aguas do sul

"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, dezembro 03, 2019

Exposição de Desenho e Pintura de Mena Brito



No próximo dia 9 de Dezembro, às 19h - e até 29 de Janeiro de 2020, (de segunda a sexta entre as 10 e as 19h, de segunda a sábado) na Biblioteca/ Espaço Cultural Cinema Europa, podem visitar a nova Exposição de desenho e pintura de Mena Brito "Traços ao Entardecer". Na sessão de inauguração será apresentado o livro de poesia de Cristina Pombinho "Intermitências".
A propósito dos trabalhos de Mena Brito, que serão expostos - e tive o gosto de conhecer antes desta mostra, - escrevi o seguinte texto, no passado mês de Agosto:



"Reflectindo acerca do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade Sigmund Freud assinalou que “o fantasiar”, “sob a forma de sonhar acordado”, deve-se ao facto de se desistir “de um prazer momentâneo, de resultados incertos, mas apenas para mais tarde (…) ganhar um prazer assegurado.”

Segundo o fundador da Psicanálise “A arte consegue de modo peculiar uma reconciliação entre os dois princípios.”

Os desígnios da Arte implicam “Uma forte capacidade para a sublimação pois o artista “encontra o caminho de volta à realidade.” Assim, “um verdadeiro artista (…) sabe como trabalhar os seus sonhos (…) de modo a fazê-los perder o que neles há de demasiado pessoal (…) tornando possível que outros partilhem do seu gozo neles (…) O artista ganha então a gratidão e a admiração [dos outros], conseguindo assim (…) honra, poder e admiração.” [1]



A Pintura de Mena Brito protagoniza a incessante procura de formas, onde entre cumes e declives podem resplandecer êxtases.

Quando falamos da Arte de Mena Brito, falamos da Mestria através da qual a Artista percepciona o corpo, tecendo cumplicidades sensuais…

O enlace do silêncio evidencia-se no abraço dos entes que perseguem rastilhos de luz, na sede do desejo…

A dança incessante dos torsos insinua a transcendência, onde se fundem Eros e Tanatos.



Com Mena Brito, a gramática corporal é recentrada - inserindo-se na estética da contemporaneidade, com o traço do desenho herdado dos clássicos, mas também de Mestres, como Lagoa Henriques.

Falamos também da Poesia do Movimento, quando abordamos esta Arte: Músculos, quadris, joelhos, coxas, braços e mãos participam num bailado pueril e erotizante.

As formas trespassam mistérios e claridades, com a energia acutilante da representação simbólica que a tela incarna, pois nela vibra a pele em prodigiosa alquimia.

No atelier, riscos, esboços, linhas, superam o etéreo, alcançando um limiar.

Os anjos rondam o cromatismo, prenunciando a desmaterialização do Corpo Onírico. (Quase) em levitação, atingindo a Liberdade do voo criativo, na plenitude de um renascimento elementar. (Quase) na transparência do Ser.

Em permanente luta com paleta, trinchas, pincel, a mão derrama tintas, desbravando espaços, gerando texturas, metamorfoses, imaginários que o olhar apura.

Aguadas castanhas e azuis disputam a subtileza do equilíbrio entre terra e céu. No interior de outro azul, ocre, intenso, cintila o laborioso afã de percepcionar o Futuro!



Se a Arte torna visível, citando Paul Klee[2] o que nos é dado desfrutar nos trabalhos ora expostos, é uma viagem por caminhos e afectos, sem posse nem perda.

Na travessia da Superação!



Peter Fuller[3] evoca Cézanne sobre o que a experiência da pintura proporciona: “Um abismo em que o olhar se perca, uma germinação secreta (…) Tornamo-nos pintura.”

Deixemo-nos então seduzir e envolver com a qualidade do desenho e da Pintura da talentosa Mena Brito!"


Almada, entre 17-8-2019 e 30-8-2019



Luís Filipe Maçarico


[1] FREUD, Sigmund “Textos essenciais da Psicanálise”, volume II, Publicações Europa - América, 2ª edição, 2001.
[2] PINTO, António Cerveira, “O Lugar da Arte”, Quetzal, Lisboa, 1989, p.68.
[3] FULLER, Peter “Arte e Psicanálise”, D. Quixote, Lisboa, 1983, p. 209.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Valore$ Mais Altos se Levantam

Não consigo entender por que razão lojas históricas, palácios e espaços verdes têm sido ceifados pela desenfreada gula da especulação, alienados ou concessionados a privados.
Os cabeçalhos gritam: Tapada das Necessidades privatizada! O Palácio dos Machadinhos foi vendido a franceses e o facto passou despercebido. 
Um fundo imobiliário americano compra um quarteirão (mais um!) na Baixa de Lisboa e ameaça de despejo inquilinos, repetindo-se o vampirismo que já contaminou vários bairros históricos.
Brasileiros ricaços ( que vieram "investir"?) expulsaram a "Guilhas" do prédio da Avenida D. Carlos onde a popularidade do "Conservatório da Esperança" se consolidou, através do afã de actores inesquecíveis como Raúl Solnado, José Viana, Jacinto Ramos, Glicínia Quartin, Henrique Viana, Luís Castanheira, Luísa Ortigoso e tantos outros. 
Rafael Nadal descartou o quarteirão da pastelaria "Suíça" dos seus desidérios empresariais.
É o desrespeito dos negociantes - porque valore$ mais altos se levantam -  espezinhando a História dos bairros e das cidades do País.
Capitalismo desenfreado este, com várias origens e o mesmo desígnio: Formatar a velha capital europeia com a febre consumista, tornando-se irmã gémea do vazio e da falta de identidade que grassa pelo mundo.
Pergunto: As autoridades não podem travar esta destruição?
Os lugares da memória que estão a morrer não têm retorno, após a sua extinção.
Ainda bem que sou mortal.
Não suportaria assistir muito mais tempo à violência desta monstruosa agressão ao património identitário.
A massiva estupidificação (à escala global) televisiva não substitui a consciência dos que não se deixam adormecer.
Não é por acaso que constatamos em todo o mundo revoltas (em várias latitudes, do Líbano ao Chile, da Argélia ao Irão, do Iraque à Bolívia, da França ao Egipto) que contudo não são revoluções.
"Conhecer é ficar magoado" escrevi nos anos oitenta do século passado. 
Gostava de estar errado.
Luís Filipe Maçarico (texto)
Fotografias: Tapada das Necessidades (Rosário Fernandes) "Histórias para serem contadas" representada na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, no final dos anos 70 (autoria desconhecida) Últimas lojas do Rossio (LFM)

terça-feira, novembro 19, 2019

José Mário Branco O Eterno Resistente

José Mário Branco acompanhou-me desde a adolescência, quando os jovens da minha idade se afligiam com o cutelo da Guerra Colonial. 
As suas canções foram luz para a minha caminhada, questionando o Abril que faltou fazer, a manipulação capitalista disfarçada de democracia (burguesa).

José Mário Branco, nesta partida que todos temos de cumprir deixou-me substancialmente mais pobre, pois estamos a passar da geração da memória para a geração do imediato.
Tempo de vazio, em que basta um like ou um dislike para cada um achar que fez o que devia. Tão longe da cidadania. Tão longe da escala humana. 

A tecnologia vai devorar-nos, se não surgirem artistas que ponham tudo em causa. Vejo à minha volta, ao contrário do percurso dele, um punhado de jovens zombies a rimar amar com chamar e velhos que alinham em indizíveis misérias mentais talvez porque a Morte se aproxima, renegando o que defenderam ao longo da vida. 
Cobardes, que ajudaram a tornar os nossos dias (em todo o planeta) na empantufada submissão aos ditames dos poderosos, aplaudindo progressos e desenvolvimentos dos quais nunca beneficiarão. 
Os traidores estão infiltrados em todos os lugares. Oxalá a História evidencie os seres resistentes (e coerentes) como José Mário Branco. Eh Companheiro!...

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, novembro 12, 2019

AFONSO MIRANDA DO “SINO DOCE” DE ALMADA: UMA VIDA DE MUITO TRABALHO AMBICIONANDO A QUALIDADE




As histórias de vida constituem uma fonte de informação sobre o passado, das cidades e da Comunidade, quotidianos, profissões, estorvos e superações pessoais e colectivas. Na entrevista que a seguir se transcreve, reconstitui-se um percurso biográfico, valorizando-se o singular, enquanto objecto de estudo. Ao longo da conversa foi evidente que nem o relato dos acontecimentos surgiu ordenado nem todos os eventos apareceram na narrativa, tendo o entrevistado revisitado factos que lhe tinham escapado. Nomes e lugares ficaram envolvidos numa espécie de nevoeiro ou, aplicando a explicação de Marc Augé, acerca da Memória e do Esquecimento, as recordações sofrem uma erosão semelhante à das falésias do litoral.

Figura popular de Almada velha, nas últimas três décadas e meia, Afonso Miranda acedeu fazer uma pausa na sua constante actividade, à frente da Pastelaria “Sino Doce” para responder às nossas perguntas. Começámos por querer saber onde nasceu e como foi a infância e a Juventude?

“Nasci no Hospital, em Torres Vedras. Daqui é que fui para a aldeia (Silveira), até aos 12 anos. Foi uma infância muito pobre, perto da praia de Santa Cruz. A minha mãe trabalhava no campo, vida dura. Um dos trabalhos da minha mãe era reparar as barracas de lona da praia de Santa Cruz e eu ia molhar o pé…O meu pai veio trabalhar para Sassoeiros, na Quinta do Barão, do vinho de Carcavelos. Essa vinha foi renovada pela equipa que o meu pai arranjou…Tenho irmão mais velho e irmã. Concluí a instrução primária lá. Ainda não tinha doze anos vim para Lisboa. O meu irmão que tem mais oito anos, orientou, protegeu, foi um pai. Fui trabalhar na Av. Defensores de Chaves, numa mercearia, como marçano, durante um mês. Depois estive quatro anos na Alameda das Linhas de Torres. O patrão era da zona de Alenquer. Sendo merceeiro, era pessoa aprumada. Aprendi com ele.”

- Tem saudades da sua terra? Costuma ir até lá?

“Costumo lá ir! É sempre a minha terra. Gosto. Tenho a memória de jogar à bola, brincar, ir à escola e ter um grupo, o grupo dos sete, designado “Os Gajos da Silveira” - lá da aldeia, que nos juntamos, de seis em seis meses. São do melhor! A minha terra é a aldeia do Joaquim Agostinho. É uma referência. Com dezassete anos tive conhecimento de haver trabalho para a época balnear na Praia de Santa Cruz. Fiz duas épocas de praia.”

- O percurso profissional e a sua especialização derivam de uma vocação?

“Não, foi o meu irmão que me arranjou emprego numa pastelaria na Praça do Chile [“Raio de Luz”]. Tive um episódio marcante. O patrão deu-me cinco contos para ir ao Grémio (Agora é Associação de Industriais de Pastelaria) pagar açúcar e farinha. Levava o dinheiro e a requisição num livrito de cow-boys. Junto ao Jardim de Cesário Verde dei por falta do envelope. Encontrei o papel, mas o dinheiro não. O dono da pastelaria era um senhor cinco estrelas. Era uma pessoa de nível. Fiquei a pagar um tanto todos os meses e depois ele perdoou parte da dívida…Quando vim da primeira época de praia fui trabalhar no Café Império. Tinha cem colegas. Fazia a folga dos outros todos (no balcão do restaurante, na pastelaria, lá em baixo eram só cafés…). Estive nove meses. Quando saí do Império, fui fazer outra época de praia. Gostava de lá estar (era o nº 13) ao fim de seis meses era o nº 3. Não é que fosse tão bom assim. Os outros é que iam embora. Até me queriam aumentar. Tinha de andar de lacinho e jaleca. Quando venho da segunda época de praia, com 19 anos, fazia parte de um grupinho - doze - de rapazes na Praça do Chile (eu vivia na Cavaleiro de Oliveira), onde estava o malogrado recentemente falecido Jordão, que nessa época era júnior do Benfica. Nesse grupo havia dois elementos que trabalhavam na “Ferrari”, considerada uma das melhores casas do país. Um deles estava mobilizado para a guerra colonial. Tive a sorte de ir para lá. Estive dez anos na “Ferrari”. Fui para Cabinda nos últimos anos da guerra. Saí das Caldas em Dezembro de 1973, fui em rendição individual. Tive a sorte de ser colocado no Comando de Sector. Estive na cidade. Cheguei de Angola no dia em que os trabalhadores da “Ferrari” começaram a fazer o controle operário. Fui delegado sindical e da Comissão de Trabalhadores ao mesmo tempo. Em 1979 propus a categoria de terceiro pasteleiro, que foi aceite (As direcções do Sindicato e do Patronato normalmente são dos hotéis) tínhamos um contrato com três categorias. Tinha de integrar nove elementos com várias categorias. A minha proposta era passarem a ganhar o dobro do ordenado…”

-Lisboa foi importante na sua caminhada?

“Lisboa é a minha querida terra. Eu adorava Lisboa. De vez em quando vou para Lisboa. Conheço a cidade a pé. Vivi e trabalhei lá.”

- Como surgiu Almada no seu percurso?

“Por acidente. Quando casei, fui morar para Benfica, para casa da tia da minha mulher. Vim para aqui, para casa maior. Fiquei com a mãe do meu sogro, a sogra, a minha mulher, a filha da tia, a minha filha que nasceu e a cadela. Quando viajava no Fiat 600 alguém ficava em terra! O meu pai vivia sozinho, apareceu-me. Declarou-se a doença da minha mulher. O meu pai foi para as Costas de Cão (Lar da Misericórdia de Almada) e tratava do jardim.”

- Como nasceu o “Sino Doce”?

“Foi fundado em 1981, com dois sócios que vieram da “Ferrari”. Vínhamos do Chiado para a “terra dos Comunistas” e por nossa conta…Isto era uma gelataria e cafetaria muito fina para a altura. Isto aqui era montões de gente, ao fim de semana. Havia cinema na Academia!”

- Como se conquista e assegura um grupo de clientes tão variado (e fidelizado)?

“A casa ganhou um certo nome, vieram três profissionais de casa conceituada. Enveredámos por bolinhos de confecção caseira e temos colaboradora que assegura o fabrico de bolos de aniversário. Eu tinha lista de vinte e duas pessoas que faziam bolinhos. Ia com o carrito buscar os bolos, que tinham muita aceitação. Cheguei a trazer nove bolos de um quarto andar, sem elevador. Aquilo podia cair tudo. Sofre-se muito para ter uma casa destas. Havia um juíz do Tribunal de Almada, famoso por cantar fado de Coimbra - Machado Soares - que um belo dia diz assim: “Esta casa é a casa do país que tem maior variedade de bolos bons!” Frequentaram isto o Maestro Lopes Graça, o Paulo de Carvalho, uma pessoa que eu gosto muito, nessa época vinha com a Isabel Baía. Já entrou aqui o Francisco Louçã, o Sérgio Godinho, a antiga presidente da Câmara (Maria Emília Sousa) vinha todos os dias.”

Ficaram registados inúmeros episódios, momentos alegres e menos risonhos, nas folhas de papel onde se apontaram as estórias do quotidiano de uma casa assim.

Antes de terminarmos as duas horas de diálogo, e quase em jeito de balanço escutámos isto: “Não somos nós que somos bons. Infelizmente, o que havia há trinta e tal anos era de muito má qualidade. Até em vãos de escada qualquer caramelo punha máquina de café e a “patroa” fazia pastéis…Temos a sorte de estar em frente à maior sala de cinema do país. Tenho consciência que primeiro que tudo é a qualidade.” Por outro lado, acrescenta: “Devia ser obrigatório ter pessoal com formação. Outra coisa: a escolaridade obrigatória. Eu é que acabo por dar formação. Não é dizer que em terra de cegos quem tem olho é rei, é ter consciência que a qualidade é o mais importante!”

À despedida, o senhor Afonso Miranda que coleciona frases e provérbios, deixou estas palavras para reflexão: “A Felicidade não existe no facto da ausência de problemas, mas sim na capacidade de lidar com eles.”


Luís Filipe Maçarico (artigo e fotografias)
Revista nº 26 da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular

MESTRE DELFIM CORREIA: O PERCURSO DO ALFAIATE DE ALMADA ANTIGA (*)


Na obra “Alfaiates e Costureiras: Um olhar sobre o engenho da agulha e do dedal” (2008), da autoria de Ana Durão Machado e editado pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém, assegura-se que “A arte da confeccção do vestuário” é “uma das mais antigas actividades humanas”.

O termo alfaiate vem do árabe al-kaiat, remontando as primeiras referências sobre a função no nosso país ao século XII. Decorridos duzentos anos, o desempenho de alfaiate estava representado na Casa dos Vinte e Quatro sendo obrigatória a presença destes artífices nas procissões, como a do Corpo de Deus, porque as confrarias religiosas regulamentavam a actividade de profissionais e aprendizes.

No século XIX as associações profissionais substituíram as antigas confrarias e as mulheres passaram a integrar as oficinas de alfaiate. Nos anos 70 do século XX as lojas de pronto-a-vestir contribuíram para o declínio do ofício hoje quase em extinção. (Machado, 2008:6-7).



Natural de Alcafozes, Delfim Correia completou o ensino primário, em Idanha - a - Nova, sede do Concelho, a 13 km. “Quando fiz o exame da quarta classe, eu sabia a Geografia, a História de Portugal, as Ciências, etc.”



Os pais trabalhavam no campo e “Andavam a vender loiça vidrada, com a carroça e machos” e o jovem Delfim “andava a vender com eles nas férias.”

Mais tarde, “Já tinham uma carrinha…A minha mãe tirou a carta, era uma mulher determinada!”

E enquanto os pais iam para as feiras e “dormiam aqui e acolá, como os nómadas” o miúdo ia às feiras, com eles, também participava nas vendas. Todavia, chegou a ficar em casa, enquanto os pais procuravam o sustento. “Eu lá ficava sozinho com a candeia de azeite, uma torcidazinha. Depois mais tarde, veio o petróleo. Na província era assim!”



Os pais na altura pensaram que “para ele não ir para o campo, podia ir aprender um ofício. A única solução que eles achavam que era boa era os Alfaiates. Aprendia a costura e também barbeiro (os alfaiates ao fim de semana cortavam o cabelo). Estive num que também arrancava dentes com a turquêz. Hoje os jovens não sabem nem imaginam como era a vida na província naquele tempo, que não havia luz eléctrica, nem outras coisas necessárias, era uma vida difícil que a gente passava!”



Ao longo desta conversa, Delfim Correia, revelando a cultura aprendida na experiência vivida e nos livros que gosta de ler, com notável memória foi contando os enredos da sua história de vida. Quisemos saber quanto tempo fez a aprendizagem do ofício. Mestre Delfim foi aprendiz dos doze aos dezasseis anos, tendo estado em três alfaiates, tantos quantos existiam na sua terra. Esteve num, onde aprendeu a fazer “casas” (o sítio para meter o botão). “Ele punha-me o cabresto para o dedo aguentar dobrado…Cabresto era o que se punha aos burros e machos”, esclarece, acrescentando: “Ele atava ali e o dedo já não abria…No segundo, aprendi a barbeiro. Os clientes trabalhavam nos campos e só no fim - de - semana, ou seja no sábado é que iam ao barbeiro cortar o cabelo e fazer a barba mas ninguém queria ir para o rapaz até que apareceu um velhote cheio de coragem “Faz aqui a barba, corta à vontade, não tenhas medo, faz como sabes!” A partir daí já todos queriam ir para o rapaz, perderam o medo.”

“Havia três alfaiates, dois deles também eram barbeiros”, recorda. “O último foi com quem aprendi.”



Fazia serões nas festas, até às tantas, conta. “O meu pai, ao fim de três anos, teve de pagar setecentos escudos. Tenho a impressão que ainda tenho a cadeira de barbeiro, lá na terra…Depois, com dezassete anos, os meus pais - por portas e travessas - lá arranjaram um conhecimento em Santarém. Um dos melhores alfaiates de lá. A minha mãe fez a mala, com uma roupinha…”Quando chegares, desces do comboio, que há-de lá estar alguém à tua espera.”

Provavelmente não teria andado de comboio, se não fosse a necessidade de se especializar, pois havia dificuldades em tudo, nota.

“Lá estava uma senhora, à minha espera e a chamar por mim: “Delfim, Delfim!” O marido era alfaiate.”



Esteve um ano em Santarém, cidade da qual gostou muito; arranjou amigos, conhecidos. Ao fim de um ano meteu-se no comboio a caminho de Lisboa.

“Tinha morada de alfaiate que trabalhava a obras [Trabalhavam em casa, faziam as obras para lojas] Era tudo feito por medida. Andei nos oficiais a obras. Arranjei quarto em Campolide. Vinha a pé para a Baixa porque não havia dinheiro para transportes.

Tinha aqui uns tios deste lado. Eu não gostava muito de Lisboa, mudei para Almada. Com 18 anos quase 19 não me alimentava bem, adoeci, voltei à terra, para os pais. Recuperei, voltei para a cidade. Arranjei uma senhora da terra, pagava a pensão.

Depois, abriu a Fábrica “Confecções Tejo”, em Almada, onde conheci a minha esposa. A minha esposa é de Moura e eu sou da Beira Baixa. Conhecemo-nos na costura. Ela era minha aprendiza. Trabalhei nas “Confecções Tejo”, até que passei a trabalhar na Cova da Piedade (Lãs Labete), com o senhor Sebastião.”

Mestre Delfim contou que algum tempo decorrido passou a laborar no “Rodrigues & Rodrigues”, no Largo de São Paulo, em Lisboa. Faziam tudo. “Fui o oficial escolhido para fazer os fatos por medida.” 



Posteriormente, “os meus pais compraram uma máquina e viemos trabalhar a obras para casa. Vinham a minha namorada e outras raparigas.

Casei com 23 anos, aluguei uma casa e nela desenvolvi a arte de alfaiataria. Arranjei loja de alfaiataria. Naquela altura não estava parado.”

Ao perguntamos quantos metros de tecido transformou em fatos, responde que na época em que o ofício não tinha a concorrência do pronto - a - vestir, “por semana e por mês era capaz de fazer 20 a 30 fatos à medida.



Foi um dos fundadores do “Solar dos Leões de Almada”, em 23 de Julho de 1969, o prestígio que granjeou está visível nas fotografias antigas que guarda e mostra ao entrevistador: Numa, Eusébio e Hilário, ídolos do desporto português, aparecem na sua loja. Noutra, a filha de Romeu Correia destaca-se na mesa de um convívio gastronómico.

Leitor assíduo “Gosto muito de Poesia e História”, o senhor Delfim também gosta de ler a Bíblia, contando que se baptizou como testemunha de Jeová em 1973.

No final da entrevista, o nosso interlocutor recorda que começou no seu ofício de alfaiate aos 12 anos. Tendo completado 79 anos, Mestre Delfim Correia quer continuar “enquanto tiver boa disposição.”



Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)
(*) Artigo divulgado na revista nº 25 da Aldraba, Associação do Espaço e Património Popular

quinta-feira, novembro 07, 2019

Texto sobre o Circo escrito há mais de 30 anos




O CIRCO[1]



Brindado com carrocéis e pistas de carrinhos de choque, que abancavam rotativamente nuns terrenos da Câmara, com um Tejo de sonho rente à porta, todo o mundo se prostrava aos pés das vedetas mal aquela brilhante embaixada se abeirava da freguesia.

E como era lindo de se ver aquele pedaço da capital, cilindrado pelo fascínio do maior espectáculo do universo: o fabuloso Circo Torralvo!

As crianças bebiam até ao último adjectivo as palavras da simpática e espampanante apresentadora anunciando as fantásticas estrelas, espalhando a expectativa dos tambores, com a voz sincopada atordoando o público faminto de perplexidade.

Alcântara ganhava, então, outra cor com essa exibição de exotismo que os gaiatos devoravam até ao derradeiro acorde da pequena orquestra, até ao último projector iluminando o recinto onde palhaços, contorcionistas, malabaristas, equilibristas, trapezistas, ilusionistas “internacionalmente aplaudidos” se despediam com seus fatos exuberantes.

Depois, quando a companhia abandonava a avenida de Ceuta para encantar outras gentes, os putos andavam pelas ruas a dizer que iam ser artistas de circo.



[1] Maçarico, Luís Filipe. Escrito na primeira metade da década de oitenta. Menção Honrosa de Conto nos Jogos Florais 86 da Câmara Municipal da Amadora, Tema: “A Festa” e publicado nos Cadernos do Centro Cultural Roque Gameiro, 1987, pp. 28-29. 

Fotografia do autor, quando menino.

domingo, novembro 03, 2019

Andam à Solta...


Nos dias que correm, corrigir alguém é arriscar a raiva daqueles que detestam críticas, pois certa gente reage bastante mal, quando se sente contrariada.
Para alguns seres - ditos humanos - a vida é uma dissimulação, aparentando imensa doçura, a qual fica posta em causa se a sua ignorância arrogante for desmascarada...
A fruição é o seu objectivo maior, manipulando quem dá jeito para consumar seus planos.
Andar às cavalitas de outrém é a grande ambição.
Destilam veneno, quando menos se espera, caindo por terra o edifício do seu enorme bem estar
Os outros não contam, na mente destes psicopatas quotidianos, disfarçados de pessoas comuns e justas.
Não há manual de instruções. Não há couraça que defenda os incautos. Nada faz supor que, de um momento para o outro, se transformem nos maiores inimigos.
Gente protegida, que se insinua, até alcançar o almejado fruto, a desejada posse.
Cuidado com esta fauna, andam à solta, são um perigo para estragar amizades, existências, caminhos que ficam sem regresso.

LFM