"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, janeiro 12, 2010

Minudências


Já lá vão uns anos. A Rosa Dias, o Joaquim Avó, a Ana Fonseca e o António Dias quiseram que ficasse registada a sua passagem pela Travessa dos Lagares, em Montemor-o-Novo.
Todos quiseram ver o portão das três aldrabas.
A fotografia fala de um lugar que desapareceu. O portão já não existe - nem os três utensílios, habituados a chamar quem ali morou.
Bastou quem lá residia ter vendido a casa correspondente ao portão, para um muro tapar aquela entrada e as aldrabas terem sido asfixiadas.
Terá havido nova vida para elas? Onde? Num vendedor de velharias? Na Feira da Ladra ou em qualquer feira de coisas deitadas fora?
As Câmaras Municipais não controlam estas situações do pequeno património, que é quase imperceptível...limitando-se a autorizar obras, ou seja, ao não inventariarem os objectos urbanos como as aldrabas e batentes, estão a ser coniventes, por omissão, nos permanentes atentados que se continuam a fazer, em todo o país, a estas marcas seculares, da passagem por este mundo, de artistas populares - os ferreiros. A consciência, quando existe, descansa com um exemplar ou dois num qualquer museu rural, onde jaz numa espécie de sepulcro, o que podia ser museal mas com vida.
Conseguiremos travar esta avalanche? Iremos a tempo? Vale a pena insistir, chamando a atenção, ficando "mal visto" ou sem resposta, por aqueles que têm mais que fazer do que reparar em minudências?
Luís Filipe Maçarico (texto e foto)

domingo, janeiro 10, 2010

Solidariedade e Emoção


Realizou-se hoje no local onde, desde o passado dia 5, dois associativistas se mantinham em greve de fome, um Conselho Nacional extraordinário da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, dirigido pelo professor Barbosa da Costa, presidente da Mesa do Congresso daquela instituição.
Participaram inúmeras colectividades, de Norte a Sul do país, expressando solidariedade e preocupação com os grevistas e com as razões que originaram a sua indignação.
Foi discutida e aprovada por unanimidade uma moção, proposta pela direcção da CPCCRD, através do respectivo presidente, o antropólogo Augusto Flor, que informou os presentes das 7 reuniões realizadas ao longo de 5 horas, na sequência desta acção de protesto, com as forças políticas representadas na Assembleia da República, que se comprometeram a rever a situação, agendando em sede da 8ª Comissão -Educação e Ciência, a implementação da Lei 34/2003, de 22 de Agosto, que apesar da sua aprovação unânime, nunca foi tornada realidade.
Na ocasião foram lidas mensagens de apoio, de associativistas como Aberto Pereira Ramos e da estrutura associativa dos portugueses da Alemanha, entre muitas outras recebidas.
O Conselho Nacional pediu a Carneiro e Vaz que suspendessem a sua greve de fome. Foi com emoção que este acontecimento histórico terminou, com Fernando Vaz, visivelmente comovido, tal como o se companheiro de luta, agradecendo a solidariedade, "quando a luta deixou de ser individual e passou a ser colectiva", acrescentando que "os resultados já obtidos são bastante animadores".
O associativista, ligado à Liga dos Amigos da Mina de S. Domingos, acrescentou em seu nome e no de José Carneiro que "apesar de ter sido uma decisão isolada" a greve de fome consumada pelos dois, ao longo destes dias, fora "muito responsável e convicta".
Esperemos que este exemplo - cujo eco ultrapassou fronteiras - não fique esquecido e dê os resultados almejados.

Reportagem e fotografia de arquivo de Luís Filipe Maçarico

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Fernando Vaz e José Carneiro



No Natal contactei com um amigo, que lamentou vivermos num país de mentalidade retrógrada. Falou em sair daqui, decisão que desde os anos 60 muitos portugueses têm tomado, por não suportarem as difíceis condições de vida material... Tentei dissuadi-lo, pois apesar do conservadorismo evidente, "o mundo pula e avança"... ou, pra citar um poeta que li na minha juventude: "Há sempre alguém que diz não"!

Ontem, um velho alucinado passou por mim e pelos companheiros do Associativismo Popular, em greve de fome, frente à Assembleia da República, gritando que o Governo aumentara os reformados apenas em 3 euros... ou seja, o mal estar chegou aos próprios loucos, que reagem!

O desemprego sobe todos os dias, os bons costumes mascaram a realidade, o país afunda-se, é verdade.
Mas ninguém fala dos que ainda aguentam isto. Dos que trabalham, dos que tiram à família e ao descanso para tornarem os lugares onde vivemos em nichos de maior humanidade. Com trabalho voluntário. Não são capa de revista. Não matam, não roubam, não são corruptos, não fazem notícia nas televisões, nas rádios, nos jornais.
Mas eu digo o nome de dois: Fernando Vaz e José Carneiro. Que continuam a fazer o seu protesto, neste Janeiro gelado. Homens com agá grande.

Texto e foto Luís Filipe Maçarico

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Dirigentes Associativos em Greve de Fome


Fotografia de LFM

"Levanta a fronte, levanta!

Quem ergue a fronte, levanta a voz,
levanta o sonho num facho a arder:
Ele é maior que tu e todos nós
- um mundo por nascer."

Excerto do poema "Coluna" de Luís Veiga Leitão

A notícia que hoje partilho foi enviada pela Direcção da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura; Recreio e Desporto, que começa por se afirmar "surpreendida pela iniciativa de dois dos seus dirigentes - José Carneiro - Presidente do Conselho Fiscal e Fernando Vaz - Membro do Conselho Nacional que, às 18,00 do dia 5 de Janeiro de 2010, iniciaram uma GREVE DE FOME frente à Assembleia da República, ao cimo da Avenida D. Carlos I".

Mais adiante, revela-se que "Estes dois colegas, dirigentes de longa data, exigem do Governo a definição e aplicação da Lei 34/2003 de 22 de Agosto; a resposta à proposta de apoio ao Movimento Associativo 2009/2012; a participação da Confederação no CES - Conselho Económico e Social, no CND - Conselho Nacional do Desporto, no CNPV - Conselho Nacional de Promoção do Voluntariado e exigem da Assembleia da República o agendamento e a discussão das propostas de lei apresentadas pela Confederação às quais, alguns partidos ainda não se dignaram, tão pouco, acusar recepção".

Diz-se ainda naquela informação que tal situação não poderá manter-se por tempo indefinido, carecendo de resposta e medidas imediatas por parte das entidades competentes, "pelo que a Confederação apela que no mais curto espaço de tempo seja recebida e sejam dadas as garantias que o Movimento Associativo Popular, composto por mais de 17.000 Colectividades, 260.000 Dirigentes Voluntários e Benévolos e cerca de três milhões de associados, sejam ouvidas e tidas em conta as suas opiniões e reivindicações".

A finalizar "A Confederação solidariza-se com os seus colegas Dirigentes, responsabiliza as entidades que não correspondam a este apelo desesperado, mas justo e consciente dos nossos colegas e apela a todos os associativistas, a todos os voluntários e estruturas locais, regionais e nacionais que se solidarizem com os nossos colegas, apoiando-os no local e enviando apelos aos Órgãos de Poder político, nomeadamente ao Governo, à Assembleia da República e ao Presidente da República."

Esta notícia foi enviada ontem. A sede da CPCCRD situa-se na Rua da Palma, 248, em Lisboa e podem saber mais em:

www.confederacaodascolectividades.com

www.museudascolectividades.com

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Hedy, Cidadã do Mundo



Na estrada entre Santana de Cambas e Pomarão, como um fantasma na paisagem, o velho posto da Guarda Fiscal em ruína, lembra como a verdade de ontem não tem cabimento hoje...
O contrabando que ontem proporcionava a sobrevivência de muitas famílias, era punido por vigilantes guardas, que cumpriam a lei do governo fascista, matando e prendendo os prevaricadores de então, heróis de hoje...

Esta semana completou-se meio século sobre a fuga do Forte de Peniche, de um grupo de "combatentes da liberdade". Homens que foram fundamentais para o chamado regime democrático, como Álvaro Cunhal, passaram de prisioneiros (como Nelson Mandela e tantos outros) a exemplos de lutadores coerentes por causas que transcendem o quotidiano comezinho...



Vem esta lembrança a propósito da leitura de uma notícia recente, com a judia Hedy Epstein, 85 anos, sobrevivente do Holocausto, protestando contra o bloqueio de Israel a Gaza, fazendo greve de fome.

Um dia, a Palestina será uma realidade, tal como a República Sarahoui, não obstante a enxurrada de mails que recebo conotando todos os árabes com o fanatismo terrorista e incensando as atitudes neonazis dos sionistas.
São exemplos de pessoas como esta, que nos fazem acreditar, no meio do antro de egoísmo em que o Mundo está transformado, que o Amanhã pode ser melhor!

2009 teve um final feliz com esta atitude.
Obrigado, Hedy, cidadã deste planeta onde todos sonhamos com a Paz, uns mais do que os outros...

Luís Filipe Maçarico (texto e foto do posto da GF no concelho de Mértola)

domingo, janeiro 03, 2010

Efabulações e Realidades


Durante anos, na cidade de São João de Deus, na Travessa dos Lagares, número 7, um portão muito antigo exibiu três aldrabas robustas, visitadas pelo tempo. E pelo desprezo.
Falavam de outras épocas e até de outras latitudes...
Reinventavam, ao olhar do viandante, estórias vividas ou lidas, que nos transportavam para exóticas paragens e suas lendas.
No Magrebe, por exemplo, supõe-se que terá havido o costume de usar estes três objectos para comunicar, através de um código, que era percepcionado nas habitações, consoante o som do toque, assim se sabia quem batia onde e quem era... Isto foi-me assegurado pelos guias, em Fez, ou por amigos, em Tozeur...
Há inúmeros blogues a contar essa lenda, mesmo que nunca a tenham escutado - hoje em dia copia-se o que os outros escrevem, - e é assim que alguns artigos surgem em revistas, baseando a sua "pesquisa" em textos de conteúdo romântico...
O que me diverte, é que algumas das historietas, que eu "vendi como comprei", são efabulações, repetidas até à exaustão - que começo a descobrir serem treta, por isso a minha próxima tese de mestrado vai pôr em causa um desses mitos...
Mas eu falava do portão de Montemor-o-Novo.
2009 teve o desmérito de ser o ano em que foi desmantelado este portão, que a foto mostra, e que mãos destruidoras deixaram um muro de silêncio, com uma portinha envergonhada, no lugar onde a imaginação respirava.
2009 foi também ano para vários atentados ao património na Travessa da Trabuqueta, aqui na freguesia dos Prazeres, Lisboa. Nas portas onde existiram entradas de madeira, triunfante, impera uma bebedeira de alumínio castanho, emblema da estupidez ostensiva de um povo ignorante, governado quase sempre por ministros e autarcas, que se estão nas tintas para minudências, mas que também não resolvem os grandes problemas.
2009, tal como 2010, porque nestas coisas não estou optimista, foi mais um ano em que muitas portas de saberes fazer se fecharam para sempre, escancarando-se as da mediocridade, da falta de bom gosto e sem beleza.
Estamos na era da Arte de esmagamento do que é tradicional e tem história.
Num mundo assim, eu não quero viver!
Luís Filipe Maçarico

Regresso à Cidade






Retorno aos sítios da minha infância e a um quotidiano com mais de meio século. Assim começa 2010...
LFM