"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quarta-feira, maio 02, 2007

O Morábito do Cabo Espichel, Cubas e Azóias e Um Texto de Paulo Pereira




O início do século XII, época em que se reacendem conflitos entre cristãos e muçulmanos, ampliados pela fragilização e fragmentação dos reinos árabes na península, é identificado por diversos autores, nomeadamente por Helena Catarino, como o período histórico em “que se acentua o papel religioso - militar dos morabitum.” Segundo esta autora, “os topónimos Azóia, tal como zavial (…) devem corresponder a lugares onde havia pequenas ermidas (oratórios de retiro místico) e, ao mesmo tempo podiam ser locais de atalaia.”

Entretanto, o surgimento destas construções no território tunisino acompanhou de perto o fenómeno análogo ocorrido na península ibérica.
Malek Saied, investigador na área da arquitectura, garante que as azóias “marcam a paisagem urbana e rural da Tunísia, a partir do século XI, organizando-se como uma reserva hierárquica difusora dos ensinamentos dos santos através de confrarias e marabutos.”

Em meados do século XX, no período pós-independência, estas instituições foram acusadas pela elite intelectual tunisina, de terem incentivado a submissão dos seus adeptos ao colonialismo.
Em consequência, zaouïas como as de Sidi-al-Béchir e Sidi al-Bayli, apesar da sua intensa actividade, foram demolidas, despertando superstições populares. Um largo número de exemplares deste património foi reconvertido para sedes partidárias e associativas, ou afectado a organismos sociais.
Ao invés, outros foram poupados à destruição ou desvirtuação, face à sua importância histórica e simbólica, vendo as suas tradições salvaguardadas e apoiadas pelo Estado. É o caso de Sidi Bel Hassen que durante sete sábados consecutivos, a seguir à primeira semana do Verão, recebe muitos fiéis carregados de oferendas, que ali chegam para implorar a intercessão do Santo junto de Deus, no sentido de os aliviar dos males do Mundo.(Excerto de artigo de Luís Filipe Maçarico sobre morábitos, publicado na revista "Callípole nº 14")

No volume 5 da Enciclopédia dos Lugares Mágicos, Paulo Pereira, afirma a propósito da “Cuba”: “é o túmulo de uma personagem dotada de santidade que ali habitou ou cuja memória foi perpetuada naquele monumento. Assemelha-se na forma e nas dimensões aos morábitos, podendo nesses casos fazer as vezes de oratório. Muitos deles, a serem de origem árabe, foram transformados em pequenas capelas ou ermidas de romaria, sinalizando a paisagem do sul do país (...) Na realidade, a cuba reproduz e transpõe, para uma escala mais modesta, a forma do edifício mais importante da religião muçulmana, a Káaba de Meca, onde se guarda a pedra cúbica de origem meteorítica e de cor negra à volta da qual se faz sete vezes a circum-ambulação dos crentes em movimento sinistrocêntrico – ou seja, em forma de espiral – quando das peregrinações maciças.”

No mesmo livro, Paulo Pereira diz ainda: “A associação de cubas eventualmente de origem árabe a igrejas ou ermidas cristãs parece ser um facto comprovado, pese embora a dificuldade em sustentar tal tese até que sejam realizados trabalhos arqueológicos mais esclarecedores.”

Mais adiante, este investigador assegura: “Em Portugal, as cubas terão uma estrutura idêntica aos morábitos, sendo difícil distinguir uns e outros. Assinale-se, porém, a pequena capela de Nossa Senhora da Memória existente no Cabo Espichel como um eventual resto, transformado e adaptado, de uma cuba, bem como o nome da povoação alentejana de Cuba, que deriva, obviamente, de um edifício daquele tipo ali outrora existente.”

No volume 10 da referida Enciclopédia, Paulo Pereira define Morábito:“pequena construção de forma geralmente cúbica (embora por vezes possa assumir uma planta redonda, octogonal ou hexagonal, mas sempre centralizada), com cobertura em meia-esfera, muitas vezes designada por cuba (Kuba). A palavra deriva do árabe morabit, que designa eremitão.Os morábitos podem de facto confundir-se com as cubas, das quais pouco ou nada diferem, sendo certo que os morábitos se destinavam à morada de um eremitão, enquanto por definição, as cubas constituíam lugares de veneração dos restos mortais de um santão (o marabu ou marabuto). Os marabus, a maior parte das vezes, foram eremitas ou mestres sufis, ou seja ascetas e místicos que se dedicaram à meditação e à doutrina esotérica e gnóstica do Islão."

Citações num artigo de Luís Filipe Maçarico sobre Morábitos de Montemor-o-Novo; Fotos de LFM

1 comentário:

Fernando Pinto disse...

Gostei muito do Morábito, das tuas fotos, Luís!

Abraço!
FMOP