"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sexta-feira, março 14, 2008

Dulce Gouveia: Perfil de uma Nadadora Mítica*




Na História Desportiva de Moçambique, está por escrever a página que eternize Dulce Gouveia, nadadora de excepção que representou o Grupo Desportivo Lourenço Marques, onde nadou dos 5 aos 25 anos.

Na galeria das glórias do Desporto Nacional, Portugal deve consagrar este exemplo de perseverança, dedicação e mérito, que originou um desempenho de qualidade internacional, distinguido com o Prémio de Imprensa de 1967, na categoria de melhor Atleta do Ano.
Dulce Gouveia foi chamada para a selecção nacional, tendo nadado no Brasil, Itália, Inglaterra, Espanha e em vários países de África.

Quando se fala no seu nome junto de pessoas da sua geração, é como se disséssemos uma palavra mágica, através da qual renasce a simplicidade e a simpatia da rapariga de 14 anos, que se destacou na inauguração da piscina dos Olivais, no Torneio das 6 Nações e nos Jogos Luso-Brasileiros.
Dulce Miranda Gouveia confessa: “Considero que tive três privilégios: Ter nascido e vivido em Moçambique, ter os pais que tenho e ter tido o treinador e mestre Eurico Perdigão. Estas três conjugações fizeram aquilo que eu sou hoje.”
Eurico Perdigão “foi treinador, pai, amigo, professor, psicólogo; os pais confiavam plenamente. Organizou e disciplinou.”

Em Agosto de 1967, o “Record” afirmou que Dulce Gouveia era “A melhor de sempre da Natação Feminina”: “Veio provar de forma concludente que, com trabalho e método, cumprindo um programa em profundidade, é possível elevar o nível da nossa natação feminina.” (5/8/67, p.5).
Quando foi eleita a Melhor Atleta do ano, o “Norte Desportivo” divulgou opiniões de vários jornalistas, nomeadamente de Manuel Dias, que escreveu: “A graciosa desportista fez uma verdadeira monda de “records” e vale, agora, como exemplo (…) do que se pode conseguir com treino e entusiasmo.” (24/12/67, p. 8). Na mesma edição daquele periódico, Vasco Resende aclamou-a, profetizando: “Numa modalidade em que raramente conseguimos sair do “fundo” (…) bateu uma chusma de “records” preparando-se para continuar essa interminável série que a levará até onde talvez nunca nenhum nadador lusitano chegou.”

Quarenta anos depois, Dulce Gouveia recorda: “Fazia várias modalidades, fiz sempre paralelamente basquetebol e natação.” O que lhe permitiu estar sempre em forma e disputar com êxito inúmeros torneios nacionais.
Dulce fez o curso de Educação Física em Moçambique. Noronha Feio era director da Escola e, entre os professores estavam Teotónio Lima, António Vilela, Tanagra de Medeiros e Hermínio Barreto. Professora em Moçambique, Tábua, Cascais, S. João e Monte Estoril, Parede, Malveira e Cacém, organiza há 26 anos o almoço dos ex-nadadores de Moçambique e gaba-se de ter feito “grandes amizades com rivais.”
Quando chegou a Lisboa, lembra-se de ter sido insultada, por vir de fato de treino…” Parava tudo por nos verem em fato de treino, ninguém andava assim. Trouxemos esse hábito e ficámos estupefactos de vir para a Europa e, em vez de encontrar uma mentalidade aberta, foi um choque. Era vergonhoso, era quase como andar de ceroulas, roupa interior.”

Na sua memória está patente um episódio ocorrido durante os Jogos Luso-Brasileiros:
“Aterrámos em Belém. Torci o pé, cheguei desgostosa, levaram-me a um médico, a prova era dali a dois dias…engessaram o pé…dois dias depois vou tirar o gesso, aflita, não tinha treinado, à tarde bato o recorde! Foi o fim-de-semana em que o Homem chegou à Lua! Pararam as provas (eles faziam o relato), a banda começou a tocar e gritaram: “O homem chegou à lua! O homem chegou à lua!”
Dulce Gouveia sorri com o mesmo ar de miúda serena e laboriosa dos recortes de jornais antigos. Quantos aplausos, vitórias e alegrias embalaram o seu coração, proporcionando uma caminhada sem sobressaltos?
Agora, Dulce é essa mulher que posa com o Tejo em fundo, soltando o sorriso da menina feliz, que um dia atravessou oceanos trazendo recordações, afectos e sonhos. Para enfrentar as marés da existência, com a sabedoria que emerge nos gestos e no olhar.

Luís Filipe Maçarico (texto)
Maria Clara Amaro (fotografias)
* Publicado na página 8 da edição nº 30 do quinzenário "Conversas de Café" (29 de Fevereiro de 2008)

6 comentários:

encarna disse...

E verdade Dulce eu estava la, quando aconteceu o acidente em Belem do Para. Como o tempo passa.
Um abraco amigo Encarnacao

Manuela disse...

Olá Dulce. Tomei esta liberdade, para saber se por acaso sabes do paradeiro da Isabel Ferreira Carvalho, pois a minha irmã Filó é muito amiga dela e gostaria de contacta-la. Lembro-me perfeitamente de ti do desportivo. Também andamos lá. Obrigada pela atenção. Nela

Ignacio Martinez Sela disse...

Eu não falo Português, (este era um tradutor de internet), mas gostaria de salientar que nadou e venceu uma corrida em águas abertas na Espanha, em Navia. Embora este link aparece no ano de 1969. http://www.rianavia.com/historico/historico-ganadores/ganadores-descenso/

Gostaria de entrar em contato com ela para ver ur lembra da concorrência. Saudações de Navia (Espanha)

Ignacio Martinez Sela disse...

Eu não falo Português, (este era um tradutor de internet), mas gostaria de salientar que nadou e venceu uma corrida em águas abertas na Espanha, em Navia. Embora este link aparece no ano de 1969. http://www.rianavia.com/historico/historico-ganadores/ganadores-descenso/

Gostaria de entrar em contato com ela para ver ur lembra da concorrência. Saudações de Navia (Espanha)

Rafael da Graça disse...

Era miudo, andava na natação do Desportivo e lembro-me muito bem de si a sua irmã e o meu pai conversa muito com o Eng.º Gouveia no Futebol, Basket e Hoquei, pois ambos iam a praticamente todas, e eu como filho, porque gostava, também o acompanhava sempre que podia. Dê uma abraço ao seu pai.

Custódio Rafael da Graça

Rui Pinto disse...

Só posso acrescentar, foi de facto uma nadadora " Mítica " ímpar , uma mais valia para o desportista natação.
E uma simpatia enquanto pessoa.0