"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, julho 29, 2014

Poder local democrático?

 

O Poder Local é muitas vezes apresentado, como uma das melhores consequências do 25 de Abril.
Todavia a realidade parece desmentir esse mito...

As novas gerações, que nas eleições dos últimos tempos conquistaram lugares de relevo, nas autarquias, não correspondem aos pergaminhos. 
Em vez de servir o colectivo, muitos servem clientelas, amigos, familiares... servindo-se a si  mesmos....
Senão, veja-se:

Num concelho transmontano, documento histórico, editado pelo anterior presidente (da mesma força política do actual), ao que parece não circula, por causa de ter foto e palavras do amtecessor do autarca eleito em setembro de 2013.

Num município do sul, o catálogo de exposição do museu local, com carácter nacional, repousa em gavetas, armários, armazéns, não podendo ser adquirido, pois o presidente anterior, do partido actualmente na oposição, cometeu o pecado de escrever e assinar a introdução à obra...

Mais a sul e na raia, o pesidente, que esteve no poder duas décadas, foi reeleito, mas como vereador. O novo presidente queixou-se do antecessor, ainda no executivo, por segundo ele, ter contribuído para haver dois executivos. A vereação demitiu-se ou está em vias disso.

Em Lisboa, o quartel dos bombeiros da Luz, construído ao lado do hospital com o nome do bairro, vai ser demolido, pois o edifício hospitalar quer a claridade toda.
Os jornais falam destas coisas e, no caso da polémica do terreno do quartel dos bombeiros, devorado pelo hospital, acrescentam que o arquitecto do hospital é vereador e familiar de um banqueiro caído em desgraça, o que não deixa de ser perturbante...
Num país outro, estas situações, até para evitar leituras erróneas, levariam à demissão de alguém, que em nome da honra descartaria a insinuação de promiscuidade...
E assim se arromba o desenvolvimento e se mancha o prestígio, que era motivo de honra e orgulho dos velhos autarcas. 

As actuais gerações, à frente da administração política municipal, têm uma fome vampírica de poder; veja-se o exemplo do senhor, que disputa eleições internas, no seu partido, com vista a ser primeiro ministro, descartando as funções para as quais foi eleito...e das quais tão má conta parece dar do recado, pois sabemos (vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar) que recambiou cerca de quinhentos, dos mil cantoneiros de limpeza, para as juntas de freguesia, desiquilibrando a função do serviço público, tendo a Câmara ficado sem pessoal suficiente, para a recolha dos resíduos sólidos (os trabalhadores da limpeza urbana, empurrados para as freguesias, têm a seu cargo a lavagem, varredura e recolha de dejectos caninos e fizeram o manguito, quando o senhor presidente os requisitou depois de os retirar do quadro da autarquia central.) E que dizer da entrega de bibliotecas históricas e equipamentos desportivos às freguesias? A sede de ficar bem visto, pelos correligionários do chamado arco do descarrilamento colectivo, é insaciável.
A lei Relvas foi aliás, aos trambulhões, seguida por este senhor, numa ânsia de mostrar trabalho.
Não serão todos estes sinais o prelúdio para privatizar tarefas que deveriam ser do domínio público? O Costa Concórdia também parecia um navio seguro...

Isto para não falar das equipas de conselheiros, que estimulam posturas instáveis...nem das Câmaras, com dívidas impagáveis, da especulação imobiliária, da dissolução anunciada de algumas, de autarcas, que perderam mandatos, por abuso de poder, etc. Limito-me a evocar o que a imprensa noticiou...

Os valores foram substituídos pelos interesses. E isso é péssimo. Ficamos todos a perder.
O que se vê à vista desarmada, não nos agrada e merece reflexão urgente.

Poder local democrático?

quarta-feira, julho 16, 2014

Os Novos Monstros

Na rede social Facebook, existem Grupos, com milhares de seguidores, que possuem regras e mentores, castradores da liberdade individual e da cidadania plena, impedindo que sejam discutidos assuntos candentes como política, religião e até futebol. 
No caso de uma das muitas páginas, que supostamente pretendem valorizar o Alentejo, o leitor assiste, estupefacto, à publicação exaustiva de clichés, com imagens de animais, flores e alguma gastronomia, não se reflectindo o Alentejo actual, com centros de saúde, escolas e tribunais a encerrar, e nas fotografias das localidades, que suas Excelências, os Guias Supremos autorizam a publicar, os alentejanos estão ausentes...

Custa a acreditar, que se limite a liberdade daqueles que se queiram exprimir, contribuíndo para o alheamento, a falta de intervenção, amarfanhando com grande desprezo conquistas duramente obtidas, que custaram a vida a muitos portugueses.
Como é possível que centenas de indivíduos aceitem ser conduzidos, até um lugar que não existe, consumindo ilusões, abdicando de usar o cérebro?

Quando subscreverem páginas nas redes sociais, percebam bem onde se metem, pois há quem tenha saudades de outros tempos, da paz podre, onde os répteis chocam os ovos dos novos monstros e se disfarce de santo, alegando que discutir certos assuntos provoca divisões...
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. E nunca será nesse território fraudulento da ilusão, que nos tornamos pessoas melhores...

Luís Filipe Maçarico

sábado, julho 12, 2014

Silêncio...Morreu um Poeta. que era Fadista!!!

A notícia surgiu pela voz de uma amiga comum. Abílio Duarte não resistiu mais e partiu, numa maré de despedida. Foi a enterrar esta semana, após uma existência muito rica em amizades e criatividade. 
Deixo aqui um lamento, relativamente a uma parte do associativismo lisboeta, que desconhece quem foi este SENHOR! Ignorância que não podemos desculpar aos dirigentes do movimento associativo popular. Abílio Duarte além de ter sido presidente da mesa da Assembleia Geral do "Vai Tu", participou em tudo o que foi apoio solidário (bombeiros, doentes com cancro, etc). Só isto serviria de motivo para o celebrarem. Nem o facto de José Manuel Osório, um especialista do Fado, ter garantido que Abílio Duarte tinha a categoria de um Linhares Barbosa, Carlos Conde ou Francisco Radamanto, fez com que se curvassem perante a sua obra. É com grande pesar que constato o desinteresse, de quem tinha a obrigação de promover um grande momento evocativo em honra de um ser humano que venceu tantas adversidades. O problema em Portugal é que anda tudo a tratar da vidinha (ou à babugem, como diz um amigo meu). Todos se curvam perante as vedetas, os grammys, não querendo ficar de fora do retrato com o produto que vende, a higienização do fado a património de qualquer coisa...e fico-me por aqui, para não ser acintoso...
Em homenagem singela a Abílio Duarte, aqui fica de novo a biografia, que neste mesmo blogue publiquei há alguns anos, aquando da edição do seu livro "Marés da Minha Vida":

ELEMENTOS PARA UMA BIOGRAFIA DE ABÍLIO DUARTE -FADISTA, POETA E MAREANTE
Fui um Saltimbanco
Abílio Duarte nasceu em 28 de Novembro de 1937, na freguesia das Mercês, em Lisboa. O pai, natural de Setúbal “foi pescador e descarregador de peixe” e a mãe, originária da Madragoa, “vendia peixe”. “Em miúdo, conta este filho do mar, cheguei a estar aqui na Ribeira; apanhava baldes de água para lavar as tecas do peixe.” Criado entre a Bica, Madragoa, o Casal Ventoso e Chelas velho, Abílio Duarte é neto de um algarvio, pescador dos galeões (avô paterno) e de um serralheiro do Arsenal (avô materno).
Reformado da marinha mercante e tendo sido serralheiro de precisão de moldes para plástico e de cunhos e cortantes, Abílio assegura, com ironia: “O Salazar ensinou-me a ser comunista!”[1] Acerca do seu percurso profissional afirma: “Fui um saltimbanco, sempre entendi que trabalhar numa mesma casa era atrofiante.” Tendo viajado por todo o Mundo várias vezes, recorda: “América quase toda, uma parte do Brasil, uma parte de África, Ásia…Japão, a Itália toda e a Turquia. Só não fui à União Soviética!”
Abílio Duarte começou a escrever para fados, a partir de um episódio estimulante: “Em 1959, quando fui trabalhar para a Marinha Grande (estava ligado ao fado e trabalhava) foi quando acabei a tropa…queria casar e fui para a Marinha Grande…comecei a sentir a saudade do Fado, foi quando fiz a homenagem ao Alfredo Marceneiro. Tive a felicidade de cantar versos, em dueto, com o Alfredo Marceneiro na casa da Maria Teresa de Noronha, em Cascais. Era casado com a Julieta Reis[2]. Comecei a cantar, a primeira sextilha, que é dum fado do Marceneiro - “Natal do Prisioneiro” - quando canto a segunda, manda-me calar, improvisa o elogio que lhe estava a fazer, cantamos a seguir os dois. Foi dos momentos mais lindos, foi ter a felicidade de fazer um improviso com o Alfredo Marceneiro! A partir daí comecei a fazer algumas quadras (o marítimo é um homem sozinho).”
Das leituras dos diversos escritores que o enriqueceram, salienta António Aleixo, Carlos Conde, Ary dos Santos, Cesário Verde, Álvaro de Campos. “Fui apanhando bocadinhos aqui e acolá. O jornal “A Bola”, quando era trissemanário, à quinta-feira trazia um manancial de formação, feito por rapaziada de esquerda. O “Diário Popular”, ao sábado trazia cultura!...”
Escutámo-lo, longamente, desfiando um rosário de sombras. Com pudor, recolhemos os dados primordiais para esboçar o retrato. E quisemos saber como foi o tempo de ser criança: “A minha infância…pronto! Eu estava perto dos oito anos quando morreu a minha mãe. O meu pai tirou-me à minha mãe e fiquei a viver com a minha avó aqui na Baixa. Porrada foi mato e cara esfregada no colchão.
Estava a comer sopa de massa[3], o meu pai chamou-me: “Olha, a tua mãe morreu, a tua avó vai-te levar, quando lá chegares abraça a tua mãe.”[4]
As memórias doem, têm um sabor amargo: “Juventude, não tive! Não tinha relógio, cheguei sempre cedo ao trabalho. Levava a lancheira para o trabalho, dormia num vão de escada, na Calçada Salvador Correia de Sá, no nº 19, com a minha avó materna…”
Eu Não me Abstraía
Não obstante o fadista afirmar que a sua escrita não está sujeita a espartilhos formais, descortinámos a presença do jogo metafórico e encontrámos termos de origem mais erudita, que fazem evidenciar a puerilidade dos seus versos.
Sem sermos exaustivos, registámos, entre outros, os seguintes vocábulos que aparecem nos poemas de Abílio Duarte: “convénios, mausoléu, arquitectar, retórica, paralelo, autonomia, mareei, eclipsei-me, órbita, épico, boreal, translação, rotação, espoletas, belicismo, rubra, pertinaz, floração.”
A introdução destas palavras, numa parte substancial, ligadas às Ciências, denota uma panóplia de conhecimentos práticos, enquanto profissional da marinha mercante, certamente complementados com uma razoável cultura livresca, que sempre o impeliu a procurar saber mais.
Com um estilo próprio, misto de singeleza e sapiência, a poesia deste homem do povo, que encontrou as agruras da vida no alto mar, durante longas ausências da terra madrasta, reflecte como num espelho, algumas contrariedades.
O falecimento prematuro da mãe, a rudeza do pai, a pobreza em que viviam os desfavorecidos da sorte, esse contexto de dificuldades sobrepostas e sucessivas, marcou o seu percurso de ser humano e o despojamento de uma escrita, onde morte e desencanto espreitam.
Todavia, e teimosamente, no seu horizonte poético surge um jardim de sonhos, abordado com termos mais luminosos.
A Revolução de Abril, esperança dos deserdados, assume nos versos de Abílio Duarte o papel de paraíso, bálsamo, farol.
Depois da grande errância, o prazer de ter cantado pelo país, com Ary, Tordo e José Viana, artistas solidários, que ansiavam como ele um futuro mais fraterno, marcou uma fase exaltante da sua trajectória.
Abílio considera que “A vida nas oficinas, com os colegas serralheiros, que é a vanguarda da classe operária, foi essa vivência que me ensinou. Eu não me abstraía, eu agarrava tudo. E a vida do Bairro Alto também me ensinou. Casei com vinte e dois anos e ensinei a mulher, que tinha vinte e quatro, a pôr uma fralda, pela experiência que tive no Bairro Alto.”[5]
“A vida obrigou-me a ir para a luta”, confirma.
Abílio chegou aos setenta anos com a dignidade e candura dos sábios.
Associativista, ex-presidente da mesa da Assembleia Geral do Grupo Excursionista “Vai Tú”, da Bica e participativo, nas noites de fado das colectividades e da “Tasca do Careca”, continua a vender peixe ao lado da sua terceira mulher, no mercado de Campo de Ourique.
O sorriso, talvez o tenha trazido de longe, das mil andanças, e como os pescadores de pérolas, deslindando tesouros no fundo do oceano, assim desanuvia rosto e gestos…
Quando canta, cerra os olhos e a voz, rouca, desenha pegadas sofridas, ou celebra patuscadas bem regadas.
O quotidiano de um mareante tem altos e baixos, como as ondas do Mar. A vida de um poeta não é menos contrastante…
Os seus versos essenciais e profundos alojam o ferrete de diversas etapas da caminhada, adversas. E um ou outro instante de júbilo.
Por vontade de Mestre Abílio passam a ser património de todos. A sua fruição em livro é a melhor homenagem que podemos fazer a este homem - acompanhando-o nos passos que a existência lhe impôs.
Libertemo-lo do peso de um destino áspero, pois o afecto pode ser lenitivo, atiçando sílabas de contentamento.
Bem hajas, Poeta, pelo teu exemplo partilhado, por esta vontade de soltar a alma, que te fez transcender as amarras que apertam o barco ao cais, o marinheiro ao fadário e o sonho à ousadia de voar.
Lisboa, 14-17 e 25-1-2008, 
Luís Filipe Maçarico

segunda-feira, junho 30, 2014

Viva Raja Litiwinoff!

Raja Litiwinoff é uma amiga muito especial. Nos anos 60, os pais - oriundos da Alemanha e da Rússia - conheceram Portugal. Aqui cresceu. Daqui partiu, para cooperar, em diversos países lusófonos, como Moçambique, Cabo Verde e Brasil. Mas também esteve no Mali. Isto depois de ter trabalhado na Pedreira dos Húngaros, ou de ter coordenado projectos, ligados aos Jogos e aos Contos, no âmbito da educação.

 Na sua tese "Inquietação, memória e afirmação no batuque: música e dança cabo-verdiana em Portugal"  apresentada à Universidade de Aveiro, em 2012, Jorge Manuel de Mansilha Castro Ribeiro dedica-a, entre familiares e amigos, " À Raja Litwinoff que me abriu as primeiras janelas da vida cabo - verdiana em Portugal." Creio que este exemplo diz bem, da importância desta mulher na promoção das culturas lusófonas.

Raja Litiwinoff foi a tradutora, com Rodrigo Dias, dos versos, em francês, do livro "Os Pastores do Sol". Espalhou esse livro pelos países onde viveu.
E recentemente, Porosidade Etérea acedeu também, através da fraterna Raja, aos primeiros poemas que editei, em 1995, sobre a Tunísia.
Confraternizámos ontem, na Casa do Alentejo. Bem Hajas, querida Raja!

sexta-feira, junho 27, 2014

Quando Alguns Pretendem Ensinar o Povo a Respirar...


Surgem regularmente novas associações em Portugal. O que é de saudar.
Uma parte, aparece para desempenhar o papel de um Estado, cada vez mais demissionário, no apoio à formação integral dos jovens. 
Outros decidem protagonizar acções, no âmbito da salvaguarda do património, o que é igualmente de aplaudir, pois apesar de ter fundado várias associações deste tipo, na primeira década deste novo século, costumo dizer com convicção, que há sempre lugar para este exercício de cidadania e que são bem vindas novas propostas, num país que enferma dos custos da globalização e onde só para dar um exemplo, as portas de madeira vão desaparecendo, com os utensílios inerentes, de comunicação... substituídas, nos centros históricos, por inestéticas portas de alumínio, de todos os feitios e cores, com total desrespeito pelo que de genuíno ainda havia para mostrar aos visitantes estrangeiros e nacionais.
Todavia não consigo aceitar os grupos de pseudo sapientes, geralmente arrogantes, que têm por objectivo "ensinar o povo a respirar".
Ainda não há muito tempo, nasceu uma coisa assim, ligada a propósitos elitistas, cuja propaganda tem mais a ver com a divulgação de cursos de cariz universitário, onde pontificam uns seres cinzentóides, servindo-se do património, como pretexto, para aparecerem na capa de revista e nuns artiguelhos, em jornais, tendo por esta via, os seus cinco minutos de glória.
De facto, assistimos a uma acção, em que o património imaterial foi o lema, e onde os tais "iluminados" recorreram a investigadores, que há catorze anos, na apresentação de uma associação similar, falaram da actividade que desenvolvem no Alentejo, aos mais diversos níveis e com a categoria de um trabalho exemplar, à escala humana.
A nóvel (velha em intentos) associação, que produziu o encore, com o respectivo apoio municipal (serão os autarcas, ex-alunos de suas excelências, ou dedicadas figuras de uma famigerada sociedade secreta?) e depois da passeata, replicada por diversos concelhos, de norte a sul, onde foram escolhendo vips e vetando uns quantos, está de cátedra em Lisboa, tendo deixado no terreno alguns delegados, para informarem sobre atentados patrimoniais, para se produzir o alarme mediático, quando for oportuno.
Apetece citar Almada Negreiros, na "Cena do Ódio": "
"(...) A pátria onde Camões morreu de fome 
e onde todos enchem a barriga de Camões!" 
 
...Assim é com o maravilhoso património imaterial, panaceia para alguns oportunos senhores descobrirem a pólvora...

Luís Filipe Maçarico
(Texto e fotografias)



quarta-feira, junho 11, 2014

A Mesma Cartilha...

Oiço na rádio que as actividades ILEGAIS passam a entrar no PIB.
Ou seja: a Droga, o Contrabando e a Prostituição...
Pergunto-me: De onde vem esta "criatividade"? 
Repugnante, um sistema assim, de esvaziamento dos valores...

Leio no "Público", que no Iraque, os Jihadistas dominam uma província, e que no Afeganistão, os Talibans somam e seguem....
Pergunto-me, como se fosse ingénuo: Para que serviram então as invasões, em nome "da Paz e dos direitos humanos", que os americanos empreenderam? 
E não preciso de dar outros exemplos, como é o caso do caos, na Líbia...

De forma similar, ao que se passa na Europa, empobrecer, enfraquecer, vampirizar nações, com interesse geo-estratégico ou produtores de bens, que cobiçam, ou ainda neutralizar culturas, povos e patrimónios, que anseiam submeter aos seus ditâmes, à way of life, que desejam exportar, até o mundo ficar todo formatado e sem identidades locais, num sufoco de globalização esmagante, americanos e alemães vão tecendo a sua teia....

Os Obamas e as Merkeles deste planeta inspiram-se na mesma cartilha....

LFM (texto e foto)



sexta-feira, junho 06, 2014

"Tierra Alantre", o Novo Trabalho da Ronda dos Quatro Caminhos: Oxigénio Purificador na Língua do Encontro


Na história do Teatro Nacional de São Carlos, como no percurso da Ronda dos Quatro Caminhos, o dia 22 de Maio de 2014 é histórico. 
Intenso, foi o concerto deste grupo, que está sobejamente de parabéns. 

Quem acompanha a caminhada de António Prata e seus pares, no território do Património da Música Tradicional, fica extasiado com o rigor das recolhas, a criatividade das orquestrações, o desempenho dos músicos e a qualidade da voz do solista.

Depois do prazer do concerto ao vivo, tive o ensejo de escutar, numa boa aparelhagem o disco que surge, após "Terra de Abrigo" e "Sulitânia", trabalhos que ficaram na lembrança e que ofereci aos amigos, nos seus aniversários. E é como se fruíssemos frutos silvestres, revestindo de novo os campos, carnudas cerejas, gostosas castanhas, prodigiosos medronhos, que renovam o sangue, oxigénio purificador exalado por rosas, jasmins, madressilvas, entre serras e rios, nas vozes enluaradas do povo, música da terra, permitindo o voo, nas asas da mais perfeita beleza. Ternura tecida por violinos, pela sanfona e o realejo, a par do adufe e da concertina. São amores e sabedorias, partilhados numa língua de encontro. Os povos aproximam-se, esbatem-se as fronteiras e prova-se o sabor da paz.
"Mergulhar até à raiz onde se alimenta a dignidade de um povo, trazê-la depois até à superfície, onde possa florir em todo o esplendor de sons e de palavras que cristalizaram a magia do tempo longo e eternizaram momentos de uma vida que só por milagre chegou até nós, eis o desafio que a Ronda dos Quatro Caminhos nos propõe.
A Tierra por onde encaminham os nossos passos Alantre, leva-nos ao encontro de uma gente que, nas asas do seu canto e das suas línguas – o galego / português e o mirandês / astur-leonês - nos dá o melhor de si mesma, na ronda por caminhos que a história calcetou com sucessivas camadas de um saber que nos foi fazendo quem somos, onde a grande música espreita à esquina dos mais simples gestos e nos chega por caminhos que mal parecem sustentar a espessura dos passos, saber depurado, força e senhas de não desistência.
Quem se lembraria de assentar a Orquestra Sinfónica Portuguesa sobre uma ponte, onde mais forte é o eco da corrente, de dilatar a voz das lavadeiras da ribeira com o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, de acompanhar os rebanhos transumantes serra acima, pelas canadas onde os pastores superam os reis em coragem e sabedoria, de despertar adormecidas magias ou, tão só, lembrar-nos que os pobres continuam a bater às portas em busca de pão e de rumo na sua caminhada e que os mistérios são um poial onde devemos continuar a assentar a nossa busca de sentido no alto mar da vida, pela dignidade do trabalho, deixando-nos a música erguida como pilar de resistência e como bálsamo a afiada faca das palavras?
A viagem a que nos convidam, tierra alantre, atravessa as Terras de Miranda, volteia por terras de Trás-os-Montes, abraça o Minho e as terras galaicas. Sempre a terra firme a cimentar um contínuo cultural e a sustentar as asas do convite a uma visita diferente, quer nos caminhos a percorrer quer no jeito de lhe entregar os passos, pois foi a terra que fez as gentes e por elas foi conformada, numa geografia que só nas culturais curvas de nível abre as janelas onde deixa assomar a sua alma.
Já no seu nome, a Ronda dos Quatro Caminhos remete-nos para as encruzilhadas, esses locais onde a energia se concentra e aflora à superfície como mistério a respeitar. O número quatro acolhe também a ideia de totalidade, que pretendem abarcar e está bem presente no título este seu trabalho.
Quando ouvires estas melodias, caminha dentro delas, pois dizem aquela que é a tua gente e contam a tua própria história, inserida na caminhada colectiva que vamos fazendo para nos erguermos e mantermos dignos e humanos.
As canções seleccionadas são apenas picos de uma cordilheira de sons e de vidas que, à medida que os conquistamos, sempre outros picos encobrem, num convite à descoberta de um legado que, sendo embora da humanidade, apenas se deixa conquistar numa renovação constante,porque só assim se pode erguer como bandeira deste tempo que é o nosso."

25 de abril de 2014


*Amadeu Ferreira – Escritor, poeta, ensaísta, historiador, tradutor e dinamizador do mirandês, e das tradições das Terras de Miranda.

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TIERRA ALANTRE POR AMADEU FERREIRA*

"Mergulhar até à raiz onde se alimenta a dignidade de um povo, trazê-la depois até à superfície, onde possa florir em todo o esplendor de sons e de palavras que cristalizaram a magia do tempo longo e eternizaram momentos de uma vida que só por milagre chegou até nós, eis o desafio que a Ronda dos Quatro Caminhos nos propõe.
A Tierra por onde encaminham os nossos passos Alantre, leva-nos ao encontro de uma gente que, nas asas do seu canto e das suas línguas – o galego / português e o mirandês / astur-leonês - nos dá o melhor de si mesma, na ronda por caminhos que a história calcetou com sucessivas camadas de um saber que nos foi fazendo quem somos, onde a grande música espreita à esquina dos mais simples gestos e nos chega por caminhos que mal parecem sustentar a espessura dos passos, saber depurado, força e senhas de não desistência.
Quem se lembraria de assentar a Orquestra Sinfónica Portuguesa sobre uma ponte, onde mais forte é o eco da corrente, de dilatar a voz das lavadeiras da ribeira com o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, de acompanhar os rebanhos transumantes serra acima, pelas canadas onde os pastores superam os reis em coragem e sabedoria, de despertar adormecidas magias ou, tão só, lembrar-nos que os pobres continuam a bater às portas em busca de pão e de rumo na sua caminhada e que os mistérios são um poial onde devemos continuar a assentar a nossa busca de sentido no alto mar da vida, pela dignidade do trabalho, deixando-nos a música erguida como pilar de resistência e como bálsamo a afiada faca das palavras?
A viagem a que nos convidam, tierra alantre, atravessa as Terras de Miranda, volteia por terras de Trás-os-Montes, abraça o Minho e as terras galaicas. Sempre a terra firme a cimentar um contínuo cultural e a sustentar as asas do convite a uma visita diferente, quer nos caminhos a percorrer quer no jeito de lhe entregar os passos, pois foi a terra que fez as gentes e por elas foi conformada, numa geografia que só nas culturais curvas de nível abre as janelas onde deixa assomar a sua alma.
Já no seu nome, a Ronda dos Quatro Caminhos remete-nos para as encruzilhadas, esses locais onde a energia se concentra e aflora à superfície como mistério a respeitar. O número quatro acolhe também a ideia de totalidade, que pretendem abarcar e está bem presente no título este seu trabalho.
Quando ouvires estas melodias, caminha dentro delas, pois dizem aquela que é a tua gente e contam a tua própria história, inserida na caminhada colectiva que vamos fazendo para nos erguermos e mantermos dignos e humanos.
As canções seleccionadas são apenas picos de uma cordilheira de sons e de vidas que, à medida que os conquistamos, sempre outros picos encobrem, num convite à descoberta de um legado que, sendo embora da humanidade, apenas se deixa conquistar numa renovação constante,porque só assim se pode erguer como bandeira deste tempo que é o nosso."

25 de abril de 2014


*Amadeu Ferreira – Escritor, poeta, ensaísta, historiador, tradutor e dinamizador do mirandês, e das tradições das Terras de Miranda.

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Quando ouvires estas melodias, caminha dentro delas, pois dizem aquela que é a tua gente e contam a tua própria história, inserida na caminhada colectiva que vamos fazendo para nos erguermos e mantermos dignos e humanos.
As canções seleccionadas são apenas picos de uma cordilheira de sons e de vidas que, à medida que os conquistamos, sempre outros picos encobrem, num convite à descoberta de um legado que, sendo embora da humanidade, apenas se deixa conquistar numa renovação constante,porque só assim se pode erguer como bandeira deste tempo que é o nosso." - See more at: http://ww1.rtp.pt/antena1/index.php?t=Disco-A1-Ronda-dos-Quatro-Caminhos-Tierra-Alantre.rtp&article=7735&visual=10&tm=2&headline=14#sthash.ZfdIclBn.dpuf
TIERRA ALANTRE POR AMADEU FERREIRA*

"Mergulhar até à raiz onde se alimenta a dignidade de um povo, trazê-la depois até à superfície, onde possa florir em todo o esplendor de sons e de palavras que cristalizaram a magia do tempo longo e eternizaram momentos de uma vida que só por milagre chegou até nós, eis o desafio que a Ronda dos Quatro Caminhos nos propõe.
A Tierra por onde encaminham os nossos passos Alantre, leva-nos ao encontro de uma gente que, nas asas do seu canto e das suas línguas – o galego / português e o mirandês / astur-leonês - nos dá o melhor de si mesma, na ronda por caminhos que a história calcetou com sucessivas camadas de um saber que nos foi fazendo quem somos, onde a grande música espreita à esquina dos mais simples gestos e nos chega por caminhos que mal parecem sustentar a espessura dos passos, saber depurado, força e senhas de não desistência.
Quem se lembraria de assentar a Orquestra Sinfónica Portuguesa sobre uma ponte, onde mais forte é o eco da corrente, de dilatar a voz das lavadeiras da ribeira com o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, de acompanhar os rebanhos transumantes serra acima, pelas canadas onde os pastores superam os reis em coragem e sabedoria, de despertar adormecidas magias ou, tão só, lembrar-nos que os pobres continuam a bater às portas em busca de pão e de rumo na sua caminhada e que os mistérios são um poial onde devemos continuar a assentar a nossa busca de sentido no alto mar da vida, pela dignidade do trabalho, deixando-nos a música erguida como pilar de resistência e como bálsamo a afiada faca das palavras?
A viagem a que nos convidam, tierra alantre, atravessa as Terras de Miranda, volteia por terras de Trás-os-Montes, abraça o Minho e as terras galaicas. Sempre a terra firme a cimentar um contínuo cultural e a sustentar as asas do convite a uma visita diferente, quer nos caminhos a percorrer quer no jeito de lhe entregar os passos, pois foi a terra que fez as gentes e por elas foi conformada, numa geografia que só nas culturais curvas de nível abre as janelas onde deixa assomar a sua alma.
Já no seu nome, a Ronda dos Quatro Caminhos remete-nos para as encruzilhadas, esses locais onde a energia se concentra e aflora à superfície como mistério a respeitar. O número quatro acolhe também a ideia de totalidade, que pretendem abarcar e está bem presente no título este seu trabalho.
Quando ouvires estas melodias, caminha dentro delas, pois dizem aquela que é a tua gente e contam a tua própria história, inserida na caminhada colectiva que vamos fazendo para nos erguermos e mantermos dignos e humanos.
As canções seleccionadas são apenas picos de uma cordilheira de sons e de vidas que, à medida que os conquistamos, sempre outros picos encobrem, num convite à descoberta de um legado que, sendo embora da humanidade, apenas se deixa conquistar numa renovação constante,porque só assim se pode erguer como bandeira deste tempo que é o nosso."

25 de abril de 2014


*Amadeu Ferreira – Escritor, poeta, ensaísta, historiador, tradutor e dinamizador do mirandês, e das tradições das Terras de Miranda.

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Os membros da Ronda transcendem, como é o caso de João Pedro Oliveira, com interpretações soberbas, acompanhado pelo savoir faire do Resistente António Prata, pela contagiante alegria do inigualável Carlos Barata, pela bateria fabulosa de Pita Gros, mais o talento de Marinho e pelo excelente pianista Pedro Fragoso. Em São Carlos, como no CD, todos contribuíram para a Poesia de um espectáculo muito belo, envolvendo centena e meia de intervenientes, que se repetirá pelo país. Assim o queiram autarquias e mecenas, que farão muito pela cultura nacional se apoiarem o grupo e a sua mais recente criação.
Naquela noite de final de Maio saímos da vetusta sala de São Carlos, com a alma lavada, por o património luso, da música tradicional, ligada à oralidade, ter estado tão bem entregue... É nestes momentos que nos comovemos por sermos daqui e haver gente tão maravilhosa, que insiste em celebrar o que temos de melhor. Que faz disso caminho. Em frente.
Entretanto, antes e depois, o prazer de reencontrar amigos, como o poeta Ruy Ventura, Francisco Duarte, presidente do município de Castro Verde, Luis Garcia, um homem fraterno, que tem a cultura como farol do seu percurso de animador, o autarca de Évora, Carlos Pinto de Sá, a responsável regional da Cultura do Alentejo, Ana Paula Amendoeira, Maria Adelaide Ferreira, Natércia Duarte, Jorge Cabral, Pedro da Mata, Maria Do Céu Ramos, Rosa Calado, etc. 
Todos entusiasmados, porque esta música, estes sons e estas gargantas, trouxeram a essência do quotidiano e da memória, a uma das salas mais importantes do país.
Já na rua, os Cantadores da Aldeia Nova de São Bento lembraram algumas modas, antes de entrar no autocarro, que os levaria de regresso ao Alentejo. Um obrigado especial a Luis Castanheira, pela sua gentileza e uma vez fora do palco, comentando o quanto nos agradou esta noite tão especial.
Luís Filipe Maçarico (fotografias e texto)