"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, outubro 17, 2006

Constância, a Bela


Constância é um oásis. O património merece olhar atento. A par da pedra dos edifícios comuns e dos monumentos, existe uma natureza digna de se fruir: junto ao Zêzere e antes da junção deste rio com o Tejo, podemos apreciar uma vegetação cariciosa que parece aguardar a nossa passagem para nos encantar...
L.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Na Fonte Filipe em Querença


Esta imagem foi recolhida na Fonte Filipe de Querença na passada quinta-feira. A Antropóloga Sónia Tomé em pleno trabalho de campo mostra como se retira água da fonte através da bomba volante.
Aquela investigadora está a estudar as Fontes de Querença e tive muito prazer em acompanhá-la nessa descoberta de um património tão repleto de estórias e simbologia.
L.

domingo, outubro 15, 2006

Homenagem a Adriano Correia de Oliveira


As férias que idealizei para Outubro deste ano foram integralmente gozadas entre Odeceixe e Loulé. Primeiro, a percorrer caminhos de aromas e silêncio entre a vila onde o Alentejo acaba e o Algarve começa e a praia. Dias felizes em boa companhia. Obrigado São, Ana e Cláudio!
Depois, participando num aliciante trabalho de campo, identificando as fontes de Querença ao lado da colega antropóloga Sónia Guerreiro Tomé.
O mar de Outubro foi uma vez mais bálsamo e regenerou-me. As fontes constituíram um bom exercício espiritual.
Ontem, participei no Fórum das Casas Regionais, durante o dia, no Fórum Lisboa e à noite no Mercado da Ribeira integrei o grupo de poetas que evocou, ao lado de músicos que interpretaram velhas baladas com renovada beleza musical, a voz inesquecível e o cidadão Adriano Correia de Oliveira. Participaram Paulo Sucena, Jorge Castro e Alexandre Castanheira e o músico Vítor Sarmento, à frente de um elenco de virtuosos da guitarra e do acordéon.
Texto e foto LFM

quinta-feira, setembro 28, 2006

O ÚLTIMO A RIR...


Um dia em Alpedrinha um miúdo veio ter comigo e interpelou-me desta maneira: o senhor faz livros, mas como não vai à televisão não é importante!
Perguntei-lhe se os pais eram importantes para ele. Respondeu-me com incontida frontalidade: claro que são! Prossegui o inquérito: e alguma vez foram à televisão?
Esta conversa vem a propósito de um telefonema, recebido há dias, da minha amiga Ana. "Luís, já és uma pessoa importante, até aqui era só aplausos e unanimidade, agora passaste a ser criticado... és importante!"
A questão da importância que nos damos ou que nos atribuem merece reflexão.
A opinião que tenho, acerca daquilo que os outros pensarão do meu desempenho social, opinião antiga, é a mesma do poeta que foi ter com o Fuhrer, segundo um texto de Brecht, e pediu que lhe queimassem os livros para não ser comparado com aqueles que perante a ignomínia assobiam para o lado. Escrevi há anos que "pago o preço" por ter uma intervenção na Sociedade deste tempo em que respiro e sonho.
Há muitos anos que me envolvo nas questões associativas, políticas e culturais. Publiquei quinze livros de poesia, mais seis com temática diversa onde se aborda o associativismo comunitário, as colectividades, e ainda uma biografia, uma investigação sobre o contrabando e conto, além de sete títulos de literatura infantil, num total de 28 publicações (7x4) ... não contando com as quinze antologias, organizadas e editadas por entidades credíveis e respeitáveis, onde as minhas palavras assinalam um olhar genuíno sobre o mundo.
São inúmeros os artigos, da crónica ao ensaio académico, os milhares de poemas dispersos em jornais e revistas de norte a sul, inclusivé em periódicos estrangeiros. As sessões de animação de leitura para crianças e jovens (interrompidas pelo Mestrado) são mais de 120.
Mesmo que tudo isto possa ser beliscado pela incompreensão de um país que hostiliza quem trabalha, protegendo o parasitarismo - embora a discursata oficial ataque tudo e todos, metendo o zelo e a incompetência no mesmo saco - tenho orgulho no que sou. Gosto de mim, coisa que nem toda a gente sabe ser. E isso, com a imensa solidariedade dos amigos, me basta para continuarem a ter de levar comigo. Não se livram de mim tão cedo, se depender da minha vontade. Estou cá para ver a queda dos títeres, dos pseudos, dos tiranos, dos que não valem nada e estão convencidos do contrário, dos que julgam os outros vivendo com telhados de plástico. O último a rir...
Fotografia de Jorge Cabral

terça-feira, setembro 26, 2006

JORGE RUA DE CARVALHO: O HOMEM PÁSSARO QUE VIVERÁ PARA LÁ DA VIDA


"É para mim um extraordinário privilégio apresentar Jorge Rua de Carvalho, este ser multifacetado cujo percurso comecei a seguir de perto há doze anos.
“Retalhos da Vida Saloia” é o quarto livro deste autor com quem convivi na I Festa das Colectividades, na Arruda dos Vinhos e Alpedrinha, quando nessas terras representou os Pregões de Lisboa, e nesta última tive o prazer de estar ao seu lado dizendo poemas, nomeadamente na Capela do Leão, onde o Jorge foi inexcedível e arrebatou a plateia que o aplaudiu de pé.
Acompanhei Jorge Rua de Carvalho nas suas exposições por escolas, associações e bibliotecas.
Escutei com atenção o testemunho da sua experiência, tive a honra de representar ao seu lado e escrevinhei uns textos para sketchs que ele apurou.
Um homem assim é da nossa família.
Por isso, queremos que viva muito, porque com ele aprendemos sempre!

Jorge Rua de Carvalho é um herói.
Fez do quotidiano um espaço mágico de convivência, vencendo a doença e a solidão, que costumam ensombrar a existência dos mais velhos.
Jorge rejuvenesceu nas páginas onde revisita a infância.
Respirou o oxigénio das palavras, para enfrentar os sobressaltos da vida.
E não pára de sonhar!
Solidário, pertence ainda ao Conselho Fiscal dos “Combatentes”, há um ano e meio fundou a “Aldraba” e aceitou o desafio de escrever um novo livro para partilhar as suas memórias do Associativismo.
Tenho-o seguido nos últimos tempos pelas ruas de Lisboa, nos miradouros e eléctricos, percebendo o quanto a cidade significa num imaginário que repovoou de saloios e pregões.
Para lá das sílabas, escreveu poesia na madeira, produzindo uma exposição magnífica sobre pregões que sucedeu a uma primeira, idealizada para imortalizar as recordações das brincadeiras da infância.
No fim de semana de 7 e 8 de Outubro, Jorge Rua de Carvalho irá ao Festival do Chícharo, em Alvaiázere, para apresentar as duas centenas de bonecos que criou com carinho de pai.
Como Geppetto idealizou dar forma à madeira, esculpindo figuras às quais se afeiçoou de tal maneira que me parece fazer todo o sentido criar um Museu com estes trabalhos que contam a história da cidade dos humildes e laboriosos, da criatividade dos simples.
Todavia, ao contrário de Pinóquio, os bonecos de Jorge Rua de carvalho falam a linguagem da verdade. São património e identidade. Espelhos da memória que iluminam o silêncio.

O livro, após as notas biográficas e o prefácio percorre umas saloiadas soltas onde se caracteriza a figura do saloio – gente sã, alimentadores de Lisboa, que levam o grão ao moinho, amanham a horta, trabalhadores do campo de sol a sol, vendendo depois o produto do seu trabalho para sustento da família mas que ainda têm tempo para se divertir nas feiras e romarias.
As primeiras férias introduzem o tema: Jorge tem dez anos, acabou de fazer o exame da quarta classe e o pai polícia, “orgulhoso de mim, ou talvez arrependido das sovas que me dera, resolveu recompensar-me” (pág. 21)
É assim que o miúdo é metido num comboio a caminho de Sobral da Lourinhã.
A partir daí, as descrições são uma delícia e o livro desenrola-se como um filme em que reconhecemos personagens que pertencem ao nosso imaginário, que o cinema português retratou, e tudo à nossa volta exaltava: o mundo rural povoado de gente laboriosa e humilde, com a sua cultura, a sua sabedoria, que constituía então a maioria da população.
Não admira que no epílogo Jorge escreva “sem dar pelo tempo passar, continuo à janela, com a cabeça entre as mãos, meditando, esperando, sem eu próprio saber por quem ou porquê” (p.72)
É natural num tempo tão diferente ter saudades e recordações dos dias felizes “cantinho delicioso do paraíso” (p.72)
Na página 24 do livro Jorge descreve assim a sua chegada:
“Olhei em volta, deslumbrado com a beleza dos fascinantes e variados tons verdes do arvoredo, das vinhas e das hortas, contrastando com as bandeirinhas dourados dos campos de milho que cercavam a brancura das casas do povoado.”
Senhor de uma escrita sem artifícios muito visual, colorida, próxima da oralidade, Jorge Rua conseguiu escrever um grande livro juntando os fragmentos da memória e do esquecimento, onde procura o rigor dos factos e cenários, embora nesse esforço de reconstituição dos acontecimentos, o factor efabulação acabe por condimentar os diversos takes do enredo, moldando as falésias da memória com a sedimentação das vagas e ventos do olvido para citar Marc Augé.
O livro prossegue com a apresentação da casa dos tios, seguimos os protagonistas nas idas à horta, ao moinho, à feira, saboreando uma narrativa riquíssima de sequências fílmicas recheadas de vocábulos e ritmos envolventes.
A matança do porco, a desfolhada, os saloios na cidade e a descrição de uma teimosia do “Pataco” (burro é sempre casmurro”) são outros capítulos que se lêem com bastante agrado.
Maria José Lascas Fernandes, mulher de uma escrita poética marcante foi a ilustradora, que soube transmitir com mestria e puerilidade as ambiências do livro.

Todos nós tivemos uma aventura assim numa qualquer terra onde havia um tio, uma prima, uma avó, frutos, arvoredo, festas, silêncios, lendas e a magia da infância.
Se não tivemos, ouvimos falar ou lemos.

Este livro evoca a nostalgia do lugar a que pertencemos. E este homem é o resultado do que podemos ser quando sonhamos. Cada livro seu é um capítulo do romance da sua existência fantástica.
Jorge Pássaro, Jorge Sempre Menino, Jorge Amigo, Jorge Irmão, Jorge Eterno.
Prometo-te que viverás para lá da vida, no nosso coração, na nossa memória, nos nossos textos, no amor fraterno que dedicamos aos nossos Maiores.
Obrigado por tudo o que continuas a dar-nos, com tanta qualidade e carinho.
Bem Hajas pelo exemplo da tua Vida!

Lisboa, 23-9-2006

LUÍS FILIPE MAÇARICO

Foto de LFM: Jorge Rua de Carvalho durante a homenagem nos "Combatentes".

segunda-feira, setembro 25, 2006

Jorge: A Festa, o Documentário e o Livro

Sábado passado a festa de homenagem a Jorge Rua de Carvalho foi um grande momento nas nossas vidas.
Pena é que não consiga postar imagens, o computador há algumas semanas que se recusa a funcionar bem.
Como informar é preciso, cumpre dizer que durante o encontro o autarca de Santa Isabel anunciou estar previsto chamar a uma sala da Junta de Freguesia Sala Jorge Rua de Carvalho, que foi a grande notícia da festa.
A Aldraba esteve presente, bem como o grupo de pregões de Lisboa. Fernando Duarte apresentou um excerto do documentário que está a realizar com Fernando Amaral. A sequência de imagens cativou de tal modo o público presente que foi brindada com uma sonora e prolongada salva de palmas. E o livro "Retalhos da Vida Saloia" foi recebido com agrado.
Parabéns à colectividade GDE "Os Combatentes" e às Juntas de Freguesia dos Prazeres e de Santa Isabel pela organização e patrocínio do evento.

terça-feira, setembro 19, 2006

Viva Alpedrinha!

CHEGADO AQUI, OU COMO ALPEDRINHA É NOVELO DE AFECTOS*

A primeira vez que visitei Alpedrinha, vim de comboio, esse mítico comboio da Beira Baixa, que ziguezagueia, perseguindo o Tejo, numa carruagem com compartimentos, que permitia abrir a janela e desfrutar de um convívio com pessoas da região, propiciado pela alegria da juventude, num tempo de mais esperança.
Foi de comboio que viajei algumas vezes com o pintor José Barata Moura e sua esposa Adriana Rodrigues. Ao lado daquele casal maravilhoso o tempo voava, falávamos de coisas empolgantes, enquanto em redor, os idosos se queixavam de tromboses, assaltos, idas a Lisboa aos hospitais, desfolhando maleitas, suspirando lamentos.
Foram centenas de viagens a emocionar-me com alvoradas e crepúsculos, repudiando incêndios que amputaram paisagens, inundações calamitosas, suportando chuvas e gelos implacáveis, sóis de lume…escrevendo poemas, projectos, artigos, descobrindo ou revisitando versos do poeta da Póvoa de Atalaia.

Devo ao Carlos Fatela e à Fernanda Neto a descoberta deste esplendor e ao Estáquio, ao Tomás, ao Atanásio, ao Manuel e outros, o regozijo de ter sido integrado num grupo de moços da minha idade, que, de casa em casa, nesse distante Dezembro de 1979 cantou as Janeiras, com viola e pandeireta e as vozes acesas que a bela jeropiga afinava.

Tive a sorte de encontrar ainda algumas tradições como o Santoro e o Madeiro, descritas por António Salvado Motta, na sua Monografia e por Jaime Lopes Dias na Etnografia da Beira. E a satisfação de conhecer o avô Barnabé, narrando fábulas para os bisnetos, de olhos arregalados, à volta da lareira. Escutei com gosto as explicações de Mestre Mário Brás na oficina Museu dos Embutidos, agora silenciosa. Assisti à Gota de Mel, de Leon Chancerel, dinamizada no antigo Cepa, pelo senhor Guerra. Deslumbrei-me com a sabedoria de Clara Nabais, com as canções que inventava, as lendas que compartia. Em sua casa experimentei sensações inesquecíveis, nomeadamente a comoção de encontrar em pleno século XX alguém que sendo contemporânea, possuía características de personagens de Júlio Dinis ou de Camilo Castelo Branco.

Foi na sua pensão que reencontrei Eugénio de Andrade. De quem ela costumava dizer que tinha andado em pequeno ao seu colo. A quem me obrigou a escrever, julgando que o autógrafo do autor de “Branco no Branco,”num exemplar comprado na Feira do Livro era sintoma de alguma proximidade.
Não esqueço as palavras que o poeta dirigiu a Fernando Paulouro Neves, que o entrevistava, quando abri a porta, a meio de uma tarde estival de frutos refrescantes que salpicavam a mesa da conversa: “Este rapaz também faz versos!”
Correspondemo-nos a partir de Alpedrinha. Quase até se despedir deste mundo, por onde passou de forma obstinada, despojado da ilusão temporal que embriaga os incautos. Era sábio. Assim o conheci desde estes lugares, que partilhou nos seus livros. Campos da Póvoa, que prolongam o Alentejo. Chão onde colheu a luz, a terra, a água, o ar, elementos essenciais da sua obra.

Acompanhei alguns amigos desta vila ao altar e ao sepulcro.
Na matriz, durante a Páscoa de 1989, a professora Monia transportou-me para o ambiente fantástico da Salzburgo de Wolfgang Amadeus Mozart, tangendo um órgão de tubos que é um dos tesouros de Alpedrinha. Na varanda da Casa do Barreiro saboreei o sublime hálito da tranquilidade, escutando as palavras encantadoras e avisadas de dona Francisca Cabral. E como esquecer as manhãs de segunda-feira a deliciar-me com uma canjinha dos deuses, no mercado do Fundão, num tascório que desapareceu ou com pataniscas no pão, acompanhadas por um tentador Alcambar, na baiuca da Estação?
Impossível limpar da memória a noite em que fui com um grupo de jovens, ajudar a apagar fogos. Não olvido o dia em que o chão da vila foi manto de cinzas…

À terra mágica trouxe gente de Leiria, do Alentejo, de Trás-os-Montes, de Lisboa. Da terra mágica partimos sempre mais enriquecidos.
Com a gastronomia apurada, a fruição de um património surpreendente, a tradição e o saber fazer singulares, evidenciados por amáveis bibliotecas vivas.
Com a informação da Liga dos Amigos, onde dirigentes diversos divulgaram textos de minha autoria, nomeadamente intervenções a favor das casas de granito, cuja beleza durante um certo período foi escondida pela alvenaria.
Com o usufruto de admiráveis realizações, que revelam a capacidade dos alpetrinienses, quando se unem em torno de projectos, como a inesquecível “A Talha” de Pirandello, no Teatro Clube, que revelou actores brilhantes ou o fascinante desafio que é a popular Festa dos Chocalhos, animando as ruas da estupenda Sintra da Beira.
Com a estima do amigo doutor João Costa - que me levou a Poitiers, através da Escola Profissional do Fundão - para apresentarmos a 2ª edição dos “Pastores do Sol”.
Com a sensibilidade do Eduardo Serra, que em 1989 revelou nas páginas da “folhinha” da Liga muitos dos escritos que configuram este meu décimo quinto livro de poesia.
Com o companheirismo do Francisco Roxo, homem diligente e solidário, que proporcionou a edição de “Vagabundo da Luz” e a consumação deste vosso amigo no cidadão honorário que acolhesteis, diante do Pelourinho, quando em Agosto de 1992, ao som do ditoso coro ficámos “Mais Perto da Terra”.
Com a fraternidade da Paula Silva e do Paulo Grilo, que trouxeram o recheio das gavetas e paredes que habito, para darem a conhecer às gentes da sua terra, a casa do poeta. Paula, prefaciadora de vários livros meus, nomeadamente em “A Celebração da Terra”, patrocinada por autarquias alentejanas e pela delegação regional de cultura e apresentada no Palácio D. Manuel II, em Évora, cidade onde nasci, com uma delegação de alpetrinienses presente.

Ninguém nasce sozinho; tenho consciência que a cadeira, onde me sento, já estava aquecida por grandes homens e mulheres, que viveram antes de mim. Por isso, vale a pena recordar o que aprendemos com Gedeão: “Venho da terra assombrada/do ventre de minha mãe/não pretendo roubar nada/nem fazer mal a ninguém/ Só quero o que me é devido/ por me trazerem aqui/ (…) Venho do fundo do tempo/não tenho tempo a perder (…) Quero eu e a natureza/ que a natureza sou eu/ e as forças da natureza/nunca ninguém as venceu/ Com licença com licença/ que a barca se fez ao mar/ não há poder que me vença/ mesmo morto hei-de passar” Lembro Raul de Carvalho: “Ajuda-me a cumprir a missão do poeta, / (…) Vem, serenidade, / e faz que não fiquemos doentes, só de ver/que a beleza não nasce dia a dia na terra.”

Tenho um percurso, um rosto, uma palavra de honra. E estou grato a Alpedrinha pelo que pudemos partilhar nestes quinze anos de publicações.
Quase todos os meus livros foram apresentados aqui, motivando o apoio voluntário e a simpatia de pessoas como a dona Manuela, a dona Lurdes, a dona Gracinha e de vários dirigentes da colectividade cultural.

Alpedrinha tem sido um novelo de surpresas, que incitou a voltar e me fez sentir em casa., quando visitei a quinta de dona Amélia, quando subi ao cabeço do senhor Mota, quando provei o doce caseiro, o pitéu ou a sopa de sabor antigo confeccionados pelas mãos sabedoras da Maria dos Anjos ou da Maria Luísa.
Contudo, ficaria incompleta esta partilha e até seria ingratidão se não contasse uma outra estória, digna de exaltar, pela generosidade e grandeza de carácter dos seus protagonistas.
Na passada feira da Transumância, um velho amigo, que me ensinou a cantar as Janeiras e outros saberes da terra, José António Atanásio, fez questão de me apresentar ao doutor Manuel Frexes. Confesso que me senti embaraçado, mas ele pegou-me por um braço e levou-me até à presença do autarca.
O senhor presidente da Câmara Municipal do Fundão, quando soube que tinha escrito sobre Alpedrinha, demonstrou um redobrado interesse em conhecer o meu trabalho poético.
Assistindo à conversa, o presidente da junta de freguesia sublinhou que havia um livro a aguardar melhor ocasião, num gabinete municipal, situação que o doutor Frexes desbloqueou, comprometendo-se a publicar a obra, fazendo fé nos testemunhos escutados.
No início da semana seguinte fui informado, a partir da autarquia fundanense, que o esboço do livro estava nas mãos do doutor Manuel Frexes, o que confesso muito me surpreendeu, pois tinha apostado no meu trabalho, sem me conhecer, confiando no que escutara da boca de um colaborador próximo e de um autarca..

Cumpre-me agradecer a aposta que facultou esta reunião. Bem Hajas pelo teu gesto, José António Atanásio! Bem Hajam senhores presidentes Frexes e Roxo, ambos com este xis no apelido, que me recorda o xi coração com que Bual assinava telas para os amigos. Artur Bual, o grande pintor gestualista, que me deu a honra de ter assistido aqui, há catorze anos, com António Salvado e Sampaio Lopes, ao lançamento do meu segundo livro de poesia, inteiramente escrito e dedicado à mágica Gardunha e editado com o meu salário de funcionário público, que fiz questão de oferecer à Liga dos Amigos de Alpedrinha.
Ainda tenho na memória a imagem de uma parte substancial da população, com crianças e jovens a presenciar e a comprar a pagela com os meus versos por um preço acessível.

Oxalá essa nova geração saiba continuar o labor dos que os antecederam para a terra continuar a ser lugar de referência, na Beira Baixa, conquistado pela excelência do património monumental e humano. Brecht escreveu que uma casa à beira de um lago, rodeada de árvores, ganha outra beleza se da sua chaminé sair fumo. Desejo que o calor e a sabedoria da hospitalidade alpetriniense não se evaporem na voragem dos tempos.

Entretanto, não posso esquecer que um dia, um rapaz me disse que a minha poesia o tinha salvo, pois decidira suicidar-se, mas que ao ver um cartaz a anunciar-me, quis saber o que era um poeta. A dedicatória que escrevi mexeu de tal modo com o seu espírito que desistiu dos pensamentos sombrios. Todavia, eu só me apercebi desta situação uns anos depois, quando num dos muitos Natais passados em Alpedrinha, o encontrei. Com uns copinhos a mais, abraçou-me, afirmando que eu era naquele momento a pessoa mais importante e estimada que ele conhecia, pois tinha-lhe salvo a sua vida.

É tempo de terminar, entregando palavras afectuosas de reconhecimento, ao senhor vereador da Cultura doutor Paulo Fernandes, que enquanto estudante me entrevistou para o “Jornal do Fundão”, iniciando-se aí uma fraterna e recíproca admiração, um agradecimento à Marta Barata, à Graça Nogueira e à Maria José Lascas Fernandes, pelo envolvimento com este sonho, finalmente realizado e um abraço fraterno para o doutor João Mendes Rosa, amigo consequente, investigador notável e rigoroso a quem devemos a beleza e as informações adicionais insertas na reedição da Monografia de Alpedrinha, nomeadamente a belíssima biografia de Salvado Motta.

Como no “Principezinho”, de Saint-Exupéry, cativaram-me, são responsáveis por esta festa! Bem Hajam a Todos!

Escrito no comboio da Beira Baixa e em Lisboa,
17 Agosto e Setembro de 2006

LUÍS FILIPE MAÇARICO
* Texto lido durante a apresentação na Capela do Leão, em Alpedrinha, do meu 15º livro de Poesia "AR SERRANO" editado pela Câmara Municipal do Fundão e inserido no V Festival das Rotas da Transumância.