"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, dezembro 12, 2005

A Celebração da Diversidade na Pele da Tela, ou o (A)Caso Lúdico de Graça Erika


Inaugura amanhã, dia 13, a Exposição de Pintura de Graça Erika, na Vinha d’Arte (R. Francisco Pereira de Sousa, nº 11 - 1500-287Lisboa), ao pé do Hospital da Cruz Vermelha.
Acerca da Graça Erika e da génese da sua pintura, escrevi:
Bertolt Brecht escreveu um dia:
"Adiar ainda mais a idade de ouro? Nós não somos eternos."
Por isso, o olhar percorre, lentamente, a complexidade de texturas paralelas que Graça Erika apresenta nestes trabalhos e vai-se demorando, como se provasse um vinho criado e depurado pela paciência e arte de um sábio ou de um louco...

Há uma linguagem íntima, na volúpia desta geometria renascida de fragmentos, sedimentações e reminiscências, embalada por traços e intercepções.
Sobre a tela, a claridade da luz, água jorrando da fonte, sol meigo, mel derramando-se no silêncio povoado desta pintora, cuja existência se cruzou com Ilse Llosa.
Violinos de êxtase. Tambores de exorcismo. Despreendimentos e envolvências...
Por detrás da sobreposição das fitas coloridas, que lambem a tela, o emaranhado de sonhos tocados e por realizar. O ser humano e todas as valências da sua caminhada: avanços e recuos, dança e abismo, hesitação e voo.

Infância. Porque em criança Graça Erika aprendeu a sedução das cores no encnatatório jardim infantil alemão de uma judia fugida da guerra. O fascínio pelo rosa forte e pelo vermelho. A mãe, a família, a música, o afecto.
Influências originais,também, de Nikias Skapinakis e Daciano Costa, os professores-pintores da adolescência.

Nesta associação de cores, nesta colagem de tiras e recortes, ressurge esse outro tempo que prolonga a parte mágica da vida - ainda tanta por viver, que apetece refazer, reinventando formas na celebração da cor, na criação de texturas, no deixar acontecer.
Para Graça Erika, a pintura é uma descoberta permanente, tendência para ir experimentando materiais diferentes, quase como se estivesse a brincar outravez, no maravilhoso jardim da infância.

Este (a)caso lúdico de Graça Erika persegue a autenticidade. Buscando harmonia na amálgama e desconcerto de formas e cores, que se entrecruzam, misturam e fundem, para celebrar a diversidade, no encontro. Na tela e no Mundo...
Graça Erika está de parabéns (tal como o espaço que a expõe), por se manter fiel à sua identidade multifacetada. Por ousar partilhar a síntese dessa peculiar respiração. Porque a paleta é sempre a pele e o reflexo dos mais íntimos desafios.
Brindemos pois a esta sensibilidade, que irrompe nos poros da tela, nos dedos da vida.
Termino, voltando a citar Brecht - mais irónico do que nunca: "Não compreis só canhões, gastai também em quadros algum dinheiro."

Luís Filipe Maçarico
(Fotografia gentilmente enviada por José Cid)

1 comentário:

Fernando Manuel O. Pinto disse...

Amo a Arte, a pintura... Obrigado por nos oferecer este blogue tão seu! Como sei que gosta de olhares sensíveis e atentos, deixo-lhe ficar algumas das minhas pinceladas a óleo e a acrílico. Espero que goste! http://www.flickr.com/photos/fernandomanueloliveirapinto/sets/944436