"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, novembro 01, 2011

Jóias Imperceptíveis em Portas de Lisboa



Editado pela Apenas Livros, "Jóias Imperceptíveis em Portas de Lisboa", mereceu na apresentação pública (na Fábula Urbis) estas palavras, de Margarida Almeida Bastos, que agradeço:

"O livro de Luís Maçarico, «Jóias imperceptíveis em Portas de Lisboa», ilustrado com fotografias de António Brito, aborda um tema pouco estudado, pelo menos ao nível da capital: as aldrabas, os batentes e os puxadores.

Neste trabalho o autor estabeleceu como fio condutor as casas (e respectivas portas) onde viveram catorze personalidades emblemáticas da cultura portuguesa: poetas, escritores, artistas plásticos, filósofos, fadistas.

A leitura do livro parece confirmar um paradoxo que domina a sociedade actual. Se por um lado se assiste a um interesse crescente e, por vezes, até uma certa “mitificação” do passado, por outro, verifica-se uma desvalorização quase sistemática dos seus vestígios materiais, especialmente quando se tornaram obsoletos, perderam o significado simbólico ou, pelas suas características morfológicas, são praticamente imperceptíveis.

Esta realidade tem contribuído para o desaparecimento e destruição de inúmeras peças, cujo valor patrimonial não é mensurável nem pelas dimensões, nem pela matéria de que são feitas, mas sim, e sobretudo, pela estratigrafia de vivências que encerram.

Neste contexto, as aldrabas, batentes e puxadores revelam-se particularmente valiosos pois incorporam uma vasta história social, cultural e simbólica.

A salvaguarda destes elementos configura, assim, uma atitude de respeito não só por toda uma tradição, como também pelos artífices que os fabricaram (ferreiros e marceneiros), por todos aqueles que os adquiriram e/ ou utilizaram, e, em última análise, pela própria memória colectiva de um povo.

Uma vez que este trabalho refere vários vultos da cultura, não posso deixar de recordar uma entrevista efectuada a José Cardoso Pires após o AVC que o atingiu, na qual o escritor defendia que o que identificava um homem não era a inteligência, ou pelo menos só a inteligência, mas, sobretudo, a sua memória.

Apesar de Cardoso Pires se referir à memória individual, penso que poderemos transpor a constatação para a memória colectiva, tendo em conta que esta constitui também um elemento primordial em termos de estruturação da nossa identidade enquanto comunidade.

São muitos os exemplos desoladores relativos à destruição deste património, alguns dos quais mencionados no livro de Luís Maçarico. Refira-se, a título de exemplo, a porta do prédio nº9, da Rua da Rosa, no qual nasceu Camilo Castelo Branco e a porta do prédio nº4, do Largo de São Carlos, onde nasceu Fernando Pessoa, cujos elementos originais foram substituídos por peças desarticuladas e aberrantes.

Constata-se, assim, que, com o desaparecimento daqueles objectos, o casario antigo de Lisboa fica mais pobre, assistindo-se, em simultâneo, à morte de uma parte da memória da própria cidade.

Será, pois, importante divulgar este património e o espaço em que se inscreve, promovendo desta forma um processo alquímico ao nível das consciências e atitudes – e penso que a “alquimia” vem a propósito, tendo em conta não só o tipo de material de que são feitos estes objectos, como também todo o processo que envolve a sua elaboração, desde a recolha do minério até à obra de arte final – de modo a conseguir estabelecer laços equilibrados e saudáveis entre o passado e o presente, sem cortes nem rupturas.

Margarida Almeida Bastos

2 comentários:

elvira carvalho disse...

Uma maneira de manter viva a memória de outros tempos.
Um abraço

Mar Arável disse...

Memórias vivas

Tudo pelo melhor

Abraço