"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, agosto 12, 2017

Não Posso Calar esta Revolta!


Há dois meses que o país não pára de arder, o fogo entra pelos parques dos perímetros citadinos, ardem casas nas vilas e cidades, como nunca se tinha visto, evacuam-se aldeias, a insegurança e o medo fazem estremecer idosos, que precisam de cuidados especiais e sobretudo de tranquilidade, as vias férreas, as estradas nacionais, as autoestradas tudo é encerrado devido às chamas. As perdas são enormes.

Do Norte ao Sul, passando pelo Centro, de forma impiedosa Portugal arde como nunca tinha sucedido e a culpa é das trovoadas secas, da seca, da descoordenação, das avarias do maldito Siresp, de tudo, - menos dos inimigos da Natureza e da escala humana, cada vez mais debilitada, com mortes e abandonos, com muitos feridos, com a intranquilidade e o sofrimento desventrado, por estagiários dos mírdia, a carregar com black & decker nas feridas da alma, de quem perdeu familiares, animais, tractores, viaturas, haveres, agricultura, sonhos, vida.
Depois do corrupio de abraços chorosos e de ter ficado tudo como dantes, o país continua a ser, desde Junho até Agosto, uma sangria de lumes ferozes, a devorar mais e mais árvores, casas, avifauna e flora, pintando de negro os lugares que não escapam à sanha destruidora.
Não sabemos quem está por detrás disto, se são interesses económicos (parece que sim) se são motivações políticas (há quem desconfie) ou sobre quem serão os que mandam deitar fogo a tudo (nunca sabemos quem são esses mandantes), além das incúrias e do desmazelo, que enche os lugares, com teias de verde a envolver os edifícios, quem quiser que desbaste e depois chora-se baba e ranho aqui d'el rei que o fogo está a abeirar-se da residência...
Nunca sabemos - para lá das imagens dignas dos filmes mais horrendos, do fogo a engolir o verde - porque sucede todos os anos e em 2017 mais do que nunca, esta calamidade que arrasa tudo, estremecemos por cada hectar que desaparece com a riqueza que antes tinha e deixamos de acreditar em misericordiosas entidades, que recebem dinheiro com fartura, em programas televisivos que parecem festivais de vaidade travestida de caridade. É a seiva comportamental do país que temos: vale mais parecer em vez de ser. Alardear no lugar de actuar. Não se aguenta tanta miséria mental. 
Entretanto, anunciaram-se medidas, fez-se uma lei, reuniões de conselho de ministros, pressões partidárias, para execrar o eucalipto.
Contudo, nos sítios ardidos replantou-se a planta "maléfica". O caricato (e eterno) ministro da agricultura chegou a anunciar que não se podiam perder os fundos europeus no valor de milhões para a reflorestação com eucaliptais em barda...
Impedir o negócio em torno da madeira queimada, denunciar quem são os bandidos deste desmedido atentado, mudar os ministros que fingem não estar mortos, continua a ser tabú e nada se altera.
Bombeiros acorrem, com meios terrestres e aéreos, por vezes obsoletos, autarcas deploram a falta de actuação inicial mais eficaz, populações criticam o atraso, entre o fogo que começa e a acção salvadora, que apenas se desenvolve passados dias...
Baseio-me no que oiço na rádio, no que leio em jornais, no que vejo de soslaio nas imagens insuportáveis.
Até quando vamos assistir a este desmoronamento da nossa essência?
Não posso calar esta revolta!
Luís Filipe Maçarico (texto)
Fotos da Internet.

segunda-feira, julho 31, 2017

Encontro da Aldraba em Tondela


Durante o último fim de semana de Julho de 2017, a Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, realizou mais um dos seus Encontros, no concelho de Tondela, com o apoio na organização, e na sua concretização no terreno, de Elísio Luís Chaves, Presidente da Casa de Tondela em Lisboa, cuja parceria em muito contribuiu para o êxito da iniciativa, graças ao conhecimento privilegiado que Elísio possui do território onde nasceu e pelo qual pugna vibrantemente.

Os quase 30 participantes concentraram-se, no sábado 29, junto à Igreja Matriz de Tondela, seguindo para Molelos, onde se visitou a Olaria de Barro Preto, de António Matos Marques, um artesão cujas peças têm a beleza e a perfeição das obras feitas à mão, que apresentam uma grande resistência e qualidade.

As diversas fases da criação na sua oficina, foram recriadas e explicadas com uma gentileza e um perfeccionismo que saudamos, augurando longa vida pessoal e profissional. Os visitantes não esquecerão o acolhimento e a sabedoria patenteadas.

Seguiu-se um almoço delicioso (de arroz de marisco ou bifinhos com cogumelos) que mereceu aplauso dos convivas, no "Ponto de Encontro", que é uma boa referência para os viajantes, que por aquelas bandas desejem encontrar um oásis para o paladar, pela confecção gostosa e pelos preços económicos.

Após o almoço, houve uma paragem surpreendente na Biblioteca Tomás Ribeiro, para - com o comissário da exposição - saber quem foi o "Tony das Bananas", que criou um empório na África do Sul, para onde emigrou, voltando de lá comendador. Coincidência extraordinária, foi Salomé Almeida, a primeira presidente de um Sindicato português, ter encontrado numa reprodução do "Século de Joanesburgo", a fotografia de Júlio Navarro, primeiro jornalista daquele jornal e irmão desta associada da Aldraba.

A visita seguinte efectuou-se no Museu Terra de Besteiros, em tarde quente, constituindo surpresa inaudita, pela viagem proporcionada - através da narrativa museológica - desde os primórdios à actualidade, pelo concelho de Cláudio Torres. Depois dos achados da Pré-História e da Época Romana, da Idade Média e da Industrialização, foi a vez de constatar profissões que marcaram o desenvolvimento da vila e das aldeias: o linho, os cesteiros, o funileiro, a agricultura, os sanatórios do Caramulo...

A descoberta da ACERT/Trigo Limpo, com visitação de todos os espaços, sendo o grupo guiado por Miguel Torres, foi um espantoso momento de confirmação de um equipamento e de uma história cultural fabulosa. A Associação e o seu Grupo de Teatro, que são conhecidos dos portugueses, tem mais de 3.000 associados.

O primeiro dia do Encontro em Tondela, completou-se com um grande momento de interacção, a cargo da AFERTourigo, que presenteou os viajantes com um lauto jantar, que, desde a sopa de couves, muito saborosa, passando pelo lombo com batatas, de tempero bastante apetitoso, culminando com maravilhosa fruta da região, regalou os convivas, visivelmente agradados com o saber e os sabores daqueles que dirigiram nessa noite inesquecível a cozinha e suas iguarias.

Mas a Associação de Tourigo foi ainda mais longe, apresentando um espectáculo folclórico repleto de vivacidade, ritmo e colorido, que mereceu fortes aplausos da encantada assistência, culminando com um convite para a dança pelas raparigas aos homens da Associação do Espaço e Património Popular, seguindo-se igual convite às senhoras presentes, associadas da Aldraba.

Numa breve mas simpática cerimónia, os representantes das duas associações saudaram o trabalho em prol do património e da memória, que ambas desenvolvem, acolhendo lembranças de Mestre Albino Moura, conceituado artista plástico, trazido pelo consócio Rodrigues Vaz, cuja esposa, Helena Justino, prestigiada criadora, também ofertou a AFERTourigo. Luís Filipe Maçarico, antropólogo e poeta, entregou o seu mais recente livro de poesia sobre a Tunísia.

O Presidente da Aldraba exaltou a fraternidade com que a sua Associação foi recebida, celebrando os valores que o Associativismo evidencia, tendo o Presidente da Mesa da Assembleia Geral da colectividade visitada exultado com a visita, desafiando os visitantes a voltarem sempre que o desejem, pois serão sempre bem vindos!

Grande parte da manhã do domingo 30 de Julho decorreu nos Museus do Caramulo (colecção de Arte, onde se incluem obras de Amadeu Sousa Cardoso, Salvador Dali e Miró, entre muitos outros artistas; mostra de brinquedos e exposição substancial de automóveis de todo o tipo, desde os primeiros exemplares, usualmente designados por calhambeques, até aos contemporâneos, das marcas de luxo, só acessíveis a uma elite, até aos populares minis e carochas. E também os carros de Salazar e o da fuga de Caxias, consumado por comunistas presos pelo Estado Novo.

Na sequência de uma pausa no miradouro a partir do qual se pratica parapente, o grupo almoçou no Restaurante Montanha, no Caramulo, dividindo-se entre o arroz de pato, a chanfana, o cabrito ou os rojões, que agradaram ao paladar mais exigente. As entradas lautas, o vinho, as sobremesas, deliciaram os viajantes.

A viagem a Tondela terminou na Associação das Mulheres Agricultoras de Castelões, que informaram acerca da manufactura, em teares antigos, de prodigiosas toalhas e outros artefactos para a vida doméstica: guardanapos, toalhas, etc., lembrando as fases da transformação ancestral (com mão de obra sábia) do linho: colher, ripar, molhar, malhar, moer, espadelar, assedar, fiar, ensarilhar e dobar. Uma das senhoras afirmou que a linhaça a curou de cinco pneumonias…

A despedida de Tondela ocorreu a meio da tarde de domingo, com o mesmo espírito fraterno, que animou todo o encontro e criou bem estar a todos.

A Aldraba e a Casa de Tondela evidenciaram neste Encontro o melhor que o Associativismo tem: o companheirismo e a valorização do património imaterial e material.

BEM HAJAM A TODOS!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

segunda-feira, julho 24, 2017

Ciudad Rodrigo - Segunda Parte

O almoço de despedida em Espanha foi em Ciudad Rodrigo na Plaza Mayor, num restaurante popular, onde desfrutámos de sopa, biteck, vinho La Rioja, tarte de queijo com geleia de frutos vermelhos e café. Tudo por 12 euros.
Em termos de alojamento e restauração, nuestros hermanos são mais sábios que os empresários do ramo hoteleiro em Portugal.
Pedem meças em termos económicos e de higiene a muito tascório e estrebaria, disfarçada de residencial, cujos exemplos prefiro não revelar.
Infelizmente sou obrigado a comparar, porque as diferenças se evidenciam e a fronteira de facto estabelece para alguns - mentalmente - um muro sem limites para a exploração dos estrangeiros (e dos próprios naturais) num misto de ganância e frete.
Pelos bons exemplos que tive oportunidade de desfrutar (será apenas sorte, ou as coisas são como são, com mais qualidade do outro lado?), não me repugnava que fôssemos uma Ibéria, em vez de várias nações e estados...
Mal atravessámos a fronteira de Vilar Formoso, a entrada em Portugal tornou-se um pesadelo, por causa dos incêndios.
Nesse dia (segunda 17-7-17) em vez do Intercidades entre Guarda e Lisboa, fui obrigado a viajar em dois regionais, uma camioneta de transbordo e, finalmente desde Coimbra, na carruagem do verdadeiro Intercidades, que chegou com duas horas de atraso.
Cheguei a Cacilhas depois da uma da madrugada, recorrendo a um táxi para casa, tal era a imensa fadiga.
Mas a força de Morille continua a acompanhar os meus passos em direcção ao Futuro.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

Ciudad Rodrigo - Primeira Parte

No regresso de S. Pedro de Rozados para Portugal, parámos em Ciudad Rodrigo, uma cidade monumental que há muito desejava conhecer.
Apesar do calor, desfrutámos da beleza imponente dos seus edifícios e praças, que remontam ao período da Renascença, trazendo na recordação imagens que nos falam desses tempos de esplendor.
Os olhos ficam alumbrados quando percorremos ruas assim, entre palácios e igrejas, desvendando largos onde as vozes são a música do lugar, que sem a presença humana se limitaria a ser um cenário de filme sem personagens - sempre o grande património de uma terra.
O espírito do lugar está presente em cada pedra, em cada sombra e ou memória.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)