aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, agosto 14, 2018

Gracinha Correia


Alpetriniense ilustre, de uma geração da qual restam escassos indivíduos vivos, Maria da Graça Correia foi a primeira mulher à frente da Liga dos Amigos de Alpedrinha (LAA) e teve em vida a grata surpresa da autarquia local consagrar o seu nome numa rua da vila.
Animadora do Museu daquela associação, durante muitos anos foi responsável pelas exposições de Verão, proporcionando aos visitantes o espanto pelos temas e pela riqueza de peças apresentada.
Devota, foi também ela que durante décadas se encarregou do embelezamento (com arranjos florais requintados) dos altares da Matriz.
Habitando um velho solar, com um magnífico jardim que era um pedaço do Éden, tratava dos assuntos domésticos e da rega do vergel, porque como alguns idosos defendem, esse é o melhor remédio para as maleitas e a solidão.
Já não a conheci jovem (deve ter sido uma das beldades da Sintra da Beira). Conversámos amiúde. Foi presença constante nos lançamentos de livros e encontros de Poetas onde participei.
O artigo de minha autoria, publicado na revista do Museu do Fundão,  EBVROBRIGA", nº 9, "Memória Oral e Imaginário Popular, em Torno das Invasões Napoleónicas na Vila de Alpedrinha", registou o seu testemunho (página 124).
À hora em que escrevo é provável que se aproxime o momento do corpo descer à terra.
Curvo-me perante o seu percurso de entusiasta dos valores culturais, que permaneceu entre nós até aos noventa e nove anos.
Que repouse em paz, o seu espírito, pois de partilha com luz, foi a sua vida, nos momentos felizes e tristes da sua Comunidade. Os meus sentimentos à família e a todos os associados da Liga dos Amigos de Alpedrinha e à população da vila, por esta perda.

Texto e Fotografias de Luís Filipe Maçarico 

domingo, agosto 12, 2018

Memórias de PAN 2018 em Morille: 7- A Urgência da Poesia de Fernando Duarte


O livro "As Palavras que Faltam" foi lançado em Morille/Salamanca, no âmbito do PAN/2018.
Tive o ensejo de viajar com Fernando Duarte, com este objectivo, ainda que desta vez alguns problemas de saúde tivessem exigido mais de mim, porque o calor desaconselhava viagens.
De qualquer forma, a vontade fraterna de levar a obra até Castilla y Léon, num contexto de Poesia Transfronteiriça, imperou - e o evento concretizou-se, no Salão de Plenos do Ayuntamiento de Morille.

Na ocasião, e com base num escrito, produzido a propósito, e após começar por citar um dos anteriores intervenientes, que deixara escapar a bela frase "Quanto não vale o Sonho num país de loucos!?" disse isto:

"A Poesia de Fernando Duarte, foi emergindo ao longo dos anos, com carácter de urgência.
Os livros vão-se sucedendo a um ritmo inesperado. 
Tenho o gosto de ter assistido à evolução, desde o já distante "quase cem poemas de amor e outros fragmentos". "A Hora das Coisas", que tive o privilégio de prefaciar e "As Palavras que Faltam" chegam hoje a Morille, neste Encontro e Festival de Poesia Transfronteiriça, Património e Arte de Vanguarda, em Meio Rural".
E tal como afirmei, este Poeta, que há muitos anos me escreveu cartas do Alaska, onde a veia poética já se manifestava, que teve prémios em concursos literários e que faz chegar a sua Voz a periódicos da América Latina, entre outras geografias, é uma voz singular, desdizendo o dizível, em versos originais, é desconcertante na sua crueza ou na inesperada ternura.
Vale a pena descobrir este Poeta através dos seus livros, porque nos enriquecemos com a reinvenção dos versos, que nascem do gesto que molda o barro ou na incansável busca das sílabas.
É por esta razão - pela sua qualidade - que Fernando Duarte está por mérito próprio - em Morille.

Como é habitual, o autor - que distribuiu a todos os presentes uma folha com alguns dos seus poemas - fez uma intervenção, onde evocou a Musa inspiradora desvendando o minucioso labor da concepção dos versos que integram este e todos os seus livros já publicados.
Foi com agrado que constatámos o interesse da assistência nesta intervenção e nos poemas que foram ditos pelo autor.

(Texto de Luís Filipe Maçarico; Fotografias de Creudénia Freitas Santos))

Terminologias e a Opinião de um Antigo Secretário de Estado das Florestas


 Imagens recolhidas nas Caldas de Monchique
 
O êxodo rural, a extinção dos guardas florestais e o investimento em políticas erradas de florestação, tornaram Portugal na fornalha incendiária, que todos os Verões aterroriza as populações. 
O artigo que destaco - como tantas outras opiniões (coincidentes) estará destinado ao esquecimento dos que tomam decisões no Ministério respectivo?

"A questão dos incêndios florestais (ainda os considero assim por defeito de fabrico ou porque não consigo encontrar ruralidade alguma num evento nas serras de Sintra ou de Valongo, que normalmente dizem mais, em meios e impactos públicos, que os restantes)

Ascenso Simões, deputado do PS e antigo secretário de Estado das Florestas (2005-2009)

quarta-feira, agosto 08, 2018

A Dor em Directo e Duas Perguntas





Há cerca de sete anos, estive em Monchique, com as queridas amigas (e irmãs) Marta e Natália, de Braga.
Foi um passeio de sonho, ao Paraíso. Admirámos a Pérgola, de onde se proporcionava uma visão belíssima da Serra, a perder de vista. Fomos ao ponto mais alto - Fóia, sítio de ventos eternos, onde vacas pastavam e o silêncio imperava. Perante a monstruosidade de um incêndio terrível e intervenções absurdas (breffings) de responsáveis, que chegam a explicar a incapacidade dos meios - através da personalização do vento e do fogo, como se falassem de terroristas impetuosos, ou estivessem a recitar Edgar Allan Poe, prefiro evitar resvalar para comentários outros e deixo apenas duas perguntas (como se fosse muito estúpido):

Alguém me consegue explicar como passámos do ano de 2017 (ano de devastadores incêndios florestais) para 2018, onde os incêndios ganharam nova terminologia - agora são rurais...(como se estivesse a arder a horta do tio António, quiçá as capoeiras e o pomar da tia Olívia) Durante anos falou-se, até à saturação, do êxodo rural. A ruralidade até já é motivo para Museus. Contudo, agora, os anúncios na rádio alertam quem reside em aldeias para o perigo dos incêndios rurais (como se reduzíssemos o pesadelo florestal a quintais com alfaces, couves galegas, feijões, tomates, pepinos e abóboras).

Sem querer ser mal interpretado, pois o que desejo mais é que não haja incêndios, em lado nenhum, racionalmente constato: Em 2017, ardeu o Centro todo. Agora, em Agosto de 2018, depois de Marvão e Castro Marim, onde se verificaram incêndios, que foram notícia, a Natureza em Monchique e Silves (concelhos com inúmeras localidades) arde há seis dias.

Se como vejo, oiço e leio, os eucaliptos são esmagadoramente maioritários, o Verão (ou Primaveras e Outonos mais quentes) vão continuar a devorar o território rural, onde essas árvores serão combustível para insuportáveis reportagens televisivas, com pseudo jornalistas a perseguir velhos, para gravarem a sua dor em directo. 



Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

domingo, agosto 05, 2018

O FOGO OUTRAVEZ

Monchique ilustra de forma macabra o terror do Verão, que são os incêndios, os quais regressam todos os anos por esta altura. Mas hoje falaram de Estremoz(*), de Marvão, da Sertã.
Sinto-me enganado, pois falaram na Comunicação Social - até á saturação, com palestras e publicidade institucional aconselhando posturas e tudo volta ao ponto zero.
O clima, é verdade, está alterado. Mas não explica tudo.
Há feridos, casas ardidas, viaturas queimadas. Foi o que li nas "Notícias ao Minuto".
Sou obrigado a pensar: Mas este Povo é estúpido? (As informações referem que grande parte dos incêndios resultam da utilização [desaconselhada, quiçá proibida] de máquinas agrícolas).
Depois o pasto que os eucaliptos continuam a ser (na Beira Baixa, nas zonas que arderam, voltaram a plantar e/ou cresceram de forma assustadora. Os eucaliptos por onde começou o incêndio de Monchique.
O filme das populações deslocadas repete-se. 
Porque razão os meios não foram disponibilizados - em força - logo de início? Quem decide? Porque não estamos protegidos deste pesadelo e ele sucede sempre, mesmo que se evitem os mortos do ano passado?


(*) Com desagrado li que o presidente da CMEstremoz disse à Comunicação Social que os feridos  (dois dos quais jovens com queimaduras graves) num incêndio local, estavam numa quinta e não eram da terra, como se isso pudesse aliviar a intensidade do sinistro.

LFM (texto) Fotografia recolhida na Net

sábado, agosto 04, 2018

Memórias do PAN 2018 em Morille: 6 - Três Brasileiras em Morille

Rita, Diana e Creudénia, todas esposas de portugueses que são amantes da Poesia e da Pintura, são como todos os seres humanos diversas. Duas delas, professoras. Psicóloga, a terceira.
Em Morille, acompanharam os seus "artistas" e conviveram, formando um simpático grupo lusófono, no feminino, para partilhar vivências.
Das terras natais (diferentes no imenso continente que é o Brasil) às dificuldades sentidas em Portugal, para concretizarem a naturalização, muitos foram os temas desse alegre encontro.

A vida, é feita de pequenos grandes momentos. O PAN sendo uma emanação do quotidiano que se transcende, também.

Luís F. Maçarico (texto e fotografias)

memórias do PAN 2018 em Morille: 5- Poetódromo


Pela terceira vez desfrutei do espaço (desta vez mais fresco que nas edições anteriores) do Poetódromo, dizendo um poema para uma assistência vasta (que incluía habitantes de Morille).
No final, uma parte dos poetas presentes foram fotografados por Creudénia. participaram, entre outros, Carlos d'Abreu, Fernando Fitas, Laurinda Figueiras, Leocádia Regalo e Renato Roque. Célia Corral Cañas foi apresentando os intervenientes.

Luís Filipe Maçarico (texto). Fotografias: Creudénia e LFM

terça-feira, julho 31, 2018

Catorze Anos Depois: "Águas do Sul" Continua a Caminhada

No dia 1 de Agosto de 2004, "Águas do Sul" começou com poemas (ainda sem imagens) que falavam do Alentejo.
Catorze anos decorridos, celebro a data com oliveiras da Beira Baixa (Póvoa de Atalaia, a terra natal de Eugénio de Andrade). E afirmo, com gratidão, a todos os que seguem regularmente este blogue, que ele vai prosseguir, ancorado sempre nos ideais de partilha, resistindo ao desconcerto do Mundo com o Sonho. Lutando pela Cultura, pela Fraternidade, pela Justiça.
BEM HAJAM!

Texto e fotografia de Luís Filipe Maçarico

Memórias do PAN 2018 em Morille: 4- Rodrigo Dias Pintou ao Vivo no Arco do Peregrino

Falar de Rodrigo Dias é evidenciar a dádiva da sua Arte, partilhada no início de Julho, com o povo de Vilarelhos e a meio do mês, no Ayuntamiento de Morille (Arco do Peregrino).

Em ambos os casos, o imaginário e a poesia irromperam das pinturas (ao vivo) e tocaram a sensibilidade de um Fernando Fitas ou de um Raúl Vacas, poetas raianos que admiraram os traços e  cores utilizados.

O eterno D. Quijote de la Mancha e a Dulcineia, bem como o Sonhador - mergulhado na Natureza e na festa dos dias intensos e limpos, constituem duas obras, que celebram a Vida e a Memória, a passagem do Tempo pelos caminhos de cada um de nós, presentes ou ausentes deste PÃO, que sacia a fome de Cultura de dois Povos mais próximos, que se dão a conhecer, através de formas variadas e enriquecedoras: música, literatura, escultura, gastronomia (Vivam as cozinheiras de Vilarelhos!!!) celebrando os horizontes desmedidos dos futuros possíveis.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

Memórias do PAN 2018 em Morille: 3 -Três Pilares da Organização

Seria injusto, não evidenciar a qualidade do trabalho de organização do PAN [evento dirigido por Manuel Ambrosio Sánchez Sánchez), no desdobramento Vilarelhos + Morille/ 2018, que pude fruir, como dezenas de outros participantes, uns só em Portugal, outros apenas em Espanha e muitos outros, em ambas as edições deste ano.

Sá Gué foi o coordenador das mesas de apresentações de livros e honra lhe seja feita, pela eficácia e discrição. Este subdirector, a par de Francisco Lopes e Carlos d'Abreu, contribuíram para que os tempos mortos não existissem, face aos objectivos atingidos, nos mais diversos aspectos, que permitiu uma presença e resposta atenta. 
Todos eles escrevem, todos eles têm um enorme interesse pelas questões culturais e pareceram-me estar à altura do desafio.

Quero saudar todos, incluindo o autarca de Morille, perguntando-me como terá sido a primeira edição deste certame...Como diria o poeta "quanto caminho andado"!
Obrigado a todos os que proporcionaram este PÃO de Espantos e Partilhas, tão Gostoso, quanto envolvente!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

Memórias do PAN 2018 em Morille: 2- Regresso ao Hotel Rural de Mari Carmen em San Pedro de Rozados

Mari Carmen recebeu-me com a fraternidade que a caracteriza. Costuma ser assim, por isso regressei a San Pedro de Rozados…

O Hotel Rural VII Carreras fez dez anos e na noite que cheguei festejava-se, era uma surpresa que a juventude local e também gente mais idosa fizeram à afável proprietária daquele espaço, que é um oásis na paisagem - quase alentejana - da região.

Recomendo a quem se dirija para os lados de Salamanca, embora haja algum constrangimento na estrada de acesso, com obras infindáveis.

O preço (incluindo o pequeno almoço) é acessível, coisa que em Portugal nem sempre se encontra, em termos de qualidade/ preço. "Quieres más tostadas, quieres más café com leche?"pergunta Mari Carmen, que cozinha com talento, embora os hipertensos devam pedir isenção de sal.
Ali se come o melhor leitão estaladiço que alguma vez provei.
Muchas Gracias, Mari Carmen, por su hospitalidad!

[Já dormi algures na raia portuguesa, num quarto (pelo mesmo preço) cuja instalação eléctrica assustava, havendo uma colcha com a N.S. de Fátima, tendo por acólitos gnomos e na parede a menina da lágrima uivava.]

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias - de 2017 e 2018)

Memórias do PAN 2018 em Morille(*) 1- José Figueiras no Cementério de Arte

Pela terceira vez, desde 2015, participei activamente no programa do PAN (*) Encontro e Festival Transfronteiriço de Poesia, Património e Arte de Vanguarda em Meio Rural.
Depois de ter ido a Vilarelhos (Alfândega da Fé), para apresentar três livros, dois de poesia e um de etnografia, de três amigas e de ter dito poesia, acompanhei Laurinda Figueiras, sua filha Carolina e Nicolau Veríssimo, no Cementério de Arte, concretizando-se o grande sonho da presidente da direcção da Ronda Típica da Meadela, numa singular celebração do fundador daquele grupo e seu pai, José Figueiras.
O ritual arrastou uma pequena multidão [composta por elementos da população local e participantes e organizadores do PAN].
A Imprensa local destacou esta cerimónia, que impressionou, pela marca genuína que Laurinda e Carolina souberam imprimir, sendo os gestos do enterramento sublinhados por salvas, em honra do homenageado, cuja memória já passara por aquela localidade de Salamanca em 2017, quando foi apresentada a obra "Por Feitiço, Por Magia".

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias).