"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, novembro 10, 2004

Memórias da Rádio

Cresci a escutar rádio.
Recordo-me por exemplo dos programas infantis de Madalena Patacho, na ex-Emissora Nacional. Ainda oiço o separador musical na minha cabeça...
Lembro-me do Luís Filipe Costa e da Tany Belo no Rádio Clube Português. A Matinée Teatral e a Ribalta, que passavam às 14 e 30 e às 20 e 15...
A Carmen Dolores, o Manuel Lereno e o Mário Sargedas davam voz a personagens diversos consoante os argumentos: "A Muralha do Ódio", "A Sombra da Outra", "Almas Inimigas"...e pelo meio spots publicitários da Colgate-Palmolive...

Sempre preferi ouvir rádio, a televisão entrou em 1970 na minha casa e o seu reino não chegou a durar uma década. Quando avariou,e os aldrabões dos técnicos não a repararam como devia de ser, ofereci-a a um vagabundo e nunca mais voltou a entrar um aparelho televisivo neste velho andar da Praça da Armada...

O "Programa dos Doentinhos", a "Parada da Paródia", o "Comboio das Seis e Meia" nos Emissores Associados de Lisboa (Rádio Graça, Clube Radiofónico de Portugal, Rádio Voz de Lisboa)

E sintonizando de novo o RCP, o Fernando Curado Ribeiro e o seu interessante programa "Leitura",com Tchaikowski a anunciar que o programa ia começar, "O Segredo da Abelha", de José Leite Rosa, "A Vida é Assim",com o José de Oliveira Cosme, a Mary e o velho anúncio:

"Candeeiros bem bonitos
modernos, originais,
compre-os na Rádio Vitória,
não se preocupe mais.

Lá na Rua da Vitória
quarenta e seis quarenta e oito
satisfaz-se plenamente
o cliente mais afoito

Porque na Rádio Vitória
Embaixada do bom gosto
Quem lá vai é bem servido
e sai sempre bem disposto!"

Velho anúncio do qual me recordava cerca de 90%, mas que www.truca.pt teve o condão de mo recordar completamente.

O programa "Talismã" de Gilberto Cotta com Eugénia Maria a acordar-me, nas manhãs de escola, carro operário, Maria João Aguiar e Henrique Mendes no "Clube das Donas de Casa" e Igrejas Caeiro e os "Companheiros da Alegria", com Irene e Elvira Velez e Vasco Santana.
Tantas memórias que surgem em turbilhão, anárquicas, difíceis de organizar, para quem começou a habituar-se a escrever directamente.

Tanta coisa para partilhar, mas curiosamente da Renascença só tenho a ideia de terços, missas,sermões, Semanas Santas de preces, orações e relatos de procissões das velas em Fátima...

A minha vida foi-se desenrolando ao som dos velhos aparelhos de rádio, que me ajudavam a sonhar e a saber do Mundo o que os mandantes deixavam que se soubesse.
"Está lá? É do programa "Quando o Telefone Toca? Posso dizer a frase? "Lanalgo:Três entradas para uma saída feliz!...Olhe, eu queria ouvir..."
Nunca telefonei mas passei noites a fio ouvindo os discos escolhidos. E "A Grande Roda", o "Tempo Zip", o "PBX"...
Nesse tempo não havia Internet e saía à noite à rua, com os colegas de escola, íamos até à Baixa ver montras, o movimento,os cartazes de cinema e revista...
Houve vozes que adorei ouvir como a Esmeralda Serrano na Antena 1 até há muito pouco tempo,entrevistando escritores, pintores, artistas, gente diferente que vinha partilhar os seus dias com ouvintes assim como eu, deslumbrados a sorver as palavras, e houve o "Pão com Manteiga", o "Rebéubéu Pardais ao Ninho"...

Ainda hoje continuo a escutar as "histórias da música e outras", do António Cartaxo, o "Rittornello", os programas de Vanda de Freitas com Ruy Vieira Nery, os "Cinco Minutos de Jazz" e "A Menina Dança", do José Duarte e "O Amor é..." de Júlio Machado Vaz.
As overdósicas, insultuosas enxurradas de futebol (das 15 às 24) roubaram-me a fruição de "A Hora das Cigarras".
Devo ser dos poucos portugueses que muda de posto quando a rádio transmite relatos de futebol e eles são ao sábado, ao domingo, à segunda, à terça, à quarta,- todos os dias se possível, para embrutecer ainda mais a imensa maioria de cabeças quadradas.

Houve um tempo em que escutei a TSF, mas o insuportável peso da publicidade histérica, gritada,impingida constantemente e sobretudo à hora das notícias fez com que a arredasse dos postos que aprecio. Raramente se ouve aqui em casa a RFM. A Antena 1 e a 2 são as que sintonizo 99%.
Cresci com esta magia.de dia e de noite, habituei-me a adormecer ao som da música da telefonia portátil.
Hei-de morrer fiel a este amor.

3 comentários:

stillforty disse...

Que giro foi ler este teu post. É tudo ou quase tudo do meu tempo.
Candeeiros bem bonitos, modernos, originais e o Igrejas Caeiro, o Zéquinha e a Lélé, o Paulo Renato, a Carmen Dolores, Os companheiros da alegria.
Gostei tanto de ler!
Beijo.

oasis dossonhos disse...

Luís

Visitei ontem o teu blog (embora o faça com frequência e esteja sempre actualizada com os textos que tens escrito) e li este último texto que achei o máximo. Muito do que lá escreves me avivou a memória de tempos já há tanto guardados. Admiro como consegues lembrar-te de tanto nome e de tantos programas.

Queria ter deixado nos comentários do blog esta mensagem, mas não consegui (já não me lembro como se faz)....

O "Novo Benemérito" está em "banho maria", não sei bem como lhe dar a volta, mas irá renascer numa nova série de 10 episódios.

Beijinhos carregados de saudades. Amo-te

ANA

oasis dossonhos disse...

Recebi esta opinião no hotmail que transcrevo:Gostei imenso de ler este seu blog.Eu como mais velho rambém de lembro de alguns desses programas, alguns dos quais ouvi, mas nada comparável. Não haja dúvida que o Luis é diferente da maior parte das pessoas, para melhor, não só pelos seus conhecimentos, mas pela maneira como enfrenta a vida e a frontalidade que sempre tem nas reacções quando confrontado com os problemas. Desejo-lhe muita saúde. Homens assim fazem falta. Deviamos todos ter mais coragem e agir como o Luis.
Um abraço
Joaquim Avó