"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, novembro 12, 2005

"Um Irmão Meu, Ali no Moinho das Juntas, Levou Um Tiro Na Cabeça. Foi Um dos Nossos Guardas..."


-“Andou no contrabando?”

-“Andei, andei! Às vezes fugíamos, com medo uns dos outros…”

(O primo deste senhor, Feliciano Marcelino Teixeira, que assistia à conversa, foi comentando situações das quais teve conhecimento através de conversas do próprio José Raposo.
FMT- “Iam para além, que a Espanha é para além, mas não saíam para além, tinham que sair aqui para a vila, para dar as curvas, para passar lá para ao pé do rio… Andavam debaixo de chuva… Quando tinhas de passar a ribeira a banho, passar agarrados a uma corda!”

JR- “A banho! Oh quantas vezes!”

FMT- “Depois todos molhados, não podiam fazer fogo, porque o fogo era um ameseador

Às vezes, que não eram saídas, chama-se o espanto, agarrar o medo a qualquer coisa -fugiam…um para um lado, outro para outro, vai-se a ver, não era nada! Essa coisa do calçado não prestar… e depois andavam já descalços. Porque eram umas alpergatas para não fazer barulho…

JR- “Chegámos a andar 4 noites… 4 noites! Com uma carga às costas e às vezes chegávamos além e perdíamos as cargas e não ganhávamos um tostão! Uma vez tínhamos as cargas agachadas ali no barranco, vínhamos além, encontrámos dois que iam para lá, foram ter com a guarda fiscal que tava ali, deram ameseio, amarrei a carga e pûs uma pedra, vieram, eles passaram por cima da pedra e nunca viram a carga, eu fui buscá-la e a minha mãe que Deus tem deitou-a dentro dum alguidar e mesmo dentro do alguidar veio aqui a guarda, mesmo assim levou-a… E outros perdiam a carga e outros roubavam uns aos outros…”

FMT- “E por exemplo, a fome que passavam, que abalavam daqui com pouco comer, tu chegaste a dizer que chegavas à ribeira já tinhas acabado o pão…”

JR- “E cada um fugia para seu lado…agachávamos as cargas e não sabíamos onde é que elas estavam (…) Pelos caminhos não se podia ir…”

FMT- “Havia cheiros como aquele do Malpique…”

JR- “Se houvesse mato como há hoje, já éramos capazes de passar…[1]” “Fomos a deixar a carga debaixo de um xeragaço, a minha era de tabaco, eu tive muita saída, nunca perdi carga nenhuma…”

FMT- “Cargas de 50 quilos às costas…”

JR- “Chovendo que era uma lástima, foi o que arrebentou com a gente todos!”

“E o contrabandista dos Fernandes que a Guarda assassinou, como foi?

JR- “Foi um irmão meu, ali no Moinho das Juntas, levou um tiro na cabeça. Foi um dos nossos guardas, os nossos eram piores que os outros![2]Mataram muitos! Então houve aí um, filho dum cabrão! Que matou três. (repete que ali mataram 3 e acrescenta “morreram muitos afogados!”) O cabrão ainda deu um tiro num homem de Moreanes. Apanhavam a gente e davam-nos porrada![3] Alguns iam para a cadeia, estavam lá meses, em Beja. Eu fui lá também… A Guarda levou-nos à frente dos cavalos até á Mina…Fui para a tropa…fui para um pelotão desse sargento que nos prendeu…ficou mê amigo! Um moço dos Picoitos, deram-lhe um tiro no ombro, o Tó Lourenço! Mas isso foram os carabineiros. Os nossos eram piores que os espanhóis. Sabe o que os nossos faziam? Apanhavam os espanhóis (que fugiam da guerra civil) e levavam-nos para Sanlúcar e à noite os guardas espanhóis descarregavam as balas e matavam-nos[4]

Metíamo-nos nos barrancos todos molhados, não podíamos fumar… Íamos do Granado para lá muito ainda. E tínhamos então um sítio muito longe, pois fica para este lado de Vila Real, era tudo assim. Entregávamos (as cargas) aos espanhóis. Mas havia gajos ameseiros que mamavam aquilo tudo…

A gente era novo, mas estamos pagando agora. Então têm morrido muitos por causa disso, apanharam reumático…”

(depoimento de José Teixeira Raposo, Fernandes, 81 anos)


[1] José Raposo, durante esta entrevista, efectuada nos Fernandes em 28-5-2004, referiu uma incursão de 60 homens, numa noite de lua, talvez a saída de dezenas de homens que Ti Chico Neto também relatou no seu depoimento…

[2] O informante distingue-se dos restantes entrevistados, acusando a Guarda-Fiscal de ser pior que as autoridades fronteiriças espanholas. Compreende-se, face ao que aconteceu ao irmão. José Raposo ficou indelevelmente marcado pelo assassinato do familiar.

[3] Este comportamento dos guardas fronteiriços, segundo a maioria dos entrevistados e até em bibliografia consultada, era apanágio dos Carabineiros.

[4] Talvez esteja aqui, nesta notícia da conivência dos guardas, a razão da aversão do informante, várias vezes repetida, à Guarda-Fiscal.

Entrevista e fotografia de Luís Filipe Maçarico. Este texto integra a obra "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas. Um Contributo para o seu Estudo", editada pela Câmara Municipal de Mértola e pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas, cujo lançamento está previsto para Dezembro de 2005.

6 comentários:

Mendes Ferreira disse...

beijo. e obrigado "irmão" :)

Mendes Ferreira disse...

boa noite meu querido...bjinhos.

C.S.A. disse...

Abraço, amigo.
Esperemos que, desta vez, não haja mais adiamentos.

TMara disse...

parabéns pela recolha. Recuperar esta pequena história das vidas nonperíodo fascista é muito importante.Bj de luz

ManuelSilva disse...

Provavelmente há muitas coisas que não poderão sêr ditas, sobre este assunto.
Salti-Bancos, policias, vidas de fome e sobrevivência, onde a luta, o desejo de ultrapassar barreiras. Linhas inviziveis que
transformaram o homem, do campo ou do már, em verdadeiros acrobatas de escapadas.Mais uma HISTORIA de vidas do povo simples que tenta viver. Abraços, até breve.

paula silva disse...

Vamos lá POSTAR!
Luis, mais um trabalho genuino, com gente terra-a-terra... até arrepia! A verdade conta-se pelos protagonistas reais, procurada por pessoas sensíveis e sábias!
Parabéns!
Paula Silva