"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, março 05, 2006

Intervalo V


No início dos anos 80 assisti a um Rally de Portugal em Sintra. O vinho passava de boca em boca, num tempo em que os medos de contágio estavam longe.
Acampava-se em qualquer lado, descobriam-se coisas mágicas e importava pouco a aparência.
Eu era assim...

quinta-feira, março 02, 2006

Se Forem a Mértola...


A velha aldraba cintila na porta vermelha, coroada pela buganvília, ao sol do Alentejo. Se forem a Mértola procurem-na. E no rumoroso silêncio de Março, enlacem-na numa carícia de gratidão, pelo desempenho que teve ao longo de séculos, acordando os da casa para o dia de zumbidos e labores, para se enfrentar o facto doloroso ou o evento festivo. Se forem a Mértola vejam como é bonita e melodiosa a sua voz, que canta saudades para o Guadiana...
(fotografia de LFM) Posted by Picasa

terça-feira, fevereiro 28, 2006

ATÉ JÁ, OLAVO!



Estimado companheiro Olavo:

O seu exemplo associativo e humano, de indivíduo discreto, mas com uma qualidade de entreajuda e de harmonia no colectivo, que o distingue, estimula-me a ser momentaneamente egoísta, para lamentar a sua ausência durante os quatro anos que começam dia 1.

Aliás, não me sentiria bem comigo mesmo, se não destacasse nesta hora:

- a adesão, o incentivo e a confiança prestada, logo no encontro de Montemor-o-Novo, a esta jovem associação, ainda na sua proto-história;

- a sua postura na fundação, em que aceitou integrar o Grupo de Trabalho Adeodato;

- o papel desempenhado nesse Grupo, com pesquisa, contributos bibliográficos, deslocações a Coimbra, Casa de Goa, Casa do Alentejo e contactos que enriqueceram o nosso conhecimento de Aljustrel, de Kaliás Barreto e de seu pai Adeodato Barreto.

- o companheirismo demonstrado na forma como coordenou o Grupo nos últimos tempos, com uma disponibilidade notável em termos da recolha de materiais a expôr e do catálogo.

- a partilha quotidiana na direcção, a partir do momento em que foi cooptado, com uma presença que nos engrandeceu, enquanto associação de gente com sentimentos e ideais.

Creia, meu camarada - permita este tratamento - que me sinto envaidecido por ter podido trabalhar consigo e orgulhoso por o ter proposto para a direcção, pois faz-nos falta, pela sua serenidade e sabedoria.

E saiba que só lhe perdoo esta "deserção", porque estou convicto que em Macau a Aldraba irá ter a sua primeira delegação e que será até esses mágicos confins do Oriente que certamente uma próxima direcção encaminhará, com o seu apoio, um encontro da nossa associação.

Contamos consigo!

Até já, Olavo! Você vai ficar cá e lá, porque está no nosso coração também...

Grandabraço do

Luís

sábado, fevereiro 25, 2006

Reflexões Sobre Este Tempo


Com tradução de Paulo Quintela, extraio do livro "Poemas e Canções" de Bertolt Brecht, estas reflexões em forma de verso, que bem podiam ter sido escritas agora:


EM TEMPOS DE ESCURIDÃO
Poder-se-á também cantar?
Poder-se-á também cantar
Dos tempos de escuridão.


*******

ENTRE OS DA ALTA
É tido como baixo falar de comida.
Isso provém de eles terem
Já comido.

(...)

*******


DE QUE SERVE A BONDADE

1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor:
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

*******

NÃO VAMOS AGORA DISCUTIR
Se explorámos o poder quando o tínhamos, agora
Já não temos poder.

Não vamos agora falar
Sobre se isto vai sem violência. Agora
Foi a violência que nos derrubou.

*******

GENERAL, O TEU TANQUE É UM CARRO FORTE.
Arrasa um bosque e esmaga centos de homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um condutor.

General, o teu bombardeiro é forte.
Voa mais rápido que uma tempestade e carrega mais que um
elefante.
Mas tem um defeito:
Precisa de um mecânico.

General, o homem é muito hábil.
Sabe voar e sabe matar.
Mas tem um defeito:
Sabe pensar.


Bertolt Brecht

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

LUTAR ATÉ MORRER


Antes de Abril acompanhou-me algumas vezes, em casa de amigos, na partilha de um disco novo, raras vezes na telefonia...
A revista Mundo da Canção publicava letras de canções suas, as melodias iam-se enraizando no quotidiano...
Faz-nos falta.
Vi-o no Coliseu, quando deu um memorável concerto, de despedida. Nunca amoleceu, mesmo quando a doença o dilacerava.
Talvez por isso hoje, dia do seu falecimento, a RDP o tenha lembrado, com 19 canções, hora a hora. Pena é que não passe mais música dele no resto do ano.
São 23h 15 e volto a ouvi-lo, como naquela noite emocionante do Coliseu:
"águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar!"

Intemporais, os "Vampiros"estão actuais, tal como "Vejam Bem", "A Morte Saiu à Rua", "Venham Mais Cinco", porque enquanto a sacanisse imperar, o silêncio é cobardia.

A sua música, as suas palavras, a sua respiração criativa fazem-nos falta. Numa época de terrorismo laboral, por parte de quem manda, José Afonso lembra que lutar-até morrer- é um verbo, uma postura, que não se pode arrumar.

A Criança Que Eu Fui


Continuo a descobrir imagens dos meus primórdios nos baús da saudade.
Hoje, apresento-vos o Luisinho, que andava de triciclo na Praça da Armada e sentado no beiral da janela sonhava com viagens , que felizmente foi possível fazer.
Muito gostava eu de fazer beicinho...detestava ser fotografado, esse era o problema!
A propósito do tempo da infância, publiquei um livro de contos, que um dia destes referirei, chamado "Degraus", que a Universitária Editora produziu.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes"- 100 Anos de Criatividade


Em 1997, na segunda festa das colectividades de Lisboa, com o Jorge Rua de Carvalho e com o Jorge Neves, interpretei um pequeno papel, numa revista idealizada a três, que se chamou "O Teatro Segue Dentro de Momentos", através da qual o Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes" marcou uma boa presença.
Duas décadas depois de ter fundado (1978) um grupo amador na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, voltei a fazer teatro sobre um palco.
Nos "Combatentes" apresentei vários livros, participei em "Noites de Música e Poesia", fiz parte dos corpos sociais durante alguns anos.
Este ano, a colectividade que tem um historial notável, faz cem anos. Por lá passou Arthur Duarte, o cineasta, Tony de Matos, Aida Baptista, Maria Clara, o poeta Sidónio Muralha. E inúmeros atletas de modalidades tão diversas como o boxe, o ciclismo, o basquetebol, o hóquei em campo, o karaté.
Nas colectividades, a cidade humaniza-se, pela possibilidade do encontro, da partilha, da entreajuda, do convívio inter-geracional.
Quando uma casa destas sobrevive aos mais variados obstáculos e se torna centenária, é tempo de celebrar todos os que ajudaram na escola, no desporto, no recreio, na cultura, no dia a dia.
Lurdes Pinheiro, a presidente da direcção de 2006, foi aluna da escola, festejou as bodas do seu casamento no salão da colectividade e já pertenceu a anteriores direcções. Além da gratidão que tem para com a casa que a ensinou a ler, fez uma promessa a um antigo dirigente, que entretanto faleceu, de conduzir as actividades durante este ano. Rodeou-se de gente decidida a trabalhar em prol destes "Combatentes" que nasceram em Setembro de 1906 para combater o analfabetismo.
Em meados dos anos 90 do século passado um grupo de associados criou o museu da colectividade e a par da Lisboa 94 tornou-se famoso o grupo dos Pregões de Lisboa.
Na Arruda dos Vinhos, em Alpedrinha, nos mais diversos locais de Lisboa, a Lavínia, a Paula, o Luisito, os Jorges e mais um punhado de actores amadores elevou bem alto, pela qualidade do desempenho, o nome dos "Combatentes". A hilariedade que este grupo consegue nas suas actuações é um belo trunfo. Esta colectividade está cheia de histórias magníficas para contar.