"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, abril 30, 2020

JOAQUINA E EURICO: A MERCEARIA ONDE SE SENTE O ALENTEJO


Em Novembro de 2016, sete meses depois de me ter mudado para Almada escrevi num rascunho, que não hesito em partilhar com os leitores:

“Pelas ruas da velha Almada ouve-se ainda na padaria, na mercearia, nos cafés, o sotaque dos que vieram do Alentejo há décadas, mas nunca perderam a ligação às raízes.
Procuram-se o “panito”, os enchidos, os ésses, os queijinhos, ou seja o sabor da terra que por vezes se retorna num fim - de - semana alargado, buscando o sol do sul, a cal, os rostos tisnados dos que permanecem nas entranhas dos lugares. Cheiros de ervas e de comidas.
Do sorriso às iguarias, a mercearia de Joaquina Matos é um oásis, um bálsamo, um regresso ao paraíso.
A tranquilidade das palavras benfazejas alegra o dia de canseiras e rotinas.
Vislumbram-se os montes, a sombra quente do Alentejo, os aromas do campo e o desmedido silêncio que mitiga tanta ausência e sede de fontes.
Almada tem esta parte que me cativa. E que o cante exalta ali para os lados do Feijó, com homens que escrevem Futuro com gargantas incendiadas de ternura. Porque o Alentejo é imenso e floresce nesta margem de sabores e vozes que espalham luz na caminhada.”

Decorridos alguns anos, no inverno de 2019/2020, decidi entrevistar os donos da mercearia, que me habituei a frequentar, e onde a vida flui, entre o fraterno cumprimento do senhor Matos e o sorriso acolhedor da dona Joaquina. Falámos muito antes dos percalços que nos obrigaram à forçada quarentena, face à pandemia global que paralisou o quotidiano.

Adolescentes, conheceram-se num “balho” no Dejebe. Ela, da Vendinha. Ele da cidade, ambos do concelho de Évora. Joaquina e Eurico.
Há décadas em Almada, saíram do Alentejo com o Professor Galopim de Carvalho. Eurico revela: “A gente chama-lhe Carvalhinho”.
“Vim servir para a casa da Dona Isabel (esposa de Galopim de Carvalho), conta Joaquina Matos e acrescenta:
“Conheci a dona Maria Isabel, ela era professora da Vendinha (está uma estátua que lhe fizeram, lá). Ela estava hospedada em casa dos mais ricos de Évora, os Calados. Ela gostava muito de ir à lareira da minha mãe. Gostava muito de estar na minha casa.
Na escola, um dos meus manos que é o Domingos Barradas (advogado) era muito esperto e a Dona Maria Isabel gostava muito dele, foi sua madrinha.”

Tiveram várias ocupações até criarem esse lugar de encontro e convívio que é a sua “mercearia fina”, como foi designada pelas clientes, que fizeram uma bata com aquela frase à sua amiga Joaquina.
Naquele estabelecimento da Rua Capitão Leitão encontramos pão alentejano de Évora e Vidigueira, chouriço de São Manços, bolo de erva - doce, ésses e outras guloseimas de Safara, além do precioso azeite de Moura.
O pai de Eurico (Mestre Matos) foi alfaiate em Vila Viçosa e Évora.
Joaquina teve pai carteiro (Ti Mateus) que distribuía o correio entre a Vendinha e Montoito.
As respectivas mães, com vários filhos para criar, dedicavam-se ao trabalho doméstico.
O baile onde se conheceram há mais de meio século, ocorreu durante a Festa de Santa Bárbara do Degebe. “Hoje já não se fazem estas festas!” elucidam. Havia “muita gente mesmo” e a música “era com harmónio”.
Algumas memórias estão esbatidas, outras não são fáceis de revisitar. A vida de então era difícil por isso Eurico não se contém “Era uma tristeza e a gente agora a lembrar-se disso…”

Há uma clientela permanente, oriunda do Alentejo. Marianita da Amareleja, que ultrapassou os oitenta anos, mora em frente e vem frequentemente, Nani de uma geração mais nova, nasceu no Redondo e aqui se abastece. Nani vai trocando impressões com Ana da Mina de São Domingos e duas Luísas, uma alentejana, outra do Ribatejo, presenças assíduas interpelando o casal no seu quotidiano.
O então jovem Eurico foi estafeta numa oficina da qual passou para electricista auto. Trabalhou numa corticeira (Cutileiro Ferreira) a fazer rolhas com uma máquina. Antes disso, ainda menino terá trabalhado de sol a sol “Era pequenininho a olhar para o céu a ver se o sol se punha e o dia de trabalho acabava.”
“Ainda fui merceeiro na Travessa do Pão Bolorento. Devia ter aí os meus doze anos…”

Joaquina recorre à memória da mana Ana Rosa e enumera os sítios onde andaram à ceifa e à monda. “Andei a mondar grão e na ceifa do arroz em Benavente, com as moças do meu tempo. Ficávamos lá a dormir. Era bem novinha.”
Trabalharam no “Monte da Furada”, do conde da Ervideira, Monte da Herdadinha, Monte do Cume, Monte do Outeiro (para o lado de Reguengos). O Monte do Cume era da minha madrinha, ainda trabalhei dois anos lá, depois fui para Évora para a fábrica das malhas. Daí fui para a fábrica dos bolos, fazíamos amêndoas, rebuçados, caixinhas de bolachas, enlatávamos, era uma confeitaria, era mesmo uma fábrica.”

Já em Almada, trabalhou à volta de quatro anos na Electro-Hermes e, entre uns quinze a dezoito anos, na Ferrageira de Almada. Dali veio para a mercearia, que já existia, a proprietária era a D. Laura Fonseca.
Quanto a Eurico Matos, foi electricista em Lisboa, trabalhou na Electrocentral Vulcanizadora, na “Guérin”, na “Renault”, em Carcavelos, até que foi electricista - auto no departamento de manutenção das oficinas da Câmara Municipal de Almada.

Umas semanas antes da mercearia interromper a sua actividade, perguntei ao senhor Eurico a proveniência da sua clientela tendo-me respondido assim: “Isto está rodeado de alentejanos. A maior concentração é aqui e na Cova da Piedade. Depois aparecem estes casais novos. Algarvios Também vêm. E galegos, galegagem”…

Se bem se lembram, aqueles que leram Alves Redol, os gaibéus (ou o Povo Ratinho, de Adriano Pacheco) eram beirões, que vinham das suas terras de origem trabalhar nos campos do sul, sendo preferidos pelos agrários, por receberem um salário menor.
Ainda há quem veja os originários das regiões acima do Tejo como “galegos”.
Trata-se de uma diferenciação étnica, pelos costumes e pronúncias diversas das populações que nasceram, habitam ou se reconhecem cultural e territorialmente com costumes e pertenças identitárias diversas dos povos do sul.
Os alentejanos e particularmente a geração de Joaquina e Eurico, que já estão na casa dos setenta, têm a sabedoria e a sensibilidade de tratar todos os clientes da melhor forma, por isso muita gente os procura como um dos últimos redutos do que há de mais genuíno neste país.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografia)

Artigo publicado na revista nº 27 da "Aldraba", pp. 23-24.

4 comentários:

Sandra C. disse...

Que história linda! Adoro estas histórias com estes contornos pitorescos, mas tão verdadeiros!

Beijos e abraços
Sandra C.
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Elvira Carvalho disse...

Um excelente texto que adorei. Um casal que apesar da sua deslocação mantém vivas as suas raízes.
Por aqui no Barreiro como deve saber a grande maioria da população ou é alentejana ou descendente de alentejanos. Segundo a história, inicialmente vieram os Algarvios, por ser uma vila piscatória. Nos séculos XIX e XX, vieram os alentejanos. Vieram inicialmente atrás da cortiça dos seus campos, que era tratada nas várias fábricas no Barreiro, depois com a industrialização deste pelo Alfredo da Silva, para trabalharem nas fábricas da CUF.
Paralelamente, vinham os "ratinhos" das Beiras, principalmente da Beira-Alta, para trabalharem nas duas Secas de Bacalhau, e muitos desses trabalhadores, terminada a safra tentavam a sorte nas quintas, nas fábricas de cortiça, na CUF. e por aqui se estabeleciam. Eu mesma, sou descendente desses beirões.
Abraço, saúde e viva o 1º de Maio

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