"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, dezembro 25, 2025

Entrevista com José Valentim de Barbacena: Poeta,Pintor e Cantador


José Valentim é um alentejano de Barbacena (Elvas), cujo percurso de vida contém estórias dignas de serem partilhadas.

Começa por nos dizer que teve uma infância feliz. As cores das telas que pinta e tem exposto, revelam essa faceta da sua existência.

Poeta, pintor e cantador de modas do Baixo Alentejo no grupo “Amigos do Alentejo”, do Feijó, oriundo de uma região onde as “Saias” são a expressão musical dominante, quisemos conhecer o trajecto de um homem que durante perto de uma década viveu em Miranda do Douro.

“Éramos oito filhos, eu sou o sétimo, quase todos nasceram no Monte do Alcaide e noutro, ao lado (nessa altura, o meu pai era feitor dos montes).Tínhamos muitas limitações próprias da época. O meu pai foi enfermeiro da Casa do Povo e foi regedor da freguesia. Fui muito feliz! A minha avó paterna era professora regente e também pintava. Casou com o meu avô que emigrou para França, que mandava muito dinheiro. Ela vivia bem. Foi criada num asilo de freiras, tinha muitos conhecimentos. Nunca houve faltas. Os pagamentos ao meu pai era ir a todas as hortas e escolher o que quisesse. A minha rua era em volta do castelo. Ao cimo da rua, havia a madrinha, com as vacas. Chegávamos a fazer refeições de sopas de leite. Era um jantar. A minha mãe tinha um tacho daqueles amarelos grandes, fazia jantar de arroz doce. Nos montes havia sempre gulosices (marmelada). Éramos muito felizes, dentro das nossas limitações.

Nós morávamos no meio da rua.

Na parte de baixo, viviam as Caldeirinhas. Nunca comprávamos queijos. Dava-me sempre meia dúzia. Dinheiro, o meu pai só tinha no São Mateus, em Elvas. Trabalhava para todos de graça. Eles davam alqueires de trigo, cevada. Era quando ele nos vestia e calçava.

O meu pai era médico, dentista e veterinário. Fazia isto tudo.

O médico local, acabado de formar, teve no meu pai o seu braço direito.

Tínhamos três quartos. Recolhíamos toda a gente. Na minha rua- 15 de Dezembro (por causa do foral de 1519) a casa não tinha fechadura e o meu pai foi parteiro da minha geração toda. Era assim um Zé do Telhado.

A minha tia tinha todas as doenças. O meu pai dizia-lhe que tinha recebido injecções novas e dava-lhe injecções de soro. As pessoas diziam "és um grande psicólogo”.

O meu pai recebia muitos caçadores, amigos do médico e dispensava o quarto dele. Do meu pai tenho as melhores recordações.”

 

José Valentim esteve no Alentejo até aos 13 anos e quando a mãe faleceu em Julho de 1958 a irmã mais velha que estava em Miranda do Douro ficou com ele e sua irmã Rosa.

O marido da irmã que vivia em Miranda era da EDP, ela tinha tirado um curso de corte, costura e bordados (os quais vendia a 150 escudos!)

“A minha irmã não fez distinção entre mim e os meus sobrinhos. Tive dois pais e duas mães.”

“Fui muito feliz!” (ao longo da entrevista, Valentim repetirá várias vezes esta frase. Olhando para a sua pintura, pelos tons utilizados, percebe-se que essa felicidade inundou os primeiros anos da sua vida.

“Os meus estudos forma no Liceu, em Almada (vim para cá quando regressei do Ultramar, estive em Moçambique). Em Miranda fui muito bem tratado e arranjei lá amigos.

Quando vim da tropa, fiquei a trabalhar na Setúbal Auto (nas oficinas, como empregado de peças). Meti os curriculuns para a banca, para três bancos. Todos me aceitaram. Entrei em 70 no Totta & Açores. Reformei-me em 2000.”

E como surgiu o Cante na sua vida?

“Um amigo indicou-me o senhor José Pereira do Grupo Coral Amigos do Alentejo. Estou no Grupo há oito anos. Já pintava, mas estava muito só. A minha mulher tinha falecido. Adaptei-me bem. Comecei a dizer poesia nos nossos jantares. Ainda hoje sei declamar poemas que a minha avó me ensinou aos oito anos à lareira.” Valentim declama sem hesitar a fala dos animais de Afonso Lopes Vieira.

E a Pintura?

“Eu nunca vi a minha avó pintar. Quando me reformei, sempre fiz desenhos. Disseram-me que na Associação 1º de Dezembro estava lá uma senhora (Laurinda Romeiras) que ensinava a pintar. Travámos grande amizade e estive oito anos a pintar com ela.”

Os temas foram sempre escolhidos pelo senhor Valentim, com as cores marcantes do Alentejo. Expôs em Barbacena (todos os anos) Vila Fernando, Casebres. Tem quadros expostos permanentemente num restaurante em Vaiamonte (Monforte).

Acrescenta que os Amigos do Alentejo já cantaram com Trigacheiro, Buba Espinho e até com uma orquestra da Austrália.

Em termos de projectos, quer continuar a pintar enquanto puder.

“Estou cantando muito bem”, assinala. Mas nos sítios de actuação, tem dificuldades para entrar e sair do palco.

Desejamos que a vida lhe continue a sorrir e a palavra feliz nunca desvaneça nos seus lábios e coração.

 

Ana Isabel Veiga

Luís Filipe Maçarico

(Publicado na revista nº 38 da revista Aldraba- Outubro de 2025) 

 

 

terça-feira, dezembro 23, 2025

EDITORIAL da revista Aldraba nº 38

 


 

Ao longo de duas décadas, a Aldraba, enquanto Associação do Espaço e Património Popular realizou Encontros em torno de valores patrimoniais de diversos concelhos do Centro (Idanha-a-Nova, Fundão) até ao Sul (Loulé, Mértola). Esta revista espelhou durante 38 números, numa edição semestral, esses eventos e muita temática relacionada. Com as suas páginas abertas a autodidatas, académicos, associados e amigos, divulgámos artigos acerca da gastronomia, doçaria, territórios como o Couto Misto, práticas e ofícios onde se inserem Moinhos, Chafarizes, Aldeias de Xisto ou paisagens naturais, que são identitárias.

A nossa ida a locais como Querença, Castro Marim, Pias, Moura, Alenquer, Alpedrinha, Póvoa de Atalaia, Fundão, Souto da Casa, Salvaterra do Extremo, Vilarelhos, etc. deixou rasto. Ficou a revista, ficou o nosso compromisso na salvaguarda do saber-fazer, também com os dois cadernos temáticos editados sobre aldrabas e batentes de porta e cataventos do concelho de Moura.

A participação em manifestações culturais como o Encontro transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em meio rural que se efectua no final de Julho, em Alfândega da Fé ou a Festa dos Chocalhos no 3º fim de semana de Setembro, em Alpedrinha, onde recentemente participámos na iniciativa “Ecos dos Chocalhos”, amplia- pela divulgação da nossa revista – a mensagem que desde a fundação pretendemos partilhar.

A vida colectiva está ferida de amnésia. O património sofre atentados, como há poucos meses sucedeu no Ginjal (Almada). Terraplanando a memória de Romeu Correia e Columbano Bordalo Pinheiro, ali nascidos. Há alguns anos, o Palácio do Barão de Quintela, no Chiado, viu surgirem seis comedouros para turistas. A CML teve pudor em colocar um marco, assinalando que na 1ª Invasão Napoleónica, Junot alojou-se ali, “comendo à grande e à francesa”, ficando “a ver navios”…

Chegámos a 2025 mais pobres. Uma parte das lojas tradicionais foram sendo abatidas com rendas incomportáveis, devido à gentrificação que prejudicou bastante outras cidades europeias (Barcelona, Veneza, Dubrovnik).

Centenas de baiúcas emergiram como cogumelos na zona histórica, vendendo o mesmo; águas, cachecóis, souvenirs de cortiça irrelevantes e ímans para frigoríficos, servindo um turismo de “pé descalço”, que vem desalvorado aos milhares por dia, em navios de cruzeiro.

A Aldraba continua a obra iniciada em 25 de Abril de 2005 e desenvolvida por voluntários inesquecíveis, que entretanto partiram pela lei natural da existência. Seguiremos os seus ensinamentos e valores de cidadania, com a vontade de fazer sempre bem e melhor.

Luís Filipe Maçarico

à Gastronomia Alentejana - Artigo escrito para uma revista do Alentejo

Galopim de Carvalho, um dos autores citado no artigo e incluído nas Referèncias Bibliográficas


A gastronomia alentejana é um prodígio alimentar, com característica mediterrânica, reforçado pelas consequências da míngua, que os trabalhadores da terra suportaram, recorrendo às ervas para elaborar ementas tão criativas e saborosas. 

Em "Para Uma História da Alimentação no Alentejo", Alfredo Saramago escreveu que "Os alentejanos e os seus antepassados forjaram-se através de uma luta multissecular com a natureza.(1) Este autor defende "O direito ao prazer, porque é de prazer que se trata quando se fala de paladares e aromas na história da alimentação do Alentejo."(2) 

Em "Alentejanando" Joaquim Pulga diz que "A escassez de recursos e a simplicidade dos paladares estiveram na génese" do "pão mergulhado em caldo aromatizado e temperado com azeite (...) A açorda atravessou culturas." (3) 

Em "Com Poejos e outras ervas" Galopim de Carvalho cita Monarca Pinheiro que afirmou ser a comida do povo alentejano "frustração sublimada em invenção. Com as migalhas que lhe couberam, soube inventar uma cultura de eleição, e esta é, talvez, a sua maior glória. Do pouco fez muito e bem." (4) O geólogo afiança que "Fazer sopas de pão deve ter começado por ser um acto de elementar economia."(5)

 Aníbal Falcato Alves destaca: "No tempo da fome, que foi o tempo do fascismo no Alentejo, a açorda era o alimento quase exclusivo dos trabalhadores alentejanos durante os meses de Inverno. No Verão, a açorda era substituída pelo gaspacho."(6) Este investi9gador da importância do aspecto social dos comeres dos trabalhadores alentejanos, no final da obra explica como eram (são) cozinhadas algumas das ervas que os alentejanos foram obrigados a aprender a comer: Cunetas- esparregado; Alabaças- esparregado, com grão, com feijão; Acelgas- idem; Arrabaças- com feijão; Saramagos-com feijão; Espargos-com miolos, sopa, omelete; Cardinhos- com feijão, cozido com grão, sopa de molho de cação; Oregãos e poejos- temperar (7) 

O já citado Alfredo Saramago assegura que "A alimentação constituiu no Alentejo um factor de aglutinação e não de divisão." (8). Este autor sublinha que no sul transtagano a alimentação "nunca perdeu identidade."(9) e no seu tratado, onde assinala as diversas etapas da "História da Alimentação no Alentejo" fala na comida decorrente das culturas fenícias, celtas, romanas, visigóticas e muçulmanas. Percorre ainda, cronologicamente, o tempo da Idade Média, a alimentação dos judeus e a influência da cozinha conventual. Segue-se a referência detalhada ao Pão, ao Azeite, ao Vinho, ao Porco e à Caça, abordando ainda a Vinha, o Olival, o Gado, a Horta, o Mel, o Tomate e Feijão, entre outros alimentos, ao longo dos séculos. 
A cozinha alentejana é única, garantindo a inclusão das ervas aromáticas que coroaram esta gastronomia, pela necessidade do povo em enriquecer com aromas variados a escassez de recursos. Mulheres e homens, obreiros anónimos desta sublime criação, herdaram uma história milenar partilhada na comunidade identitária onde nos inserimos. 

Em artigo (que inclui um inquérito aos entrevistados) a ser publicado na revista Callípole de Vila Viçosa, há indícios que apontam para a gastronomia alentejana necessitar de medidas para que não se perca a qualidade e o genuíno que relatámos. Fruto de alguma indiferença e da cedência a uma juventude alheia à tradição, aparece na restauração local o facilitismo que subverte os valores dos nossos ancestrais. Aqui fica o reparo para que haja por parte das autarquias e do turismo, o acompanhamento e estímulo que a gastronomia alentejana merece. 

Novembro de 2025 Luís Filipe Maçarico 
~
Notas: (1) Op. Cit. p. 10. (2) Ibidem, p. 241. (3) Op. Cit. p.92. (4) op. Cit. p. 57. (5) "Açordas, Migas e Conversas", p.38. (6) "As Comidas dos Ganhões Memória de outros sabores", p. 17. (7) Op. Cit. p. 128. (8) "Para Uma História da Alimentação no Alentejo", p. 237 (9) Ibidem, p. 240. 

Referências Bibliográficas 

ALVES, Aníbal Falcato "Os comeres dos Ganhões Memória de outros sabores", Campo das Letras, Porto, 1994 
CARVALHO, A. M. Galopim de "Açordas, Migas e Conversas", Âncora, Lisboa, 2018 
------------------------------------------ "...Com Poejos e Outras Ervas", Âncora, Lisboa, 2001 
PULGA, Joaquim "Alentejanando Estórias e Sabores", Casa do Sul, Évora, 2ª ed. 2002 
SARAMAGO, Alfredo "Para Uma História da Alimentação no Alentejo", Assírio & Alvim, Lisboa, 1997.

sábado, dezembro 20, 2025

Opiniões sobre a minha POESIA



 

“Luís Filipe “agarra” a poesia onde a pressente, e não a larga. Vê-se que ela é sua companheira constante (…)
“Poemas abertos, densos, de uma beleza que é verdade que toca - de uma força jovem a tentar encontrar um caminho diferente, se possível caminho novo. Sem fugir ao esforço urgente. Sem querer ceder.”
Maria Alberta Menères, Diário Popular, 1972.


Todos os poemas são bons. Denotam grande sensibilidade, bem construídos e que me levam a afirmar que tens futuro.
José Gomes Ferreira, Juventude, Dezembro 1980.


“A produção que nos mandaste é toda de excelente qualidade e toda ela, sem excepção, merecia ser publicada.”
Mário Castrim, Juventude, Maio 1984.


“O que nos seus poemas captou a minha atenção foi, de um lado, a sua curta respiração, o seu carácter anti-discursivo, anti-retórico, do outro, uma certa pureza e transparência na dicção.”
Albano Martins, Vila Nova de Gaia, 6 Setembro 1992.


 “Caro Amigo: Obrigado pelo seu livrinho - gosto de o saber a trabalhar…e a sonhar.”
Eugénio de Andrade, 16 de Agosto 1993


“Com um obrigado pela oferta de “Os Pastores do Sol” a serena convicção de que vale a pena sonhar, vale a pena ser poeta.”
Álvaro Cunhal, Novembro 1995


“Luís Filipe Maçarico é um poeta especial, de escrita muito parcimoniosa, mas com um espaço imagético lampejante”,
Carlos Fernandes, “Região de Leiria”, 15-12-1995


“Como em Eugénio de Andrade, emerge da poesia de Luís Maçarico um louvor às coisas elementares, ao sol, à água e à terra.”
Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão, nº 2577, 12-1-1996


“On ne s’en doute pas, Maçarico (…) est un chantre de la mer, des rivières et des sources”.
Mohamed Lotfi Chaibi, “La Presse de Tunisie”, 31-12-1996


“Um dia alguém poderá dizer, como é bom viver perto da música deste poeta que se afirma como a voz do silêncio.”
Isabel Mendes Ferreira, Lisboa, 1999.


Luís Maçarico há muito que inscreveu o seu nome na produção poética contemporânea. Obra conhecida; talento reconhecido.”
Manuel Frexes, Fundão, 2006


"Parabéns, meu caro Luís Filipe. Vi um poema seu na colectânea "CEREJAS". Lindíssimo."
Maria Assunção Esteves. 29-2-12

Luís Maçarico entrega-se voluptuosa e magicamente aos sons, enleia o emocional e o racional, o visto e o ouvido, o captado e o refletido, o fugaz e o permanente (…) Luís Maçarico sonha fraternizar o mundo. Por isso o lemos, procurando nas palavras as nossas palavras, no seu olhar o nosso olhar”
Maria Antonieta Garcia, Fundão, 2012

Fotografia de José Amaral

A INFANTILIZAÇÃO DOS ADULTOS


 As televisões transmitem na sua esmagadora maioria programas inacreditáveis.

Dizia-me hoje no churrasco da Graça, uma senhora bem simpática: A televisão faz muita companhia.

E eu respondi: Mas é uma companhia tóxica. Está sempre a infantilizar as pessoas e sobretudo a apresentar comentadeiros que falam das guerras como se percebessem alguma coisa, dizendo sempre o contrário do que se passa. A anunciar todos os dias vitórias inexistentes, em vez de defender a paz.

Em vez de mostrarem aqueles que fazem coisas boas para os outros, seguem até ao vómito os monstros de mundo e todas as noites pressagiam o fim do mundo.

E no fim de cada ano, a factura da electricidade sobe para o triplo com a taxa da contribuição audiovisual.

Abomino esta sociedade de matriz judaico-cristã, também conhecida como capitalista.

LFM

quinta-feira, dezembro 18, 2025

ESTOU BEM

Estou muito bem comigo mesmo e há duas palavras que recuso usar: culpa e pecado.  LFM (foto de MS)

quarta-feira, dezembro 17, 2025

A PROFESSORA JUSTINA


 

A professora Justina é uma das clientes da pastelaria Sino Doce, da Almada antiga.

Chamou-nos a atenção o carinho de algumas senhoras para com a nossa entrevistada, cumprimentando-a com uma gentileza fora do comum, anunciando com esse gesto estarmos na presença de alguém que marcou positivamente o crescimento e a aprendizagem de gerações, gratas por esse saber-fazer e sabedoria que só algumas pessoas têm o privilégio de partilhar.

O nome não podia ser mais adequado pela justeza de um percurso a fazer o bem, ajudando muitas crianças a serem adultos melhores neste mundo de dificuldades. Quisemos conhecer melhor esta Senhora, que nasceu em Faro, na freguesia de S. Pedro.

- Como foi a infância?

- Normal, com uma família normalíssima. O pai era do exército. E a mãe professora primária.

- Como se tornou professora?

- Calhou, porque estava na cidade e havia a escola do Magistério ali à mão de semear. Na altura, os pais é que decidiam. Eu fiz o liceu e depois a mãe era a pessoa que orientava a casa. O pai era uma santa alma que não abria a boca. Nem parecia militar. Era uma casa de mulheres. A avó, a tia, a prima. Como as casas eram grandes, quando a pessoa tinha dificuldade, a mãe orientava o assunto. Fiz o Magistério.

As colocações boas eram para os privilegiados e apesar da mãe ser professora nunca fui privilegiada. Fui colocada numa escola numa aldeola para os lados de Portimão. Eu sempre fui um bocado reguila e disse “não vou!” – e fiquei à espera (de vagas) Fui colocada mesmo na cidade de Portimão. Tinha lá família e foi confortável. Tinha lá família e foi confortável. Fiquei na escola do plano dos centenários. E fiz aquele ano. Já eram aulas a sério. Fui para lá em 1956. Para ir ver a escola tinha de ir a mãe com a filha.

A directora da escola tinha sido a companheira de carteira da minha mãe e o filho meu colega. A directora da escola, amiga da mãe, passou-me a classe dela, o 4º ano, com exames de admissão ao liceu. Era só meninas. Para começar foi difícil.

-Ao longo do seu percurso, foi ensinando gerações de crianças. Que balanço faz desse seu empenho?

- Muito bom! Nunca aconteceu nada menos positivo. Por isso, agora quando os encontro é uma festa! É curioso, do que eu me lembro, pequenos desencontros (por causa das crianças que tinham menos aptidões) os pais levantavam problemas mas não era como agora. Ao fim de uma conversa já estava tudo bem. Gostei destes anos! E agora gosto deles virem ter comigo. São todos impecáveis. Também gostei quando mudaram as classes (passaram a ser mistas). Foi bom.

- Em quantas escolas ensinou?

-Depois de Portimão, passei para cá. Estive na Cova da Piedade, depois trabalhei na escola dos centenários da Costa da Caparica, no bairro dos pescadores. No Inverno tinha água até ao joelho. Por último estive no Feijó. Apanhei lá colegas do Algarve que vieram para cá. Depois fiquei colocada aqui (Almada) em Setembro de 1960 até 1991.

E fiz muitas amizades com alunos e colegas. Davamo-nos muito bem. Eram divertidas.

- Há algum episódio que deseje destacar?

- Tenho uma carta de uma aluna que no 4º ano escreveu num cartãozinho que ia para o ciclo mas queria que eu fosse com ela. Deve ter agora 51-52 anos. Era uma adoração com a professora. A miúda era um doce e tive boa ligação com a mãe.

- O que sente nos dias de hoje ao ser reconhecida e cumprimentada efusivamente por antigos alunos?

- Ih! Tantos abraços, tantos beijinhos, tanta conversa!

-Mas diversas épocas em que lecionou, sentiu algumas diferenças nos comportamentos dos alunos?

-Não, não! Nunca! Não houve diferença de comportamento. A avó de um aluno, o Nuno Ricardo, que é bailarino, é grande amiga minha!

 

Em 1987 a professora Justina teve descolamento de retina. “Depois em 1990 isto descambou pois fui operada por uma médica para a qual apenas interessava o dinheiro. A operação custou 200 contos. Acabei por meter os papéis para a reforma.”

- Que memórias Guarda da sua profissão? Como são os seus dias?

- Dias felizes. Há outras coisas para pensar. As memórias estiveram no tempo para se expandir, Sabe que idade tenho? 89 anos!”

 

Luís Filipe Maçarico

(artigo publicado na revista Aldraba nº 38 de Outubro de 2025, pp. 22-23)

sexta-feira, novembro 14, 2025

Memórias do meu Caminho.









                                                                                 LFM


 

quinta-feira, novembro 13, 2025

A Morte das Tradições

 hoje é dia 13 de Novembro.

Há muita gente a alucinar e de repente, surgiram árvores de Natal em Almada.

Na minha opinião, só porque chove bastante (depressão Cláudia, alerta vermelho), há quem mate a tradição, fazendo a árvore ritual  muito antes do tempo adequado. Banaliza-se a época. Aliás, as televisões já têm anúncios relacionados.

Detesto esta Sociedade, tão esfaimada de celebrar o vazio. Que usa muitas palavras inglesas em vez do idioma nacional. Que se deixou colonizar por isso e por festas tão carnavalescas como o Hallowen, ao invés do pão por deus...onde as crianças são contaminadas pela foleirada, oriunda de uma américa em decadência.

Tudo isto parece-me sintoma de uma Comunidade doente. Um dia destes, em Outubro ou Setembro, os supermercados vão ter a banda sonora do gingopel, como escutei ontem no Auchan.

LFM





Guardando Fotografias da Caminhada