"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, fevereiro 21, 2009

Singela Despedida


Sendo um homem de palavras, perante a derradeira viagem do amigo -poeta Fernando Pinto Ribeiro, tenho dificuldade em escrever.
Agora mesmo, esperando o funeral, sentado num banco do cemitério do Alto de São João, alinho estas palavras, com uma tristeza que precisa de recolhimento.

Fernando Pinto Ribeiro, sempre presente no lançamento de livros meus, voz activa em inúmeras sessões pelas colectividades de Lisboa, dizendo a sua poesia, com Ulisses Duarte, Julião Bernardes, J. Leitão Baptista, Rosa Dias, Jorge Rua de Carvalho, faz falta a todos os que sentiam na sua presença, uma fraternidade luminosa, a exigência e o rigor, o sorriso amigo de um príncipe, com fortes convicções na vitoriosa luta dos oprimidos, que trazia sílabas de húmus na fala terrosa e elegante, com ritmos de eloquência e beleza, entranhados nos versos e nos gestos.

Tenho pena que as palavras que me disse não estejam escritas, pois dele guardo, além dos seus poemas e da personalidade incontornável do homem brando mas convicto, a efémera flor de várias conversas que permanecem na memória. Sei que o meu poeta será eterno, circulando nas veias da poesia cantada que fala da noite, do destino e de Lisboa, que tanto amou.

Fernando Pinto Ribeiro deixou uma semeadura vibrante de versos.
Todos os que se revêem na impetuosa e emocional lira do autor de "Pensando em Ti", encontram na sua poesia, incessantemente trabalhada, um território imenso para o voo do amor e do visionarismo, que hoje foi celebrada com a presença de muitos dos seus amigos-poetas, em silêncio, com saudade.
Bem Haja Fernando, pelo esplendor do seu percurso, quer como homem, quer como poeta, tão intenso e transversal por diversas gerações, quanto o sol desta tarde em que a Mãe-Terra o recebeu.


Luís Filipe Maçarico (texto - escrito hoje à tarde às 14:15 - fotografia e recolha de poema)

PENSANDO EM TI

Fado com letra de Fernando Pinto Ribeiro, música de Jorge Fontes, cantado originalmente por António Mourão

Acordei mas não te vi,
nem sequer o teu retrato
À cabeceira, sorri
na solidão do meu quarto.

Acordei como quem chama
por alguém que se deitou
No calor da minha cama
e de noite me deixou.

Pensando em ti... adormeci...mas acordei
Reconheci... que te perdi... e então chorei
Mesmo a dormir... julgo sentir... o teu calor
E o teu carinho... p'lo nosso ninho... oh meu amor

Acordei como quem ouve
o amor que bate à porta
Fui abrir, lá fora chove,
não há ninguém, noite morta

Acordei como quem chora
por alguém que já morreu
Neste quarto aonde mora
um fantasma, que sou eu
.

Pensando em ti...

2 comentários:

elvira carvalho disse...

Lembro-me deste fado canção.
Sem muitas palavras, que sempre sobram nestes momentos de tristeza, deixo-lhe um abraço.

girassol disse...

Junto ao teu, o meu bem-haja ao poeta, pelas palavras da alma.
Tenho para mim, Luís, que das palavras ditas, que dizemos vindas da alma se nos faz caminho aberto, o rasto que deixamos... O calor que pode ser nossa única herança deixada.

Beijinho para ti, Poeta
Jingã
Belmi