"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, abril 13, 2024

IMPRESSÕES DE LEITURA DO LIVRO DE ELVIRA CARVALHO “A COR DOS POEMAS”

 



Sophia de Mello Breyner Andersen registou: “Vemos, ouvimos e lemos! Não podemos ignorar!”

O primeiro livro de Poesia de Elvira Carvalho causa alguma surpresa.

Habituado a ler contos em que a autora apresenta uma variedade de enredos, e nos quais encontramos por vezes soluções criativas, com desfechos positivos, neste volume o olhar de Elvira Carvalho é uma paleta de tonalidades sombrias, desfilando em quase todas as páginas uma espécie de cortejo bíblico com todo o tipo de seres feridos física e espiritualmente.

Ocorre-me citar um poeta do século XIX enquanto modelo desta lírica amarga – José Duro que nos legou um dos livros mais tristes da literatura portuguesa – “Fel”.

“Onde quer que ponha os olhos contristados

-Costumei-me a ver o mal em toda a parte-“


“Estranha concepção! Abranjo o mundo todo

E em cada estrela vejo a mesma lama impura,

E em cada boca rubra o mesmo impuro lodo!”

Contribuiu para escurecer as páginas de “A Cor dos Poemas” a própria história de vida da sua criadora, patente nos seus dados biográficos.

A perda do companheiro de seis décadas, a quem dedica o livro, aumentou o desânimo que não esconde e sempre se evidenciou na sua escrita poética, partilhada no blogue “Sexta-feira”. Ele era o seu abrigo e apesar da sua protecção, nunca ignorou o mundo que a rodeia, perante o qual se sente incapaz de transformar conforme os seus sonhos de infância permitiam aspirar. Embora escrever seja transformar.

Como poeta viajante e face ao meu próprio percurso carregado de obstáculos, sendo um pessimista optimista, sinto alguma perplexidade pela proximidade dos versos de Elvira às favelas, às existências sub-humanas vítimas de exploração desenfreada, sem descortinar uma redenção para a injustiça sem limites que infecta o planeta.

Falta uma esperança, uma crença no cosmos, na Humanidade à qual pertencemos.

Esta excelente contista, não encontra aqui pegadas de Florbela, a comunhão com a Natureza, de Cesário Verde, sequer a melancolia de António Nobre. A sua realidade poética não é ao menos a de Rosalia de Castro que cantou o abandono da terra natal, a imigração galega para Havana, o amor aos rios e aos campos que inundaram os seus poemas de identidade magoada mas de referência para um povo empobrecido que teve de dizer adeus às origens.

Em “A Cor dos Poemas” estamos diante do não retorno, do final dos tempos, em que só a Morte espera os seres, mortais sim, mas de asas cortadas, sonhos apagados, futuros sem luz.

Oxalá Elvira volte à Poesia com um legado que aponte para dias contrários a um tempo que os seus versos espelham com fidelidade.

Oxalá seja possível sobreviver a um Mundo cruel, com Amor e sonhos libertadores.

Obrigado Elvira Carvalho pela verdade sem floreados, frontal que a sua escrita nos entrega. E que possa acontecer tal como o Poeta escreveu o desejado “mudam-.se os tempos/ mudam-se as vontades”

 

Luís Filipe Maçarico (Poeta, Antropólogo)

Almada, 2-4-2024

 

quinta-feira, abril 04, 2024

a violencia da publicidade

 Almada é um dos concelhos onde as caixas de correio são violentadas por excesso de publicidade não desejada. Não há papelaria ou posto dos Correios onde se encontre um autocolante como aquele que aqui se mostra. Nos CTT responderam-me que deixaram de fornecer aos consumidores, porque os CTT também passaram a produzir publicidade. A engrenagem do sistema é vergonhosa e o cidadão vê-se indefeso, com a caixa de correio repleta de lixo e a correspondência a transbordar se por acaso estiver fora de casa alguns dias. Quem nos salva desta violência?

Pode ser uma imagem de texto que diz "PUBLICIDADE NÃO ENDEREÇADA AQUI NÃO OBRIGADO DGC A cTsLmIdor pupt Lei n" 6/99, de 27 de Janeiro de 1999"
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