"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

LUTAR ATÉ MORRER


Antes de Abril acompanhou-me algumas vezes, em casa de amigos, na partilha de um disco novo, raras vezes na telefonia...
A revista Mundo da Canção publicava letras de canções suas, as melodias iam-se enraizando no quotidiano...
Faz-nos falta.
Vi-o no Coliseu, quando deu um memorável concerto, de despedida. Nunca amoleceu, mesmo quando a doença o dilacerava.
Talvez por isso hoje, dia do seu falecimento, a RDP o tenha lembrado, com 19 canções, hora a hora. Pena é que não passe mais música dele no resto do ano.
São 23h 15 e volto a ouvi-lo, como naquela noite emocionante do Coliseu:
"águas das fontes calai
ó ribeiras chorai
que eu não volto a cantar!"

Intemporais, os "Vampiros"estão actuais, tal como "Vejam Bem", "A Morte Saiu à Rua", "Venham Mais Cinco", porque enquanto a sacanisse imperar, o silêncio é cobardia.

A sua música, as suas palavras, a sua respiração criativa fazem-nos falta. Numa época de terrorismo laboral, por parte de quem manda, José Afonso lembra que lutar-até morrer- é um verbo, uma postura, que não se pode arrumar.

A Criança Que Eu Fui


Continuo a descobrir imagens dos meus primórdios nos baús da saudade.
Hoje, apresento-vos o Luisinho, que andava de triciclo na Praça da Armada e sentado no beiral da janela sonhava com viagens , que felizmente foi possível fazer.
Muito gostava eu de fazer beicinho...detestava ser fotografado, esse era o problema!
A propósito do tempo da infância, publiquei um livro de contos, que um dia destes referirei, chamado "Degraus", que a Universitária Editora produziu.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes"- 100 Anos de Criatividade


Em 1997, na segunda festa das colectividades de Lisboa, com o Jorge Rua de Carvalho e com o Jorge Neves, interpretei um pequeno papel, numa revista idealizada a três, que se chamou "O Teatro Segue Dentro de Momentos", através da qual o Grupo Dramático e Escolar "Os Combatentes" marcou uma boa presença.
Duas décadas depois de ter fundado (1978) um grupo amador na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, voltei a fazer teatro sobre um palco.
Nos "Combatentes" apresentei vários livros, participei em "Noites de Música e Poesia", fiz parte dos corpos sociais durante alguns anos.
Este ano, a colectividade que tem um historial notável, faz cem anos. Por lá passou Arthur Duarte, o cineasta, Tony de Matos, Aida Baptista, Maria Clara, o poeta Sidónio Muralha. E inúmeros atletas de modalidades tão diversas como o boxe, o ciclismo, o basquetebol, o hóquei em campo, o karaté.
Nas colectividades, a cidade humaniza-se, pela possibilidade do encontro, da partilha, da entreajuda, do convívio inter-geracional.
Quando uma casa destas sobrevive aos mais variados obstáculos e se torna centenária, é tempo de celebrar todos os que ajudaram na escola, no desporto, no recreio, na cultura, no dia a dia.
Lurdes Pinheiro, a presidente da direcção de 2006, foi aluna da escola, festejou as bodas do seu casamento no salão da colectividade e já pertenceu a anteriores direcções. Além da gratidão que tem para com a casa que a ensinou a ler, fez uma promessa a um antigo dirigente, que entretanto faleceu, de conduzir as actividades durante este ano. Rodeou-se de gente decidida a trabalhar em prol destes "Combatentes" que nasceram em Setembro de 1906 para combater o analfabetismo.
Em meados dos anos 90 do século passado um grupo de associados criou o museu da colectividade e a par da Lisboa 94 tornou-se famoso o grupo dos Pregões de Lisboa.
Na Arruda dos Vinhos, em Alpedrinha, nos mais diversos locais de Lisboa, a Lavínia, a Paula, o Luisito, os Jorges e mais um punhado de actores amadores elevou bem alto, pela qualidade do desempenho, o nome dos "Combatentes". A hilariedade que este grupo consegue nas suas actuações é um belo trunfo. Esta colectividade está cheia de histórias magníficas para contar.

domingo, fevereiro 19, 2006

Intervalo-IV


Memória de uma das viagens que fiz pela Europa, passando por Veneza. Tinha entrado nos "intas" há poucos anos...

"Diários de Motocicleta"




Walter Salles realizou "Diários de Motocicleta", com um ritmo e uma sensibilidade que desempenhos e imagens comprovam tratar-se de um trabalho de mestria.
A fantochada dos óscares atribuiu-lhe o prémio de melhor canção original, o que não espanta, pois Che Guevara, o personagem central da película foi assassinado nas florestas da Bolívia pela CIA.
Gael Garcia Bernal é excelente no papel de Ernesto Che Guevara, com 23 anos, quando era estudante de medicina e decidiu fazer uma viagem de muitos milhares de quilómetros em motocicleta, com um amigo formado em bio-química. Rodrigo de la Serna, na vida real primo em segundo grau de Guevara, é Alberto Granado, o amigo que Che convidou quando já era o mítico comandante da revolução cubana, para viver em Havana.
Os dois atravessaram países, rios, montanhas, para descobrir no Perú uma colónia de leprosos e mais não digo, porque participamos na revelação emocionante da construção de uma identidade. O filme segue de perto o que ambos escreveram, a propósito desta intensa e belíssima viagem, com um rigor que registou a participação do próprio Granado, bastante idoso, mas "muito jovem de espírito" vindo de Cuba, para acompanhar as filmagens como consultor.
Se gostam de cinema, vejam esta obra, que já existe em DVD, acompanhada pelo documentário das filmagens, que é outro filme dentro do filme, a não perder.

sábado, fevereiro 18, 2006

"Memórias do Contrabando em Santana de Cambas"- A Opinião de Sónia Frade


É com imenso prazer que partilho o texto que a antropóloga Sónia Tomás Frade (fundadora, membro da direcção da Aldraba, empenhado elemento do Grupo de Trabalho Adeodato Barreto) apresentou, durante o inesquecível lançamento do livro "Memórias do Contrabando em Santana de Cambas",em 17 de Dezembro de 2005:

"Quero começar por saudar todos os que estão aqui presentes e agradecer o amável convite que me foi feito para apresentar a obra “Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – um contributo para o seu estudo”, editado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Uma obra fundamental e um contributo valioso ao estudo aprofundado do contrabando, prática que faz parte da identidade dos povos da região da Raia.

Quero saudar também, com bastante apreço,a junta de freguesia de Santana de Cambas, que com este projecto, tem por objectivo não deixar morrer a memória de um povo, da sua identidade e do seu património, infelizmente, pouco comum no nosso país.

Por último, quero dar os meus parabéns ao Luis Filipe Maçarico, Antropólogo, Poeta, amigo e autor da obra, pela sua firmeza em gravar na escrita as nossas tradições, os nossos costumes, o nosso património, e ofereço-lhe, com muita humildade, um singelo verso do seu poeta, Eugénio de Andrade “(...) o sonho é sempre verdadeiro se no exílio a voz foi de coragem.”

Este livro é o resultado das memórias de um povo, é o retrato de uma época de sofrimento, mas também de arrojo, de risco e de aventura. São narrativas que já fazem parte do imaginário das pessoas que, tal como eu (no meu caso relacionadas com o contrabando praticado pelo mar), cresceram a ouvir histórias rocambolescas, quase inacreditáveis mas acima de tudo, reais.

O contrabando é parte fundamental na história e na cultura das terras no limiar da fronteira. As suas práticas modificaram a estrutura económica e a realidade social. Quando a fome e a miséria desabou sobre a raia, muitos emigraram, enquanto os que ficaram tentaram sobreviver dedicando-se ao contrabando.

Durante gerações foi o principal sustento das suas gentes. Foram muitos exercícios diários de carrego às costas, de iludir a guarda fiscal e os carabineros por caminhos escuros e sinuosos, de perigos até da própria vida, e tudo isto para alimentar e criar os filhos, para continuar simplesmente a existir. Histórias de vidas de fortuna mas também de vidas atingidas pelos limites da sobrevivência. Não existe povoação na zona da Raia, que não traz à memória histórias de sofrimento, em busca de mercadorias que lhe trazia o sustento.

Do contrabando e da sua dimensão social nasce outro fenómeno: a cumplicidade e a intimidade com o “outro lado”, expressão usada pelo autor, o outro lado da fronteira. Exerce uma influência profunda nas relações sociais entre os povos da Raia.

Estas relações económico-sociais foram fortalecidas e complementaram-se, inclusive nos padrões culturais, sendo até possível de falar de uma cultura de fronteira. Segundo a professora e Antropóloga Paula Godinho, a identidade fronteiriça apoia-se em relações ilegais, de risco e em memórias (fulcrais) da fome.

Não existem muitos estudos sobre o contrabando, e são raros os investigadores sociais que se têm debruçado pelo assunto. Assim sendo, este livro tem o mérito de ser um projecto pioneiro no concelho de Mértola e de abrir as portas para futuros trabalhos de recolhas e de investigação que são fundamentais para a preservação da história social, cultural e económica da raia alentejana.

Toda a zona raiana é um museu vivo repleto de histórias de contrabando que passaram de geração em geração. É essa a memória oral que deve e tem que ser preservada.

E são essas recordações de um mundo e de um tempo tão adverso que o Luis tornou eternas.

Termino com um depoimento retirado do livro, que penso ser a melhor forma de contextualizar o que disse anteriormente.

“A minha mãe ficou viúva com trinta e oito anos, era mãe de seis filhos, a mais velha com dezassete anos e o mais pequeno, de dezasseis meses. A minha mãe, a maneira que arranjou de ganhar o sustento para nós, trabalhava para um lavrador que estava aqui na terra – Montes Altos – amassava o pão, ia à ribeira lavar a roupa e ia ao contrabando.

A minha mãe levava café, açúcar. De tudo um pouco. Mas mais o café. Porque a Espanha nessa altura, foi quando a guerra civil, estava numa miséria. E depois traziam calçado de borracha, daquela sola que parece corda. Alpergatas! A minha mãe deve ter feito contrabando, ora à volta de uns oito anos. E passavam três ribeiras: Chança, Malagão e Cúbica, com a água debaixo dos braços, quando chovia muito. Tinham pontos onde elas podiam passar, eram pessoas cheias de coragem!”

Sónia Tomás Frade

Querida Sónia: Bem Hajas por esta partilha e sobretudo pelas tuas palavras amigas, que me visitam com regularidade, transmitindo-me coragem, estímulo para fazer mais e melhor.
Retribuo desta forma, que sendo singela é sincera, pois no meu vocabulário comportamental não há lugar para salamaleques e adulação. Há quem diga até que sou um bocado "bota abaixo", talvez por neste país ser bastante apreciada e premiada a postura do "deixa andar", do fingir que não é nada connosco, chacun que se amanhe, etc.
Sónia: Gosto de ti, do teu trabalho, da tua postura humana e da partilha de conhecimentos que diariamente demonstras saber fazer. É por isso que tens um lugar grande no coração deste teu amigo.
(foto de JF)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

"Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-A Opinião de António Elloy


“Memórias do Contrabando em Santana de Cambas”, de Luis Filipe Maçarico é um documento notável. Porque faz um registro detalhado, antropológico, de algumas dezenas de informantes, das suas histórias, das suas angustias. Porque recolhe estórias da nossa literatura sobre o contrabando e assim abre um capítulo de estudo da história sobre as estórias deste.Num livro cuidadosamente apresentado, com uma bonita capa e um texto lindo de Miguel Rego em introdução, Luís Maçarico fornece-nos ao seu estilo escorreito, que mesmo em prosa faz a luz que da poesia emana, um documento precioso sobre as memórias do contrabando.As memórias são, há que dize-lo, muitas vezes invenções sobre a história e destas tem que se tirar ilações com luvas de pelica, destas tem que se deixar assentar a poeira para fazer história. A história do contrabando ainda está por fazer, o seu enquadramento e definição.Este é um importante levantamento antropológico e um belo escrito de estórias.A outra história, a história das relações sociais de produção, das lógicas econômicas, da interligação do poder político, da organização do Estado, da função punitiva deste sobre um quadro legal, e numa lógica de direito, essa ainda falta escrever. Essa terá que resultar de um confronto com outras realidades locais e de uma discussão sobre o fazer história.Essa terá que passar sempre por esta pequena pérola do Luís.Para que com esta façamos sentido contribuiremos."
António Elloy, in INSIGNIFICANTE