"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, setembro 22, 2008

Festa dos Chocalhos 2008














Alpedrinha vibrou novamente com mais uma edição da Festa dos Chocalhos. Quando o povo se apropria de uma ideia, qualquer festa que essa ideia gerou, assume as sonoridades e os aromas apreciados pela nossa gente, sem ser necessário empestar o ambiente com chunguices e pimbalhadas.

Aprecio as lojas transformadas em tascas, as ruas repletas de gente, os sabores, os petiscos, os doces, o pão, artesanatos, tudo o que faz daqueles instantes o espelho de uma festa reinventada, que as pessoas transformaram na sua festa.

Sonhada por indivíduos que idealizaram o evento, talvez para revitalizar o sítio, em perda com a auto-estrada que rasgou a Gardunha e afastou da vila muito trânsito, a festa apareceu como uma possibilidade de laboratório de experiências culturais, além de ser uma tentativa para imprimir desenvolvimento para o futuro.

Do lançamento de livros às Conversas Transumantes, vai acontecendo, a par dos bombos, dos pífaros, das gaitas de foles, das concertinas e dos ranchos folclóricos, uma actividade paralela que os alpetrinienses também acompanham, habituados que estão a iniciativas de cunho cultural.

Não peçam é que eles se sentem a teorizar, em torno do parâmetro ideal e do perigo da festa resvalar para arraial. Recordo que o arraial está sempre ligado a um santo, ao sagrado e inclui uma parte profana, que chega a conflituar com a ritualização religiosa. A Festa dos Chocalhos, se tem procissão, é a das cabras e ovelhas e se tem excesso é o da alegria e do convívio. Em época de crise económica e espiritual, não é um grande valor o encontro das pessoas?

Nas diversas edições já realizadas não houve notícia de desacatos, de violência...Mas há a evidência de milhares de sorrisos, de abraços, de euforia, da mescla humana de todas as idades, oriunda de tantos lugares.

Espero que os organizadores, programadores e animadores consigam melhorar sempre a realização deste grande acontecimento cultural, trazendo até Alpedrinha artistas criativos e interventivos. Falta a esta iniciativa tornar habitual a componente exposição, inserindo a arte na leitura transumante. Fotografia, pintura, escultura, performance, não têm acontecido. O teatro de rua, cinema, tudo isso, por motivos económicos ou quaisquer outros, não têm sido proporcionados. E este ano, se a Paula Cristina Lucas da Silva e a Rosa Dias não tivessem trazido à festa o seu olhar poético, a festa teria sido certamente mais pobre.

O receio da festa ser reduzida à febra assada e ao tintol, e às pifaradas, é um risco que não pode ser assacado a quem deseja divertir-se (após uma semana de trabalho), com o que lhe é oferecido.

Se o IGESPAR autorizou que o palácio do Picadeiro tenha um telhado de alumínio e puxadores de porta iguais aos que a minha amiga Ana viu nos contentores, onde vendia andares no Feijó mas impede a população de fazer alterações em prédios da zona histórica, como querem os senhores mais cultos que o cidadão comum aceite a cultura recomendada por eruditos, que consideram ser mais adequado para o Zé Povinho, quem sabe, talvez Leoncavallo ou Mahler?

LFM - texto e fotos (com MEG)

4 comentários:

girassol disse...

Bom dia Luís.

Um retrato do que foi este ano a Festa dos Chocalhos, no rasto deixado pelo que tem sido, atrás do que pode vir a ser. Com mais, muito e sempre mais, não ficando ou não deixando que se reduza ao "de menos".

Bom ver, assim de longe, as cores do que aconteceu, nas palavras escritas e ditas da Paula e da Rosa Dias...

Obrigada!...

Um beijo
Belmira

José Rasquinho disse...

Águas do Sul foi nomeado um brilhante weblog
http://vozpoetas.blogspot.com/

Ana disse...

Porque me obrigam a ler Eça e os sermões do António Vieira, se naturalmente te tenho a ti????
Podes fazer muitas coisas bem, mas, a escreveres és brilhante!

Ana

paula silva disse...

Brilhante Reflexão, como sempre...
A Feira dos Chocalhos será o que o povo quiser, e não se transformará jamais numa opereta erudita em três actos, ou numa peça pedante e intelectualoide para satisfazer intelectuais frustrados que se julgam iluminados... Querem fazer da festa um ensaio universitário???
É a nossa gente, simples, mas generosa e sábia que vai tomar as rédeas e continuar a revitalizar todos os anos as ruas, como este ano, em que a festa alastrou para ruelas mais interiores, com sabores e palcos de aromas genuínos e quentes de abraços...
Bem-Hajas Luis pelas tuas palavra na Apresentação do meu livro, que para a Câmara até já não tinha espaço no programa... nem contou com qualquer presença oficial, mas foi um momento mágico, intenso, pleno de energia e emoções únicas.
Bem-Hajas à Aldraba, José Alberto Franco e Maria Eugénia, Bem-Hajas à Rosa Dias, ao Avó e à Nazaré, da Alma Alentejana, ao Xico, ao Dr. João Santos Costa, à Mónia e a todos os presentes, pelo calor dos sorrisos e das palavras... porque dos ausentes não vai rezar a história.
Beijo de amizade, carinho e agradecimento a todos, e em especial a ti, amigo.