Cantautora, Etnomusicóloga, Amina Alaoui é esta voz que veio de Marrocos para Granada, onde vive, levando por todo o Mundo os cânticos originários do Al-Andaluz, das três culturas que conviviam em paz. Entre nós, cantou de Norte a Sul, sendo inesquecível a sua interpretação em "Águia", com Pedro Caldeira Cabral (e grupos corais alentejanos) no álbum "Terra de Abrigo" da "Ronda dos Quatro Caminhos". É a minha sugestão para terem mais um pouco de beleza no vosso domingo.
Pode não ser uma listagem abundante, mas é um prazer constatá-lo. E há quem se enraiveça, encurralado no seu quotidiano medíocre (tem de ser, senão usava o tempo para fazer coisas luminosas) ao ler o meu blogue, não suportando que eu ame, respire tranquilidade, escreva e estude, além de ter de trabuquir mais uns anos. Vem isto a propósito de um recado, que quero dar e que a bom entendedor meia palavra bastará.
Numa época de atropelos, que são o pão nosso, em que alguns não resistem a "matar-nos" em vida, apagando o que antes incensavam, porque não prestamos vassalagem aos seus decadentes e megalómanos arrotos, tipo "Eu sou o Umbigo do Século"... sinto-me honrado por haver quem tenta ignorar-me, desesperadamente.
Não me comparo a ninguém. Como qualquer dos meus detractores (que os vossos deuses vos dêem muitos anos de vida, para verem tudo o que ainda tenho para fazer!!!) também sou único. Durmo é descansado, o que suponho não ser a vossa sorte. Talvez porque emprego o meu tempo a ser útil à Comunidade, com o gozo inerente que as coisas que gostamos de fazer dão.
O que escrevo não deve ser assim tão dispiciendo, pois desde anónimos, que comentam algures "Ah e tal é muito eugeniano", até aos que, bolsando incontidas e larvares sentenças, de cariz escolástico, profetizam sobre quem será eterno e quem será etéreo, só me falta ver pavões a cantar a "Aida"e a comerem torresmos.
Se aos cães que mordem, desvairadamente, nas canelas, um mero traque os assusta, eu obro para todas as feras de rosto humano, com muita alegria, por não fazer parte da manada.
Além dos governantes, que com ela se têm descartado, para justificar o aumento do desemprego, e ao invés do que noutros anos, sempre em Agosto, noticiei neste blogue, os comerciantes da restauração, que operam na Rua Prior do Crato, finalmente deixaram de olhar apenas para o umbigo. O amigo Manuel informou-me há bocado, enquanto saboreava a bica, que este ano falaram entre si e em Agosto haverá sempre cafés abertos. Abençoada crise!!! Luís Filipe Maçarico (texto e foto)
Bertolt Brecht viveu em tempos tenebrosos. Hitler dominava a Alemanha e queria mandar no Mundo. Deixou uma herança asquerosa de sofrimentos inimagináveis. Brecht, poeta, homem de esquerda, escritor, em parceria com Kurt Weil, de peças de teatro musicado, como "Ascensão e Queda da Cidade e Mahagony" (quem não se lembra de Jim Morrison cantando com os "Doors " a fantástica melodia "The Moon of Alabama"?) e "Ópera dos Três Vintens", exilou-se nos Estados Unidos. Escreveu textos imortais, porque falam da desenfreada exploração do homem pelo homem, das guerras, do desvario dos poderosos, da escala humana que deveria existir nesta tão breve passagem...
Na celebração que através do "Águas" resolvi oferecer-vos, podemos escutar um actor brasileiro a declamar "O Analfabeto Político", ler o poema "Elogio da Dialéctica", publicado no Blogue "O Castendo" e recordar Jim Morrison ou David Bowie interpretando "Oh Moon of Alabama /You must say goodbye..." Para os que têm dificuldade em perceber inglês, recomendo o terceiro vídeo de uma encenação com legendas em português que passou na RTP2...
Neste ano de eleições, com o desemprego a roçar os 10%, vale a pena constatar a actualidade de versos escritos há setenta anos.
ELOGIO DA DIALÉCTICA Bertolt Brecht
A injustiça avança hoje a passo firme. Os tiranos fazem planos para dez mil anos. O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. Nenhuma voz além da dos que mandam. E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. O que é seguro não é seguro. As coisas não continuarão a ser como são. Depois de falarem os dominantes Falarão os dominados. Quem pois ousa dizer: nunca? De quem depende que a opressão prossiga? De nós. De quem depende que ela acabe? Também de nós. O que é esmagado, que se levante! O que está perdido, lute! O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha? Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã. E nunca será: ainda hoje.
No final de Julho de 2008, faleceu Youssef Chaine, o cineasta de Al-Massir (O Destino), onde se reconstitui a ambiência do Al-Andalus, com o califa Almansour, governando a partir da Granada, que séculos depois ainda nos encanta e o filósofo Averrois, perseguido por fanáticos que acusam de heresia a sua forma de estar e os seus livros. Almansour fraqueja perante os sequazes e a fogueira vai devorar as obras do homem de cultura. Mas a Luz das suas palavras atravessa obstáculos e copiada à mão pelos amigos chega à Biblioteca de Alexandria. Pelo meio, amores, danças, canções e uma musicalidade e sensualidade que retive na lembrança. Hoje partilho no "Águas do Sul" uma parte desse encanto: o príncipe está a ser manipulado pelos fundamentalistas de então e os ciganos reúnem-se para dançar enquanto ele sofre, com um dilema: por um lado, o espírito envenenado pelos ditames dos críticos, esconjura a dança, por outro, o corpo arde no desejo de dançar... Divirtam-se, nesta celebração de um realizador egípcio, que conquistou com esta obra o prémio dos 50 Anos do Festival de Cannes.
A cidade é como um organismo. Os furúnculos chamam a atenção para focos infecciosos. Vimos em artigo anterior como essas borbulhagens existem em Santarém, a capital ribatejana. Nada que uma gestão autárquica empenhada não possa sarar. Seria porém injusto se não mostrasse também o que há de aliciante na Santarém que renasce. Aqui ficam algumas imagens, penso que bastante apelativas. Vá um destes dias até lá e frua de paisagens urbanas e campestres num mesmo espaço, entrelaçando-se como se fossem estrofes de uma epopeia. Os políticos do carrocel governativo - também conhecido por bloco central - com mais ou menos alarido, passam, mas o património (se não o espezinharem) fica.
Chega-se a Sátão, por uma estrada bordejada pela água e arvoredo que, entre Coimbra e Viseu embala o coração, com preciosas jóias naturais de imensa beleza.
Súbito, no silêncio da tarde, o chilreado das aves que procuram copas e beirais, a magia da luz melosa lambendo o granito, mesmo que haja vento e as paisagens de Abril não queiram deixar estas ruas...
É Primavera, todavia.
Por momentos, o sol cai a pique no jardim onde os velhos tagarelam, de olhar perdido e alguns pares de namorados, ávidos de beijos e segredos, descobrem a sensualidade.
Em cada passo, encontram-se pétalas, um rosto, uma história.
Saboreia-se a gastronomia, o falar terroso dos que vivem aqui e a memória identitária.
Dirijo-me à Biblioteca, aos largos com respiração antiga e admiro o barroco das fachadas dos palácios e a graciosidade da arquitectura popular, onde os vasos floridos sublinham a proximidade serrana.
Sento-me num banco, escuto o sino da igreja nova, descanso a alma olhando em volta: casas com cenário de montanhas em fundo.
Tranquilidade absoluta, prometendo a suavidade dos lugares eleitos.
O olhar percorre o rasto de fachadas ancestrais, onde a ruína espreita.
Alguém lamenta espaços modernos que destoam. Salvaguardar é preciso.
Concentro-me numa aldraba, em pormenores, no nome antigo, escrito com dois tês e um éme e gravado em azulejo de edifício decadente com uma janela esventrada cercada de silvas e heras, elegantes varandas de ferro forjado, cantarias majestosas, onde a pedra imita a filigrana...
No século dezanove, um frade descobriu que este nome (Sattam) teria origem árabe e significaria entupimento, atulhar...
Vim até estas paragens atraído por vários brilhos.
A curiosidade toponímica, a lembrança de Aquilino que incluía esta vila nas "terras do Demo", onde faunos e lobos aguardam a melhor hora para se revelarem, o património histórico, o bom vinho do Dão, a hospitalidade, comidas caseiras, talvez sonhos de paraíso e um silêncio que os poetas perseguem para guardar nos seus cadernos de encanto e mágoa. Estrelas de espanto na noite fria.
Arqueólogo amigo mencionou espólio notável.
Informante adoradora das pequenas grandes preciosidades, que só podem ser desvendadas caminhando entre aldeias, mencionou templos, santos, recantos plenos de interesse.
E o manto de astros derramou-se, limitando o tempo da estadia, necessariamente breve, pois a interioridade para quem não conduz, pesa.
Antecipei o regresso, e foi com melancolia que cheguei a Lisboa, o olhar e a alma lavados de tanto verde e da vontade de voltar um dia com mais tempo.
8-5-2009
Luís Filipe Maçarico
(Antropólogo; Poeta. Autor também das fotografias)