"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, abril 19, 2017

Maria do Céu Ramos: A celebração da Fraternidade

Há momentos na nossa caminhada em que as palavras escasseiam e o silêncio impera.
No meu caso, e porque não sou crente, uma imensa revolta apoderou-se da minha alma, quando uma das raízes da minha existência partiu.

Vendo tanto desconcerto neste Mundo, sentimos o quanto pode ser injusto um prolongado e doloroso final da passagem dum ser humano, que nos iluminou, desvendando sítios muito belos e quase secretos, lugares tranquilos, palácios de sonho à beira Tejo, quintas perdidas, personagens míticos, revelando lendas ignoradas, gastronomias deliciosas, paraísos inauditos, dando conselhos, que ficaram gravados para todo o sempre, através de momentos únicos, subitamente renascidos num carrocel descontrolado de memórias imparáveis.

Privei com esta pessoa singular e mágica, mulher de partilhas luminosas, que exultava com a grandeza do património do país, mas particularmente do concelho de Almada, que esteve ao meu lado como um pilar robusto na mudança de casa, que quando pressentia alguma solidão ou melancolia, me encaminhava para uma respiração plena de aromas e ventos, tendo sido assim que me levou até ao Cristo Rei, para contemplar a margem onde habitei sessenta e três anos, instante esse de intensa plenitude e cumplicidade, em que ela apesar de debilitada fez questão de partilhar, o qual recordo emocionado.

Fiz questão de festejar o meu aniversário, também em Almada (o primeiro momento foi em Lisboa, onde vivi e trabalhei, com colegas de trabalho e amigos ligados à pintura) para poder tê-la entre aqueles que moram na "margem certa", entre companheiros de sonho, que não deixaram de estar presentes, pelo carinho e admiração que lhe dedicavam.

Visitei-a na sua casa, banhada por uma ternurenta luz, em tarde cálida, tendo tido uma conversa muito simpática, em que desfiou memórias cintilantes...
Fica por realizar a sua ida a África, sonho que desejou realizar, para conviver com primos, que descobriu através da Internet...

Fotografou com intenso prazer tradições, como a Festa dos Tabuleiros em Tomar e patrimónios  imateriais, como o Cante em Pias, tendo escrito um artigo original, na revista da "Aldraba", [associação da qual era vice-presidente da direcção, reconduzida ao longo de várias eleições], sobre Clarabóias.

Não consegui conter as lágrimas perante a estupefacção que o José Alberto Franco, expressou há pouco, ao telefone, perante esta notícia tão injusta.
A Maria do Céu Ramos partiu para outra viagem.
Bem Hajas, querida Amiga, por este laço indestrutível de fraternidade e celebração da vida, que deixaste no meu percurso.

Luís Filipe Maçarico

quinta-feira, abril 06, 2017

as telenovelas banalizaram a violência

As telenovelas, depois do telejornal, banalizaram a violência no quotidiano.
Os pais de adolescentes devem ter dificuldade em proibir que os filhos assistam aos episódios...Os incautos nem sequer encontram qualquer advertência prévia, prevenindo-os que as cenas agressivas vão aparecer, que a linguagem é desadequada e que - sem preconceito moralista - as cenas ousadas podem acontecer...
Entretanto, os argumentistas copiam os CSI, as mentes criminosas e demais séries de assassinos e investigação policial....
Um assalto aparatoso a uma ourivesaria e a invasão calamitosa do teatro de São Carlos por bandidos ou o ataque terrorista a uma discoteca puseram a fasquia muito alta.
Em dois dias, um inspector da Judiciária com passado tenebroso assassinou duas mulheres que podiam identifica-lo como fonte do mal...
O que se seguirá, após tudo o que já foi visto?
E o desfile de erotismo e de vernáculo, imparáveis?
Actualmente, o prato do dia das novelas da TVI é descobrir o episódio onde foi dita menos vezes um palavrão.
Ser moderno e evoluído é ser assim?

Luís Filipe Maçarico