"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, setembro 08, 2007

INGLESES, ESTATÍSCAS, MEDIATIZAÇÃO & SARAMAGO


Há alguns anos atrás, quando dava os primeiros passos na Internet li um site inglês - que me revoltou - onde se assegurava que Portugal era Marrocos da Europa.
A única coisa errada nesse site era ele ser feito por gente arrogante e estúpida, que se julga superior.
Constantemente escuto relatórios estatísticos, quando faço a barba:
Menos mortos no período x, do que em idêntico período em ano anterior;
Menos incêndios no período y ,comparativamente com anos passados.
Mas houve ou não houve mortos?
Mas houve ou não incêndios?
Na Grécia houve: terríficos, dantescos noticiários, relatando a agonia prolongada de aldeias, de paisagens, de patrimónios, de seres humanos...Morremos sempre um pouco quando o mundo que conhecemos se evapora do mapa, e o triunfo da destruição cunha a sua maléfica pata.
Oliveiras queimadas, velhos, crianças e animais fulminados por uma Dor que não se consegue transmitir com nenhuma palavra.

O mediático casal inglês, com poderosas ligações ao Governo de Sua Majestade, Fátima, Vaticano, etc., protagonista da misteriosa tragédia , que tem ocupado todos os dias, desde Maio, neste país terceiro - mundista, um mínimo de meia hora nos telejornais, com repórteres in loco, comentadores, entrevistas, especulações, espalhou no início, abundantemente, fotografias da malograda criança desaparecida, para três meses decorridos criticar que há imagens da menina em excesso...
O que me impressionou neste caso, foi a falta de emoção. Disseram-me que os british são frios. Todavia, as imagens que diariamente nos chegam do planeta, com reportagens de calamidades em todas as latitudes, mostram (até de forma obscena) o sofrimento da perda. Mas nem precisamos de buscar comparações com os rostos torturados da Somália, do Líbano, da Palestina, da Bósnia, do México, ou de Timor. Basta retermos o olhar lancinante daquela mãe do Norte de Portugal cujo infeliz filho, foi raptado há demasiado tempo.

A história está mal contada... Há qualquer coisa que não bate certo...
Lembro-me de, nos primeiros dias do caso da criança britânica desaparecida, o criminalista Barra da Costa, estranhamente silenciado, ter revelado pormenores inquietantes e sublinhar que se devia perceber quem era esta gente, qual o seu percurso e de Moita Flores insistir na importância do excesso de garrafas de vinho consumidas na fatídica noite, que todas as pistas deviam ser investigadas...

Pobre menina, desgraçados miúdos, cujas existências se apagam, por sinistra supressão das suas inocentes esperanças ou por negligência monstruosa.
Se a tese da ocultação de cadáver veiculada pela Imprensa é verdade, estamos perante um crime com consequências devastadoras, pois a generosidade das pessoas ficará abalada e se voltarmos a estar perante uma aflição com contornos idênticos à história inicial, contada pelos protagonistas, correm-se riscos inomináveis...

Acabei de saber, em notícia de última hora, pela TV, que o casal pretende abandonar o nosso país...quando ainda há não muito tempo diziam que só saíam daqui quando soubessem o que tinha sucedido...
Estão cercados pela fogueira mediática, que eles próprios alimentaram. Vítimas de si mesmos, personagens de ficções propícias ao surgimento de um ou vários Best Seller ou de películas intensas, candidatas a prémios. A Sociedade de consumo integra os furúnculos, tudo é vendável...

Cercados nós, de ilusões que mascaram a pobreza mental do país..
Saramago afirmou que a única esperança é integrarmo-nos em Espanha... As carpideiras de um nacionalismo bacoco que nos empobrece e menoriza vomitaram fogo.
Não fui de férias, nunca vou no Verão. Assisti silencioso a tudo isto.
Entretanto, fui lendo a prosa ímpar de Baptista Bastos no Jornal do Fundão: inconformista e excelso, desancando quase isolado uma situação política insuportável, digna de novelas de países da América latina, outrora muito distantes, pela corrupção que por lá avultava.
Salem Omrani durante um telefonema que fiz para Tozeur, falou-me em Português...qualquer coisa estremeceu dentro de mim...mas cada vez menos sinto orgulho em viver aqui.
Apenas tristeza. Por isso o silêncio...
Texto e foto de LFM

4 comentários:

Fernando Pinto disse...

Sabes, amigo Luís, os jornalistas não são os únicos culpados disto tudo! Se ninguém for ao circo, o circo vai à falência e desaparece do mapa... O problema é que o cidadão comum gosta de sangue, de miséria, de desgraça... de CIRCO, de TELENOVELAS!

Quando vejo, oiço e leio notícias desta natureza só me apetece ficar em silêncio, como tu... Mas que estas notícias vendem, vendem! Que aumentam as audiências, AUMENTAM!

Assim está o mundo!

Só não percebo uma coisa: se a nossa CULTURA está uma desgraça, porque será que ninguém, ou quase ninguém, fala dela? Não entendo!

Abraço

maria augusta disse...

Amigos
Em Maio/Junho eu escrevi que "tinha uma secreta esperança" de que a menina estivesse viva.
Estava apenas a tentar ignorar o CIRCO.
Adiar as notícias destes dois ou três últimos dias.
Em consciência, evitar juízos de valor, não significa que não tivesse muitas dúvidas.
É verdade que o CIRCO vende, mas este não me parece que tenha seguido o padrão normal, ou seja, "demos ao povo o que o povo gosta".
Este circo foi devidamente encenado e não terá sido só para vender.
A propósito, o que é que os amigos sentem a propósito da CCPJ?

Abraço

marialascas disse...

Se o julgamento dos tribunais só atinge uma verdade relativa, o julgamento popular atiçado e alimentado pela comunicação social regida pelo número de jornais vendidos baseia-se quase sempre em premissas erradas...
Ontem fizeram-se Deuses, hoje convertem-se em Demónios.
Só para lembrar que a investigação policial ainda não foi concluída. Se queremos ser Julgadores, que não o façamos com o maior número de dados possível...

Mas no resto também eu estou farta de viver aqui, mas não é em Portugal é neste Planeta.

Pete disse...

Infelizmente é cada vez mais um sentimento que também me vai assolando. A comunicação social vende o que as pessoas querem ver, ouvir e ler e aí é que o problema é mais grave, pois vê-se que as pessoas só querem as desgraças. Ninguém está muito interessado em saber as coisas boas que acontecem ou que se fazem neste país.

Um Abraço, boa semana e veja se se anima um pouco. Talvez venham dias melhores.