"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, fevereiro 18, 2012

A Última Viagem de Victor Borges



Curvo-me perante a memória de Victor Borges, o espantoso criativo de Benafim, escultor desassombrado, investigador autodidacta, ousado escritor, homem inquieto, que foi a primeira pessoa a falar-me de Eduardo Ramos e a quem deu o meu contacto, quando o artista procurou o meu rasto, pois queria editar um disco, transcrevendo um poema que lhe oferecera no 1º Festival Islâmico...

Victor Borges realizou uma magnífica exposição, no castelo de Silves, alugando uma tenda árabe, com desenhos e estórias, interpretando o passado árabe da Shelb dos poetas luso-árabes, como Ibn Amar e Almutamid...

Em Loulé, podemos admirar uma escultura de sua autoria, "Ara Vitae", que originou polémicas na imprensa, por parte de alguns intelectuais moralistas, a quem o nú arrepia os delicados miolos e o sangue azul das veias decadentes.

Amanhã desces à terra, Amigo Lunático, sofredor inadaptado, neste estranho enclave de brandos costumes e autómatos bem comportadinhos, que quando se passam são uns grandes filhos da puta!!!

Amaste as tuas Divas morenas, mouriscas, de forma apaixonada, pois a serenidade não era a tua praia...

Ficam estas palavras desajeitadas e a sensibilidade, o enorme silêncio das palavras desajeitadas e o coração ferido, por saber que um jovem como tu, com tanto para dar, foi-se embora de repente.

Não sou de invejas, Victor, mas essa viagem, confesso que tenho pena de não a ter realizado, também quando era novo, e ter de andar por cá, recebendo notícias como esta tua partida, para continuares na incessante procura, pelos árabes do imaginário do sul...

Paz à tua Alma!

Luís Filipe Maçarico (texto) Fotografia da escultura Ara Vitae, recolhida na Net.

2 comentários:

elvira carvalho disse...

Deixo um sentido abraço e as palavras do poeta.

POEMA DO AMIGO MORTO


Quem morreu, não foi ele.
Foram as coisas, que deixaram
de ser vistas pelos seus olhos.
Quem morreu, não foi ele.
Foram os objetos que a sua
mão deixou de tocar...
(...)
Não foi o sangue que lhe parou
de fluir, nas veias:
foi, antes, o vinho que ficou imóvel,
na garrrafa.
Não é ele o defunto,
é o mundo
que morreu nos seus cinco sentidos.
É o sol,
o grande sol pendido
que ainda lhe ilumina o rosto.
É a rosa,
a rosa quente que já esfria,
no corpo onde, a todo momento,
abria e fechava a corola...

Cassiano Ricardo

Christopher Shean disse...

Passava diariamente por Benafim... a cara não é desconhecida... mas tenho muita pena de não ter conhecido bem o Victor Borges!

Christopher Shean