"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, novembro 10, 2014

É necessário um Movimento que una o Associativismo pela Salvaguarda do Património

"Gostei de conhecer a freguesia de Leomil e desejo as maiores felicidades, para os seus habitantes e autarcas. Apenas um reparo: Há que valorizar ainda mais o património. O pelourinho tem de estar limpo de estacionamento e na parte antiga não poderá proliferar o alumínio de todas as formas e cores. Fica a sugestão, pois quem vem de longe para ver o genuíno, a marca identitária e da tradição, encontra por vezes portas de alumínio branco lacado, que parecem saídas das caixas de bombons quality street dos anos 60, onde estavam representadas portas londrinas, da época vitoriana...Os centros históricos estão a ficar desqualificados, por falta de ordenação do território....e a vossa terra é do tempo do conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques." 

Deixei estas palavras, na página Facebook, da Freguesia de Leomil. 
Exorto todos os meus amigos, quando visitarem Portugal, de lés a lés, a reflectirem também, por escrito ou verbalmente, acerca do património das aldeias, vilas e cidades portuguesas, dirigindo estas opiniões às Câmaras, às Juntas de Freguesia, aos Deputados, ao Governo, reinvindicando resposta para as preocupações apresentadas.

Nem sempre as autarquias cuidam bem do território que herdámos, dos nossos antepassados, por isso considero que temos também uma palavra a dizer. Para tentar ajudar a melhorar, o estado das coisas.

Faz falta um movimento, que saia das redes sociais, embora as deva utilizar, para unir os cidadãos do Associativismo, que se bate de norte a sul, pela Salvaguarda do Património, para potenciar o seu trabalho empenhado, no levantamento de problemas, sendo incisivo na exigência do cumprimento de regras que impeçam os atentados, que cada vez se consumam por todo o lado. Os Centros Históricos, se não forem tomadas medidas, em poucos anos sofrerão transformações cada vez mais aberrantes, descaracterizando a herança que os nossos antepassados nos deixaram.

Esclarecer as populações é necessário, não através de mentes iluminadas, mas por parte de gente que interage na Comunidade e pode mostrar o erro e partilhar o benefício para o desenvolvimento, ao tratar-se o património com o cuidado que ele merece.
A ignorância é a raíz de muitas arrogâncias.

É PRECISO AGIR! 

Luís Filipe Maçarico (fotografias de Leomil e texto)

segunda-feira, novembro 03, 2014

Douro: A Viagem é um Texto.

Sobre o Douro há sempre uma palavra de espanto por dizer, por muito que se escreva acerca da desmedida beleza deste território.
Hoje, saí de Fontes, em Santa Marta de Penaguião, com um arco íris maravilhoso, a caminho de Juncal, Marco de Canavezes, e fui surpreendido ao longo da jornada, pelos flocos nublosos, suspensos, rente aos socalcos.
Novembro começou há pouco.
Nuvens escuras ameaçam produzir chuviscos.
Aqueles quarenta e cinco quilómetros, que distam da Régua, foram sorvidos, curva após curva, pelo olhar, como se o sangue bebesse a terra lentamente, as vinhas fulgindo, os cumes cintilando, as aldeolas salpicando a paisagem, coroada pelo rio, os véus de nevoeiro entrelaçando-se, e lá em baixo aquele novelo sinuoso de prata, derramando-se entre margens, com alturas abismais.
Cada miradouro é um romance de visões felizes, que a Natureza e o Homem escreveram em conjunto, por vezes em comunhão, outras em torvelinho.
Frende é um desses locais.
Ali termina o distrito de Vila Real. 
A serra das Meadas, do outro lado, envolta em nuvens, que deambulam sobre casarios, deixa antever as hélices das eólicas, quais asas de pássaros aprisionados no ventre das serras.
Sei de um Mestre Serralheiro de Mesão Frio, que guarda um tesouro na sua oficina, onde nascem portões para as quintas e residências dos abastados.
Que néctar precioso me deu a conhecer!
Ao prová-lo, senti os sóis e o orvalho, tatuados nas pegadas dos trabalhadores vinhateiros, gente tisnada, imortalizada na literatura, carregando os cachos, pisando as uvas, podando as vides, transportando o peso de gerações, calcurreando veredas, para o ouro desta geografia brilhar dentro dos cálices e andar nas bocas do Mundo.
O território do Douro é ele mesmo um Mundo!
Ali, em Frende, sabemos que percorrendo aquela estrofe entornada, o Mar é o limite.
Mas é aqui que escritores e povo procuram a luz mágica que se reflecte na estrada das águas, que o céu entardecido persegue.
Onde as casas são ainda de pedra e os homens conservam patrimónios familiares, gotas de cristal aveludado, fruídas entre descobertas e partilhas.
Conheço paredes de xisto, poisos de sonho, templos de deuses pagãos cristianizados, que contemplam a Terra, cercando-nos de silêncio e brandura, nas tardes de Outono, com castanheiros e videiras cor de cobre.
O petisco e o vinho unem os homens, de vozes enluaradas.
Voltamos de noite, regressando à Régua.
Os luzeiros dos lugares  rasgam o espelho da água como archotes, ou estrelas caídas, com a leveza de plumas.
Transmitem paz.
E a viagem é um texto que inspira novos voos, sobre a pele do rio...

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

sábado, outubro 25, 2014

Bem Hajas Marta Sofia, estrela das mais cintilantes!



 

No final deste sábado de Outono, uma notícia terrível surgiu no meu caminho.
Marta Sofia, uma menina linda e ternurenta, actriz com muito talento, que integrou vários elencos do Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes", partiu, quando a manhã raiava, devido a um acidente de automóvel.
Perda enorme para a família (a quem apresento a minha solidariedade), perda grande para a colectividade, para os amigos, para todos os que a conheciam e gostavam de assistir aos improvisos inteligentes e bem humorados, em palco. Ou que privavam com a jovem, que era uma força da Natureza e a todos cativava com a sua delicadeza.
Parece-me de toda a justiça que a actual direcção do GDEC estude a possibilidade de colocar a sua fotografia no Museu da Colectividade e uma placa no salão, evocativa da passagem pelo seu palco desta artista que enriqueceu a galeria dos amadores de Teatro.
Partilho nestas palavras sentidas a saudade que esta amiga deixa no percurso de todos os que com ela se relacionaram ou se deliciaram assistindo às cenas que protagonizou em diversas revistas.
Sabemos que esta noite o céu ganhou uma nova estrela, de certeza das mais cintilantes.
Sabemos que as palavras não chegam para dizer a devastadora dimensão do que sentimos.
Bem Hajas, Marta Sofia pelo rasto que deixaste neste mundo, pelo muito que nos deste.
Um beijinho muito carinhoso à Mãe Alice.

Luís Filipe Maçarico
(fotografias do arquivo do blogue "Águas do Sul")

segunda-feira, outubro 13, 2014

Elvira, Página Viva de Literatura


 
Da janela do sótão dos criados, a velha que acudiu a cinco gerações, espreita o tempo e deita o olhar no Douro serpentilíneo que o patrão escritor cantou.
Saudades tem desse senhor, que comprava tabaco para os jornadeiros dos vinhedos, a gastar a vida nos socalcos.
Saudades das falas brandas, do doutor de leis, que amou várias meninas vistosas e repartia a mesa com os servidores.
Elvira é um sol gasto de músculos e gestos tolhidos por geadas e sóis, que moldaram um rosto ainda enluarado por lágrimas de ternura, pois no lugar do coração tem uma fonte de mel. 
Elvira, nascida nestes socalcos de xisto, espera os viajantes, incautos, que pretendem conhecer a casa recuperada e inaugurada com pompa.
As primeiras palavras destinam-se a espantar os curiosos. Que não, que durou um dia a abertura da casa a um público seleccionado, com exposição de objectos, retratos, móveis e livros, como aquele "Evasão", onde o homem de teres e haveres pergunta à maneira de Brecht, quem construiu as casas, as pontes, quem trabalhou a terra para o rico ter sustento sem esforço e poder para mandar.
É uma mulher da terra, sequinha de talhe mas ainda escorreita no andar.
O mundo de Elvira, é aquela casa, com caramachão romântico enredado em arbustos e árvores e lago com peixes, por onde crianças e jovens devem ter solto gargalhadas e brincado muito.
Os seus olhos viram um corropio de personagens, as suas mãos pentearam meninos e donzelas, trouxeram meninos ao colo, ampararam anciãos, cumprimentaram visitas de gabarito.
Naquele local, onde  - no dizer de uma escritora que também por lá viveu - a casa, parece um barco encalhado, Elvira, com os seus olhos de eterna mãe protectora, é uma página viva de Literatura, entre couves e vinhas, corredores, quartos e salões, memórias e esquecimentos...
Ao longe, o seu sorriso, diz-nos adeus...

Luís Filipe Maçarico

Penaguião, 10-10-14

terça-feira, setembro 30, 2014

AVÓ TI MARIA PIRES

 

 Elas continuam vestidas de preto,
Como no poema de Eugénio.
As velhas da Beira Baixa
São girassóis nocturnos que se acendem
no sol da tarde.
Vultos gregos, oráculos, envoltos
numa caligrafia de nuvens...

Ti Pires tem uma memória prodigiosa,
cita nomes e lugares, momentos, 
numa mistura de factos 
que evaporam o tempo...

Elas continuam mergulhadas
em tecidos azeviche
Furtivos corvos na paisagem...

São ainda as musas de fotógrafos e escritores
As suas vozes ecoam
no vento da Gardunha.
São clarões de resistência, entre fraguedos.
Majestosas Deusas do silêncio.


Luís Filipe Maçarico 30-9-14

quinta-feira, setembro 11, 2014

A Tragédia da Rua dos Peixes Bicudos


Nini era filha de um guarda de passagem de nível, sem guarda, e de uma vendedeira de preservativos libelinha ( o prazer de um orgasmo com asas), escondidos entre marmelos e violetas, na canastra.
Um dia conheceu um mono, que estava morto sem saber, Mémé, da idade da sua filha Caló, que sofria de gases e ataques fulminantes, por causa de ser alérgica à Coca Cola, mas que não conseguia resistir a beber litradas daquele refrigerante, peidando-se, arregalando os olhos e vomitando chumaços de beatas lambidas nas fúrias.
Quando ficava possessa, Caló que queria ser Tójó, partia tudo o que tivesse à mão (ou ao pé).

Naquela noite os amantes desentenderam-se e Mémé aplicou um soquete na moleira de Nini, que uivou de dor. Caló estava por perto e reagiu. As goelas ficaram escancaradas a grunhir. Ouvia-se em Portimão e os pescadores tiveram de trazer os barcos para o cais, tais foram as vagas. na sequência da gritaria sobrenatural.
Umas fadistas castiças, que se preparavam para gargarejar saudades da lisboa antiga, perderam os xailes e as dentaduras, levados pela ventania de cromossomas perdidos, que irrompeu com a berraria intermitente.
O Rei dos Pipis foi empurrado, quando tentava servir uma mesa, que foi regada com sangue fresco.

Mémé fugiu para um autocarro vaivém.
A filha que quer ser filho e a mãe que esgotou as palavras simpáticas dos bêbados do bairro, tal é o pesadelo da sua aparição, foram com a ramona.
E o Rei dos Pipis seguiu no 112 para tratarem do lenho.

As cuscas ainda estão no banco das versões e a história (que parece real, que parece inventada) que vos contei, já tem tantos pontos que são mais que as mães os contos.

Esta é a Rua dos Peixes Bicudos. Como diz a vizinha do lado, janela com janela "já viu que não somos nada? Quem diria que o Rei dos Pipis havia de partir a cabeça esta noite?"

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

LFM (texto e fotos)

quarta-feira, setembro 03, 2014

Carta aos Serviços Sociais da CML


Exmos Senhores:

Tenho hesitado em responder à vossa correspondência, no sentido de filtrar a indignação e apenas reagir quando houvesse abrandamento do espanto...

Quando me remeteram uma primeira missiva (6-5-14), a qual recebi só em Junho e à beira de passar umas semanas em Alpedrinha, pois o meu correio está retido nos CTT (a sete paragens de autocarro, pois acabaram com o posto perto de casa), já não pude responder.

Lamento que desconheçam que há aposentados, que não podem ser formatados. Para meu bem estar espiritual, ainda bem que não me enquadro no vosso imaginário, sentado à espera das vossas drásticas decisões (mostrei a vossa carta à minha farmacêutica, que ficou surpreendida com a linguagem utilizada).

O facto de terem retirado os "benefícios", por não ter respondido de imediato, levou-me a fazer contas. E eu que não questionava a minha permanência, tomei a seguinte decisão:

Não contem mais comigo, pois um serviço de assistência médica, que exclui e ameaça, não merece a minha adesão.

Passem bem!

Luís Filipe Maçarico

(ex-utente de décadas 18502)



Texto e imagens de LFM