"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, julho 12, 2012

Jorge Rua de Carvalho. A Partida de Um Grande Senhor

Fotografia de António Brito

O criador de tantas delícias,- representações das brincadeiras do tempo da sua infância (Anos 20-30), dos pregões da Lisboa Antiga, de letras para fados, textos para revista à portuguesa, etc., partiu, ao fim de anos de sofrimento, que poderiam ter sido minorados se neste país não dominasse a injustiça que deixa os mais carenciados entregues à sua sorte. Honra seja feita à sua família, que cuidou dele até ao fim, enfrentando todos os obstáculos, decorrentes da falta de apoios a quem tem pouco.

A exposição dos seus "bonecos", que percorreu o país, (estivemos ao seu lado, em Alpedrinha, e nas Jornadas de Cultura Saloia em Loures), encontra-se à guarda da Junta de Freguesia dos Prazeres, por vontade deste Grande Homem, que por todo o lado marcou, com a sua presença sensível e amistosa, a alma portuguesa, no que este povo tem de melhor: inventivo, fraterno, espirituoso. Esperemos que, a concretizar-se a projectada mudança de freguesias, esta obra não seja votada ao abandono, como costuma acontecer com aqueles políticos que não conhecendo o historial, desprezam estas coisas, por ignorância e falta de sensibilidade.

Vimo-lo nas Bibliotecas Municipais de Lisboa, apresentando às crianças, os seus meninos de madeira ou as míticas figuras que vendiam víveres na cidade, noutras épocas, executados em madeira, com desmedido carinho.

Associativista, homenageado pela Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio, na 2ª metade da década de 90, foi actor do teatro de amadores, representando em palcos de colectividades, fazendo rir os que têm poucos recursos.

Associado do Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes" e seu antigo dirigente, deixa em várias gerações a marca de um Senhor, que soube conviver e partilhar a sua boa disposição, a sua sabedoria, a sua arte, traduzida em livros de contos e poesia, que retratam a vida nos pátios, cujos protagonistas são as classes laboriosas, com as suas alegrias e tristezas.

Fundador da Associação do Espaço e Património Popular, Aldraba, este cidadão participativo, solidarizou-se com o esforço dos que pugnam pela salvaguarda da identidade e do património, sendo membro activo nas Assembleias Gerais, em Encontros (no Alqueva, p.ex.), deixando por isso uma enorme admiração e saudade.

Querido Jorge: Onde quer que o teu espírito se encontre, recebe a gratidão dos que te devem tantos sinais de amizade, tanto estímulo, tanto entusiasmo, essa maravilhosa energia que te fez viver intensamente. 
Não te esqueceremos!
BEM HAJAS!
Luís Filipe Maçarico

6 comentários:

Fernando Amaral disse...

Triste notícia.
O pouco que privei com este homem de rico interior mede-se em poucas horas de tempo normal mas imensas em cultura, inteligência e sensibilidade. Um abraço de conforto a todos os amigos que comigo partilham o desgosto deste dia.

oasis dossonhos disse...

Fernando Amaral

Grato, por este belo testemunho, que me comoveu. E abraço fraterno, pela dimensão humana do nosso amigo, da memória luminosa que não obstante a mágoa, permanece, enquanto presença indelével.

Luís

maria lascas disse...

Conheci Jorge Rua de Carvalho há poucos anos, quando apesar da sua idade ainda era bastante enérgico a subir a Gardunha. Dele guardarei os seus magnifícos bonecos, o livro para o qual fiz uns desenhos "naif" sobre a vivência saloia, mas sobretudo o seu falar o seu olhar a ternura do seu ser, aliás também espelhada aqui na fotografia.
Junta a si sentiamo-nos reconciliados com o outro, e apetecia ficar sentado ao seu lado a saborear o tempo... A minha afectiva homenagem!

oasis dossonhos disse...

Levarei, Maria, a tua homenagem, aos familiares e a tua amizade.
Não esqueço aquela subida à serra mágica, com o nosso amigo Jorge Rua de Carvalho. Fica esta lembrança tão bonita de nós todos, dentro do tanque do chafariz D. João V, dos sonhos que ele connosco partilhou.
Obrigado pelo teu depoimento.

O Puma disse...

Não deixemos morrer

os nossos mortos

Abraço amigo

O Puma disse...

Não deixemos morrer

os nossos mortos

Abraço amigo