 anos!
Tenho com esta casa de Cultura, conforme poderá ser revisto no arquivo deste blogue, uma relação afectiva que transcende as palavras de circunstância. Não sendo associado, em diversos meios e momentos, falei da instituição, como falo dos "meus" "Combatentes"...

Se contei bem, são sessenta e três executantes, com idades compreendidas entre os 11 e os 59 anos, sendo 22 do sexo feminino. 

Foi um grande prazer, fruir os temas de James Hosay, Joly Braga Santos, Ferrer Ferran e Jorge Salgueiro, entre outros. Ao Maestro, um futuro sempre maior, do promissor êxito que esta actução augura.
A Joaquim Silva, Presidente da Direcção, parabéns pela aposta - em tempo de deserto cultural e de ataque ao Associativismo. Muita saúde e felicidades, para concretizar o objectivo exaltante, deste projecto, à escala humana.
Que eu desse por isso, nenhum representante da Câmara Municipal de Lisboa esteve presente! Como se uma Banda centenária, uma das raras do Associativismo Popular, sediado na Capital, não merecesse ser acarinhada por quem está à frente do Governo da Cidade...
Apenas o Presidente da Junta de Freguesia dos Olivais e (pasme-se!) duas colectividades - Vitória e Combatentes e o representante da ACCL e CPCCRD.
Microcosmos da Sociedade, o Associativismo reflecte o povo que somos!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)