"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sexta-feira, janeiro 27, 2017

A EXCELENTE SURPRESA DO FILME "ZEUS" DE PAULO FILIPE MONTEIRO

A História está mal contada, a respeito do sétimo Presidente da República Portuguesa - o também escritor - Manuel Teixeira Gomes, que deixou o cargo (para o qual fora eleito em 1923) cinco meses antes do golpe de Estado, que abriu caminho para o Fascismo (o último presidente eleito foi Bernardino Machado).

Sustentando governos reformistas, opondo-se à especulação dos bancos, apoiado numa manifestação de 70 mil operários, que foram a Belém manifestar-lhe o apreço pela sua política,Teixeira Gomes, que fora embaixador em Londres, perante as tentativas de intrigas e golpes baixos, decide demitir-se, deixando a própria família, para embarcar no cargueiro "Zeus", a caminho da Argélia, onde viverá os últimos quinze anos da sua existência. ZEUS é o nome da película, que demorou quase uma década a ser concretizada e conta a vida deste cidadão do mundo.

O realizador PAULO FILIPE MONTEIRO, nesta sua primeira longa metragem, dirige SINDE FILIPE como protagonista, capta a ambiência do Norte de África, onde Teixeira Gomes se auto exilou, colocando ao seu lado um naipe de actores argelinos, de entre os quais se destaca IDIR BENEBOUICHE (no papel de Mokrane, o empregado do Hotel).

Desta obra podemos dizer que é excelente, pelo ritmo, que se apoia em três narrativas, sobrepostas em flash back (o quotidiano do sétimo presidente da República Portuguesa, no palácio de Belém, os dias em Bougie e excertos da novela erótica Maria Adelaide, que se confundem com a própria vida do político e escritor algarvio), pelo som primoroso, pela música (de Bernardo Sasseti e Anouar Brahem), pelas interpretações e por uma fotografia excepcional, onde o deserto aparece com um esplendor que raramente vimos na sétima arte.

Quando o cinema português atinge um patamar assim, lamentamos que a estética, a beleza e a qualidade não façam parte do gosto da maioria dos espectadores. Hoje no cinema onde o filme ainda está em exibição, passou a haver em vez de duas, uma só sessão e estiveram apenas oito pessoas a assistir à projecção.

Paulo Filipe Monteiro, também ele actor, pesquisou traços da presença de Teixeira Gomes em Bougie, tendo encontrado uma filha de Mokrane, que partilhou memórias.
Recomendo vivamente que aqueles que tenham possibilidade persigam este filme e desfrutem de um documento tão importante para sabermos mais acerca daquela época conturbada da História de Portugal, como da História da colonização do Magreb.

Podem ver aqui o trailler:


Luís Filipe Maçarico (texto e pesquisa fotográfica)

1 comentário:

maria lascas disse...

Por ora, o filme só pode ser visto em Lisboa.
Mas com esse público em Lisboa duvido que se atrevam a exibi-lo "na província".
Decididamente o marketing " o que é nacional é bom" não serve para as elites nem para as massas...