"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, novembro 30, 2014

Assim se viaja em Portugal...


A semana passada fui a Pias. 
Como havia greve na CP, tive de ir no Expresso, da Rodoviária Nacional, para Beja.
A RN foi entregue ao Grupo Barraqueiro, portanto passou a ser privada.
Durante a viagem, o cheiro era nauseabundo. Percebi entretanto, que seria oriundo do WC (não utilizado pelos passageiros), que não estaria higienizado...
Mudei de lugar em Évora.
Aos berros e desde a partida de Lisboa, uma programação televisiva interna, com americanas a babarem-se, lambusadas, grotescas e a provocar vómitos, em provas de trufas e ostras...
Chegado a Beja, pelas 12 e 20, quinze minutos depois parti num autocarro confortável que supostamente iria para Moura. 
No entanto, em Serpa, o motorista anunciou: "Quem vai pra Vale do Vargo, vem comigo. Os outros têm de ir noutra camioneta!"
Conformada, a maioria dos passageiros saiu, uns para a carreira da Amareleja, como eu; outros para Vila Verde de Ficalho...e o motorista que deve ter abrigo em Vale do Vargo, lá foi com o autocarro que dizia que ia para Moura...
A terceira viatura fez percurso até Brinches, deixando-me na estação desactivada, da antiga via ferroviária, em Pias.
Três viagens (entre as 9:30 e as 14:00) para fazer os quilómetros, que num automóvel seriam vencidos em pouco mais que duas horas...
Que país e que povo é este, onde estes absurdos acontecem? 

O regresso fi-lo de comboio, na CP, ainda pública.
Aparte o conforto do Intercidades, vindo de Évora, que apanhei em Casa Branca, lá tive de viajar, entre Beja e aquele entroncamento ferroviário, numa automotora, com janelas de visibilidade muito criticável.
Fotografei. O leitor confirmará o que digo, neste caso.
Assim se viaja em Portugal....

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

segunda-feira, novembro 24, 2014

Cá se Fazem, Cá se Pagam...


Os governos da Holanda e da Finlândia, que se obstinaram, aquando do pedido de ajuda de Portugal, bolsando insultos ao nosso Povo, do alto do seu pedestal de Triplo A (concedido pelas agências de "Rating"), acusando-nos de sermos gente improdutiva, tombaram, como tordos, pois o Capitalismo tornou-se insaciável e autofágico. 

Neste momento, apenas Alemanha e Luxemburgo gozam desse estatuto...
Ocorre então evocar um acontecimento, recentemente descoberto, através de um comentador da Antena 1, na rubrica "Última Página", que me impressionou pela ingratidão revelada.

Passo a contar, com a ajuda do Diário de Notícias de há 70 anos.

Na edição de 21 de Abril de 1940, aquele matutino informava ter sido recebido "um "bem haja" da Finlândia aos portugueses. Enviada pelo representante em Lisboa desse país nórdico, a nota diplomática agradece a Portugal a ajuda, tanto em víveres como em agasalhos, durante a guerra russo-finlandesa do Inverno de 1940-1941. "Nunca poderá o povo finlandês esquecer a nobreza de tal atitude".

A actual geração de finlandeses que governa o país, mostrou-se insensível aos constrangimentos que atingiram os portugueses, ignorando o que os nossos avós fizeram pelos avós deles.

Por isso, foi com um sorriso, que soube, que uma das agências de "rating" quebrou a unanimidade, apontando a "Fraca evolução da economia e envelhecimento da população finlandesa", cortando a cotação que fazia aquela gente falar do alto de um trono, que julgavam eterno.

Cá se fazem, cá se pagam... 

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografia)


segunda-feira, novembro 10, 2014

Um Museu Sitiado pela Ignorância, Estudado por Investigadores Internacionais

"Border-Crossing as a Tourist Experience in the Spanish-Portuguese Border", é um artigo de María Lois and Heriberto Cairo, da Facultad de Ciencias Políticas y Sociología, da Universidad Complutense de Madrid, onde o Museu do Contrabando de Santana de Cambas se apresenta, nas páginas 18-20 do PDF daquele estudo, que aqui partilho.

Também Maria de Fátima Amante, no artigo "Das fronteiras como espaço de construção e contestação identitária às questões da segurança", publicado na revista Etnográfica (2) de 2014, páginas 415-424, se refere ao Museu de Santana de Cambas. Diz esta autora, que "Igualmente relevante neste processo foi a criação dos museus do contrabando, de que são exemplos o Museu do Contrabando e da Emigração em Melgaço, ou o Museu do Contrabando de Santana de Cambas (Mértola), que, num registo discursivo diferente, cumprem o mesmo objetivo de representação da cultura e identidade das zonas de fronteira e dos que aí vivem ou viveram, numa estratégia claríssima de diferenciação relativamente aos seus pares nacionais. Estes discursos de si são obviamente inseparáveis da fronteira e da sua existência, o que, de uma certa forma, contraria o discurso político que, desde os anos 90, vem enfatizando o desaparecimento da raia luso-espanhola em nome de um novo projeto de relação nas zonas raianas: o da cooperação transfronteiriça. O modo como os raianos conceptualizam a cooperação está distante deste modelo político, europeu: preferem falar da relação social, da amizade de décadas que os liga aos seus vizinhos e da solidariedade que, em momentos específicos, como o da Guerra Civil espanhola, os aproximou ainda mais."

http://etnografica.revues.org/3770

Os presidentes da freguesia (PS) que sucederam ao autarca (CDU) que criou o Museu, (Parabéns, José Rodrigues Simão pela obra que deixaste em Santana de Cambas! )  apesar do espaço ter sido apoiado por fundos europeus, resolveram - sob o pretexto do edifício novo, onde a autarquia funcionava segundo eles não ter condições - ocupar as salas do museu para aí instalarem a Junta. 

É com vergonha que vejo um espaço museológico, que desperta interesse e trabalhos de investigadores nacionais e internacionais, ser assim destratado. 
A memória identitária e o património colectivo, não são honrados, por autarcas de facto eleitos, mas que demonstram ignorância, em vez de valorizar este importante legado, anunciado com imagens dos primeiros tempos da sua existência, no site do Turismo do Alentejo, entre outros...

http://paperroom.ipsa.org/papers/paper_14882.pdf

(Texto e recolha de Luís Filipe Maçarico. Fotos da Net.)

É necessário um Movimento que una o Associativismo pela Salvaguarda do Património

"Gostei de conhecer a freguesia de Leomil e desejo as maiores felicidades, para os seus habitantes e autarcas. Apenas um reparo: Há que valorizar ainda mais o património. O pelourinho tem de estar limpo de estacionamento e na parte antiga não poderá proliferar o alumínio de todas as formas e cores. Fica a sugestão, pois quem vem de longe para ver o genuíno, a marca identitária e da tradição, encontra por vezes portas de alumínio branco lacado, que parecem saídas das caixas de bombons quality street dos anos 60, onde estavam representadas portas londrinas, da época vitoriana...Os centros históricos estão a ficar desqualificados, por falta de ordenação do território....e a vossa terra é do tempo do conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques." 

Deixei estas palavras, na página Facebook, da Freguesia de Leomil. 
Exorto todos os meus amigos, quando visitarem Portugal, de lés a lés, a reflectirem também, por escrito ou verbalmente, acerca do património das aldeias, vilas e cidades portuguesas, dirigindo estas opiniões às Câmaras, às Juntas de Freguesia, aos Deputados, ao Governo, reinvindicando resposta para as preocupações apresentadas.

Nem sempre as autarquias cuidam bem do território que herdámos, dos nossos antepassados, por isso considero que temos também uma palavra a dizer. Para tentar ajudar a melhorar, o estado das coisas.

Faz falta um movimento, que saia das redes sociais, embora as deva utilizar, para unir os cidadãos do Associativismo, que se bate de norte a sul, pela Salvaguarda do Património, para potenciar o seu trabalho empenhado, no levantamento de problemas, sendo incisivo na exigência do cumprimento de regras que impeçam os atentados, que cada vez se consumam por todo o lado. Os Centros Históricos, se não forem tomadas medidas, em poucos anos sofrerão transformações cada vez mais aberrantes, descaracterizando a herança que os nossos antepassados nos deixaram.

Esclarecer as populações é necessário, não através de mentes iluminadas, mas por parte de gente que interage na Comunidade e pode mostrar o erro e partilhar o benefício para o desenvolvimento, ao tratar-se o património com o cuidado que ele merece.
A ignorância é a raíz de muitas arrogâncias.

É PRECISO AGIR! 

Luís Filipe Maçarico (fotografias de Leomil e texto)

segunda-feira, novembro 03, 2014

Douro: A Viagem é um Texto.

Sobre o Douro há sempre uma palavra de espanto por dizer, por muito que se escreva acerca da desmedida beleza deste território.
Hoje, saí de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, com um arco íris maravilhoso, a caminho de Juncal, Marco de Canavezes, e fui surpreendido ao longo da jornada, pelos flocos nublosos, suspensos, rente aos socalcos.
Novembro começou há pouco.
Nuvens escuras ameaçam produzir chuviscos.
Aqueles quarenta e cinco quilómetros, que distam da Régua, foram sorvidos, curva após curva, pelo olhar, como se o sangue bebesse a terra lentamente, as vinhas fulgindo, os cumes cintilando, as aldeolas salpicando a paisagem, coroada pelo rio, os véus de nevoeiro entrelaçando-se, e lá em baixo aquele novelo sinuoso de prata, derramando-se entre margens, com alturas abismais.
Cada miradouro é um romance de visões felizes, que a Natureza e o Homem escreveram em conjunto, por vezes em comunhão, outras em torvelinho.
Frende é um desses locais.
Ali termina o distrito de Vila Real. 
A serra das Meadas, do outro lado, envolta em nuvens, que deambulam sobre casarios, deixa antever as hélices das eólicas, quais asas de pássaros aprisionados no ventre das serras.
Sei de um Mestre Serralheiro de Mesão Frio, que guarda um tesouro na sua oficina, onde nascem portões para as quintas e residências dos abastados.
Que néctar precioso me deu a conhecer!
Ao prová-lo, senti os sóis e o orvalho, tatuados nas pegadas dos trabalhadores vinhateiros, gente tisnada, imortalizada na literatura, carregando os cachos, pisando as uvas, podando as vides, transportando o peso de gerações, calcurreando veredas, para o ouro desta geografia brilhar dentro dos cálices e andar nas bocas do Mundo.
O território do Douro é ele mesmo um Mundo!
Ali, em Frende, sabemos que percorrendo aquela estrofe entornada, o Mar é o limite.
Mas é aqui que escritores e povo procuram a luz mágica que se reflecte na estrada das águas, que o céu entardecido persegue.
Onde as casas são ainda de pedra e os homens conservam patrimónios familiares, gotas de cristal aveludado, fruídas entre descobertas e partilhas.
Conheço paredes de xisto, poisos de sonho, templos de deuses pagãos cristianizados, que contemplam a Terra, cercando-nos de silêncio e brandura, nas tardes de Outono, com castanheiros e videiras cor de cobre.
O petisco e o vinho unem os homens, de vozes enluaradas.
Voltamos de noite, regressando à Régua.
Os luzeiros dos lugares  rasgam o espelho da água como archotes, ou estrelas caídas, com a leveza de plumas.
Transmitem paz.
E a viagem é um texto que inspira novos voos, sobre a pele do rio...

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

sábado, outubro 25, 2014

Bem Hajas Marta Sofia, estrela das mais cintilantes!



 

No final deste sábado de Outono, uma notícia terrível surgiu no meu caminho.
Marta Sofia, uma menina linda e ternurenta, actriz com muito talento, que integrou vários elencos do Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", partiu, quando a manhã raiava, devido a um acidente de automóvel.
Perda enorme para a família (a quem apresento a minha solidariedade), perda grande para a colectividade, para os amigos, para todos os que a conheciam e gostavam de assistir aos improvisos inteligentes e bem humorados, em palco. Ou que privavam com a jovem, que era uma força da Natureza e a todos cativava com a sua delicadeza.
Parece-me de toda a justiça que a actual direcção do GDEC estude a possibilidade de colocar a sua fotografia no Museu da Colectividade e uma placa no salão, evocativa da passagem pelo seu palco desta artista que enriqueceu a galeria dos amadores de Teatro.
Partilho nestas palavras sentidas a saudade que esta amiga deixa no percurso de todos os que com ela se relacionaram ou se deliciaram assistindo às cenas que protagonizou em diversas revistas.
Sabemos que esta noite o céu ganhou uma nova estrela, de certeza das mais cintilantes.
Sabemos que as palavras não chegam para dizer a devastadora dimensão do que sentimos.
Bem Hajas, Marta Sofia pelo rasto que deixaste neste mundo, pelo muito que nos deste.
Um beijinho muito carinhoso à Mãe Alice.

Luís Filipe Maçarico
(fotografias do arquivo do blogue "Águas do Sul")

segunda-feira, outubro 13, 2014

Elvira, Página Viva de Literatura


 
Da janela do sótão dos criados, a velha que acudiu a cinco gerações, espreita o tempo e deita o olhar no Douro serpentilíneo que o patrão escritor cantou.
Saudades tem desse senhor, que comprava tabaco para os jornadeiros dos vinhedos, a gastar a vida nos socalcos.
Saudades das falas brandas, do doutor de leis, que amou várias meninas vistosas e repartia a mesa com os servidores.
Elvira é um sol gasto de músculos e gestos tolhidos por geadas e sóis, que moldaram um rosto ainda enluarado por lágrimas de ternura, pois no lugar do coração tem uma fonte de mel. 
Elvira, nascida nestes socalcos de xisto, espera os viajantes, incautos, que pretendem conhecer a casa recuperada e inaugurada com pompa.
As primeiras palavras destinam-se a espantar os curiosos. Que não, que durou um dia a abertura da casa a um público seleccionado, com exposição de objectos, retratos, móveis e livros, como aquele "Evasão", onde o homem de teres e haveres pergunta à maneira de Brecht, quem construiu as casas, as pontes, quem trabalhou a terra para o rico ter sustento sem esforço e poder para mandar.
É uma mulher da terra, sequinha de talhe mas ainda escorreita no andar.
O mundo de Elvira, é aquela casa, com caramachão romântico enredado em arbustos e árvores e lago com peixes, por onde crianças e jovens devem ter solto gargalhadas e brincado muito.
Os seus olhos viram um corropio de personagens, as suas mãos pentearam meninos e donzelas, trouxeram meninos ao colo, ampararam anciãos, cumprimentaram visitas de gabarito.
Naquele local, onde  - no dizer de uma escritora que também por lá viveu - a casa, parece um barco encalhado, Elvira, com os seus olhos de eterna mãe protectora, é uma página viva de Literatura, entre couves e vinhas, corredores, quartos e salões, memórias e esquecimentos...
Ao longe, o seu sorriso, diz-nos adeus...

Luís Filipe Maçarico

Penaguião, 10-10-14