"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, novembro 16, 2004

Memórias da Casa-2


A avó e as suas estórias. A casa repleta de animais: coelhos,periquitos,galinhas, cães. Casa ou arca de Noé? Custa a acreditar que em tão pouco espaço coubessem pessoas e bichos!
Pelas noites de Inverno, enquanto costurava, ouvíamos o velho aparelho de rádio ou então ela dizia: "Isto hoje não dá nada de jeito!" Punha a costura de parte e desfolhava lembranças. Sant'Ana da Carnota, a aldeia da sua origem. Lobisomens e bruxas nas encruzilhadas. Humanos e cavalos borrados de medo. O esplendor do campo durante o dia, à luz do sol. Lisboa. Criada de servir. O sr. Comandante de Q... e a madame de... Hospital da Cuf. Criada de doentes. O envenenamento com remédio para as baratas. A diabetes. A fome. Hotel Infante Santo. Auxiliar de cozinha. Criada de cozinheiros. Sempre a carregar o destino e a obedecer. Sina de pobre. O dinheiro sempre escasso. As lágrimas.
Esta casa é para mim -literalmente- um caderno, pois recordo-me de ser criança e escrever nas paredes do quarto, para guardar palavras que me visitavam antes de adormecer. Escrevi entre estas paredes durante quase meio século. Aqui me nasceram os primeiros dentes, aqui me convalesci de desamores e de uma hepatite. Aqui chorei os meus mortos. Com que palavras escreverei o adeus à casa, que é a minha pele? (imagem de Vanda Oliveira, captadada em Santa Justa, Couço)  Posted by Hello

1 comentário:

Guida Alves disse...

Que dizer deste "Degrau"? Apenas... aquele abraço!