"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, dezembro 03, 2019

Exposição de Desenho e Pintura de Mena Brito



No próximo dia 9 de Dezembro, às 19h - e até 29 de Janeiro de 2020, (de segunda a sexta entre as 10 e as 19h, de segunda a sábado) na Biblioteca/ Espaço Cultural Cinema Europa, podem visitar a nova Exposição de desenho e pintura de Mena Brito "Traços ao Entardecer". Na sessão de inauguração será apresentado o livro de poesia de Cristina Pombinho "Intermitências".
A propósito dos trabalhos de Mena Brito, que serão expostos - e tive o gosto de conhecer antes desta mostra, - escrevi o seguinte texto, no passado mês de Agosto:



"Reflectindo acerca do Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade Sigmund Freud assinalou que “o fantasiar”, “sob a forma de sonhar acordado”, deve-se ao facto de se desistir “de um prazer momentâneo, de resultados incertos, mas apenas para mais tarde (…) ganhar um prazer assegurado.”

Segundo o fundador da Psicanálise “A arte consegue de modo peculiar uma reconciliação entre os dois princípios.”

Os desígnios da Arte implicam “Uma forte capacidade para a sublimação pois o artista “encontra o caminho de volta à realidade.” Assim, “um verdadeiro artista (…) sabe como trabalhar os seus sonhos (…) de modo a fazê-los perder o que neles há de demasiado pessoal (…) tornando possível que outros partilhem do seu gozo neles (…) O artista ganha então a gratidão e a admiração [dos outros], conseguindo assim (…) honra, poder e admiração.” [1]



A Pintura de Mena Brito protagoniza a incessante procura de formas, onde entre cumes e declives podem resplandecer êxtases.

Quando falamos da Arte de Mena Brito, falamos da Mestria através da qual a Artista percepciona o corpo, tecendo cumplicidades sensuais…

O enlace do silêncio evidencia-se no abraço dos entes que perseguem rastilhos de luz, na sede do desejo…

A dança incessante dos torsos insinua a transcendência, onde se fundem Eros e Tanatos.



Com Mena Brito, a gramática corporal é recentrada - inserindo-se na estética da contemporaneidade, com o traço do desenho herdado dos clássicos, mas também de Mestres, como Lagoa Henriques.

Falamos também da Poesia do Movimento, quando abordamos esta Arte: Músculos, quadris, joelhos, coxas, braços e mãos participam num bailado pueril e erotizante.

As formas trespassam mistérios e claridades, com a energia acutilante da representação simbólica que a tela incarna, pois nela vibra a pele em prodigiosa alquimia.

No atelier, riscos, esboços, linhas, superam o etéreo, alcançando um limiar.

Os anjos rondam o cromatismo, prenunciando a desmaterialização do Corpo Onírico. (Quase) em levitação, atingindo a Liberdade do voo criativo, na plenitude de um renascimento elementar. (Quase) na transparência do Ser.

Em permanente luta com paleta, trinchas, pincel, a mão derrama tintas, desbravando espaços, gerando texturas, metamorfoses, imaginários que o olhar apura.

Aguadas castanhas e azuis disputam a subtileza do equilíbrio entre terra e céu. No interior de outro azul, ocre, intenso, cintila o laborioso afã de percepcionar o Futuro!



Se a Arte torna visível, citando Paul Klee[2] o que nos é dado desfrutar nos trabalhos ora expostos, é uma viagem por caminhos e afectos, sem posse nem perda.

Na travessia da Superação!



Peter Fuller[3] evoca Cézanne sobre o que a experiência da pintura proporciona: “Um abismo em que o olhar se perca, uma germinação secreta (…) Tornamo-nos pintura.”

Deixemo-nos então seduzir e envolver com a qualidade do desenho e da Pintura da talentosa Mena Brito!"


Almada, entre 17-8-2019 e 30-8-2019



Luís Filipe Maçarico


[1] FREUD, Sigmund “Textos essenciais da Psicanálise”, volume II, Publicações Europa - América, 2ª edição, 2001.
[2] PINTO, António Cerveira, “O Lugar da Arte”, Quetzal, Lisboa, 1989, p.68.
[3] FULLER, Peter “Arte e Psicanálise”, D. Quixote, Lisboa, 1983, p. 209.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Valore$ Mais Altos se Levantam

Não consigo entender por que razão lojas históricas, palácios e espaços verdes têm sido ceifados pela desenfreada gula da especulação, alienados ou concessionados a privados.
Os cabeçalhos gritam: Tapada das Necessidades privatizada! O Palácio dos Machadinhos foi vendido a franceses e o facto passou despercebido. 
Um fundo imobiliário americano compra um quarteirão (mais um!) na Baixa de Lisboa e ameaça de despejo inquilinos, repetindo-se o vampirismo que já contaminou vários bairros históricos.
Brasileiros ricaços ( que vieram "investir"?) expulsaram a "Guilhas" do prédio da Avenida D. Carlos onde a popularidade do "Conservatório da Esperança" se consolidou, através do afã de actores inesquecíveis como Raúl Solnado, José Viana, Jacinto Ramos, Glicínia Quartin, Henrique Viana, Luís Castanheira, Luísa Ortigoso e tantos outros. 
Rafael Nadal descartou o quarteirão da pastelaria "Suíça" dos seus desidérios empresariais.
É o desrespeito dos negociantes - porque valore$ mais altos se levantam -  espezinhando a História dos bairros e das cidades do País.
Capitalismo desenfreado este, com várias origens e o mesmo desígnio: Formatar a velha capital europeia com a febre consumista, tornando-se irmã gémea do vazio e da falta de identidade que grassa pelo mundo.
Pergunto: As autoridades não podem travar esta destruição?
Os lugares da memória que estão a morrer não têm retorno, após a sua extinção.
Ainda bem que sou mortal.
Não suportaria assistir muito mais tempo à violência desta monstruosa agressão ao património identitário.
A massiva estupidificação (à escala global) televisiva não substitui a consciência dos que não se deixam adormecer.
Não é por acaso que constatamos em todo o mundo revoltas (em várias latitudes, do Líbano ao Chile, da Argélia ao Irão, do Iraque à Bolívia, da França ao Egipto) que contudo não são revoluções.
"Conhecer é ficar magoado" escrevi nos anos oitenta do século passado. 
Gostava de estar errado.
Luís Filipe Maçarico (texto)
Fotografias: Tapada das Necessidades (Rosário Fernandes) "Histórias para serem contadas" representada na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, no final dos anos 70 (autoria desconhecida) Últimas lojas do Rossio (LFM)

terça-feira, novembro 19, 2019

José Mário Branco O Eterno Resistente

José Mário Branco acompanhou-me desde a adolescência, quando os jovens da minha idade se afligiam com o cutelo da Guerra Colonial. 
As suas canções foram luz para a minha caminhada, questionando o Abril que faltou fazer, a manipulação capitalista disfarçada de democracia (burguesa).

José Mário Branco, nesta partida que todos temos de cumprir deixou-me substancialmente mais pobre, pois estamos a passar da geração da memória para a geração do imediato.
Tempo de vazio, em que basta um like ou um dislike para cada um achar que fez o que devia. Tão longe da cidadania. Tão longe da escala humana. 

A tecnologia vai devorar-nos, se não surgirem artistas que ponham tudo em causa. Vejo à minha volta, ao contrário do percurso dele, um punhado de jovens zombies a rimar amar com chamar e velhos que alinham em indizíveis misérias mentais talvez porque a Morte se aproxima, renegando o que defenderam ao longo da vida. 
Cobardes, que ajudaram a tornar os nossos dias (em todo o planeta) na empantufada submissão aos ditames dos poderosos, aplaudindo progressos e desenvolvimentos dos quais nunca beneficiarão. 
Os traidores estão infiltrados em todos os lugares. Oxalá a História evidencie os seres resistentes (e coerentes) como José Mário Branco. Eh Companheiro!...

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, novembro 12, 2019

AFONSO MIRANDA DO “SINO DOCE” DE ALMADA: UMA VIDA DE MUITO TRABALHO AMBICIONANDO A QUALIDADE




As histórias de vida constituem uma fonte de informação sobre o passado, das cidades e da Comunidade, quotidianos, profissões, estorvos e superações pessoais e colectivas. Na entrevista que a seguir se transcreve, reconstitui-se um percurso biográfico, valorizando-se o singular, enquanto objecto de estudo. Ao longo da conversa foi evidente que nem o relato dos acontecimentos surgiu ordenado nem todos os eventos apareceram na narrativa, tendo o entrevistado revisitado factos que lhe tinham escapado. Nomes e lugares ficaram envolvidos numa espécie de nevoeiro ou, aplicando a explicação de Marc Augé, acerca da Memória e do Esquecimento, as recordações sofrem uma erosão semelhante à das falésias do litoral.

Figura popular de Almada velha, nas últimas três décadas e meia, Afonso Miranda acedeu fazer uma pausa na sua constante actividade, à frente da Pastelaria “Sino Doce” para responder às nossas perguntas. Começámos por querer saber onde nasceu e como foi a infância e a Juventude?

“Nasci no Hospital, em Torres Vedras. Daqui é que fui para a aldeia (Silveira), até aos 12 anos. Foi uma infância muito pobre, perto da praia de Santa Cruz. A minha mãe trabalhava no campo, vida dura. Um dos trabalhos da minha mãe era reparar as barracas de lona da praia de Santa Cruz e eu ia molhar o pé…O meu pai veio trabalhar para Sassoeiros, na Quinta do Barão, do vinho de Carcavelos. Essa vinha foi renovada pela equipa que o meu pai arranjou…Tenho irmão mais velho e irmã. Concluí a instrução primária lá. Ainda não tinha doze anos vim para Lisboa. O meu irmão que tem mais oito anos, orientou, protegeu, foi um pai. Fui trabalhar na Av. Defensores de Chaves, numa mercearia, como marçano, durante um mês. Depois estive quatro anos na Alameda das Linhas de Torres. O patrão era da zona de Alenquer. Sendo merceeiro, era pessoa aprumada. Aprendi com ele.”

- Tem saudades da sua terra? Costuma ir até lá?

“Costumo lá ir! É sempre a minha terra. Gosto. Tenho a memória de jogar à bola, brincar, ir à escola e ter um grupo, o grupo dos sete, designado “Os Gajos da Silveira” - lá da aldeia, que nos juntamos, de seis em seis meses. São do melhor! A minha terra é a aldeia do Joaquim Agostinho. É uma referência. Com dezassete anos tive conhecimento de haver trabalho para a época balnear na Praia de Santa Cruz. Fiz duas épocas de praia.”

- O percurso profissional e a sua especialização derivam de uma vocação?

“Não, foi o meu irmão que me arranjou emprego numa pastelaria na Praça do Chile [“Raio de Luz”]. Tive um episódio marcante. O patrão deu-me cinco contos para ir ao Grémio (Agora é Associação de Industriais de Pastelaria) pagar açúcar e farinha. Levava o dinheiro e a requisição num livrito de cow-boys. Junto ao Jardim de Cesário Verde dei por falta do envelope. Encontrei o papel, mas o dinheiro não. O dono da pastelaria era um senhor cinco estrelas. Era uma pessoa de nível. Fiquei a pagar um tanto todos os meses e depois ele perdoou parte da dívida…Quando vim da primeira época de praia fui trabalhar no Café Império. Tinha cem colegas. Fazia a folga dos outros todos (no balcão do restaurante, na pastelaria, lá em baixo eram só cafés…). Estive nove meses. Quando saí do Império, fui fazer outra época de praia. Gostava de lá estar (era o nº 13) ao fim de seis meses era o nº 3. Não é que fosse tão bom assim. Os outros é que iam embora. Até me queriam aumentar. Tinha de andar de lacinho e jaleca. Quando venho da segunda época de praia, com 19 anos, fazia parte de um grupinho - doze - de rapazes na Praça do Chile (eu vivia na Cavaleiro de Oliveira), onde estava o malogrado recentemente falecido Jordão, que nessa época era júnior do Benfica. Nesse grupo havia dois elementos que trabalhavam na “Ferrari”, considerada uma das melhores casas do país. Um deles estava mobilizado para a guerra colonial. Tive a sorte de ir para lá. Estive dez anos na “Ferrari”. Fui para Cabinda nos últimos anos da guerra. Saí das Caldas em Dezembro de 1973, fui em rendição individual. Tive a sorte de ser colocado no Comando de Sector. Estive na cidade. Cheguei de Angola no dia em que os trabalhadores da “Ferrari” começaram a fazer o controle operário. Fui delegado sindical e da Comissão de Trabalhadores ao mesmo tempo. Em 1979 propus a categoria de terceiro pasteleiro, que foi aceite (As direcções do Sindicato e do Patronato normalmente são dos hotéis) tínhamos um contrato com três categorias. Tinha de integrar nove elementos com várias categorias. A minha proposta era passarem a ganhar o dobro do ordenado…”

-Lisboa foi importante na sua caminhada?

“Lisboa é a minha querida terra. Eu adorava Lisboa. De vez em quando vou para Lisboa. Conheço a cidade a pé. Vivi e trabalhei lá.”

- Como surgiu Almada no seu percurso?

“Por acidente. Quando casei, fui morar para Benfica, para casa da tia da minha mulher. Vim para aqui, para casa maior. Fiquei com a mãe do meu sogro, a sogra, a minha mulher, a filha da tia, a minha filha que nasceu e a cadela. Quando viajava no Fiat 600 alguém ficava em terra! O meu pai vivia sozinho, apareceu-me. Declarou-se a doença da minha mulher. O meu pai foi para as Costas de Cão (Lar da Misericórdia de Almada) e tratava do jardim.”

- Como nasceu o “Sino Doce”?

“Foi fundado em 1981, com dois sócios que vieram da “Ferrari”. Vínhamos do Chiado para a “terra dos Comunistas” e por nossa conta…Isto era uma gelataria e cafetaria muito fina para a altura. Isto aqui era montões de gente, ao fim de semana. Havia cinema na Academia!”

- Como se conquista e assegura um grupo de clientes tão variado (e fidelizado)?

“A casa ganhou um certo nome, vieram três profissionais de casa conceituada. Enveredámos por bolinhos de confecção caseira e temos colaboradora que assegura o fabrico de bolos de aniversário. Eu tinha lista de vinte e duas pessoas que faziam bolinhos. Ia com o carrito buscar os bolos, que tinham muita aceitação. Cheguei a trazer nove bolos de um quarto andar, sem elevador. Aquilo podia cair tudo. Sofre-se muito para ter uma casa destas. Havia um juíz do Tribunal de Almada, famoso por cantar fado de Coimbra - Machado Soares - que um belo dia diz assim: “Esta casa é a casa do país que tem maior variedade de bolos bons!” Frequentaram isto o Maestro Lopes Graça, o Paulo de Carvalho, uma pessoa que eu gosto muito, nessa época vinha com a Isabel Baía. Já entrou aqui o Francisco Louçã, o Sérgio Godinho, a antiga presidente da Câmara (Maria Emília Sousa) vinha todos os dias.”

Ficaram registados inúmeros episódios, momentos alegres e menos risonhos, nas folhas de papel onde se apontaram as estórias do quotidiano de uma casa assim.

Antes de terminarmos as duas horas de diálogo, e quase em jeito de balanço escutámos isto: “Não somos nós que somos bons. Infelizmente, o que havia há trinta e tal anos era de muito má qualidade. Até em vãos de escada qualquer caramelo punha máquina de café e a “patroa” fazia pastéis…Temos a sorte de estar em frente à maior sala de cinema do país. Tenho consciência que primeiro que tudo é a qualidade.” Por outro lado, acrescenta: “Devia ser obrigatório ter pessoal com formação. Outra coisa: a escolaridade obrigatória. Eu é que acabo por dar formação. Não é dizer que em terra de cegos quem tem olho é rei, é ter consciência que a qualidade é o mais importante!”

À despedida, o senhor Afonso Miranda que coleciona frases e provérbios, deixou estas palavras para reflexão: “A Felicidade não existe no facto da ausência de problemas, mas sim na capacidade de lidar com eles.”


Luís Filipe Maçarico (artigo e fotografias)
Revista nº 26 da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular

MESTRE DELFIM CORREIA: O PERCURSO DO ALFAIATE DE ALMADA ANTIGA (*)


Na obra “Alfaiates e Costureiras: Um olhar sobre o engenho da agulha e do dedal” (2008), da autoria de Ana Durão Machado e editado pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém, assegura-se que “A arte da confeccção do vestuário” é “uma das mais antigas actividades humanas”.

O termo alfaiate vem do árabe al-kaiat, remontando as primeiras referências sobre a função no nosso país ao século XII. Decorridos duzentos anos, o desempenho de alfaiate estava representado na Casa dos Vinte e Quatro sendo obrigatória a presença destes artífices nas procissões, como a do Corpo de Deus, porque as confrarias religiosas regulamentavam a actividade de profissionais e aprendizes.

No século XIX as associações profissionais substituíram as antigas confrarias e as mulheres passaram a integrar as oficinas de alfaiate. Nos anos 70 do século XX as lojas de pronto-a-vestir contribuíram para o declínio do ofício hoje quase em extinção. (Machado, 2008:6-7).



Natural de Alcafozes, Delfim Correia completou o ensino primário, em Idanha - a - Nova, sede do Concelho, a 13 km. “Quando fiz o exame da quarta classe, eu sabia a Geografia, a História de Portugal, as Ciências, etc.”



Os pais trabalhavam no campo e “Andavam a vender loiça vidrada, com a carroça e machos” e o jovem Delfim “andava a vender com eles nas férias.”

Mais tarde, “Já tinham uma carrinha…A minha mãe tirou a carta, era uma mulher determinada!”

E enquanto os pais iam para as feiras e “dormiam aqui e acolá, como os nómadas” o miúdo ia às feiras, com eles, também participava nas vendas. Todavia, chegou a ficar em casa, enquanto os pais procuravam o sustento. “Eu lá ficava sozinho com a candeia de azeite, uma torcidazinha. Depois mais tarde, veio o petróleo. Na província era assim!”



Os pais na altura pensaram que “para ele não ir para o campo, podia ir aprender um ofício. A única solução que eles achavam que era boa era os Alfaiates. Aprendia a costura e também barbeiro (os alfaiates ao fim de semana cortavam o cabelo). Estive num que também arrancava dentes com a turquêz. Hoje os jovens não sabem nem imaginam como era a vida na província naquele tempo, que não havia luz eléctrica, nem outras coisas necessárias, era uma vida difícil que a gente passava!”



Ao longo desta conversa, Delfim Correia, revelando a cultura aprendida na experiência vivida e nos livros que gosta de ler, com notável memória foi contando os enredos da sua história de vida. Quisemos saber quanto tempo fez a aprendizagem do ofício. Mestre Delfim foi aprendiz dos doze aos dezasseis anos, tendo estado em três alfaiates, tantos quantos existiam na sua terra. Esteve num, onde aprendeu a fazer “casas” (o sítio para meter o botão). “Ele punha-me o cabresto para o dedo aguentar dobrado…Cabresto era o que se punha aos burros e machos”, esclarece, acrescentando: “Ele atava ali e o dedo já não abria…No segundo, aprendi a barbeiro. Os clientes trabalhavam nos campos e só no fim - de - semana, ou seja no sábado é que iam ao barbeiro cortar o cabelo e fazer a barba mas ninguém queria ir para o rapaz até que apareceu um velhote cheio de coragem “Faz aqui a barba, corta à vontade, não tenhas medo, faz como sabes!” A partir daí já todos queriam ir para o rapaz, perderam o medo.”

“Havia três alfaiates, dois deles também eram barbeiros”, recorda. “O último foi com quem aprendi.”



Fazia serões nas festas, até às tantas, conta. “O meu pai, ao fim de três anos, teve de pagar setecentos escudos. Tenho a impressão que ainda tenho a cadeira de barbeiro, lá na terra…Depois, com dezassete anos, os meus pais - por portas e travessas - lá arranjaram um conhecimento em Santarém. Um dos melhores alfaiates de lá. A minha mãe fez a mala, com uma roupinha…”Quando chegares, desces do comboio, que há-de lá estar alguém à tua espera.”

Provavelmente não teria andado de comboio, se não fosse a necessidade de se especializar, pois havia dificuldades em tudo, nota.

“Lá estava uma senhora, à minha espera e a chamar por mim: “Delfim, Delfim!” O marido era alfaiate.”



Esteve um ano em Santarém, cidade da qual gostou muito; arranjou amigos, conhecidos. Ao fim de um ano meteu-se no comboio a caminho de Lisboa.

“Tinha morada de alfaiate que trabalhava a obras [Trabalhavam em casa, faziam as obras para lojas] Era tudo feito por medida. Andei nos oficiais a obras. Arranjei quarto em Campolide. Vinha a pé para a Baixa porque não havia dinheiro para transportes.

Tinha aqui uns tios deste lado. Eu não gostava muito de Lisboa, mudei para Almada. Com 18 anos quase 19 não me alimentava bem, adoeci, voltei à terra, para os pais. Recuperei, voltei para a cidade. Arranjei uma senhora da terra, pagava a pensão.

Depois, abriu a Fábrica “Confecções Tejo”, em Almada, onde conheci a minha esposa. A minha esposa é de Moura e eu sou da Beira Baixa. Conhecemo-nos na costura. Ela era minha aprendiza. Trabalhei nas “Confecções Tejo”, até que passei a trabalhar na Cova da Piedade (Lãs Labete), com o senhor Sebastião.”

Mestre Delfim contou que algum tempo decorrido passou a laborar no “Rodrigues & Rodrigues”, no Largo de São Paulo, em Lisboa. Faziam tudo. “Fui o oficial escolhido para fazer os fatos por medida.” 



Posteriormente, “os meus pais compraram uma máquina e viemos trabalhar a obras para casa. Vinham a minha namorada e outras raparigas.

Casei com 23 anos, aluguei uma casa e nela desenvolvi a arte de alfaiataria. Arranjei loja de alfaiataria. Naquela altura não estava parado.”

Ao perguntamos quantos metros de tecido transformou em fatos, responde que na época em que o ofício não tinha a concorrência do pronto - a - vestir, “por semana e por mês era capaz de fazer 20 a 30 fatos à medida.



Foi um dos fundadores do “Solar dos Leões de Almada”, em 23 de Julho de 1969, o prestígio que granjeou está visível nas fotografias antigas que guarda e mostra ao entrevistador: Numa, Eusébio e Hilário, ídolos do desporto português, aparecem na sua loja. Noutra, a filha de Romeu Correia destaca-se na mesa de um convívio gastronómico.

Leitor assíduo “Gosto muito de Poesia e História”, o senhor Delfim também gosta de ler a Bíblia, contando que se baptizou como testemunha de Jeová em 1973.

No final da entrevista, o nosso interlocutor recorda que começou no seu ofício de alfaiate aos 12 anos. Tendo completado 79 anos, Mestre Delfim Correia quer continuar “enquanto tiver boa disposição.”



Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)
(*) Artigo divulgado na revista nº 25 da Aldraba, Associação do Espaço e Património Popular

quinta-feira, novembro 07, 2019

Texto sobre o Circo escrito há mais de 30 anos




O CIRCO[1]



Brindado com carrocéis e pistas de carrinhos de choque, que abancavam rotativamente nuns terrenos da Câmara, com um Tejo de sonho rente à porta, todo o mundo se prostrava aos pés das vedetas mal aquela brilhante embaixada se abeirava da freguesia.

E como era lindo de se ver aquele pedaço da capital, cilindrado pelo fascínio do maior espectáculo do universo: o fabuloso Circo Torralvo!

As crianças bebiam até ao último adjectivo as palavras da simpática e espampanante apresentadora anunciando as fantásticas estrelas, espalhando a expectativa dos tambores, com a voz sincopada atordoando o público faminto de perplexidade.

Alcântara ganhava, então, outra cor com essa exibição de exotismo que os gaiatos devoravam até ao derradeiro acorde da pequena orquestra, até ao último projector iluminando o recinto onde palhaços, contorcionistas, malabaristas, equilibristas, trapezistas, ilusionistas “internacionalmente aplaudidos” se despediam com seus fatos exuberantes.

Depois, quando a companhia abandonava a avenida de Ceuta para encantar outras gentes, os putos andavam pelas ruas a dizer que iam ser artistas de circo.



[1] Maçarico, Luís Filipe. Escrito na primeira metade da década de oitenta. Menção Honrosa de Conto nos Jogos Florais 86 da Câmara Municipal da Amadora, Tema: “A Festa” e publicado nos Cadernos do Centro Cultural Roque Gameiro, 1987, pp. 28-29. 

Fotografia do autor, quando menino.

domingo, novembro 03, 2019

Andam à Solta...


Nos dias que correm, corrigir alguém é arriscar a raiva daqueles que detestam críticas, pois certa gente reage bastante mal, quando se sente contrariada.
Para alguns seres - ditos humanos - a vida é uma dissimulação, aparentando imensa doçura, a qual fica posta em causa se a sua ignorância arrogante for desmascarada...
A fruição é o seu objectivo maior, manipulando quem dá jeito para consumar seus planos.
Andar às cavalitas de outrém é a grande ambição.
Destilam veneno, quando menos se espera, caindo por terra o edifício do seu enorme bem estar
Os outros não contam, na mente destes psicopatas quotidianos, disfarçados de pessoas comuns e justas.
Não há manual de instruções. Não há couraça que defenda os incautos. Nada faz supor que, de um momento para o outro, se transformem nos maiores inimigos.
Gente protegida, que se insinua, até alcançar o almejado fruto, a desejada posse.
Cuidado com esta fauna, andam à solta, são um perigo para estragar amizades, existências, caminhos que ficam sem regresso.

LFM

quarta-feira, outubro 16, 2019

HÉLDER COSTA: O TEATRO DA VIDA DE UM GRANDOLENSE, LIVRE E SONHADOR




Há um velho dito que afirma que “não bate a bota com a perdigota” (muitas vezes, gente de quem ouvimos falar tem comportamentos dissonantes, com um prestígio do qual goza, por se ter destacado numa arte ou numa intervenção cívica...). Hélder Costa é  excepção a essa regra.

No presente caso, o entrevistado excedeu as expectativas. Contou-nos histórias com uma cativante dose de humor e ironia. Encantou-nos, de tal forma, que estivemos à conversa horas e horas, com um almoço de permeio.



A INFÂNCIA EM GRÂNDOLA

Hélder Mateus Costa nasceu no dia de Reis (6 de Janeiro) de 1939, em Grândola e relatou-nos assim a sua infância e juventude:

“Os meus pais eram camponeses, nasceram na serra de Grândola, lá se encontraram, casaram e decidiram ficar por Grândola. O meu pai desenhou e construiu a casa, para viverem (nos arrabaldes, mesmo perto de um acampamento de ciganos) …Vivo ali, faço a escola, era bom aluno. Fiz a 4ª classe e a admissão. O meu pai era um camponês um bocadinho especial. Eles tinham terras com sobreiros. E o meu pai pensou “Vou fazer uma fábrica!”.

Na minha memória, desde criança, vem então uma relação curiosa: Ia com o meu pai assistir à tiragem da cortiça. Levava um livro e na altura da sesta lia-o aos camponeses. A relação do meu pai com os trabalhadores era diferente, porque ele dava sempre mais salário e depois ouvi uma discussão lá em casa, com os amigos dele. “Eh pá deixem-se disso, eu conheço essa vida!”.

A minha mãe, sempre com os livros. Isso criou em mim o interesse pelo conhecimento.

Nasci na rua Infante D. Henrique. Havia as histórias aos quadradinhos. Vou criando essa preocupação, esse culto. Imediatamente, a gostar de cinema. A dada altura, vai um filme em Grândola, com a Maria Félix, “Rio Escondido”, O cinema estava cheio e quando ela mata o patrão, que tentou violá-la, levantam-se todos a aplaudir, tudo aos gritos “Bandido!”. O êxito foi tal que o filme foi mais umas quatro ou cinco vezes à cena. Isto são coisas importantes, mexe!

A minha mãe era amiga dos ciganos, daquela gente toda, dava dinheiro, eu ia brincar com a rapaziada cigana em cima do burro…foi uma educação livre, sem proibições. Foram mesmo marcantes!

Havia sempre naquelas famílias dos meninos que andavam a estudar, a “Festa de Anos”. E eu oferecia sempre um livro. Um amigo meu contou que o pai tinha comentado “ para que é essa porcaria?” A minha relação com essa malta começou a ser difícil, digamos que dura até aos 15 anos.

Na minha rua havia dois barbeiros, era malta nova. Um deles ensinou-me a jogar xadrez. Um dia, vejo escrito em vários sítios “PAZ”, tinha a ver com a questão da NATO, (foi em 50, salvo erro…) Lembro-me de estar no café e apareceram amigos do barbeiro, com uns papéis para a malta assinar sobre a Paz. Assinei logo. Passados uns dias, fui chamado ao chefe do correio: “Ouve lá, ó Hélder, tu assinaste um papel, tem cuidado, não comeces a assinar papéis!” Foi o primeiro contacto que tive com a Pide sem o saber! Rodam mais uns dias e aquela malta…Foi tudo preso para Caxias! Grande indignação. Passaram-se seis meses, os tipos voltam. Havia as conversas e eu a ouvir as estórias que eles contavam, tinham aprendido línguas, técnicas, desenho. O desenhador até foi seleccionado para trabalhar com arquitectos. Aquele “tratamento” deu-lhes conhecimentos e ficaram de esquerda. Foi uma escola, o serem presos. Tive a percepção e o efeito da prisão.

 Dado o meu estilo um pouco libertário, é evidente que comecei a ter namoros que, naquela altura, são ingénuos…”



O TEATRO, A LUTA E O CONHECIMENTO

“Quando começou o seu interesse pelo Teatro (e onde)?”

De vez em quando, juntavam-se, lá em Grândola, e faziam uns quadros cómicos. Até faziam na Praça “Cegadas”. Vi uma ou duas. Achei graça! Adorava cinema e criei respeito especial por aquela gente, mundo que nunca pensei poder alcançar. Nunca sonhei fazer coisas importantes.

Quando cheguei a Coimbra, (tinha 17 anos, fiz o Liceu no Camões) comecei logo por um treino de futebol na Académica, treino que estava a ser dirigido pelo célebre (Mário) Wilson. Fui escolhido para ir no dia seguinte. “Dói-me o corpo todo, não vou jogar à bola”. Desisti…

Gostava de cantar, vou para o Orfeão.

Quando vou, há uma malta que diz “Vem para o CITAC!” Aí encontro o Luís Lima, que tinha ido nos anos 50 para Paris, fez parte da equipa do Marcel Marceau. Decidiu ir para o Brasil, transformou-se em professor, actor e a Fundação Gulbenkian contratou-o para dirigir o CITAC. Ele fazia mímica, era fascinante e espantou todos com o quadro artístico puro.

Entrei para o CITAC. Começa o bloqueio, mandavam-se peças para a Censura, era tudo proibido, até o Gil Vicente é proibido. “Eles têm medo do Gil Vicente de há 500 anos? Esta merda não vai abaixo só com Teatro!” Aí entrou o interesse político e entro a sério no activismo associativo.[1]

Começo a fazer viagens pela Europa, à boleia, com a malta, mas nunca iria fazer direito, talvez corpo diplomático, fora daqui!

Em 61-62, começa a Guerra Colonial. Há uma malta, dois médicos comunistas morrem na Guiné. Nessa altura, sou contactado para entrar para o Partido Comunista. Vou de viagem e em Paris compro o “Manifesto Comunista”. Cheguei a Coimbra, contactei o “camarada”…”Eh pá, estive a ler, quero ser!” Numa reunião na Faculdade de Direito de Coimbra perguntei: “E a Guerra Colonial, como é que é?” “Temos de ir!” “Ah, mas eu estou totalmente contra!” “A gente vai para lá para fazer a guerra mais humana!” Perante aquilo, “Desculpem lá, ficamos amigos, tenho todo o respeito, mas eu vou fazer outra coisa!” Esse fazer outra coisa, foi o que comecei a fazer!

Recebo uma ordem do Exército, para ir para a Companhia Disciplinar de Penamacor. Reclamo. Mandam os argumentos. Toda a malta tinha feito a greve dos estudantes. Fui à PIDE com a carta, protestar. “Se é só isto, não fiz nada!” (é interrogado durante 3-4 horas). O inspector Sachetti, careca, tipo filmes nazis, com perfume de puta, sempre com aquelas frases: “O Senhor Doutor está bom?” “O Sr Doutor é uma pessoa inteligente, mas tem de ir para Penamacor! Eu disse: “Isso é uma injustiça, fazem-me perder tempo!” “Se por acaso sair de Penamacor, não volta a Coimbra!”

Quando já estava a levantar-me ele diz: “Parece que o Sr. Dr. está indicado para ser o próximo presidente do CITAC…vai ter um posto na Via Latina, no Cineclube. Saia!”

Quando já vou à porta, ele dá-me uma pista…

“Também está indigitado para pertencer à Direcção da Associação Académica.”

Dois camaradas tinham efectivamente falado comigo, para ir para a Direcção da Associação Académica. Passados uns dias, vou mais cedo e vejo uma série de papéis assinados pelo PCP a convocar uma Manifestação para a Câmara de Coimbra. Mais tarde ouvi comentar: “Estava para haver uma Manifestação, a PIDE foi lá e apanhou os papéis todos.”

A 13 de Maio foi para Penamacor. Há uma razia de estudantes (trinta ou quarenta) foram presos para Peniche Descobriu-se que um elemento preso acabou por passar a informação à PIDE. Volta para Lisboa e começa a funcionar com a falsificação de passaportes e passagem de fronteiras (eram três).

 “Durante uma quantidade de anos ando por Coimbra a tentar contactos. Estamos em 67, safámos dezenas de putos, trabalho extraordinário…! Imagino com gozo o ódio da PIDE, antes do inevitável salto para Paris: - ”Está combinado (influência do cinema) todos os dias às sete da tarde telefono, levantas o auscultador e não falamos.”…. Oiço o telefone…aparece um tipo: “Quem é que fala?” Respondo -“És um atrasado mental, estou aqui a gozar contigo, vais ser corrido da PIDE”. Chego ao meu quarto, arrumo a tralha e deixo um livro de Mao Tse Tung “O Poder Político Nasce do Cano da Espingarda” e ponho um “objecto das Caldas” com o aviso “Não Mexer!”

O cenário estava preparado para lhes fazer perder a paciência…!”

“Andei escondido, ia para a praia, deixei crescer bigode. Inventei uma saída. Vou sair no dia 15 de Agosto, é um feriado mundial. Ela ascende aos céus. Se calhar a polícia e a guarda, em Espanha, estão mais distraídos, passo a nado no Guadiana, levo o meu fato num saquinho de plástico. Fizemos a saída dentro de um pneu, perto de Campo Maior - Elvas.” Chega a Badajoz. O contacto não lhe levou a mala, perdeu o combóio. “Estou lixado!”

Chegou ao café - “onde é aqui o bairro das meninas?” Entrei. “Sabe, estou cansadíssimo, só preciso de dormir, com um despertador para apanhar o autocarro para Madrid”. Chegado a Madrid, compra uma camisa, pasta de dentes e apanha o comboio para Paris. Não havia um português no comboio, só argelinos, marroquinos.

“Chegamos à fronteira, levo uma das malas duma rapariga e passo. Pronto, já estou em França! Apanho o metro para o Quartier Latin. Vou a descer, vem a subir no sentido contrário um gajo que tinha ajudado um ano antes. “Tens de ficar em Paris”. “Fico”.

“No dia seguinte comecei a trabalhar na recepção dos hotéis. Encontro o José Mário Branco. Acabei por ir viver para casa dele, até me juntar com outra malta que lá estava.

Fiz o que tinha feito em Coimbra - uma República!”



-“Chegou a trabalhar como actor?”

“Quando queria ser actor no CITAC, fui para Penamacor.”

Hélder Costa representou vários personagens na Vida. “Fui sempre um grande malandreco. Estava farto de fazer teatro para estudantes. Organizei coisas a sério, íamos dizer poesia para a Moita, Baixa da Banheira, com a Manuela de Freitas e malta do PC.”



“Lembra-se da sua primeira encenação?”

“Em 64, havia em Grândola, a Sociedade Musical Fraternal Grandolense. Amigos meus, que estavam lá na direcção, começam a fazer teatro e eu desenhei o cenário. “As Cinco Vogais, AEIOU” num pano preto e por cima das letras uma grade, estavam presas. “Queres fazer uma peça tua? Então, é a minha primeira encenação. “Gota de Mel” [de Léon Chancerell. Fizemos 3 peças, vestidos de preto. Uma, da Teresa Horta; “O Doido e a Morte” e a” Gota de Mel”.

A estreia foi um sucesso, com a malta toda a bater palmas e o público a pedir “BIS!!!” . A peça foi várias vezes repetida e no fim - de - semana seguinte é representada numa Cooperativa nas Ermidas. Veio a Guarda, proibiu. “Comecei bem!”

Claro que relacionado com isso, fui eu que organizei a sessão com Carlos Paredes e Zeca Afonso. Ele ficou entusiasmado e fez a música “Grândola Vila Morena”.

 Vamos explicar, a chamada “Música Velha”, a da colectividade, metia PC, anarquistas, maçons. Depois da guerra civil de Espanha, cria-se a “Música Nova, a dos agrários.



OUTRAS MEMÓRIAS

“Como foram os anos do Exílio? ”

“Estiveste exilado?”

“Não, eu aproveitei o “Erasmus do Salazar”! (Boa! espanto e risos…)

Hélder fundou o Teatro Operário, em 1970, em Paris. “Eu fiz sempre o teatro e os cartazes do ataque, o oprimido é o “coitadinhismo”. A malta precisa sempre de apelar à Luta. A minha experiência no Cénico de Direito foi importantíssima. A malta do teatro é obrigada a ler, tem de fazer formação de quadros. O Teatro Operário também foi muito importante na acção política. Desenvolveu núcleos teatrais em França e por toda a Europa. Atacou de frente o problema da guerra colonial, com a peça “O Soldado”, grande êxito com dezenas de actuações em França, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, Dinamarca e Suécia.

A malta fala das greves de 62 e 69. E nunca se fala da luta em Lisboa, de 65. Começa tudo com o Saldanha Sanches na rua, a apanhar um tiro de um Pide. Organizámos uma Comissão Secreta para fazer a agitação toda. A PIDE ataca a sério.”

 Hélder organiza o 1º Festival de Teatro Universitário, trazendo o TEUC, o CITAC, Porto, o Técnico. O Festival realizou-se no Teatro Monumental, depois de ter falado com o Vasco Morgado, que ofereceu o Teatro. Abre o Festival. No camarote, o ministro Paulo Cunha e o reitor Galvão Teles. Começa: “Camaradas, amigos, senhor ministro, estamos aqui a fazer a manifestação sobre a educação e a cultura. É evidente que este festival é dedicado aos estudantes presos. É também dedicado aos operários presos. Sim, também é dedicado aos soldados que estão numa guerra injusta”. O reitor e o ministro saem. Abrimos com as “Histórias para serem contadas”, de Osvaldo Drágun. Acabou o Festival

A cantina já estava ocupada e vai lá o Paulo Cunha. Começa a provocação…“Sou chamado para uma reunião na reitoria, cinco, seis gajos à civil, proferem e gritam que sou mal - educado, agitador, incrível, estraga a estabilidade.”. Um Pide perguntou: “Sr. Reitor quer dar o castigo?” “Sete anos expulso”. “Insisto que o senhor reitor me diga, por que motivo faz esta acusação” E o chefe dos Pides: “Vá-se lá embora!”



Numa entrevista, a memória nunca é linear, organizada. Os fragmentos da caminhada, tendem a ser partilhados num discurso que avança e recua. Nesta conversa sucedeu essa tendência tão natural, porque há sempre algo que regressa fora do contexto anterior, com carácter de urgência, para a informação ficar completa. Hélder Costa, a propósito da passagem por Penamacor, recorda:

“Aproveitei Penamacor para me preparar para outras coisas. A BCG passou por lá, tinha uma mancha no pulmão. Telefonei à minha mãe “Isso é uma coisa que tiveste em pequenino.” “Expulso do Exército.”

Após a conversa na Casa do Alentejo, Hélder Costa acrescentou o seguinte, que tem a ver com a sua formação cívica: “O médico Manuel Reis que tinha estado preso no Campo de Concentração do Tarrafal, tinha aprendido a cura do Paludismo. Esteve na Guerra Civil de Espanha. Era médico extremamente inteligente. Ficou amizade muito especial. Informava do que lia nos jornais, tinha todo o respeito e tentava informar.”



“Que diferenças encontra no Alentejo da sua juventude e no de hoje?

“Para mim, o Alentejo continua a ser os comportamentos e o estilo das pessoas. Continuo a ver o Humor e essa inteligência, que é uma herança da resistência (que vai de pais para filhos). Tenho grande respeito pelo Alentejo e após 25 de Abril, começou um jogo: a utilização do humor pérfido para destruir as lutas. O humor é uma arma de resistência positiva e negativa. Os nazis inventaram primeiro as anedotas sobre judeus e depois queimaram-nos. Eu sou um adepto profundo da geringonça, pois foi o que fiz toda a vida.”



O TEATRO, UM PRAZER QUOTIDIANO

“Que autores encenou? Qual deles foi o seu maior desafio?”[2]

“O maior desafio foram as minhas peças, mesmo. Autor com quem tive prazer extraordinário, foi Molière, uma nova versão de Tartufo. Fiz “Santa Joana dos Matadores”. O Cavaco cortou o subsídio à Barraca, durante dez anos, mas não houve um grupo que nos apoiasse.”



“Como está o Teatro Português?”

Está como o teatro europeu, [o pós - modernismo], começou a desconstrução da Palavra, o tricot, que levou as pessoas a lerem menos.

“O que é que temos?” Foram imitar os Centros Dramáticos, simplesmente a linha que fizeram, não foi de colaboração com o público que lá estava. Na prática, estás a fazer teatro para os críticos, para os amigos. Grupos importantíssimos acabaram. E não trouxeram público”.  “Desde que a Barraca apanhou porrada, os críticos não falam - o público não fica mal informado!”

“A vitalização do Teatro, eu sabia como é que se fazia, era aposta séria no teatro amador e universitário, sem imitar. Fazer uma coisa activa, que chateasse estes gajos. Que mexesse e entusiasmasse as pessoas, baseado no humor, é fundamental.

Todos os anos temos de ter capacidade de invenção, organizámos festivais Gil Vicente, com escolas. Distribuímos o dinheiro ganho com o Ministério da Educação, pelo grupo que ganhava”.

De Janeiro a fins de Maio, de manhã, realizámos dois espectáculos para escolas. Encenaram “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Felizmente há Luar” e a “Farsa de Inês Pereira”. Também para associações e clubes. Realce para “Os Encontros Imaginários”. No dia de folga (escreve textos sobre coisas impossíveis. Exemplo: Salazar a falar com Humberto Delgado e Soror Mariana). Todos os quinze dias é diferente.



-“Como é que consegue?”

-“Não tenho nada para fazer!”

“Consegui que fossem feitos em Barcelona, Madrid. Começou há 7 anos…

Tenho de dar a volta. Fiz telefonemas: Otelo, queres fazer Humberto Delgado? Apanhei Miguel Real, para fazer de Salazar e a filha de Humberto Delgado para fazer de Soror Mariana. João Soares (Mao), José Carlos de Vasconcelos (Jesus Cristo) Júlio Isidro (Goebls)”…



“Que significado têm para si os prémios que recebeu? [3]



“É um prazer. Mas também não sou do estilo que fala disso de manhã à noite. Gostei imenso, dos internacionais, um gajo vai representar em português peças minhas [O Príncipe de Spandau] sobre o Rudolf Hess sozinho no castelo. Estreou em Viena de Áustria, Dinamarca, Londres, Roménia, Brasil e depois fiz em Portugal. Outra, México, Brasil, Dinamarca. São estimulantes, é a entrada noutros sítios. São coisas minhas!”

Hélder Costa tem várias peças editadas, como “O Incorruptível”, “Queres ser ministro?” “BushLândia”, “Nau Catrineta”, “Marilyn, meu amor”, “O Príncipe de Spandau”, Mi Rival, “Um homem é um homem- Damião de Góis” e “O Saudoso Tempo do Fascismo - introdução ao riso e à memória”, edição Parvoíces (2005)

A entrevista termina da mesma forma divertida como começou. O sorriso do Hélder é uma espécie de passaporte para a sabedoria e o humor, que enriquece quem o escuta.



Luís Filipe Maçarico/ Rosa Calado



 (Entrevista publicada na revista "Alentejo", Novembro de 2018)



[1] Hélder Costa dirigiu o Cénico de Direito que obteve durante dois anos consecutivos - 1966 e 1967 - no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy duas menções honrosas.
[2] Entre outros, Hélder Costa encenou Dário Fo, Ionesco, Fassbinder, Brecht, Ribeiro Chiado, Lope da Vega, Gil Vicente e Molière.
[3] Hélder Costa foi galardoado com o Prémio da UNESCO, o Grande Prémio de Teatro da RTP, da Casa da Imprensa, da Associação de Críticos. A Câmara Municipal de Grândola, atribuiu-lhe, em 2004, a medalha de Mérito Municipal.