"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sexta-feira, junho 04, 2010

UM POMBO COM SORTE


















Continua a ser um bichinho indefeso, mas sôfrego de vida, a caminho das seis semanas ao meu lado...
Tenho falado muito dele na minha página do Facebook, porém, apercebi-me que no "Águas do Sul"faltava mais informação sobre o Kiko.
O animal que me caiu pela chaminé num dia de trabalho e que atabalhoadamente coloquei com pão e água na varanda, indo trabalhar com má consciência, pensando que era mais um que ia morrer, e ainda por cima, naquele dia com temperatura de esturricar humanos e bichos...está em boa forma, já socializou com outros pombos, quiçá parentes, e, quando eu pensava que tinha chegado a hora de dizer adeus e quase lacrimejava por causa da separação, eis que ele regressa , vai e volta, qual filho pródigo para dormitar uma sesta no meu braço.
Talvez tenha ralhado comigo quando me bicou nos dedos (ou queria que lhe desse mais broa desfeita na mão?) Percebo pouco de pássaros...estou a fazer uma formação intensiva, tentando captar os sinais que este novo amigo emite.
E enquanto o país protesta contra toda a sorte de injustiças e desdenha de certas medidas de pseudo combate à crise, depois do dia nacional das colectividades e da criança, acontecimentos que não assinalei, cansado da minha vida de cansaços, eis que o Kiko vem dormir a casa, procura-me para vomitar "karias" que comeu na rua e bater sorna, subir para o meu ombro, falar comigo, envolver-me...
Ontem quando saí para ir ao café e à mercearia, fui com o coração nas mãos. Teria perdido o amigo, agora a vadiar, naquela liberdade que tanto desejei para ele...?
Ainda esta manhã antes de eu sair, com o bico bateu na janela da varanda, para o deixar entrar... então o kiko subiu para o meu ombro, piando, com enorme desfaçatez...
A varanda, a casa é o seu ninho e o Luís o pai-humano maternal, que há seis semanas tinha imensos preconceitos contra esses ratos com asas mais as doenças que podem provocar...
Como se costumava dizer em linguagem popular das mulheres de Alcântara, neste bairro onde cresci (no parapeito de uma janela, sonhando voos para lá daquele mar quase à porta, menino pombo de Lisboa), paguei com a língua...esta língua meiga, que também sei usar, para falar de uma amizade, tão natural quanto estranha, tão delicada como inquieta, tão eufórica, que chega a ser melancólica...
Antigamente, desciam Pais Natais e Meninos Jesus pela chaminé, agora são pombos, orfãos, frágeis, assustadiços, caídos do ninho, numa maré de fuligem e susto. Sem saber o que os espera depois da queda...
Este teve a sorte de conhecer um pai chamado Luís.
Texto e fotos de Luís Filipe Maçarico

5 comentários:

paula disse...

olha luís,é uma história linda que também a mim me comoveu.Os animais são fantásticos.para além de tudo,escreves mto bem.gostava tanto que o nosso querido camarada e meu querido primo lê-se esta prova de amor.Estou a referir-me a MANUEL DA FONSECA.Continua a ser assim.um beijo grande.paula

REPENSAR disse...

Caro luís os meus parabéns pelo texto que nos faz viver a situação e tb. pelas lindas fotos.A minha preferida é aquela em que ele está aninhado no seu pescoço ,)

Mar Arável disse...

Uma bela história

para um pai sensível

Abraço

Ezul disse...

Olha o Kiko, com o seu olhar de espanto como é o de todos os meninos pássaros gatos pessoas que olham o mundo como quem vê apenas a verdade e a beleza da vida!Semore senti que é nesse olhar que nos encontramos com o universo, tão desfeito que fica o egocentrismo humano! É por esse olhar que sabemos também ser ave e felino e, por isso mesmo, ser gente!
Muitos sorrisos para os dois!
:))

rosa disse...

Nunca digas!
" Desta agua não beberei"
É assim meu amigo, o que muda não é o mundo!...
Mas sim a forma com que nós o olhamos...
Está tudo aí!
O Céu
O Homem
A Natureza
Repara que o Homem está no meio! Porque será?
Talvez porque tenha que estar em sujeição, às duas obras mais importantes, Céu e Natureza.
O ser humano foi beneficiado em muitas coisas, o seu olhar tem uma das lentes mais perfeitas que existe em qualquer ser vivo, e sem que tenha que mudar de lentes pode visualizar tudo do maior ao mais pequeno pormenor.
Desta feita calhou-te a ti olhares um simples pombo com os olhos da alma, tornando importante aquilo que antes até desprezavas.
Obrigada amigo por continuares a olhar esta tua amiga com os olhos do coração.
Aquele abraço da amiga certa
Rosa