"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, março 16, 2005

CANÇÃO DA ALDRABA


Ó minha casa da serra
sem disfarces de caiado,
Como é do uso da terra
e também do meu agrado!

Telhas em onda quebrada,
meu triste telhado antigo,
paredes terra lavrada
e semeada de trigo.

Eu não tenho que roubar,
nunca fiz mal a ninguém:
nada tenho a recear
como muita gente tem.

Porta do meu coração,
também lá oiço bater...
- mas, ali, só entrarão
um dia, quando eu morrer.

Ó minha porta d'aldraba!
A minha casa é de todos...
Já pouca gente se gaba
desta franqueza de modos.

Aldraba da minha porta,
Meu poema de humildade...
- quantos entram, quantos saem,
sem nos deixarem saudade!

Sai, porém, alguém amado:
Tens um som dorido e fundo.
Então devias pesar
mais do que o pêso do mundo!

Quem vai prá guerra ou pró mar
há-de erguer-te na saída:
és a última a falar
na hora da despedida.

Ceguinha, sempre vigias,
mas não conheces ninguém,
e sem diferença anuncias
má gente e gente de bem.

Tiveste berço na forja
dum desgraçado ferreiro;
criou-te ao calor das brasas;
cobre-te a neve em janeiro.

Encontrei-te não sei onde.
já perdida, enferrujada...
Vieste viver comigo
- só te fiz mais desgraçada.

A culpa me seja leve,
hás-de vir a perdoar.
Olha: vestida de neve,
és noiva que vai casar.

Pudesse eu erguer a voz
em teu louvor, algum dia!
- O que nos fazes a nós
coisa alguma pagaria...

E a porta geme com o vento;
pesam as noites escuras...
Então, o teu sofrimento
sobe-te à bôca, murmuras...

Aldraba, gasta, a bater,
cantiga de bom agoiro:
se a Bem-Amada te erguer,
concerto-te a fino oiro!

Branquinho da Fonseca - "Poemas", Coimbra 1926

(Poema recolhido por Luís Amaro e enviado pelo leitor deste blog e amigo Engº Francisco Colaço, Presidente da Junta de Freguesia de Aljustrel a quem agradeço esta preciosidade)
Fotografia da professora Hélia Bernardes, de Alpiarça. Posted by Hello

4 comentários:

augustoM disse...

Do poema que gostei muito, destaquei o seguinte verso,

Ó minha porta d'aldraba!
A minha casa é de todos...
Já pouca gente se gaba
desta franqueza modas

pela falta de hospitalidade que existe hoje em dia.
Um abraço. Augusto

poetando disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
poetando disse...

Adorei o poema
Muito obrigado por nos teres dado a conhecê-lo!!!

Uma DELLI...

ismael disse...

vamos começar a trabalhar nele...