"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, março 29, 2009

Pátio das Laranjas










Pelo pátio das laranjas
diante do Guadiana
Sorvo o sol da tarde
no sumo de frutos luminosos.

Há vento e gritos de pavões
na paisagem e o silêncio
brilha nos potes caiados.

Se tivesses alma
partilhava contigo.
Começo a habituar-me
à contenção.
Não respondes...não reajes...
Para quê então falar-te
dos aromas mediterrânicos,
oferecendo-te versos de mel?

As águas do rio deslizam,
assim as horas no ponteiro
do relógio e os gestos
de cada dia.

Começo a esquecer-me
dessas palavras esfareladas
como espigas secas.
Começo a esquecer-me
do teu sabor a amora silvestre
que recusaste.

Começo a esquecer-me
de ti.

Mértola, 16:25 28-3-2009

Luís Filipe Maçarico

quarta-feira, março 25, 2009

Tamareira


Não sei se sabes
mas tens sido
um alimento
para o meu espírito...
***
Morro de fome,
todavia...
***
E deixar
de te ver
enfraqueceu
este sentimento,
que não resiste
à ausência de
sonho e asas.
***
Sou tamareira,
preciso da água
dos teus olhos
para viver.
25-3-2009, 09:46
Luís Filipe Maçarico (fotografia e poema)

PODEMOS DAR UM NOVO RUMO A PORTUGAL?




Copiado do blogue http://castroaosul.blogspot.com

terça-feira, março 24, 2009

RECADO




(Escutar-te
é bom...)

Ver-te
deixou de ser
natural,
como a água
ou as flores.

E se a ausência física
custa,
o silêncio mata...

Luís Filipe Maçarico (fotos e texto)

24 de Março de 2008, 9:45

segunda-feira, março 23, 2009

Tempo de Estevas





Pelas olaias floridas
sei que é o tempo
das andorinhas voltarem
aos beirais...

tempo de escutar
a tua voz macia
e de sonharmos
o encontro.

quero aromas do sul
na tua pele ardente
línguas de terra
beijando mamilos orelhas
e o amor prometido
entre estevas e olivais
pinheiros rumores de mar

escrevendo os melhores poemas
com pernas entrelaçadas
lábios colados, braços ancorados
na fusão dos corpos
gulosos por ter mais tempo
para enganar a morte com o desejo
prolongando carícia e beijo.

Lisboa, 23-3-2009 15:00 e 21:35

Luís Filipe Maçarico (poema e fotos tiradas em Castro Verde/ miradouro de Nossa Senhora de Araceli

domingo, março 22, 2009

O Meu Fim de Semana em Mértola






Às sextas, quando o Pedro Carlos não pode dar boleia, é preciso sair mais cedo de Lisboa, no comboio para Beja e depois de aconchegar o estômago, partir para Mértola na camioneta, que passa por estes campos esplendorosos, ainda tão verdes.
E lá está o monte "Marrocos", perto da ribeira de Terjes e Cobres. A primeira vez que lá passei (em 1984) com a Cristina, o sr. Manuel, a D. Lucy e a avó da Cris...disseram todos em uníssono: "Quando Lisboa for derrubada, Marrocos será levantada!" Velha loa, passada de geração em geração, enigmática, que no carro do Pedro se repete, quando atravessamos aquela parte da paisagem...
As localidades sucedem-se: Amendoeira do Campo, Vale de Açor, Alcaria Ruiva...terras antigas, com pequenos rios, barrancos, estevas, trigais, campanários, silêncio e o sol bem forte do Alentejo.
Esta semana fiz a viagem na quinta feira, pois tinha de apresentar uma aula e de me preparar convenientemente, no sossego da biblioteca do Campo Arqueológico de Mértola.
Lá estavam umas favas à alentejana e um bacalhau com grão divinos no "Tamuje" à minha espera e as bifaninhas com muito alho do sr. Henrique do café "Guadiana" que vai passar a abrir aos domingos por causa dos espanhóis que chegam em catadupla e mais depressa através da nova ponte do Pomarão.
Cláudio Torres desvendou-me os meandros da Biblioteca que ofereceu ao CAM, a Armanda, a Filipa Medeiros e o Filipe aturaram-me no acesso à Net e a outros bens essenciais dentro daquele espaço: água, café, luz, simpatia.
Na sexta, a Sandra festejou os seus 33 anos e confraternizámos no excelente restaurante "Brasileiro"com algumas ausências de vulto: O Pedro fez falta, como a Ana Isabel e a Ana Dias. Mas em compensação, reapareceu a Fernanda Mestre.
Foi mais um fim de semana envolvente, que terminou com uma feijoada e o anúncio do candidato à Câmara de Mértola por parte da CDU - o professor e associativista Jorge Revés, rodeado de centenas de entusiastas daquela candidatura.
Estas eleições vão ser muito interessantes, pois do seu resultado dependerá o futuro, mais ou menos dinâmico, relativamente à identidade, à valorização do património e à imagem de marca que esta terra foi construíndo.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

terça-feira, março 17, 2009

ADEUS


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade