"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, junho 28, 2016

“ROSA”: A SABEDORIA DE ELVIRA CARVALHO NUM LIVRO ESSENCIAL



Elvira Carvalho é uma escritora inspirada.
Desde a caracterização da ambiência dos pobres nos seus casebres, passando pelos incisivos retratos psicológicos, usando um simples olhar num espelho, até ao ritmo da acção, o conto “Rosa” tem a marca de uma grande economia de palavras.
Nada de floreados, apenas o essencial é dito e muito realismo na descrição do quão brutal pode ser um ser humano.
O infortúnio, o dramatismo, a sobrevivência dos deserdados da sorte atravessam toda a narrativa.
O texto está repleto de alusões a um quotidiano duro, numa linguagem despojada, que acompanha com Mestria a caminhada da protagonista e do mundo que a rodeia.
As memórias trazem até nós recriações etnográficas, quer da ruralidade (a desfolhada) quer do quotidiano urbano (os pátios, o chuveiro improvisado, a pipa, a lutas e as perseguições do regime).
A dualidade campo-cidade na vida dos humildes, dos pastores e dos operários, está bem patente no percurso de Rosa.
Nunca é tarde para partilhar sabedoria. E isso é o que Elvira Carvalho faz nesta sua primeira publicação em prosa.
Escrevendo desde há muito, exercitando os seus conhecimentos vários, Elvira foi mãe, é avó, esposa zelosa, semeando versos e contos nas suas horas de ócio, ao longo de toda a existência.
Era ainda muito jovem quando a conheci, escrevíamos ambos para uma secção de jovens poetas, numa revista cujo principal objectivo era divulgar a programação televisiva, no tempo do canal único e do seu apêndice.
Ganhámos admiração e estima.
Essa simpatia, que não toldando a minha objectividade traz-me à lembrança os “Contos Bárbaros”, de João Araújo Correia, algumas páginas de Camilo, o realismo de um cenário de gente humilde, que deixa a alma do leitor marcada pela crueldade de alguns momentos, pelo sofrimento injusto que os mais pobres sentiram.
Elvira Carvalho conhece bem a matéria humana que teceu com palavras bem aplicadas, urdindo a tela credível, pois há muitas testemunhas vivas daquela época.
Há que agradecer à autora de “Rosa” por deixar aos vindouros esta prova de vida de um povo que teve de passar pelo sacrifício para poder saborear os frutos de uma liberdade duramente conquistada.

Algumas palavras mais, para saudar todos os presentes nesta sessão e agradecer à Elvira Carvalho o privilégio de poder falar sobre o seu percurso, como ser humano e escritora e sobretudo deixar o aplauso ao Amigo, que desde Espanha a apoiou, na edição de “Rosa”, esse fantástico Joaquim Duarte.

Importa sublinhar também a adesão da Universidade Sénior, cedendo o espaço e à adesão da Câmara Municipal do Barreiro, - nesta justa homenagem a uma cidadã, que da sua janela olha para o Mundo e sonha outros Mundos, vivenciando o que a rodeia.

O Barreiro tem em Elvira Carvalho uma personalidade de conteúdo riquíssimo: criativa e fraterna, que escreve com um língua de clareza e eficácia, e pratica a partilha dos seus saberes, de forma discreta, usando a Internet, nas diversas formas de diálogo com o Outro - seja no seu blogue “Sexta - Feira”, como na página do Facebook.
Encontram, no muito que tem legado a um público atento, valores que nunca serão ultrapassados, enquanto conseguirmos viver à escala humana.
A sua Poesia merece ser divulgada. Digo-o, apesar de Amigo, sem concessões. Por isso deixo à Câmara Municipal do Barreiro um desafio que a Elvira não sabe e que hoje decidi fazer nesta sessão: patrocinarem uma edição dos seus versos! Faz falta nas Escolas e Bibliotecas.
Uma Mulher assim não nasce duas vezes e é muito bom tê-la entre nós, seja no convívio mágico ou em páginas, que são astros à espera de cintilar entre os nossos dedos.
Parabéns, Elvira! Parabéns, Barreiro!


Lisboa, 18-2-2016

Luís Filipe Maçarico

5 comentários:

Duarte disse...

Conhecendo a Elvira, o que é que não se pode fazer por ela?
Um ser maravilhoso. Com essa habilidade tão sua de narrar coisas, que pude apreciar e disfrutar ao vivo durante algumas horas, uma pena, pois não deu para mais.
Saudações

Elvira Carvalho disse...

Muitíssimo obrigado.
Emocionei-me na altura e voltei a emocionar-me hoje.
Isto de ser vista com olhos de amigo faz muito bem ao ego.
Um abraço

✿ chica disse...

Que linda e tão merecida homenagem à querida Elvira! Ficou linda, cheia de palavras assim também e belas fotos! abraços, chica

Mariangela do lago vieira disse...

Oi Elvira, mas que merecida homenagem!
Te admiro muito por tudo que escreve, parabéns amiga.
Lindas fotos!!
Abraços com carinho!

Majo Dutra disse...

~~~
Um dom especial e singular.
Esta homenagem à Elvira é muito louvável.
Na minha opinião, o conto que está escrevendo narra a história e
evolução da seca do bacalhau que se insere nas raízes do Barreiro
e seguramente, interessa ao município.
Também gostei de o ler.
Dias felizes.
~~~~~~