aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, junho 16, 2018

NÁUSEA - II


Junto-me ao coro dos ouvintes da Antena Um, que consideram que sem António Macedo, a rádio nacional ficou mais pobre.

O seu caso - inacreditável - levou ao seu afastamento dos microfones (fazia o premiado programa da manhã), porque estava há 15 ANOS! a recibos verdes…

O Tribunal deu-lhe razão e num dos noticiários escutei que António Macedo "rescindiu".
Não bastava as antenas deficientes, que fazem chegar desde há meses o som daquela sintonia, com muito menos potência...
Agora a "VOZ" desapareceu das ondas hertezianas.

Tem todo o direito a levantar-se mais tarde e a fazer o que lhe apetecia e não podia, mas por favor, António Macedo regresse à rádio!

A sua energia, humor e sensibilidade contagiantes, fazem falta!
Contra a mediocridade reinante, dos que mandam nestas coisas, volte a tornar os nossos dias mais ricos de humanidade!

Luís Filipe Maçarico (texto) Fotografia recolhida na Net.

NÁUSEA - I

Dispenso a gritaria dos anúncios, onde um ex-gato fedorento entra em histeria, insistindo em protagonizar propagandas, que tratam os consumidores como mentecaptos.

Dispenso os berros - repetidos até à náusea (nesses momentos desligo o transístor) de um ou mais golos do craque, admirado por todos, menos por mim, que detesto (este) futebol. E até há quem cante de pé o hino nacional, quando assiste ao campeonato mundial…

Basta do vómito (em intermináveis episódios, onde quem mais urra é quem faz opinião) que tem por alvo o desnorte do Sporting.

Basta do incumprimento da lei da publicidade, nas TVS, que continua a ser veiculada com insultuosos decibéis.

E eu, que nem papel higiénico deito na sanita, pasmo com a súbita avalanche de imagens, acerca da poluição dos oceanos, como se antes estivesse tudo bem…

Trabalhei meia vida na Higiene Urbana e desde jovem aprendi a reciclar, tentando não contribuir para a degradação do planeta, sentindo-me por isso alguém que vive fora da manada e recusa a estupidificação, com que o Capitalismo, através dos meios de comunicação social, mantém legiões de adeptos. 

Os programas idiotas da televisão portuguesa, os alimentos processados que originam a obesidade entre os mais pobres, as notícias manipuladas, são apenas alguns dos exemplos de quão nociva é esta sociedade. Que rejeito.

LFM (Texto e Foto)

sexta-feira, junho 15, 2018

MAIS LIVRE QUE NUNCA!


                                               Fotografia gentilmente digitalizada por AF

No recente aniversário da Casa do Alentejo, e por iniciativa da Directora Executiva da Revista "Alentejo", Rosa Calado, (o meu nome consta na lista do Conselho Redactorial), fiz uma breve introdução, que partilho com os leitores deste blogue (e da minha Página no Facebook onde o reproduzirei):

"A estima que nutro pela Rosa Calado e a gratidão que tenho por esta Casa - participando, enquanto associado, desde os idos de setenta e em cujas três série da revista, desde então colaborei, dos tempos de Domingos Xarepe até João Proença, passando por Luís Jordão, e onde frequentei um Curso de Jornalismo, dirigido por José Luíz Fernandes. Aqui lancei vários livros de minha autoria. Esses factos constituíram o fraterno motor da razão de estar entre vós, nesta sessão.

No presente número da revista participei, com duas entrevistas - uma a Paula Santos, da Biblioteca Municipal de Beja e outra (com Rosa Calado) a Galopim de Carvalho.

Solicitei a Romão Trindade, alentejano de Alter do Chão, que escrevesse sobre as associações do seu concelho e Rosário Fernandes, do concelho de Portalegre, enviou - a meu pedido - o seu artigo a propósito das Brincas de Évora.

Porque nunca tive idade para ser bajulador, escrevi uma reflexão onde partilhei o meu olhar sobre o Alentejo actual, sem abdicar do Espírito Crítico que é matriz da minha forma de estar e pensar acerca do Mundo em que vivo e onde por vezes me sinto inadaptado. porque não consigo pactuar com o erro, a estupidez e a arrogância...."

Como nessa manhã me esqueci da máquina fotográfica, não tive acesso ainda a nenhuma fotografia - designadamente quando intervinha, nem ao lado do Poeta Eduardo Olímpio e do Dr. José Simão Miranda, entre outros. 
Devo dizer que me sinto MAIS LIVRE QUE NUNCA!

Luís Filipe Maçarico





segunda-feira, junho 11, 2018

ENTREVISTA COM O PROFESSOR GALOPIM DE CARVALHO: “A TERRA ESTÁ A DAR SINAIS EVIDENTES DE ESGOTAMENTO E AGRESSÃO. O CAPITALISMO EXPLORA E SOCIALIZA A POLUIÇÃO!”*




                                                     Fotografias de Luís Filipe Maçarico

*Publicado na Revista "Alentejo", nº 43, pp. 30-31. 



Galopim de Carvalho recebeu a equipa da revista da Casa do Alentejo, na companhia da sua esposa, com grande cordialidade. Senhor de grande humanismo, partilhou de forma simples e afável, estórias da sua caminhada que ora nos fizeram sorrir, ora nos comoveram, tal é a riqueza de conteúdo da sua experiência, enquanto cidadão e académico.



CA- De onde vem o nome Galopim?

GC- “Veio de Alcanede, ah mas há Galopins por todo o Mundo. No Facebook descobri primos em Galveias (Ponte de Sor), estabeleceram a relação e chegaram à conclusão que tinham parentes próximos. Há um restaurante com o nome Galopim nos Estados Unidos. O meu avô veio de Alcanede, a minha avó era Almaça (do Alvito). Os filhos varões da minha avó ficaram Almaça. Essa geração vive em Moura”.

CA – De onde vem o seu interesse pela Ciência?

GC- “É muito fácil. Quando estava no 5º ano do Liceu, tive um professor que veio aqui de Lisboa que me meteu aquele “bichinho”. Pegou naqueles caixotes de pedras…

No princípio do século havia mais de cem minas a laborar (pequeninas, artesanais). Agora com a mundialização só temos volfrâmio e cobre para exportar.

Esse professor começou a fazer uma colecção de minerais. Pediu-me para ajudar e eu gostei muito. Lavava as pedras, rotulava (feldspato, etc) e fizemos uma pequena colecção.

A influência do professor…um bom professor não tem alunos maus!

CA- E os dinossauros, como apareceram na sua vida?

GC- “Eu faço Geologia, sou Professor de Geologia. Nunca estudei dinossauros e no ano de 1990 aparece o projecto da CREL que ia destruir jazida com pegadas descobertas por alunos meus. Era uma pedreira abandonada e viram o trilho muito importante. Depois, denunciaram. Eu, nessa altura, era director do Museu [Museu Nacional de História Natural e Ciência]. Nunca tinha estudado dinossauros. Empenhei-me ao limite das minhas forças. Mexi com jornalistas, professores, ministros, o próprio Mário Soares [então Presidente da República]. Só quem resistiu foi o Cavaco que não queria dar 1 milhão e 600 mil contos. A pressão foi tão grande, pûs as crianças a enviar postais “Senhor Primeiro Ministro: Salve as Pegadas!”

Para falar à Televisão, jornais e escolas tive de estudar os livros de grandes divulgadores. Estudo aquilo muito bem e transformo aquilo num livro, em artigos nos jornais, trago exposições de dinossauros…

Aqueles colegas verdadeiros cientistas devem dizer: “Então a gente é que estuda e ele é que aparece? Não escondo esta coisa… Sou especialista…nas generalidades!

Eu estava na Alemanha quando a família Mateus descobre ovinhos com embriões. A Televisão alemã veio entrevistar-me para explicar o achado das pegadas da Lourinhã.

Vou a qualquer lado e apresentam-me como “o avô dos dinossauros, o grande especialista”, o que cria um embaraço.

A divulgação tem outra vantagem: O Governo percebeu que era importante e já vai havendo bolsas para investigação.

Na exposição que houve tínhamos dias com 8000 crianças de todo o país. Havia camionetas do Rato até ao Cais do Sodré. Foi uma loucura. Na última noite, fechámos as portas às seis da manhã.

Às 3 da manhã chegou uma carrinha com mulheres de pescadores de Sesimbra, para ver. A partir da meia-noite deixámos de cobrar bilhetes.

Infelizmente, as pegadas estão a degradar-se.

O projecto que fizemos de musealização não avançou. Os autarcas dão muitas palmadas nas costas e as acácias invadiram a pedreira, estão a destruir a pedra. O Poder não está interessado, tem outras preocupações.”

CA- Como olha para o Futuro?

GC- “Não sei! Acho que a Terra não vai suportar a pressão da grande indústria poluente. A Terra está a dar sinais evidentes de esgotamento e agressão. O Capitalismo explora e socializa a poluição.

Já não se come peixe - espada preto, porque tem muito mercúrio. A gente já não sabe se está a comer trigo transformado. A pera rocha está contaminada com antibióticos…

CA- A Dieta Mediterrânica integra o seu quotidiano?

GC- “O fundo tradicional está lá sempre. Eu entreguei ao editor um livro que se vai chamar “Açordas, Migas e Conversas”. Isto para dizer que a tradição gastronómica alentejana está na minha cabeça.

Vivemos 3 anos em França. Íamos arranjando os produtos que cozinhávamos…”

CA- Que significado teve o 25 de Abril para si?

GC- “Olhe (sorriso largo), nessa altura tinha um gravador daqueles com bobines, tinha música gravada. Publiquei um artigo “Gravar Zeca por cima de Ravel”. O Zeca tinha canções proibidas…

Foi um dia muito bonito!

Às 4 da manhã uma aluna da minha mulher telefona-lhe a dizer que tinham recebido telefonemas de Santarém a dizer que vinha uma coluna militar a caminho de Lisboa.

Telefonei ao Henrique Pina [descobridor do cromeleque dos Almendres] que respondeu “São os bons!”

A esposa: “Sem eu saber e ele, tivemos em casa, as reuniões dos capitães, guardei sem saber o que guardava!”

GC – “Foi uma data muito bonita e aquele 1º de Maio logo a seguir!”



Ao longo desta entrevista, o Professor foi revelando que a Música o acompanhou sempre e que “Naquela noite do 25 de Abril tinha ouvido a Grândola no Rádio Clube Português, nessa altura deitava-me tarde e procurava música, para fazer ambiente!”

Não sendo grande leitor de Poesia, gosta de ouvir ler poemas: “Olhe, o Vítor de Sousa, o Mário Viegas…Gostava de ouvir a Alice Cruz. Devia-lhe muitas atenções porque fui várias vezes ao programa dela.”



CA- Quando veio para Lisboa?

“Os estudos até ao 7º ano, foram feitos em Évora. Vim fazer um curso que não queria: Biologia. Para o meu pai, tinha pelo menos a garantia de ser professor de Liceu. Faço o primeiro ano mal, o segundo ano mal e atropa chama-me, vou para Vendas Novas, colocam-me em Évora, não tenho emprego, não tenho futuro, estou em casa do pai, estou 3 anos na tropa, chego a tenente. Eu sou um contestatário do regime mas cauteloso. Tive zero em aprumo militar. A informação que o regimento de vendas Novas envia para Évora diz muito mal.

Fiquei em segundo lugar, a contar do fim, num curso de 120 cadetes. Sou militar sem perfil. O fim da carta dizia o seguinte: “Não devendo nunca serem-lhe confiadas missões que exijam discernimento mental”. Fiquei rotulado.

O comandante testou-me para ver qual era a minha capacidade. Fui nomeado oficial da limpeza. Eu tinha um sargento que era o Limpinho, ele tinha a alcunha do “Cheira Merda”, porque antes das limpezas, entrava e dizia “Cheira a Merda” e chateava os soldados para limparem tudo com creolina.

Quando saio da tropa digo “o que é que eu vou fazer à minha vida?”. Arranjo emprego na venda de máquinas registadoras e de escritório e propaganda médica. Em 1957 caso e vivemos num quarto na Rua Cecílio de Sousa, ela está em Lisboa, ganha, eu ganho uma miséria, nunca vendi uma máquina, e assim fiz a licenciatura em Geologia, já casado e com empenho. Fiquei lá [na Faculdade de Ciências] quarenta anos!”

Galopim de Carvalho lembrou-se que foi a reuniões e jantares à Casa do Alentejo e tornou-se associado, conhecendo o então Presidente da Direcção, Dr. Vítor Santos. E recordou ainda que falou com Natália Correia, na Casa do Alentejo.

Acerca da sua incursão na ficção revelou:

“Eu escrevia muito no domínio da comunicação científica, mas nunca tinha ensaiado a escrita ficcionada.

Li o livro de Zélia Gattai “Anarquistas, Graças a Deus” onde ela relata a vida em São Paulo, no bairro dela e pensei tenho uma riqueza de histórias que vivi e depois tenho memória de cavalo. E aos 61 anos publico o meu primeiro livro - “O Cheiro da Madeira”. O Vergílio Ferreira instigou-me a escrever, Agostinho da Silva também.

A Câmara de Évora, com o Abílio Fernandes como Presidente, compra o livro. Os lucros da venda foram entregues à Escola de S. Mamede, para compra de equipamento. A escola onde apanhei muita reguada!”



A última pergunta irrompe ao fim de duas horas de agradável convívio. Inevitável seria indagar como e quando tomou consciência política?

GC- O Antunes da Silva era meu primo. Era preso muitas vezes, chegava a Évora cheio de mazelas. Quando venho para Lisboa aos meus 18 anos, já conheço amigos fugindo e presos. Todos nos calávamos, no café, quando apareciam indivíduos da Pide.

Eu faço a minha formação social e política no campo. Aos 13-14 anos começo a fazer campismo. Andava pelas herdades no Alentejo e conhecia os trabalhadores rurais.

Aquilo que vou contar é síntese ficcionada. Conheci um pastor, que começa como porqueiro, não vai à escola e faz toda a carreira como trabalhador agrícola até chegar a moiral das vacas.

Estou com ele debaixo de uma azinheira, ele já sabe ler [começou a ler no livro da 4ª classe do irmão] eu levo-lhe “A Mãe” de Gorki, o “Livro de São Michel”, “As Vinhas da Ira” e ele desdobra um papelinho que passa de mão em mão, já gasto, que é o “Avante”. Não sou militante, mas fiz-me simpatizante, com esta vivência de um rapaz da cidade, a ouvir os operários agrícolas.

“A gente não tem de comer”, dizem um dia ao agrário. E ele responde “Comam palha” e eles reagem assim: “A gente quando comer palha, vossemecê come navalha!”



Luís Filipe Maçarico e Rosa Calado. 

ENTREVISTA A HENRIQUE ESPÍRITO SANTO*


                                                    Fotografia de Luís Filipe Maçarico

*Publicado na revista "Aldraba" nº 23, pp. 18 a 21.

[O CINEMA] “FOI UMA REVELAÇÃO QUE ME PERMITIU CONHECER MELHOR A VIDA E O MUNDO”



Henrique Espírito Santo é ele mesmo um Património.

Fundador de Cineclubes e Produtor de tantos filmes portugueses, Henrique tornou-se uma referência incontornável na História do Cinema Nacional. A Aldraba entrevistou-o ( e à esposa Guida) no seu ambiente familiar, numa casa repleta de boas memórias, de uma vida intensamente fruída.

“Quando comecei (anos 60) - principiou por nos dizer - a malta fazia publicidade, quando fazíamos documentários, ficávamos todos satisfeitos. Ainda fiz uma coisa gira com o Fonseca e Costa, grande amigo, com quem comecei a trabalhar, fizemos um filme patrocinado pelo Banco Português do Atlântico [hoje BCP] fomos contactados para fazer a inauguração do Banco, como documento para os arquivos do próprio banco e documentário, onde ele tinha sido construído (em Luanda), fizemos a reportagem sobre o meio onde o banco existe e chamámos a esse filme “O Regresso à Terra do Sol”.

Há uma frase que conto sempre….Sei que houve reunião da Administração do BPA. Passou como complemento no Monumental, e um Administrador disse: “Os rapazes são artistas, mas gostam muito dos pretos!”

O filme tem voz off do Orlando Costa [tinha firma de publicidade] era o autor do texto. O que é certo, é que nunca no filme há referência à Colónia. Quando se diz Luanda, diz-se Capital de Angola. E então, o Fonseca e Costa, o director de fotografia e do som, o electricista e eu, éramos a equipa para fazer coisas desse tipo!”



Henrique Espírito Santo produziu filmes em várias situações, foi director de produção e até actor: “Devo ter participado em, à volta de mais de cem filmes (curtas e longas metragens)…”

O nosso entrevistado contou-nos como surgiu o seu interesse pelo Cinema: “Na realidade, a origem é de facto aquilo que tenho dito: Os meus pais gostavam de cinema. Naquela altura, as crianças iam ao cinema, ao colo. Daí a influência…”

Henrique recortava os bonequinhos da revista “Mosquito”, para fazer filmes…

“Com os miúdos do prédio, do bairro. Nasci em Queluz. A mostra dos filmes na caixa de sapatos foi na Parede. Havia na Parede um daqueles cinemas ao ar livre…

[Como os pais eram cinéfilos] As brincadeiras andavam à volta do cinema.”

A primeira profissão de Henrique Espírito Santo foi descrita assim:

“Antes de terminar o Curso Comercial, comecei a trabalhar aos 13 anos. Naquela altura, os filhos começavam a trabalhar mais cedo, era uma ajuda para a família [comecei numa empresa de passagens e passaportes]. Era tudo para a Venezuela. Nesse tempo, acompanhava-os ali às Trinas, onde se tratava dos passaportes, das identidades. Eu acompanhava essas pessoas. Ganhava mais em gorjetas que em salários.”



À pergunta “fundaste e frequentaste Cineclubes. Que importância teve esse Movimento”? o nosso interlocutor respondeu que “Foi um dos movimentos mais importantes na luta contra o Fascismo. O cinema, tal como é conhecido, a chamada “Sétima Arte”, não é por acaso…Chamávamos escritores, actores, músicos, toda a gente ligada à Cultura, era quem convidávamos para fazer palestras. E essas sessões era uma maneira também de fugir ao controlo porque as colectividades facilitavam também. Essas associações culturais…Aí exibimos filmes com maquinazinha de 16m/m, livrávamos as pessoas, que não tinham de ir à Censura. A repressão apercebeu-se destas sessões. 

O Cineclube Imagem chegou a dar sessões nas prisões. Tínhamos um apoio muito grande da Embaixada Francesa. Tinham outra mentalidade, havia essa abertura maior.

Íamos buscar os documentários, íamos na “ramona” ( a organização e o representante da Embaixada) [Henrique sorri de orelha a orelha, deliciado, com a lembrança bizarra] íamos para a cadeia, que nos facilitava o transporte. A própria prisão é que “dava” a camioneta…

Os dirigentes de todos os cineclubes eram convidados para falar de cinema; isso permitiu-me p. ex. conhecer muita gente.

A Censura fazia cortes. Quem ia falar, tinha indicação que não podia ler o que tivesse lápis encarnado. Em Santarém li tudo. Na sala havia controlo e um amigo ouviu o inspector comentar: “O macaco leu tudo” [Foi sobre o filme “A Tortura”, sueco]

Ainda houve quatro encontros de dirigentes cine-clubistas. Na altura havia trinta e tal cineclubes (incluindo as ex-colónias)”



Este homem de Cultura revela constrangimentos daquela época: “Estive 30 dias nos “curros” do Aljube. Só saímos dali para ir à Rua António Maria Cardoso.[sede da PIDE] Foram a minha casa às sete da manhã. Fui preso. O motivo? Sempre por ser comunista! Um tipo falou, divulgou toda a actividade cultural. A partir daí fizeram interrogatórios, foram até à Célula do Cinema…”

“Antes de trabalhar no Cinema, já estava numa Companhia de Seguros. Sou chamado ao Palácio Foz, através de uma carta que enviaram à Companhia de Seguros. Tinha a ver com um filme espanhol que o cineclube apresentou. A Censura chamou-me. Então comentei: “Não percebo, isso é sobre Espanha. Isso é baseado numa revista autorizada e à venda nas bancas!”



A companheira de toda uma vida, assistiu a toda a conversa, intervindo algumas vezes. Henrique elucidou-nos, com humor:

“Encontrei-a na Lourinhã, quando ia visitar uma prima. É da terra dos dinossauros!”

A esposa sublinhou com sensibilidade: “O cinema foi o seu sonho de menino, realizado!”



Aldraba - Trabalhaste com Manoel de Oliveira, José Fonseca e Costa, João César Monteiro, António de macedo, Luís Filipe Rocha, Solveig Nordlund… Que filmes e realizadores exigiram mais de ti?

“Não só pela origem cineclubista, onde muitos realizadores estavam ligados, eu estava ligado à produção e nunca tive problemas, não me lembro de cenas desagradáveis.

O João César Monteiro entrou no Instituto Português de Cinema, num tempo em que tínhamos dificuldades de arranjar subsídios, entrou descalço, calças, camisa rotas, para pedir o subsídio. O Centro Português de Cinema era dos cineastas anti-regime e o César (que era intitulado por nós como “l’enfant terrible”), eu estava com o António Macedo, e o Cesar diz: “Acabei de ocupar o Centro Português de Cinema!” O Macedo ameaçou-o de lhe dar um murro. E o César respondeu: “Temos tempo para falar depois”…



Ocorreu-nos perguntar se um filme, a partir de um livro resulta bem?

“Os responsáveis pela ideia fílmica podem partir de algum livro. O “Cerromaior” é fiel ao Manuel da Fonseca. O realizador participa sempre no argumento, para estabelecer um acordo de identidade com a ideia. O autor acredita nas pessoas que vão fazer o filme. O Paulo Pires entrou pela primeira vez no cinema, no “Cinco Dias, Cinco Noites”

Voltando à prisão, “A Guida, quando estive em Caxias, visitava-me, estive na mesma cela com um indiano e o Orlando Costa morava aqui próximo, encontrámo-nos no mesmo restaurante, ia muitas vezes a Goa e procurou o tal indiano (Mohamadé?) que tinha todos os meses um dia de jejum e meditação…”

Aldraba - Quanto tempo estiveste em Caxias?

“Dezoito meses de pena e cinco anos de actividade política cortada.

Houve uma altura em que pensei que me iam bater, pedi-lhes um papel e escrevi “a actividade de um cineclube é…” Os tipos entraram pela sala (eu só não me ri) mas quando vi uma cena do chefe de brigada, Abílio Pires, - isso aparecia muito nos filmes policiais … Safei-me de levar uma carga de porrada… “Vocês estão com sorte. Têm muitos amigos no estrangeiro!”

Veio no “Le Monde”. Intelectuais como Marguerite Duras subscreveram pedidos de libertação!”

Aldraba - Antes de Abril de 1974, como foi fazer cinema?

“No “Recado” até se vê um Pide a matar um político que regressa ao país clandestino, num barquinho de pesca. Eram traficantes…O nosso protagonista não tinha relação com ninguém e quando é preso pela PIDE há a cena em que o chefe de brigada pergunta “Então, e o homem?” e o outro responde “Nem uma palavra!” [Estava encoberto] Tal como o Macedo consegue fazer o nú com delicadeza, o Fonseca e Costa não teve cena que tivesse corte…”

Aldraba - Travaste amizade com muita gente do Cinema Nacional e Internacional. Queres destacar algum actor/actriz?

“Fico sempre com a sensação que estou a ser ingrato. Felizmente, nos filmes em que participei, nunca me senti enganado. Todos eles tiveram princípios muito correctos.

Em “A Fuga” [o filme começava com interrogatório na António Maria Cardoso e não foi possível filmar no local ] os locais são todos autênticos. Fomos proibidos de filmar nas salas…”

Num aparte Henrique confessa a admiração tida por Geraldine Chaplin.



Aldraba - Tens lembrança da Tóbis, ou já não utilizaste esses estúdios?

“Eu pertencia à Direcção da Tóbis, mas ainda tive um período ligado mais ao Conselho Fiscal. O presidente da Tóbis antes (e permaneceu depois) era um homem que gostava do cinema…”

Aldraba – Produziste filmes de animação?

“Apareceu-me um jovem que fez um filmezinhi sobre o Franco, um tipo que depois rebenta (filme de animação), facilitei, mas nunca fui produtor. Eu era amigo do Carlos Barradas…”

Aldraba - E do Vasco Granja…

“Um divulgador. Também cineclubista. Estivemos presos ao mesmo tempo.”

Aldraba - Após o 25 de Abril, aconteceram certamente episódios dignos de realce. Queres partilhar algum?

“Fui nomeado para Director do Instituto Português de Cinema e tinha de vir no “Diário da República”, a publicação.

Cai o Governo da Pintassilgo. Eu sou automaticamente desnomeado.

O engraçado disto tudo é que a responsável do IPC vem ter comigo a rir dizendo que tenho ainda um salário, para receber, entre a nomeação e a exoneração.”

Aldraba - Trabalhaste em Televisão?

“Nunca fiz nada disso…No DVD do Miguel Cardoso, acrescenta os meus ateliers de crianças, o actor, a actividade docente [dei aulas na Escola de Cinema] para falar de Produção.

Em 1978 fiz a “sebenta” sobre como produzir filmes, como se deve actuar…”

Aldraba - Como se pode definir o trabalho do produtor cinematográfico?

“O produtor tem de se encarregar de arranjar dinheiro e tem de gostar de cinema. O Cunha Telles e mais recentemente o próprio Paulo Branco… O director de produção é o braço direito de um produtor, num filme. Eu era contratado para trabalhar com qualquer produtor…”

Aldraba - Como vivenciaste os prémios que filmes como “Tabú” obtiveram?

“Senti-me bem, fui a Berlim, andei no tapete vermelho. Felizmente que teve essa qualidade. Há filmes em que participei, em relação às minhas interpretações (realizadores amigos convidavam-me para uma espécie de Hitchcook) para ir daqui ali, dar uma palavra…”

Aldraba - Que valor tem o cinema no teu percurso, como ser humano?

“O valor do cinema …Por gostar de cinema e ir ver muitos filmes, ter passado a conhecer coisas que de outra maneira não conheceria.

Abriu muitos leques: Política, Família, Adultério, Perseguições…Foi uma revelação, que me permitiu conhecer melhor a vida e o mundo. Fui a Festivais…”

Aldraba - E como aparece o Prémio Sophia?

“O Prémio Sophia é de carreira (2014).

[Mostra vários troféus:7ª semana de Cinema Europeu da Covilhã/ Maio de 1998 – Homenagem Inatel; Coimbra/2004; Associação de Imagem, Cinema e Televisão/ 2012; Fantasporto/ 2014 e posa, sorridente, com estas magníficas distinções.]

Anoiteceu. O tempo voou, lesto, ao longo desta conversa cordial, recordando a carreira luminosa. Henrique ficará para sempre na nossa memória e no património comum que é o cinema.



Entrevista de Luís Filipe Maçarico e Maria Odete Roque.

EUGÉNIO DE ANDRADE: O POETA QUE VALORIZOU A CULTURA POPULAR*




 *Artigo publicado no nº 23 da revista ALDRABA, da Associação do Espaço e Património Popular, Abril 2018, pp.  2 a 4.



                                         Fotografias de Dario Gonçalves
                                                    Eugénio pintado por Artur Bual

Em “Rosto Precário”, Eugénio de Andrade revela: “Nasci na Beira, naquela Beira que prolonga o Alentejo. Ali passei a infância, ali ia a férias na adolescência. A minha memória está cheia de searas e medas de pão, do rumor dos rebanhos, do olhar solitário dos pastores, do cheiro a poejos e a barro fresco.”[1]

E noutro texto assegura: “Sou filho de camponeses (…) e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água (…) A terra (…), a luz e o vento (…) As minhas raízes mergulham (…) no mundo mais elemental.”[2]

António Lobo Antunes confirma que Eugénio “Conservou-se sempre um camponês da Beira Baixa natal, feito de puerilidade e manha, gerindo ciosamente a sua obra a fingir-se desinteressado, distantíssimo e, no entanto, alerta como um coelho bravo.”[3]

Gonçalo M. Tavares declara que o Poeta “admira os poetas (…) que comunicam uma energia às palavras (…) “capaz de as fazer resistir [“à usura do tempo”] “tal como faz o oleiro com o barro ou o ferreiro com o ferro.” É dessa “consciência artesanal” de que se orgulha.[4]

O próprio autor de “Branco no Branco” confessa-se perfeccionista: “Há períodos em que necessito da escrita como de um corpo: persigo então o poema até à exaustão (…) Às vezes o poema é feito em minutos, outras, demora dias e dias (…) continuo a emendar, a rasgar, a deitar fora (…) Persigo o poema como um cão até às últimas provas. E mesmo de edição em edição.”[5]



Tive a sorte de ter conhecido nesta vida breve, que passa como uma vertigem, Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, o qual foi um dos poetas que influenciou os versos da caminhada, desde a juventude. Quis o acaso, que o Poeta, cujas aparições em público eram raras, se tivesse deslocado à Feira do Livro, na capital.

Enquanto autografava a obra que adquiri, mencionou o poder das suas palavras, junto dos presos políticos, que lhe agradeciam a poesia solar.

Depois desse encontro, e estando em Alpedrinha, na casa de Clara Nabais, esta confundiu o autógrafo, com uma proximidade que não existia, insistindo no envio de uma carta, convidando-o a visitá-la. Redigi a missiva, a seu pedido, pensando que ele não se deslocaria até àqueles lugares.

Todavia, no Verão seguinte, Eugénio regressou às origens e, como nota Maria dos Anjos: “Ele derretia-se todo a falar com a ti Clara. Era muito doce”…[6]

No JL apareceu então um texto, onde explicou que a Clarinha era amiga de sua Mãe, lembrando-se que as duas faziam “flores de papel, tão delicadas e fragrantes, que todos pensavam que vinham da China ou do Japão.”[7]

Acompanhei Eugénio à Póvoa, com Dario Gonçalves e, na memória dos que assistiram à sua nostálgica visita, ficou a ideia - que me parece errada - de uma pessoa distante. A minha interpretação diverge do senso comum. Tenho para mim que Eugénio era tímido e ficar rodeado por desconhecidos (que se orgulhavam do conterrâneo famoso que aparecia na televisão, causava-lhe algum constrangimento, tentando então conter emoções, resguardando-se e isso foi entendido como aspereza. Escrevi-lhe a lamentar a incomunicabilidade entre o Ilustre e o seu Povo, lembrando que aqueles seres humanos não podiam ser penalizados por causa da forma como seu pai (um lavrador abastado) o teria tratado e a sua mãe.

Foi com júbilo, que tornei a vê-lo, mais cordial, na inauguração de uma placa [“aqui viveu Eugénio de Andrade com sua mãe, em criança”], quando retornou aos primórdios, mandando rezar missa pela alma da mãe, com distribuição de bodo aos conterrâneos.

Esse regresso culminou na apresentação de “Poesia, Terra de Minha Mãe”, no Fundão, magnífica edição com fotografias de Dario Gonçalves.

Visitei-o quatro vezes no Porto, duas na Duque de Palmela, uma das quais no 2º andar do 111, onde residia, surpreendendo-me com o despojamento onde se evidenciavam livros, arrumados num exíguo espaço. Acompanhado pela Cristina Pombinho, fomos recebidos com a amabilidade do seu sorriso afectuoso, oferecendo-nos com gestos poéticos, de mágico eloquente um cálice de generoso Porto, que primeiro fez dançar ao sol da tarde dourada, no belo e precioso frasco, onde parecia uma jóia liquefeita.

Alfredo Flores, músico da Gulbenkian e antigo dirigente da Federação das Colectividades evocou-o com estas palavras: “Ainda te lembras quando o fomos visitar na sua casa da Foz? Era um velho sábio, ternurento.”[8]

Com Mena Brito encontrei-o acolhedor e muito atencioso, recomendando que falássemos com Marcela Torres, da Afrontamento, pois a maquete de “Atmosferas do Corpo”, obra-resumo do trabalho da pintora, que acabaria por lhe dedicar a exposição “Azul Ardente”, agradou-lhe. No seu depoimento Filomena Brito, escreve “ O Eugénio que conheci era exigente, requintado, não tolerava falsidades, (…) Poeta basicamente solitário, que recebia com forte selectividade quem ele muito bem entendia. Por todas as razões, senti-me uma privilegiada!” (…) Em 2005, na Galeria 65 A (à Graça, em Lisboa), resolvi homenagear o Poeta através duma exposição de pinturas de minha autoria, em que cada uma das telas foi baseada num poema seu. A abertura deste evento contou com a participação inestimável da Esmeralda Veloso (…) na leitura declamada de poemas de Eugénio de Andrade. Foi uma sessão particularmente emotiva e marcante, a culminar nesse mesmo dia, pela estranha coincidência de ter recebido a notícia da morte do Poeta!

A sua terra natal, a zona rural da Póvoa da Atalaia, a sua experiência vivida, o seu respeito e admiração pelas pessoas simples e autênticas, está tudo «aqui», no seu laboratório de poemas, que ele nos legou, na alma cheia e transbordante que nos deixou através da Poesia e da ciência das palavras.”[9]

Resta contar em breves linhas como Artur Bual fez um retrato (na sua técnica gestualista) de Eugénio. O pintor aceitou o meu desafio, para escutar o poeta na Livraria Barata. Depois acompanhámo-lo à Galeria Nasoni, na inauguração da exposição de Muñoz e aí Bual saiu-se com esta afirmação: “Agora é que eu percebi quem o senhor é. Você é uma criança grande, perdida neste Mundo!” Eugénio corou e ficou tão sensibilizado por esta radiografia da alma, que me pediu para transmitir ao Mestre o desejo de ter um retrato de sua autoria, com o qual percorri meia Lisboa até chegar ao mensageiro que iria fazê-lo chegar ao Porto. Na galeria dos Poetas e Escritores que Bual pintou, existe um Aquilino, uma Florbela, uma Sophia, uma Natália, um Camões.

Mas o Eugénio de Bual era um poeta vivo, o tal senhor sábio e tranquilo, que me encantou, quando subindo a Rua do Salitre - diante da Tipografia Império - me revelou: “O meu primeiro livro e a Mensagem do Pessoa foram impressos aqui.”

Tive a honra e o privilégio de privar com este expoente da cultura portuguesa, através da correspondência que mantivemos e de um cordial convívio, como naquela vez em que cheguei à Pensão Clara e ele disse ao Fernando Paulouro Neves, que o entrevistava, para o “JF”: “Este rapaz também faz versos!”



Luís Filipe Maçarico

[Esquisso do Texto para Catálogo de Exposição sobre a Correspondência de Eugénio Comigo, a realizar pela CMFundão] Almada, 25-3-2018





DOIS POEMAS DE EUGÉNIO DE ANDRADE



Canção Infantil[10]

“Era um amieiro./ Depois uma azenha./ E junto/ um ribeiro./ Tudo tão parado./ Que devia fazer?/ Meti tudo no bolso/ para os não perder.//”



Mulheres de Preto[11]

“Há muito que são velhas, vestidas/ de preto até à alma./ Contra o muro/ defendem-se do sol de pedra;/ ao lume/ furtam-se ao frio do mundo./Ainda têm nome? Ninguém/ pergunta, ninguém responde./A língua,pedra também.//”



AGRADECIMENTOS

Dr.ª Alcina Cerdeira (Vereadora da Cultura da CMFundão); Dr. Alfredo Flores; Dario Gonçalves; Dr. Eduardo Luciano (vereador da Cultura da CMÉvora); Pintora Mena Brito; Dr. Jorge Lopes (Núcleo de Documentação da CMÉvora); Lourenço António Nabais Pereira; Maria dos Anjos Pires Caniça.





[1] Andrade, Eugénio de “Poesia e Prosa”, O Jornal/ Limiar, Lisboa, 1990, p. 304.
[2] Ibidem., p. 288.
[3] Andrade, Eugénio de “Primeiros Poemas As Mãos e os Frutos Os Amantes sem Dinheiro”, Memória de António Lobo Antunes, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2ª edição, Maio 2008, p. 93.
[4] Andrade, Eugénio de “À Sombra da Memória”, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2ª edição, Dezembro 2008, p. 155.
[5] Andrade, Eugénio de “Poesia e Prosa”, O Jornal/ Limiar, Lisboa, 1990, pp. 307-308.

[6] Depoimento em 6 de Fevereiro de 2018.
[7] “Poesia, Terra de Minha Mãe”
[8] Ibidem.
[9] Depoimento escrito em 28-2-2018.
[10]  Andrade, Eugénio de “Primeiros Poemas As Mãos e os Frutos Os Amantes sem Dinheiro”, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2ª edição, Maio 2008, p. 14.
[11] Andrade, Eugénio de “O Sal da Língua Precedido de Trinta Poemas”, Prémio Vida Literária, APE Associação Portuguesa de Escritores, Biblioteca Prestígio, Barcelona, 2001, p. 38.

quinta-feira, maio 31, 2018

Mina de Tharsis

Tal como nas Minas de São Domingos, os ingleses exploraram a Mina de Tharsis, em Espanha, situada na faixa de pirite ibérica.
O que resta é uma paisagem constrangedora, com um imenso lago de águas fortes, que testemunha a desolação e o abandono da antiga laboração.
Impressiona olhar para os 960 metros da corta maior. É opressiva, dantesca, a visão...
Que futuro têm estes lugares que parecem cenário de filmes de ficção?
Que memórias ficaram? Quem guarda a vibração dos anos de mineração?
Tantas perguntas por responder...

Luís Filipe Maçarico

Contemplação


Os horizontes desmedidos que o Alentejo proporciona, permitem a contemplação e uma tranquilidade imensa, que é inspiradora.
Uma vez mais a raia de Mértola preencheu duas semanas de meditação e de comunhão com a Natureza, que são bálsamo para suportar os dias em ambiente poluído.
A paisagem de Moreanes, pode ser o Paraíso na Terra, se o observador tiver a sensibilidade à flor da pele...

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, abril 24, 2018

O dia inicial inteiro e limpo


No dia 25 de Abril de 1974, eu estava em Nampula. Cumpria serviço militar obrigatório - um dos malefícios do Fascismo de má memória, que reinava desde 1927, no nosso país, impondo a uma maioria trabalhadora rural e fabril, pobreza, analfabetismo e o recurso à emigração, para ter uma vida melhor. A censura na comunicação social, a perseguição política, a prisão e a tortura, para todos os que se opusessem ao regime de partido único, eram outras marcas pesadas da ditadura.

Aqueles que na actualidade suspiram pelo autoritarismo e criticam a Liberdade, tentam passar a ideia que o 25 de Abril foi calamitoso para a actualidade.
Quem não esquece que o salário mínimo, os subsídios de férias, de Natal e de desemprego, o Serviço Nacional de Saúde, o acesso à Universidade, a procura de uma igualdade profissional, social e cultural, entre homens e mulheres, o fim da maldita guerra colonial e as independências dos territórios libertados, são conquistas da chamada Revolução dos Cravos, tem motivos (ainda), passados 44 anos, para celebrar.

O oportunismo, a desinformação, os governos que retiraram qualidade de vida ao Povo, a corrupção na política e na gestão económica, minaram os dias novos, que ficaram ofuscados por tanta gentalha com mau carácter.
A luta é gigantesca para, nos mais diversos caminhos da realidade se repôr o que foi roubado das esperanças de Abril.

Fico triste, quando oiço gente, sobretudo pobre de espírito [que já nasceu depois das transformações, não passou fome, não teve de ir à guerra e a quem foram dadas oportunidades, para estudar e trabalhar e não aceitaram, sendo mais de 20% na faixa etária entre os 15 e os 29, o dobro da percentagem  dos que em 2000 se encontravam nessa situação] vociferar contra a generosidade dos homens e mulheres, que tanto sofreram para acontecer "(...) a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo/ / que Sophia cantou na sua Poesia.
As Portas que Abril Abriu de Ary e a côr da Liberdade, sonhada por Jorge de Sena (quinze anos antes da revolta), enquanto houver quem defenda o melhor que Portugal tem - as pessoas fraternas e solidárias - jamais serão fechadas.
Viva o 25 de Abril!

Texto de Luís Filipe Maçarico; Fotografia de Jorge Cabral

terça-feira, abril 17, 2018

DISLATE(S)

Oiço na Antena 1 o senhor Primeiro Ministro Dr. António Costa pronunciar "Dékeda", em vez de década, leio que os mais de cem bombardeamentos da América de Trump, com a Inglaterra de May e a França de Macron, contra supostos locais de armamento químico -na Síria - não produziram (além de destroços) a prova (através de poeiras e outras evidências tenébrias) da presença desses contaminantes letais (diz-se que eram centros de investigação contra o cancro) e recordo a justificação para guerra do Iraque...
Vejo em todos os canais noticiosos das televisões portuguesas (RTP, SIC e TVI)  comentadores desportivos esgrimindo argumentos, com alarde retrógrado, cem por cento boçais, sem o mínimo escrúpulo cultural. E pergunto-me para que existem canais como a Sport TV, se essoutros fazem da pesporrência espectáculo degradante.
Decido não escutar, não ver, ignorando os próximos dislates, que jorram todos os dias em catadupa.
Tenho mais que fazer e até tenho projectos e sonhos para realizar, para já neste primeiro semestre.
O único problema é que na factura da Edp temos de pagar isto, sem apelo nem agravo.

Luís Filipe Maçarico

domingo, março 25, 2018

Texto de Apresentação de "Vozes do Tempo", em 3 de Fevereiro de 2018 no Salão Paroquial de Alpedrinha, da autoria da Professora Maria Antonieta Garcia




Luís Maçarico
         Vozes do Tempo


Aceita-se que o homem sempre contou e cantou para encantar a vida. Por que razão não desistiram? Nem só de pão vive o homem… é frase bíblica. Faz tanta falta o imaginário, o sonho… E se o tempo é dado por Deus, de graça, de graça se constroem momentos de lazer, de ócio, de prazer… Criadores de todas as artes, contadores de histórias, cantores, ouvintes, leitores comem o pão do espírito de cada dia… Não era por acaso que Natália Correia clamava: “Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer… “. Luís Maçarico é assim? Quando lemos a sua obra, achamos que, na verdade, a poesia, no sentido de criação, pode salvar… (George Steiner).

Agradeço o convite a Luís Maçarico as Vozes do Tempo e a opção por esta terra beirã para apresentação da sua mais recente obra.

È bom saber que, para alguns, estas terras envelhecidas e despovoadas somam ainda fascínios. O sagrado do vento, das serras, das lendas… a mentalidade mágica habitam a serra da Gardunha, este chão de cultura camponesa. Paira, por aqui, uma ideia de pureza primordial que as montanhas e as gentes emprestam ao espaço. Pureza que predispõe para o devaneio (uma fuga para fora do real), que atrai criadores, aumenta o gosto de luz. E de luz falamos, quando temos em mãos os contos de Luís Maçarico.

A capa surpreende; uma fotografia clássica do autor, comemorativa de qualquer coisa… Era assim o cenário, do menino que ia ao fotógrafo: bem vestido, sentava-se ou encostava-se a uma cadeira… Seguem-se outras fotos, a ilustrar os contos, do mesmo menino que vai crescendo... Livro autobiográfico? E há algum texto (prosa ou poesia) que não reflita uma visão do mundo de um autor?

Leia-se a narrativa, “O meu primeiro dia de trabalho nas obras”. É um conto que surpreende. O leitor observa o título, faz o seu trabalho, desenha hipóteses, mas linha, a linha, a estranheza prende-o. Ouçam o excerto: Acordei diversas vezes durante a noite, e, quando a manhã nasceu, fresca e exuberante, saudei pinheiros, eucaliptos, o céu, o velho moinho, as ervas selvagens, as aves, a estrada, o Jamor, tudo!

Lugar estratégico de identificação do narrador de primeira pessoa é inesperado o ângulo de visão. O dia de trabalho e os espaços envolventes são saudados em toda a dimensão humana. O que espera o leitor? Crítica ao trabalho duro, com o cortejo habitual da denúncia da crueldade de uma sociedade sem leis de proteção. Descrição das condições sub-humanas. Acusação da exploração do homem pelo homem. A injustiça de haver homens que nunca foram meninos, na expressão de Soeiro Pereira Gomes… E nada disto acontece... O trabalho é desejado, louvado.

Escreve, assim, sobre o transporte de baldes carregados de massa: Foi um bom exercício e uma prova indesmentível da fome de trabalhar que dentro de mim havia, feita de outras fomes. Nem uma palavra sobre a aspereza do ofício, sobre o salário... Qualifica o dia como inesquecível. E também os “dias seguintes” merecem avaliação favorável. Porquê? Explica: sempre cheios de qualquer coisa nova e aliciante como o nome de uma ferramenta desconhecida…

E esta abordagem é nova. Há qualquer coisa de heroico e de onírico nesta descrição. O valor da palavra, a criação da linguagem permitem alargar a consciência do falar. Toda a tomada de consciência é um aumento de luz, um crescimento. Aqui, está semeado o sentimento de ternura, o elogio do trabalho, do sonho… partilhado com “a malta das obras”. Os contos não são feitos só com o que se sabe, com o que se vê. Necessitam de raízes mais profundas. E, este primeiro dia, nas obras, não seguiu os cânones destes relatos, não apagou, antes permitiu ver “a paisagem sempre diferente com nuvens ou sol, pombos e árvores, vento ou gente, papoilas e água, as histórias dos velhos da betoneira, com os calcanhares roídos (…) as iniciativas dos moços disputando o pedaço de sonho a que tinham direito, a cerveja e os petiscos ao fim da tarde nas tascas da freguesia, entre sorrisos e palavras germinadoras de esperança”. Numa observação atenta da complexidade da vida, são os sentimentos de fraternidade que sobressaem. O ângulo de visão do narrador privilegiou nesta narrativa, o companheirismo de vidas franciscanas.

Luís Maçarico oferece-nos depois a história das casas, dos espaços, igualmente narrada na primeira pessoa. Cito: “Quando passarem pelo lote quarenta e seis da Urbanização da Portela, saibam que, antes daquilo ser um prédio, eu andei lá com muitos outros homens, ajudando a semear as raízes dessas paredes altas e vigorosas; fui um dos que participaram no crescimento das estruturas, transformando os caboucos em asas. “Servente de carpinteiro”, mescla sonho e realidade… a linguagem que é pensamento a melhorarem/enriquecerem o quotidiano difícil. Trabalho diário até que uma porta de mudança se abriu: ingressar na Câmara. Lamenta o patrão: “é pena ir-se embora, porque precisamos de gente com a sua “gana”! Os serventes que aí trago são uma cambada de madraços!”

À vontade de aprender, juntou-se, confessa o narrador e protagonista, o medo de voltar ao desemprego. Frui-se a sua capacidade de desvendar a forma de não abandonar o espaço imaginário do criador, o devaneio, a sabedoria da magia da palavra.

A “Sessão Solene” é uma narrativa de outro cariz. Conta a história um narrador observador, de terceira pessoa. Analisa o contexto e pretexto criados pela atribuição dos primeiros Jogos Florais da coletividade de nome adocicado, inspirador: Sociedade Favo de Harmonia.

À boa maneira portuguesa, a sessão atrasa-se. O presidente fazia tempo… a ver se aparecia mais alguém. Que também havia bolos com creme… acrescentou.

Na abertura da sessão, esta personagem explicitará o objetivo do acontecimento: dar um contributo para a descoberta de novos valores, em prol da cultura nacional.

São chamados os premiados. O primeiro prémio, em poesia, é atribuído a Laurinda Gonçalves. O poema merecedor da distinção titula-se: “Mulher livre”. É deste teor:

Diz não ao arroz de manteiga.

Esturra o fricassé…

Ele que o faça!

Faz greve ao coito…

 - Não és bibelot!

Livre? Feminista tonta? Uma denúncia implacável, mesmo que involuntária, sobre o entendimento de lutas de género, alia-se à análise do trabalho de coletividades atuais e jogos florais. Uma ironia fina percorre todo o texto. Aplicando expressões com um sentido diferente do habitual, produz um um humor subtil. Com elegância, através do jogo de palavras a intenção não surge no imediato. Estimuladora do raciocínio,  a trama obriga à demanda de sentidos possíveis. O inusitado das frases provocam o riso ou o sorriso. O que não faz sentido e abre muitas interpretações, neste texto premiado? Por que razão dizer não ao arroz de manteiga, a esturrar o fricassé…? E o ridículo do “bravo” gritado por uma mulher? Não é, por certo, este texto e outros quejandos  que ajudarão a construir a igualdade de género.

Na sequência por Xavier Pinot  -  “Roubo e achamento da cavalo de pau do Miguelito” - é o sono que sobressai. A leitura com má dicção, lenta e em voz baixa provoca o desinteresse a quem ouve. A trama tem como protagonista uma senhora caridosa. Sabe-se pouco sobre a intriga da história. O narrador, inteligente, omita a informação. Dormiu que não valia a pena/não conseguia ouvir? Mas é suficiente o súbito desfecho de moral explícita: Cometi uma má ação. Perdoa-me Miguel. (…) Não te quero ver assim doente. Aqui está o teu cavalinho de pau. (…) Põe-te melhor e vamos brincar. Roubei-o porque sou pobrezinho.” Viragem canónica, melhoria de procedimentos e a crença de que ser pobrezinho é, em última análise, ser bom. Este “pobrezinho” é formatado por velhos contos de moral duvidosa. Rouba porque é pobre, mas a vitória é a da amizade. Tem sorte: é saudável. O menino rico é doente. Vale mais ser pobre? Qual a opção? Comove-se a esposa, com a moralidadezinha deste desenlace feliz, de acordo com os cânones de antanho. Ser saudável e ser rico não era tema para histórias. E a mudança do conto, com confissão do larápio, provoca um sorriso de descrédito…

Outra personagem presente na sessão é o insigne representante da Liga dos Escritores Populares. Discursa o “insigne” e a inadequação da adjetivação, que o leitor pressente, materializa-se. Era lá agora insigne?! Sem jeito, exigindo muitas palmas para se decidir, disse: “Então aí vai (mas desculpem a minha modéstia!): Viva as coletividades! Sem elas eu seria um órfão cultural… O público vibra e aplaude. O que disse para merecer aplauso? O rebuscado “órfão cultural” faz sorrir de novo…

Ainda faltava, nestes Jogos Florais, a confusão gerada porque duas candidatas, Dona Etelvina e Dona Ermelinda, que escolheram o mesmo pseudónimo: Juvelina 80. Qual delas vencera? O nome da peça: Sabes o que é o fluor e porque voam as joaninhas? permitiu a identificação da eleita e o “broche de filigrana e as felicitações” foram entregues a quem de direito. Desconhecemos as cenas do texto dramático do fluor e das joaninhas, que o narrador poupou, de novo, o leitor. Mas fluor com joaninhas deve ter a ver com remédio de “pedagogites” agudas que vacinam as crianças contra a leitura.

O prémio Reportagem coube a Dona Filomena. O narrador descreve traços físicoe e psicológicos breves, mas suficientes. Penteado no “coiffeur”, bolsinha cravejada de brilhantes com os óculos para ler. Ajuda os pobrezinhos. Doa uma “lágrima de níquel”, outra metáfora para sorrir, adiantando que pretende “tornar a sua miséria mais suportável”. Pai aleijado, dois irmãos… uma desgraça. Retorno á temática da pobreza. Salva-se o Beto “criança esperta já faz recados impecavelmente…”

“Uma ameaça de ataque cardíaco”, pela muita emoção, impede a autora de ler o texto na íntegra. O filho substitui-a. No final, mostra o Beto para afirmar que é uma história verdadeira. Era garoto, o Beto. Solta-se indisciplinado, um apontamento simbolicamente relevante. Resolve a questão o Presidente que o ameaça com o castigo de não comer bolos se não se portar bem…  

Esta linha crítica interessa como denúncia do “engano” de certas políticas culturais. O narrador ajuíza sobre a elaboração e o êxito dos textos. A ortodoxia de temáticas bolorentas, os concorrentes, a penúria cultural são marcas que merecem atenção e rejeição. Nesta narrativa – “Sessão solene” - não há um fecho semântico. As vidas são pequeninas. O interesse satisfaz-se com telenovelas. A partitura burlesca concluiu-se, mas deixa abertura para novos olhares e improvisações sobre cultura de massas, cultura popular, criatividade e ética.

“A Avó e os versos” apresenta igualmente uma reflexão sobre a escrita. Diferente. Escreve: Minha avó é que não percebia o valor dessa experiência e, quando me apanhava naquele clandestino labor, despejava tempestades de recriminações, por eu preferir os poemas à Matemática, porque isso dos versos não dá pão.

Refletindo: os livros são um benefício para a Humanidade que sofre? Comparados com a miséria extrema… que valor tem um livro, um manuscrito? Para o homem do povo, um par de botas vale mil vezes mais do que a coleção das obras completas de Shakespeare ou de Púchkin, diz Pisarev.

E todos entendemos. Contestatários dos livros, os seus inimigos, sempre existiram. Lançam-nos para a fogueira, os fundamentalistas. Certo é que continuamos presos aos textos. A ficção nascida do espírito do autor tem mistérios. Um jovem no quarto, um livro, às vezes, deixa-se hipnotizar: Passava montanhas de horas no quarto, lendo, relendo, escrevinhando, riscando… Momentos de evasão e liberdade, as palavras distraem, refletem revoltas e resignações, espelham temores e confiança, salvam.

E a avó mudou, quando um texto do neto foi publicado num jornaleco da escola. O medo cedeu lugar ao orgulho. No fundo, não desaparecera o receio, mas aparecia, agora noutro registo: ò rapaz, tu lê e escreve à tua vontade (…) Mas vê lá se não te esqueces de pegar no livro de Matemática!”

O território do eu é uma teia, um labirinto; uma tensão bipolar de afirmações/negações constrói o discurso. Os escritores refletem a respeito de si próprios e do outro, alargam o conhecimento quando, como explica Luís Maçarico, aos 18 anos comecei a ver em cada palavra uma ponte importante para chegar aos outros.



Três personagens são o fulcro da trama de três contos:

O barbeiro Augusto

A viagem na espessura dos dias da infância trouxe à memória o Barbeiro. Observação minuciosa, descrição física e psicológica da personagem e do corte de cabelo, das sensações… Até “ao dia em que a esposa me deu a entender que nunca mais poderia discutir com ele, as coisas comezinhas, intercaladas com os descalabros asmáticos, entre o ganir da bomba de ar e a dança do espanador”.

Personagem construída à imagem e semelhança de pessoas com comportamentos e sentimentos reais, vive situações e dilemas de todos conhecidos, envolve o leitor a quem dói também o desaparecimento do Barbeiro.

O velho e o tempo

O protagonista é um velho com tremuras na voz, sotaque beirão, pobre. Morador em Penamacor, chão beirão onde o progressivo despovoamento, o envelhecimento, a desistência, a atração da vida urbana, desgastaram formas de vida tradicionais. Ficaram os velhos. Sem desistir, este idoso quer semear e quer colher. Sabe: “quando isto acabar nunca mais cá volto”. Conta: “Sete ovos aguardam a poedeira. Nove nozes apodrecem, rodeadas de ossos… A quintarola, a vida a sumir-se, a desaparecer. Magoado (ou reivindicativo?), o camponês reclama: “Enterrei aqui vinte e tal contos de réis. Se ao menos me deixassem depois colhê-las!” Afinal, aquele espaço tão estável e durável sustentava a memória viva de uma longa referencialidade/afetividade: foi aqui...

A ruralidade era/é um horizonte de paz? O povo que habitava o campo cuidava-o em estreita comunhão com a natureza. Hoje, a aldeia quer ser como a cidade. Com a doença do consumismo e tudo… O melhor do Público no email

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Tinha de ser assim?

Manuel Losté tem como protagonista um algarvio velho. O mesmo tema. Num mundo que muda, diz que está “de abalada”. Reflete sobre caminhos que calcorreou, as dificuldades imensas que a família passou (…) o corpo franzino coroado por um chapéu de feltro velho como ele, senhor de uma experiência, que mais vale do que a herança, tem o valor dum pequeno, luminoso império. Valem aqui, a idade, o corrido e o lido, o saber de experiência feito…

Para o fim ficaram Pardieiros.

De novo, um narrador de primeira pessoa abre alçapões da memória para viajar na densidade dos afetos. Positivos e negativos. Descreve: “Guardo na memória fragmentos de instantes quase irreais: coisas sentidas como as primeiras letras escritas nas paredes da velha casa. No Largo dos Pássaros, via saltimbancos a engolir fogo (…) bailarinas esfarrapadas (…), um coreto a iluminar as ruas cinzentas dos dias difíceis. Cegos a espalharem música (…) O Tejo a insinuar-se nas entranhas do povo melancólico (…) E as estrelas a escancarar as águas-furtadas do sonho”.

Espaço mais que perfeito, real e de devaneio, para “ela e ele” construírem uma “breve história do prazer”.

São quatro casais, homens e mulheres em demanda da felicidade. Todos, com vidas diferentes; mais difícil, a do lado feminino.

A Eulália e ao José abraça a teia do enamoramento. José hesitante. Pensa ela: “Com um filho, as hesitações serão vencidas”. Arrisca. No singular. Só ela, mulher, arriscava. Começa a primeira narrativa: Era uma vez…

Aconteceu. Confessa o segredo à irmã: Anjoulila. Mulher solidária oferece-se: “Se te vires em apuros, procura-me!”

Anjoulila vive “Uma existência pouco escrupulosa no Alentejo”… Filha de pobres. Ela e a irmã desafiam códigos da “Mui respeitável Sociedade Machista Lusitana”, como escreve Luís Maçarico.

José procura outros encontros na capital, na cidade, “Encharcada de luares e sóis únicos” (a luz de Lisboa), descobre Miquelina, “sopeira roliça e eletrizante…”

Eulália procura-o, numa Lisboa de tascas, casas de jogo, bebedeiras… de homens de fato-macaco. Entre mulheres de mágoa, Eulália percebe e chora baixinho.

Frase chave de José: “Evita procurar-me, porque eu não te amo! E já te disse: é melhor que trates de abortar!”. Mais um Fado da Desgraça. Para ela, era um mundo que desabava.

Outro par: Armando, irmão de José, despede-se, no cais, de Regina. Emigrou. “Viram partir um transatlântico embandeirado. Guardaram a lágrima de alguém que ficou (…)”. Vale a esperança: “Voltarão um dia. Em busca do irrecuperável oiro dessas horas.” Voltarão? O futuro, em português, a assinalar a dúvida.

O narrador introduz outra personagem: Gertrudes, mãe de Armando e José, está separada do marido há muitos anos. Este abandonou o lar quando os filhos eram de colo. Conhecem-lhe milhentas amantes. Sina(s) de mulher(es).

Pelas filhas, Eulália e Anjouila, chora o pai ébrio: Perdi duas filhas! Eulália junta-se à irmã.

Desenlaces: Armando não tem pressa de casar. Regina continuará à espera.

José e Miquelina namoriscam.

Gertrudes continua a trabalhar.

Anjoulila ampara Eulália.

Histórias de mulheres e de homens tão irmãs, ao longo de séculos! Conclui Luís Maçarico: Há muitas maneiras de contar uma história… De acordo com o ângulo de visão do narrador, a mesma história será contada de forma diferente. A sua versão emociona.

Pardieiros conta histórias de vidas procurando o fio que une quem foi e quem é, o que foi e o que é. O escritor, em torno das suas origens, reencontra pessoas e revisita memórias dignas de serem contadas. Em cenários de sonho, avizinha o leitor de vivências de sofrimento e interrogações. Sobretudo no feminino! As perplexidades de mulheres e homens do seu tempo, a ausência de juízos de valor explícitos, não impedem que o narrador assuma uma postura crítica; Luís Maçarico escreve em nome de um humanismo que escasseia. Vítimas desta urdidura, mulheres e homens, vivem há séculos em perturbante desassossego e desconcerto… E o escritor refugia-se na sua subjetividade, em busca da realidade subterrânea dos seres. Através de vários casais, lemos versões-de-mundo magoadas e todavia abertas à esperança.

Fizemos com o escritor um pacto autobiográfico? As fotografias que ilustram e o texto aconselham-no. Assim seja!

À laia de conclusão

Disse Vergílio Ferreira: Há os livros que antes de lidos já estão lidos. Há os que se leem todos e ficam logo lidos todos. E há os que nos regateiam a leitura e que pedimos humildemente que se deixem ler todos, e não deixam, e vão largando uma parte de si pelas gerações e jamais se deixam ler de uma vez para sempre."

Histórias eternas que vão largando uma parte de si pelas gerações e jamais se deixam ler de uma vez para sempre, as que conta Luís Maçarico? Diremos:

Que bem conta as coisas! Ou seja, não são as coisas em si que são interessantes, é o modo de contar que gera o prazer do texto, é a viagem pelo imaginário que oferece momentos de divagação a ver a vida. Porquê? Talvez porque Luís Maçarico desde menino soube a prece ao deus da leitura: A fome de ler de cada dia nos dai hoje.

Contar, inventar para não morrer é tarefa de Xerazade. Claro! E de outros que tecem e destecem teias narrativas. Uma teia que renova e recria personagens, tramas, desenlaces… e que salva. Foi porque contou bem as coisas, que as viagens em tapete voador com o sultão duraram mil e uma noites… Ou seja, os contos, os romances, as palavras salvam, como disse… Até pelo milagre do afeto!

Maria Antonieta Garcia (texto) Melisa Gomes e Eduardo Serra (fotografias)