"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, outubro 29, 2005

Enquanto Houver Força


Envelhecer é para mim normal: dentes e cabelos gastam-se, aumenta-se de volume, ganha-se sabedoria, já não se é facilmente enganado. O que se perde em inocência compensa-se com a experiência. Os conselhos, as intuições, os sentimentos, o controle emocional têm mais probabilidade de nos fazer chegar à harmonia.
Nesta foto, tirada em 1984, num parque de campismo em Graz - fronteira austro-húngara - eu tinha 32 anos.
Faço hoje 53.
Ali, eu reiniciara os meus estudos: curso nocturno para completar o 10º,11º e 12º ano. Era técnico sanitário da Câmara Municipal de Lisboa. Tinha muitos poemas dispersos por jornais e revistas, desde a adolescência, mas nenhum livro publicado. A paixão amorosa estava no auge - era um alimento precioso.
Amor, afinal, é jóia rara. As pessoas, as que ainda o são, constituem um tesouro. Aprende-se estas coisas vivendo. Cavalgando a besta do desencontro.
Chego a esta etapa com dezenas de títulos editados, concluí o mestrado em Antropologia, viajei muito, conheço melhor o Outro e eu próprio, embora como diz Viviane "a vida não chega" para abarcarmos tudo.
Aprendi a mexer no computador. Descobri esta delícia que é animar um blogue. O telemóvel é um objecto que também já entrou nas minhas rotinas, pela sua utilidade até para coisas tão ridículas como um dia destes ter ido visitar um casal amigo cuja campaínha da porta de casa estava avariada, ou para comunicar mais facilmente com os meus amigos tunisinos.
Escrevo agora muito menos cartas. Estou até cansado com o desconcerto do mundo e a secura do cravo da esperança.
Mas logo, quando à mesa da amizade trocar sorrisos como rosas, vou dizer com os olhos que existir só faz sentido na partilha desse lugar mágico, que acende de novo todas as esperanças. Ou para citar José Afonso:"Enquanto houver força..."

Uma Prenda para os meus Amigos Adib, Zied, Nizar e Salem/Un Cadeau pour Mes Amis Adib, Zied, Nizar et Salem


NOM POUR UN SOURIRE

entre deserts
et rochers
Faouzi habite
dans le palais
du silence.

J'accepts
son thè a la menthe
depuis les yeux
avoir savoré
la beauté des oásis
de montaigne.

Dans la boutique
où il vend boissons
et cartes postales,
il assure qu'il m'a vu passer
dans une autre année.

Avant partir, avec le tambour
de Ramadan
je le désire la bonne chance
et bonne santé
en dançant
plus léger
qu'n oiseau...

Écrit dans la 9ème voyage en Tunisie- 15 Avril 1998

Ce n'est pas un grand poème mais il a eté écrit avec le coeur...

NOME PARA UM SORRISO
Entre desertos
e desfiladeiros
Faouzi vive
num palácio de silêncios.

Aceito o seu chá
de menta
depois dos olhos
terem bebido
e beleza dos oásis
de montanha.

Ali, na sua loja
onde vende bebidas
e postais, ele lembra-se
de me ter visto

Então, ao som do tambor
de Ramadan e antes de partir
auguro sorte e saúde
e ponho-me a dançar
mais leve que um pássaro.

*Escrito na 9ª viagem à Tunísia, 15 de Abril de 1998.
Não é um grande poema mas foi escrito com o coração...

Luís Filipe Maçarico

quinta-feira, outubro 27, 2005

Eduardo Ramos* e o seu Novo Disco: "Cântico Para Al Mutamid": Uma Prodigiosa Homenagem Com Requinte e Mestria



A obra de Al Mutamid, passados mais de nove séculos sobre o seu nascimento, pela intemporalidade, continua a afagar-nos a alma ou a desinquietar esta passagem etérea com a criatividade e sensualidade das suas palavras ardentes e cintilantes.

Este belíssimo “Cântico para Al Mutamid” com músicas do bardo do Arade, principia com o poema Itimad, interpretado com mestria.

Aliás, todos os motes, mesmo os recitados, como o tema, “A Silves”, estão imbuídos de uma sonoridade e de uma envolvênci que nos transporta até ao requinte e exotismo dos palácios onde os madrigais trovadorescos derramavam sabedoria e suavidade.

A voz de Eduardo Ramos possui um timbre inconfundível que, mesclado com a virtuosa execução do alaúde, saz, bendir, zukra e flauta, origina uma prodigiosa homenagem ao imortal poeta luso-árabe Al Mutamid.

Exceptuando as incursões artísticas, nos territórios do Outro, experimentadas por Rão Kyao e Janita Salomé, conheço poucos criadores em Portugal capazes deste desempenho.

Eduardo Ramos é um músico de referência, pelo seu percurso excepcional, que não trocou de pele, não perdeu a rosa, não vendeu a alma. Os seus discos são momentos de dádiva, únicos, que se escutam com a satisfação de uma peregrinação aos oásis das Mil e Uma Noites, refrescando os lábios em frutos suculentos e benfazejos, no harmonioso embalo das águas cariciosas.

Os poemas musicados por Eduardo Ramos constituem habitualmente um excelente motivo de celebração da vida, a que o público adere, porém têm o condão de estimular, na intimidade, o imaginário adormecido do outro lado das nossas raízes.

Saboreemos então este “Cântico para Al Mutamid”, como um bálsamo contra a rotina: Este cálice de sonho, esta mágica viagem, é para repetir, sempre que se deseje!

Obrigado Eduardo Ramos, por mais uma tão bela partilha de Luz!

Luís Filipe Maçarico

*Eduardo Ramos pode ser contactado pelo TLM 965034764 Posted by Picasa

quarta-feira, outubro 26, 2005

O Furacão Stan e o Autismo


Tsunamis e furacões inundaram grandes extensões territoriais da Ásia e da América do Sul, bem como o sul dos Estados Unidos, que pretendem ser o Norte do Mundo.
Invadem telejornais, notícias radiofónicas, placards luminosos das urbes, periódicos e os e-mails com imagens desoladoras, que nos deixam prostrados e impotentes perante a inusitada fúria da natureza.
Porém, isto não é por acaso...
O mal tem um nome:arrogância!
A arrogância dos países ricos, como os USA, cujo presidente reeleito recusou assinar protocolos mundiais para reduzir a poluição, que acaba sempre por afectar os países mais pobres, com menos recursos para fazer frente às catástrofes naturais.
Lembro-me sempre de um poema de Brecht que diz:
"Do rio que galga as margens
Toda a gente diz violento
Mas ninguém critica
as margens que o comprimem"
No México, o Stan engoliu aldeias, memórias, vidas.
Porque é visita deste blogue, e portanto voz próxima desse sofrimento e fraterno companheiro de artes e bloguices, prometi a La Scimmia di Filo que faria qualquer coisa...
Transcrevo do seu blogue "El Mono de Alambre" (11 de Outubro):

"Mi herencia chiapaneca, la carga genética que me une con el Soconusco, se debate entre el dolor y la estupefacción: el pueblo de mis padres incomunicado, el pueblo donde nació mi abuelo, Motozintla (único lugar, hasta donde sé, donde crecen burros con el cabello rizado) destruido por completo. Lo que queda, por ahora, es la solidaridad y la acción.
Quienes deseen ayudar a los damnificados del
huracán Stan en Chiapas, pueden hacer donativos, desde cualquier cantidad, depositando en las siguientes cuentas:
BANCOMER 00149168338
BANORTE 00195581324
SANTANDER SERFIN 65501811915
BANAMEX 01790116212
O bien puede cooperar con artículos que allá se requieren con urgencia (alimentos enlatados o no perecederos, agua, ropa en buen estado, zapatos, pañales y cobertores, NO MEDICAMENTOS) a la Representación del Estado de Chiapas en el DF, sito en Toledo # 22 Colonia Juárez, o al estacionamiento número 8 puerta 1 del Estadio Olímpico de Ciudad Universitaria (del 10 al 14 de octubre, de 9 a 18 horas).
Los amigos que vivan en otros puntos de México pueden indagar cómo hacer llegar ayuda, lo mismo que mis colegas en el extranjero.
Demos una mano; no hablamos de altruismo, sino de mínima empatía.
Aguante mis paisanos, carajoooooooo.
Salut."
(fotografia de LFM: ilhas Kerkennah, Tunísia)
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terça-feira, outubro 25, 2005

Post nº300, a propósito de uma Aparição Muito Especial


"Águas do Sul" começou em 1 de Agosto de 2004, completando com este artigo 300 postagens. Um ano depois, começou o "Aparição 69", que tendo apenas 3 meses completou ontem as cento e quinze postagens.
Feito a duas mãos e com muita loucura, merece a vossa visita e os comentários que bem vos aprouverem... até porque existe "para dizer bem"...
(imagem descoberta na net)
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Dar a Cara para Denunciar O Pesadelo de uma Viagem de Intercidades na Beira Baixa


Transcrevo a carta enviada por e-mail ao Jornal do Fundão, com conhecimento ao vereador da cultura da Câmara Municipal da cidade das cerejas:

Exmo Sr. Director do Jornal do Fundão, Dr. Fernando Paulouro Neves:

No passado domingo dia 23 de Outubro, como é costume, um amigo de Alpedrinha teve a gentileza de me dar boleia até à estação dos Caminhos-de-Ferro do Fundão, para poder embarcar no Intercidades para Lisboa, que pára naquela estação às 15h 51m

Ao contrário do que era habitual, a bilheteira encontrava-se encerrada, e entrei no comboio sem bilhete e, como eu, dezenas de utentes que ali apanharam a composição, na sua maioria estudantes.

Sentei-me na carruagem 26 e, apercebi-me, estupefacto, que o revisor solicitou a alguns clientes (que tinham entrado no Fundão) que se dirigissem à carruagem 28, com um bilhete que ainda não lhes garantia lugar seguro, pois teria de o confirmar por telemóvel à estação de Castelo Branco.

Ainda sem bilhete e alarmado com aquilo que acabara de observar, embora com a promessa do diligente funcionário de ficar instalado em assento provisório, a confirmar, atravessei o comboio no sentido de chegar à bem-aventurada carruagem 28, que supus estar reservada para estes casos.

Qual não é o meu espanto, quando uma avalanche invade a composição, ostentando o bilhete, afastando os desafortunados fundanenses das cadeiras, decorrendo a viagem até ao Entroncamento em ritmo de “thriller”, num constante saltitar de lugar para lugar, para alguns, tratados como se fossem prevaricadores clandestinos ou meros passageiros penetras. Embora pagando o mesmo que os felizardos que ainda têm bilheteiras ao seu dispor.
Assim se viajou. Sempre na iminência de ter de ceder o lugar a quem chegava munido de comprovativo.

Muita gente não tem nem nunca terá hipótese, por vários motivos, sobretudo os mais idosos, oriundos de um mundo rural em extinção, que a atabalhoada modernidade ocupa com estes mimos de civilizada exigência, acesso à Internet ou ao Multibanco para avisadamente reservar um milagroso ticket.
O que significa que estarão sujeitos às agruras que os argutos e inteligentíssimos gestores das siamesas CP/REFER impõem à populaça.

Como sou consequente com o que defendo, já coloquei num marco de correio dos CTT o meu veemente protesto para a CP.

Solicito e agradeço que o Jornal do Fundão retome esta problemática, porque cada utente da cidade das cerejas está a ser utilizado como cobaia de experiências constrangedoras, tratado como gado transportado em vagons de mercadorias.

Está em causa a qualidade de um serviço, que, pomposamente, o actual primeiro-ministro apregoou aos quatro ventos da comunicação social ter atingido uma melhoria, que merecia celebração mas na realidade é mais um exemplo da sua política de Pinóquio, pois além deste desaforo, os atrasos são constantes.

Não me lembro deste Intercidades (e utilizo-o frequentemente) ter chegado às 19h 30m da tabela. O usual é entrar em Santa Apolónia sempre perto das 20h, o que constitui publicidade enganosa e serviço fraudulento, para aqueles que pagam mais na mira de chegarem mais cedo.

Daqui apelo igualmente a todos os autarcas eleitos para o Executivo e Assembleia Municipal do Fundão, no sentido de defenderem os interesses da população da região postos em causa com este descalabro que têm impactos negativos em termos sociais e turísticos.
A título de exemplo, durante a viagem conversei com um senhor que tem de se deslocar com frequência à capital para se submeter a tratamento oncológico…

Até quando a artificiosa redução de custos das estatísticas manhosas vai sobrepor-se aos direitos básicos que as gerações anteriores conquistaram para podermos viver melhor?

Para quem como eu, e digo-o sem petulância mas com muita mágoa, já viajou nos comboios da Tunísia, que vão de Tunis a Gabès, ou de Tunis a El Kef, Bizerte ou Beja, com bastante agrado pela pontualidade e qualidade dos serviços prestados, Portugal está, por culpa de administrações que preferem não pagar mais uns euros ao bilheteiro do Fundão, no 4º Mundo em termos da linha da Beira Baixa, pois os horários em vigor obrigam os que têm menos possibilidades a fazer esta viagem, mudando várias vezes e demorando muito mais tempo para chegar ao destino pretendido.

Quando será que acordaremos deste pesadelo?

Luís Filipe Maçarico

(fotografia de São Baleizão)

domingo, outubro 23, 2005

Outubro em Alpedrinha














Durante uma semana revi lugares e rostos. Conheci outros sorrisos e sítios, sempre na terra mágica de Alpedrinha.
Foi bom de ver e sentir, depois de um Verão excessivo, a água que jorrou dos céus, galgou a serra, dançando de novo nas fontes, limpando o ar, agora mais respirável por aquelas paragens.
A Gardunha ficou de novo encantada, com o cântico das águas.
Andei com as pessoas no campo, saboreei ameixas e romãs, medronhos e diospiros.
Fazer férias cá dentro é isto: beber jeropiga com a São, provar o licor da Piedade, as farófias da Maria dos Anjos, sardinhas deliciosas na pensão Clara, um churrasco com o Hugo e os seus companheiros de aventuras, falar de poesia com o Francisco e o dr. João Mendes Rosa, no Fundão, ver os bácoros e os chibinhos da Amélia, na quinta dos Bacelos, olhar as peças do museu da Liga dos Amigos de Alpedrinha, conversar com a dona Manuela e com a Marília, fugir de uma chuvada enorme e assistir a um concurso de cães de raça - e descobrir o dr. João Costa a apaparicar o Galileu, beber um cafezinho no Moisés, encontrar rostos familiares no café da dona Maria José, fotografar uma rosa para partilhar com os amigos a beleza efémera das flores são momentos inesquecíveis que uma terra como esta proporciona. Quando é que vêem conhecer Alpedrinha?
(fotografias de LFM; quadro de Isabel Aldinhas)