aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

SELMA LAGERLÖOF

Quando eu era adolescente descobri Selma Lagerlöof, escritora sueca, que foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura, no início do século XX.
O livro através do qual acedi a uma escrita marcante e encantatória chama-se "A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia."
Segundo a Wikipédia,  "A autora soube combinar sua experiência pedagógica com seu talento de narradora. Utiliza fantasias sobre o tema do "Mapa da Suécia", de Snoilsky: Olândia é uma borboleta petrificada de asas arrancadas, Blecíngia uma escada de três degraus, Helsíngia uma folha com nervuras, Estocolmo a cidade que flutua sobre as águas. […] O livro propõe uma lição de moral: a exaltação do trabalho, da boa vontade e da caridade, e passa valores tais como o respeito à natureza, a importância do trabalho em grupo e a integridade. Nils, um menino preguiçoso e desobediente que se diverte em maltratar os animais, num domingo em que os pais haviam ido à igreja, aprisiona um duende e, como castigo, é transformado também em duende. Ao subir nas costas de Mårten, um dos gansos de sua propriedade, a ave resolve, num impulso, seguir os gansos selvagens na primavera, e Nils segue viagem com eles.
Inicialmente assustado, depois mais confiante, atravessa a Suécia nas costas do ganso, participando de várias aventuras no mundo dos animais. Entre essas aventuras conhece os lapões, quase salva uma cidade que só aparece a cada cem anos, e se torna amigo de vários animais.
Sete meses depois, tendo aprendido muito e se tornado uma pessoa melhor, volta à casa de seus pais e à forma humana novamente, mostrando aos poucos que é capaz de sacrificar a própria felicidade à dos outros. "
Recolha de LFM


A Corrupção dos Pequeninos

O jornal "Público", que tinha lido há uma semana (1 de Fevereiro), na Praia da Luz, de Lagos, foi vendido num hipermercado do Fundão, como sendo do dia (8 de Fevereiro), a uma amiga que se deslocou à cidade para me trazer o diário...

A corrupção em Portugal não é apenas na Política, mas também a esse nível, até porque os figurões que são cara dos escândalos que a Comunicação Social divulga, não surgem como a chuva ou os cogumelos. São espelhos de um povo que os escolhe e provavelmente gostava de ser como eles.

Texto e fotografia de LFM

Assembleia Geral da Liga dos Amigos de Alpedrinha e Eleição dos Novos Corpos Sociais

Realizou-se ontem, domingo 9 de Fevereiro de 2020, a Assembleia Geral da Liga dos Amigos de Alpedrinha, 
Foram apresentados, discutidos e aprovados (por unanimidade) os documentos da Direcção e do Conselho Fiscal, designadamente Relatório e Contas de 2019 e Plano de Actividades e Orçamento para 2020. Os Corpos Sociais foram entretanto eleitos, tendo sido reconduzido o elenco anterior.
Os associados presentes apoiaram ainda a constituição de um grupo de trabalho (que integra o Presidente e o Secretário da Mesa - Eduardo Serra e Luís Maçarico, e ainda o Presidente do Conselho Fiscal Francisco Roxo) que vai elaborar um roteiro toponímico, para promover o conhecimento dos visitantes e da população, relativamente aos nomes das ruas desta vila - e freguesia - do concelho do Fundão.
Texto e Fotografias de Luís Filipe Maçarico

sábado, janeiro 18, 2020

As Sucessivas Malfeitorias Letais dos Loucos que desgovernam o Mundo



O tempo dá sempre razão aos poetas, que muitas vezes são profetas.
Quando há mais de uma década me manifestei, contra a invasão do Iraque, fui insultado por um anónimo cobarde, que me acusou de ter uma visão nefasta, por divergir dos delírios dos ditadores pseudo - democráticos, que se perfilaram para a Nova Cruzada, direcionada contra Sadam Hussein, que viria - em nome de malfeitorias letais, nunca provadas - a ser abatido.  
As consequências daquele acto terrorista, promovido pelo Império do Mal e apoiado por lambebotistas, são cada vez mais visíveis.
Chegados à alucinante era Trump constata-se que a irracionalidade continua a dominar os estranhos e bizarros eleitos que conduzem inúmeros países ditos evoluídos.

Quem beneficiou com o ataque dos mortíferos drones, no aeroporto de Bagdad?
Quantos milhões de fanáticos se ergueram, com vontade de vingança? 
Quem nos salva das futuras delinquências dos vários loucos que desgovernam o Mundo? 
LFM (texto e fotografias)

sexta-feira, janeiro 10, 2020

Austrália: A Catástrofe do Capitalismo Suicida.

Não são necessárias explicações rebuscadas para o que é óbvio.
A catástrofe ambiental, humana e animal que ocorre há meses na Austrália é consequência de um capitalismo desvairado que coloca o lucro acima de tudo, mesmo contra os seres vivos, mesmo contra a própria espécie, mesmo contra o habitat - planeta Terra. Suicida.
Na galeria dos terroristas deveriam constar os governantes negacionistas, lacaios dos interesses gigantescos que não olham a meios para obter os fins.
As palavras não conseguem dizer o horror, a profunda dor, a tristeza imensa que sentimos ao ver aquelas imagens, que todos os dias há vários meses nos entram em casa, via meios de comunicação, mostrando a derrota do Homem, prisoneiro de um sistema mortífero. 
Luís Filipe Maçarico
Fotografia (recolhida na Net) de um canguru abraçando quem o salvou da tragédia.

sábado, dezembro 28, 2019

“INTERMITÊNCIAS” NOVO LIVRO DE POESIA DE CRISTINA POMBINHO





Se “um poeta é sempre irmão do vento e da água” como cantou a poetisa brasileira Cecília Meireles, sabemos que “A vida só é possível reinventada.”
A vida vivida, como lembra Sousa Dias, citando Manuel António Pina, é “ficção, esquecimento e memória”.[1]
Sousa Dias diz-nos que a Poesia é “experiência dos limites do dizível, confronto da linguagem com o silêncio.”
Este autor evoca Merleau-Ponty[2], abordando o enigma da sensibilidade na Pintura, enquanto imagem poética é questão ontológica de efeito de realidade.”[3]
Na construção dos seus poemas, Cristina Pombinho domina o jogo metafórico e imagético, inscrevendo a sua escrita na galeria da poesia no feminino, onde encontramos Teresa Horta e Natália Correia, ainda que tempere (com o tom onírico de palavras-imagem) o conteúdo primordial da sua afirmação lírica.
Montserrat Villar González, poetisa galega que conhecemos em Salamanca salienta: “Agarro-me a ti como me agarro à vida/ que através dos teus olhos/ aprendi a olhar”.[4]
E esta escritora acrescenta: “Me quieres, te quiero/ a pesar del dolor que causa la vida cotidiana.”[5]
Os versos, as artes sublimam os dias comuns “transfigurando em luxo o próprio lixo”, como escreveu em Muriel o criador de “Aquele Grande Rio Eufrates” e de “Despeço-me da Terra da Alegria”. Cristina Pombinho supera a banalidade dos dias com a elegância voluptuosa das palavras.[6]

“Para que servem / os poetas em tempo de indigência?” questiona-se Hélia Correia, em “A Terceira Miséria”[7]
“Intermitências” traz-nos uma poesia alicerçada em leituras de Eugénio (“Eu ainda não te falei desta cidade”), Rui Belo (“Esperei por ti…/ tu não vieste,/ nem sei se virás, algum dia!”) Gedeão (“as infinitas partículas subatómicas do quotidiano”), Cristina reflecte igualmente a boa influência de Herberto Hélder e Ramos Rosa, confirmando o que o pintor gestualista Artur Bual disse tantas vezes, ou seja “ninguém nasce sozinho!”
Folheando o livro vislumbramos Freud, que define o artista como alguém que “sabe como trabalhar os seus sonhos acordados de modo a […] que outros partilhem do seu gozo neles.”[8]
Cristina Pombinho escreve que “por dentro dos sonhos é que a vida existe” e Sophia discorre: “Eu busco o rasto de alguém/ que ao meu encontro vai/ no sonho de cada linha.”[9]
Entre o real e o imaginado, “Intermitências” parte sempre da pegada para o voo, com enormes recursos vocabulares, que constroem uma eficaz transmutação do quotidiano.
A linguagem depurada e metafórica, evidencia a qualidade da escrita desta poetisa, por vezes irónica; reparem nestes exemplos “As janelas são os olhos das casas”, “um soluço de tempo”, “Deus embebeda-se e ri alto, razão da existência dos trovões.”
“É preciso falar para inventar/ o jogo dos silêncios”, proclama Maria Alberta Menéres.[10] E Ana Luísa Amaral confessa: “Sou condenada a ver para além deste tempo.”[11]

Com as palavras, Cristina Pombinho urde uma envolvência simbólica, carregada de energia positiva. A utilização de verbos luminosos acentua a vontade de ser, como é o caso de existir, estar, pertencer, respirar, olhar, oferecer, poder, sentir, voar, querer, crescer, caminhar e acreditar.
Temas como “A Mãe” (que belo tríptico dedicado a Clementina Pombinho!) “os gatos”, “os pássaros”, “o amor”, “a ausência”, “o sul”, “o vento”, “a noite”, “a solidão”, “o corpo”, “a metafísica” e “a filosofia”( através de Aristóteles, Heraclito e Parménides), que são filigrana de um tear cósmico, irrompem  nestas páginas, exalando o inebriante perfume da Música.

Ana Rossetti considera que “A poesia é um vendaval de ar puro em nossas existências irrespiráveis”[12]
A autora de “Intermitências” revela “[o] mundo habita em mim/ como um bando de aves em migração.”
Vinte anos depois, a Arte de Mena Brito, pintora de grandes recursos, junta-se às sílabas mágicas de uma poesia singular (“esta espécie de animal faminto que cresce por dentro e que é quase êxtase”.)
“A alma feita luz e os anjos “pescadores de nuvens” desafiam-nos para a leitura desta obra, onde a pedra se torna carne e “ser um pássaro louco […] com mãos em vez de asas” exalta uma liberdade criativa sem limites. Bem Hajas, Cristina por esta significativa partilha que tanto nos enriquece.

18-6-2019
Luís Filipe Maçarico

FOTOGRAFIAS: Da apresentação na Casa do Alentejo em 17-12-2019 - Mário Sousa e Manuel Silva. Das apresentações dos dois livros de Poesia da Autora em Vilarelhos, no Festival Transfronteiriço de Poesia, Arte de Vanguarda e Património, em Meio Rural/ PAN - Julho de 2019 e Julho de 2018 - Rodrigo Dias.



[1] DIAS, Sousa “O que é Poesia?”, Documenta, Lisboa, 2014, p. 44.
[2] Ibidem, pp. 31-32.
[3] Ibidem, p. 33.
[4] GONZÁLEZ, Montserrat Vilar “Vida Incompleta”, Lema de Origem, Carviçais, 2019, p. 23.
[5] GONZÁLEZ, Montserrat Vilar “tierra en mármol y ternura”, Lastura, Ocãna, 2ª edicion, 2015, p. 58.
[6] Esta parte do texto foi acrescentada ao escrito inicial, apresentado em Vilarelhos, no início de Julho, onde a obra teve o seu lançamento inaugural. Redigido em Almada, na madrugada de 17 de Dezembro de 2019, destinou-se à apresentação na Casa do Alentejo, na tarde desse mesmo dia.
[7] CORREIA, Hélia “A Terceira Miséria”, Relógio de Água, Lisboa, 2013, 2ª edição, p.7.
[8] FREUD, Sigmund “Textos Essenciais da Psicanálise”, volume III; Publicações Europa América, Mem Martins, 2001, 2ª edição, p. 147.
[9] ANDERSEN, Sophia de Melo Breyner, “Dia do Mar”, Ática, Lisboa, 1961, p. 86.
[10] MENÈRES, Maria Alberta “O Jogo dos Silêncios”, Hugin, Lisboa, 1996, p. 5.
[11] AMARAL, Ana Luísa “Entre dois rios e outras noites”, Campo de Letras, Porto, 2007, p. 112.
[12] ROSSETTI, Ana “Fuera de Campo”, Associación cultural “El Zurguén”, Morille, Salamanca, 2018, p. 64.

MARIA DE LURDES BRÁS: COSTUREIRA DE ALFAIATE, POETISA E FADISTA “TENHO ORGULHO NAQUILO QUE TENHO FEITO!”*


Maria de Lurdes Brás é uma alentejana do litoral, mais exactamente do concelho de Santiago do Cacém, terra de Poetas como Eduardo Olímpio e Domingos Carvalho, que canta Fado e escreve Poesia.

Costureira de Alfaiate de profissão, quisemos descobrir a sua história de vida, que é bem interessante, pelos obstáculos que superou, pelas alegrias que a voz e a mão, tecendo versos e costurando fatos, lhe foram proporcionando.

Começou por nos contar que nasceu no “Cercal do Alentejo. Na altura era aldeia. Na Rua Velha (é o nome pela qual é conhecida).”

Acerca da infância no Alentejo recordou: “Lembro-me de quando ia para a escola, e era mais pequena, antes de ir para a escola, daquelas ribeiras que tínhamos de atravessar e dos invernos, em que usávamos botas de borracha e havia gelo na estrada que parecia vidro e com as botas partíamos o gelo e dos trabalhos do campo, os meus pais trabalhavam na ceifa, na monda, o meu pai tirava cortiça, fazia limpeza das árvores. E uma coisa interessante: a minha mãe lavava na ribeira e eu pescava.”

Com dez anos veio para Almada. “Ainda fiz aqui a quarta classe”.

Maria de Lurdes conta como - e com quem - aprendeu o ofício:

“Tive uma má professora e perdi o interesse por estudar. O meu pai veio primeiro, a minha mãe mais tarde…

A minha madrinha fazia-me sempre vestidos muito bonitos e eu queria ser costureira como a minha madrinha…Fui trabalhar para alfaiate. No desemprego fiz o 6º ano e tirei um curso de computadores…”

A nossa entrevistada revela como a Poesia surgiu no seu percurso.

“O meu interesse era precisamente por causa do Cante Alentejano. Quando os trabalhadores vinham do campo, faziam cante ao despique e uma palavra a rimar com a outra fez-me mentalizar que aquilo tinha interesse. Nos livros da escola, procurava os versos. A minha musa inspiradora era a Florbela Espanca.”

Lurdes refere também o poeta Afonso Lopes Vieira e acrescenta: “Gostava muito de cantar e a minha mãe não queria…”

E o Fado, como nasceu no seu caminho?

“Quando era miúda, ouvia Fado na rádio. As pessoas associavam o meu nome à Maria de Lurdes Resende. Na minha imaginação ouvia-me a mim, a cantar na rádio.

A minha sensação de me ouvir a primeira vez na rádio é assim um misto de sentimentos.

Como trabalhava no alfaiate, tinha um colega que fazia parte do grupo de Variedades da Incrível [Almadense]. Mandaram-me um postal para ir aos ensaios. A minha mãe rasgou o postal, que foi para o lixo. Em casa, era proibido falar nisso.”

A sua luta para poder cantar em público foi tenaz, persistente. Só conseguiu ultrapassar as proibições depois de se casar. A nossa interlocutora revive o momento decisivo: “Quando casei, fomos passar o fim do ano ao Casino do Alvor onde estava o Carlos do Carmo a cantar. Começou aí a minha liberdade”.

Entretanto, “Os primos do meu marido abriram um restaurante. O “Solar Alentejano”. Reuniam para o petisco e todos cantavam. Havia um senhor que dizia “Aquela senhora além, se cantasse um fadinho, seria bem melhor.”

“Tá bem, eu sei bocadinhos…Eu cantava para uma colega o Fado da Fernanda Maria “Não Passes com Ela à Minha Rua”…

Um dia, houve uma noite de Fados no Pragal. Assim que entrámos, lá estava o nosso amigo…e pôs os braços no ar: “Hoje é que você vai cantar a sério!”

Não sabia músicas do fado, os tons. Foram logo chamar-me. Trauteei aí um bocadinho. Daí o lamiré. Os fados que sabia do princípio ao fim. E um deles era o Fado do Sobreiro…[1]

Gostaram muito. Cantei outro, gostaram muito e eu a querer saltar. Tive de cantar mais um ainda. No fim da noite, o apresentador veio ter comigo e disse onde havia fados: Alto do Moinho e Giramar, na Fonte da Telha. E todos os fins de semana, lá estava.

Um dia, apareceu um fadista que cantou o Fado do Sobreiro (uma música por vezes é adaptada a várias letras). “Tenho de aprender outro Fado…

Escrevia versos e não guardava, não ligava importância…”

Uma patroa sugere que guarde. Pensou: “Escrevo versos para cantar. Sempre impulsionada pelos outros”.

Questionada sobre quem foram os fadistas que a marcaram, responde rapidamente: “Fernando Farinha e Fernanda Maria. Acho que foi com o Fernando Farinha que aprendi a gostar de Fado. Pela pessoa que era e maneira de cantar.”

A nossa artista alentejana conta no seu curriculum com três discos: o 1º em 1997 – “Rigorosamente”. O 2º em 2005, “Meu Fado Maior” e o 3º em 2009 “Com sentido (25 Anos de Fado)”. Maria de Lurdes Brás escreveu dois livros: “Poesia Alinhavada” e “Lamiré Poético”.

“Nesta altura já vão aproximadamente 35 anos” diz esta almadense adoptiva que já viveu mais décadas na cidade da margem sul, que na terra natal.

Fez-se escutar em “Muitas casas de Fado, restaurantes, hotéis, colectividades de Lisboa, quase todas, Festa das Colectividades e três anos nas Noites de Fado do Coliseu. Fui cantar à Academia de Santo Amaro, o Paulo Vasco convidou-me. Tenho orgulho em ter sido madrinha de Fado da Raquel Tavares. O relacionamento é bom, apesar de ela ter pouco tempo. Conheci a Amália, Fernando Maurício, essa gente grande do Fado.”

Maria de Lurdes Brás foi madrinha da Marcha da Charneca, com António Calvário: “Foi impressionante, em miúda via-o como um galã. Convidaram-me para fazer a letra da Marcha - Homenagem a Laura Alves. Quando me pedem alguma coisa, eu faço. As coisas na minha vida têm acontecido assim. Na minha terra há um grupo de teatro. O José Luís Assunção todos os anos faz uma revista, faz espectáculos de transformismo - Carmen Duvale - e ele, como eu era da terra e cantava, fiz 3 revistas como atracção convidada. Há sempre a atracção do Fado…E no Parque Mayer uma amiga falou em mim ao Hélder Costa. Fiz o trabalho muito interessante de sair as roupas para a revista, é trabalho muito artístico mesmo. A mestra era tia da Anabela que também trabalha para o La Féria e para as Marchas. “Lurdes Brás fez fatos para “João Baião, Marina Mota, Carlos Cunha, Melânia Gomes. Era um elenco assim, muito interessante.”

Não continuou, porque não estava disponível, acrescenta.

Quanto ao seu público disse-nos que “é geral, principalmente para quem gosta de ler.” E informa: “às quartas- feiras na Casa das Artes há poesia”.

No que concerne ao ofício partilha: “Trabalho numa loja, faço os arranjos das roupas que vendem. Já passei por fábrica, alfaiate, várias lojas, e agora estou aqui. Trabalho há mais de cinquenta anos no meio dos trapos. Nunca deixei de trabalhar mesmo por causa do Fado. Cheguei a fazer directas, mas como diz o outro, quem corre por gosto não cansa.”

O seu balanço de vida, é resumido em breves linhas e com um sorriso: “Desde que a gente faça as coisas por gosto e se sinta feliz por isso, para mim é o suficiente. Mal entendidos, passam ao lado. Tenho orgulho naquilo que tenho feito!”



Luís Filipe Maçarico



ONDAS DE SAUDADE[2] poema de Maria de Lurdes Brás



Eu nasci no Alentejo
Entre o Rio Mira e o Sado
Nas ondas do meu desejo
Embalo este meu fado

Cabelos feitos de trigo
Searas ao Sul do Tejo
Saudades trago comigo
Eu nasci no Alentejo

A sombra, o silêncio, o sol
Verdes campos, pasta o gado
Canta o velho rouxinol
Entre o Rio Mira e o Sado

E vou sorrindo ao sol-posto

Nas areias limpas festejo
Deixo o vento tocar meu rosto
Nas ondas do meu desejo

Searas verdes e mar azul
Orgulho, não demasiado
Na beleza da Margem Sul
Embalo este meu fado.




[1] Fado do Sobreiro: “Lá no cimo do montado/ No ponto mais elevado/ Havia um enorme sobreiro/ de todos era a cobiça/Ao dar bolota e cortiça/ No montado era o primeiro// Mas um dia a tempestade/Fez ouvir lá na herdade/ O ribombar dum trovão/ E no céu uma faixa risca/ Uma enorme faísca/ Fez o sobreiro em carvão// Passaram anos e agora/ No mesmo sítio lá mora/ Um chaparro altaneiro/ E em noites de luar/Ouve-se o montado a chorar/ Com saudades do sobreiro//É assim a nossa vida/ Constantemente vivida/ Quase sempre a trabalhar/ Mas se um dia a morte vem/ Nós deixamos sempre alguém/ Com saudades a chorar//.
[Letra de Abílio Morais; Música de Alfredo Duarte (Marceneiro)]

*Entrevista publicada na revista "Alentejo" nº 46, Junho/Novembro 2019.