aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Há Horas Felizes ou como Os Textos Essenciais da Psicanálise voltaram à minha Biblioteca

Sempre ouvi dizer que emprestar livros é ficar sem eles.
Durante a minha licenciatura em Antropologia na Universidade Nova, ao longo da primeira metade dos anos 90 do século passado, tive o privilégio de ter o Professor Doutor Gabriel Pereira Bastos, em Psicologia Social e Antropologia e Psicanálise, tendo então adquirido os "Textos Essenciais da Psicanálise" de Sigmund Freud, que me ajudaram a compreender melhor a arte de Artur Bual.

Passados anos, emprestei a uma estudante, com fracos recursos económicos, aquela obra. A rapariga formou-se e os livros nunca mais tornaram à procedência...
Contudo, e apenas por 30 euros (desconto de 50%), hoje recuperei, na Livraria das Publicações Europa América, na Avenida Marquês de Tomar, 1 B, em Lisboa, os três volumes que há décadas faziam falta nas minhas estantes, para poder continuar a estudar os artistas (poetas, pintores, etc.) e o imaginário popular, quando sou desafiado a apresentar comunicações em colóquios, como tem sucedido e vai continuar a acontecer, assim tenha vida e saúde.

Os meus agradecimentos a quem não devolveu os velhos exemplares amarelecidos, pois comprei uma edição renovada. E parabéns à Livraria PEA em Lisboa, por ter tão bela oferta.
Há horas felizes!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografia)

As Livrarias de Óbidos e a Poesia de Eufrázio Filipe

No passado sábado, tive o prazer de percorrer Óbidos sem o incómodo das enxurradas de turistas que já encontrei noutra ocasião.
Entrei nas três livrarias (todas pertencentes à Ler Devagar, cuja casa-mãe frequentei muitas vezes, em Alcântara, na LX Factory) e em todas elas encontrei livros que mexem comigo.
De Manuel António Pina (Como se Desenha uma Casa) a Edgar Allan Poe (Histórias Extraordinárias), passando por um pequeno volume chamado "O que é Poesia", de Sousa Dias, a jóia da coroa  são três livros de Eufrázio Filipe: "A Linguagem dos Espelhos" (1982), "Mar Arável" (1988), nome do seu blogue, onde partilha a sua poesia mais recente e "Presos a um sopro de vento" (2014).

Deste autor, partilho um poema:

Sem muros nem amos

As andorinhas chegaram mais cedo
ao seu ninho preferido
o de sempre

os senhores do mundo
que não são os senhores da vida
designaram dias
para todos os santos

criaram
não o dia das andorinhas
mas o dia da mulher

na verdade dos desertos
há flores nas areias
mulheres que valem por si

atravessam oceanos
rasgam o chão 

são as mulheres que amo
com asas
sem muros nem amos

Eufrázio Filipe, "Presos a um sopro de vento", p. 50.

Luís Filipe Maçarico (texto, selecção do poema de Eufrázio Filipe e fotografias)

terça-feira, janeiro 10, 2017

SAMUEL apresenta novo trabalho de grande qualidade

Samuel Quedas é um notável intérprete da Música Portuguesa, que transporta o espírito de Abril em canções que tanto nos tocam.
O seu mais recente trabalho é extasiante, arrepiando pelas palavras, tão bem cantadas e tão intensas, pelo coro que sublinha ambiências, paisagens sonoras, pelos músicos com bastante qualidade, na plenitude da vida que exalta e celebra em cada faixa.
Respiração genuína da música, à qual imprime rigor e muita beleza, através de uma voz clara, sempre jovem, voz que atravessa o tempo - como um clarão - e nos transporta para uma realidade onde o inconformismo  diz as suas razões, para lá da serenidade inquieta, da reflexão e da intimidade, partilhada sempre de forma singular, ternurenta, comovente, com simplicidade genial.
Grandes poetas, de qualidade reconhecida, acompanham a sua caminhada, continuando surpreendentes. Samuel canta palavras de Saramago, Gedeão, Armindo Rodrigues, Joaquim Pessoa, Louis Aragon, além de Amélia Muge, Tiago Torres da Silva, João Monge, Nuno Gomes dos Santos e José Mário Branco.
Marcante, este disco é uma companhia magnífica.
Recomendo para se escutar muitas vezes e oferecer.
Os Amigos merecem esta pérola. Parabéns, Samuel!

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, dezembro 20, 2016

CTT O Esplendor do Ranço

Os CTT após a privatização, passaram a "desfuncionar", aliás como tudo neste País.
Conta-se em duas linhas o que me levou a escrever a introdução desta notícia.
No dia 6 de Dezembro, como previa ausentar-me, fui à estação de Almada- Praça fazer a retenção da minha correspondência por um mês.
Após uma estadia de 15 dias no Baixo Alentejo, constatei que além da abundante publicidade (há empresas das quais chego a receber de uma só vez três folhetos iguais) tinha correio na minha caixa, situada no prédio onde resido.
Fui à estação onde subscrevi (e PAGUEI mais de sete euros) a retenção das missivas que me são enviadas.
Não constava qualquer carta.
Digam lá que nome dar a isto?

LFM

Um Conselho para o senhor Primeiro Ministro acabar com o desemprego jovem



Há dias, António Costa apareceu na Televisão, lamentando - junto da JS - o facto de existirem cem mil jovens portugueses no desemprego.
Dou-lhe um conselho de borla.
Tire do Estado camafeus, como a bafienta dona Teodora, e meta no lugar dessas chefias exauridas, sem criatividade, nem nada para dar, além de uma lengalenga insuportável de pseudo - sábios, a juventude que pode fazer a diferença, alicerçando um futuro melhor para todos. 
Sem acção consequente, apenas fala para o boneco. Farta de discursatas está a populaça.
Haja coragem de mandar para as termas as sinistras criaturas, que já morreram há muito tempo e não tiveram uma alma misericordiosa que as informasse...é que não f... nem saiem de cima!!!

Luís Filipe Maçarico

sexta-feira, dezembro 02, 2016

A Menorização do Património chegou ao Tua

A menorização das questões identitárias, que definem uma região, um Povo, um País e do seu Património está imparável.
O Pirosismo que invadiu Portugal carece da frontalidade, espírito crítico e sarcasmo de um Eça, um Camilo, um Ortigão, um Aquilino, um Saramago, pois não vislumbro autores literários com características para enfrentar interesses instalados. Até o José Luís Peixoto, que chegou a dar aulas, uma vez na Televisão disse que tinha uma família para sustentar e era por isso que agora escrevia... (quantos empresários do novo filão turístico leram esses e outros autores indispensáveis à formação cultural de quem anseia dirigir empreendimentos e projectos que promovam o que é genuíno em Portugal?)
A Americanização do centro das cidades, transmutando em cenários Hollywoodescos espaços históricos, chegou a Trás - os - Montes.
Lemos na página 20 do "Público" de hoje que "O comboio turístico que o grupo Douro Azul  pretende pôr a circular na linha do Tua suscitou uma onda de indignação  nas redes sociais porque a locomotiva, de desenho tipicamente americano, parece saída da Disneylândia".
E acrescenta a notícia: "O Tua Express, inspirado nos comboios do Tio Sam, vai circular a partir da próxima Primavera ent5re Mirandela e Brunheda, nos 33 quilómetros de via estreita que sobreviveram à barragem."
Dizem os entendidos que "Uma locomotiva americana nada tem a ver com a cultura ferroviária europeia e portuguesa".
Em suma, será bom haver um comboio por aquelas bandas, mas não vale tudo!

Ler a informação completa aqui:


Luís Filipe Maçarico (texto) Imagem do jornal "Público"

quinta-feira, dezembro 01, 2016

A Metamorfose do Palácio do Barão de Quintela e o "Esquecimento" do Espírito do Lugar, da História das Invasões Francesas

Já que hoje voltamos a ter o feriado da independência nacional, que poderemos dizer da transformação do Palácio do Barão de Quintela, em catedral da restauração, chamando-se agora "Palácio do Chiado", sem qualquer alusão na frontaria acerca da primeira invasão francesa (1807-1808), pois foi ali que Junot se instalou e "ficou a ver navios", "comendo à grande e à francesa"...

Todos os presidentes da Câmara Municipal de Lisboa, de esquerda e de direita foram omissos em relação à História da cidade e do País, que passou por ali. 

Leiam Rui Cardoso e Teresa Caillaux de Almeida, é uma recomendação que faço àqueles que se contentam em lamber os sapatos dos autarcas, por serem de um partido, pondo likes como carimbos...
A humildade desapareceu e certas pessoas transformaram-se em autómatos do aplauso, sem espírito crítico. 

Com Cesário Verde sucede algo semelhante. As marchas de Lisboa falam das varinas de Cesário, mas muitos dos vereadores nunca leram o Poeta. 

País de Ignorantes que festejam a transformação do Palácio em sete áreas de restauração, inclusivé o sushi. Agrada-me que um edifício de valor histórico saia do esquecimento e seja requalificado, mas neste caso não se lembraram de colocar um daqueles marcos, que evocam a história, o espírito do lugar. 

A Memória e a História da cidade são desprezados todos os dias e estou-me nas tintas para quem não me considera cool. Aos que ficam agoniados com a minha prosa aconselho experimentarem levando onde levam as galinhas...

Luís Filipe Maçarico

quarta-feira, novembro 23, 2016

João de Araújo Correia. O Médico-Escritor cujo Consultório era um Laboratório Literário", comunicação apresentada em 22 de Novembro de 2016, no Colóquio dos Olivais

Apresentei esta terça-feira, 22 de Novembro de 2016, a derradeira comunicação deste ano, no Colóquio dos Olivais. Intitulada "João de Araújo Correia. O Médico-Escritor cujo Consultório era um Laboratório Literário", serviu para despertar novos leitores, que desconheciam a vida e a obra do "Mestre de Nós Todos"...
No entanto, a Escola Eça de Queirós não possui este autor na sua Biblioteca, apesar dele integrar o Plano Nacional de Leitura...
A minha gratidão ao incansável paladino queirosiano Senhor Professor Fernando Andrade Lemos, entusiástico organizador de eventos que acrescentam interesse a temas da cultura nacional. Uma vez mais incluiu-me no programa, em lugar cativo, não havendo palavras para agradecer esta atenção para com o meu trabalho enquanto antropólogo e intelectual. A revista "cadernos culturais de Telheiras" tem publicado as minhas intervenções, o que me muito me honra, designadamente: "Imaginário Popular em torno de Santo António, na Cidade de Lisboa, no início da segunda década do século XXI " (2012), "Mãos que Protegem, Mãos que Chamam - Como um Objecto da Tradição foi Reinventado: A Chamada Mão de Fátima" (2015) e "Os 'Jordões' de Pias: Uma Tradição Ímpar" (2016).

Desta vez, tive oportunidade de chamar a atenção para "O mérito do contista [João de Araújo Correia], que se alicerça no espírito do lugar, na sabedoria narrativa, na qualidade linguística, eivada de regionalismos, mas também pela admirável escala humana que o inserem na galeria dos escritores transmontanos de referência."
JAC "procurava na privacidade e na solitude do seu duplo labor, o equilíbrio entre as duas pessoas que o habitavam: O Médico e o Escritor."
Sobre a sua primeira obra, escrevi: "Livro tecido com a beleza de uma teia lambida pelo orvalho, "Sem Método", como toda a prosa de João de Araújo Correia, é rio límpido, socalco luminoso, filigrana de um verbo que retrata o povo, pobre, faminto e miserável, com gentileza de harpa e alegria de concertina, não deixando de inserir na caminhada dos humildes que ausculta e procura curar, a dureza da paisagem esmagadora, o chão custoso de germinar a poesia da vida, apesar do imenso suor e dos incansáveis esforços."
No que concerne à Tertúlia João de Araújo Correia disse que "é de louvar o incansável labor dos membros da Tertúlia, pela sua actividade permanente, divulgando a vida e a obra do intelectual duriense cujos personagens imortalizam o Douro, na mesma proporção com que o Douro imortaliza os seus contos."
E a terminar afirmei: "A língua portuguesa enriqueceu-se com este regresso. As actuais gerações e os novos leitores têm agora acesso a verdadeiros tesouros." 

Luís Filipe Maçarico         

segunda-feira, novembro 14, 2016

De Serpa, uma Carta com a Grande Sabedoria da Vida

Ao longo da minha vida de Poeta, registei com muita alegria a opinião dos Professores, que acompanharam o meu crescimento.
Maria Manuel Montenegro Miguel, na Escola Preparatória Francisco Arruda estimulou-me bastante, registando num teste que eu escrevia muito bem!
Maria Fernanda Sousa, na Escola Comercial Ferreira Borges, incentivou-me a escrever, comentando (através de correspondência mantida ao longo dos anos) os meus versos, com uma linguagem de extraordinário apuro.
Foram as minhas professoras de Português no caminho normal de um estudante comum.
Quando em adulto e após vir de Moçambique, ingressei na varredura da CML e decidi nas horas livres frequentar o 10º, 11º e 12º  do Curso Nocturno, no Liceu D. João de Castro, tive a honra de ter como Professor o escritor Carlos Correia que na última aula disse aos meus colegas que iam ouvir falar de mim, pois eu era poeta.
A profecia cumpriu-se e tudo o que sou deve-se a esses apoios.
Falemos dos leitores.
Na apresentação do primeiro livro (Da Água e do Vento), na Feira do Livro, apareceu uma rapariga simpática, quase em êxtase, enaltecendo a minha poesia, de uma forma tão teatral que me lembrou aquela frase "cantas bem mas não me alegras!". Disse ela, pestanejando muito: "Obrigado, Poeta por existires!"
Desde então, recebi elogios de confrades, aplausos de leitores, mas também descobri que uma criatura que julgava amiga arrecadara os meus livros na cave do prédio onde mora, numas estantes metálicas para arrumos de ferramentas e utensílios, junto com os detergentes e os trastes.
Um poeta transtagano, seguramente infeliz, talvez por nunca ter conseguido realizar os seus sonhos megalómanos, olhou para o volume, em que eu celebrava a terra onde nasci - Alentejo  e começou a vomitar correcções, tipo aqui riscava esta frase e deixava ficar este verso, etc.
Não me deixo levar com estes sinais fugazes, umas vezes positivos, outras vezes contrários.
Vem isto a propósito de ao longo dos anos apresentar raras vezes o que escrevo. Se procuro alguma coisa é a tranquilidade e morrer em Paz. Ouvir o silêncio, é-me precioso.
Contudo, em 1 de Outubro e a convite dos "Amigos do Alentejo" bisei a declamação poética de temática alentejana, desta vez optando por outros autores: Romão Moita Mariano, Mestre ferreiro de Pias, poeta apurado, sábio e ainda Eduardo Olímpio e Manuel da Fonseca.
Antes da função se iniciar, uma senhora de Serpa - integrante de um Grupo local de Cante no Feminino, dirigindo-se a mim pediu: "Senhor Luís dê-me cá um bejo que eu gosto muito dos seus poemas."
Aparvoado, soube pela senhora, Ana Rita de seu nome, que ela estivera no lançamento na Casa do Cante do meu "É de Noite Que me Invento" e que o conteúdo dissera-lhe muito.
Explicando que decidira dizer outros poetas e perante o seu lamento, pois estavam pessoas que não conheciam a minha escrita, recitei-lhe num cantinho o meu poema "Olho nos Olhos Estes Velhos" e pedi-lhe a morada para lhe enviar livros meus.
Recebi hoje a carta desta leitora que vale mais que muita prosa laudatória, pela qual, quando somos jovens, tanto ansiamos...
Esta Amiga partilhou a sua sabedoria, numa caligrafia belíssima, de conteúdo mágico...
Não resisto a transcrever um excerto, que me transmitiu uma força extraordinária para continuar neste Mundo:
"Na minha primavera dos sonhos, e eu em Paris, Maio 68 também em grande eu sonhava...Aprendi e vivi a liberdade!Porém, houve sonhos realizados, outros desencontrados, alguns sempre sonhados.. (...) A vida nunca se perde quando partilhada, amada para o bem comum.
Sinto que me vou deste mundo onde passei como faísca que arde. Apenas a deixar cinzas de tantos sonhos sonhados...
Que o sonho não acabe. Que se realizem os sonhos." 
Digam lá se há prémio melhor para um escritor do que esta carta, esta reacção.

Luís Filipe Maçarico (fotografia de AIC)