"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, setembro 06, 2004

Setembro

Setembro é um mês estranho...
Em 88, quando me preparava para partir para Cabo Verde, adoeci com uma hepatite e no dia 14 passei as passas no hospital modelar de S. Francisco Xavier, onde me deram, segundo a Liliana, as análises de um moribundo, trocando com ele as minhas...enquanto jogavam no computador.
A temperatura tinha subido aos 38 graus e o caos da dor nas urgências foi algo que tenho pudor em partilhar.
Setembro foi todavia mês de esperança.
Convalescente, recuperei e voltei à luta de todos os dias.
Setembro é agora o tempo da feira da transumância em Alpedrinha, festa de chocalhos e de transmutação de uma terra mágica em transcendente, graças à criatividade e entusiasmo dos seus habitantes...
Setembro era o tema de uma canção de Madalena Iglésias, que tinha esta quadra surpreendente, cujo poema completo não consigo encontrar em lado nenhum:
"Setembro desfolhou-se
Numa agonia lenta
Eu esperava Setembro
Para voltar a ver-te!"
Setembro é mês de vindimas. Mês de espera pelo vinho e pela transformação da vida.
Em Setembro os socalcos do Douro protagonizam o clímax de uma paisagem povoada de pernas e braços campesinos em movimento...
Quem dera ser ave para, entre a luz do fim do Verão e a dourada cabeleira das árvores, poupadas à inquisitoriais fogueiras de mais um Julho maldito, poder juntar a voz ao canto colectivo que anima as encostas durienses...
Gostava de mergulhar os olhos num rio de ternura.
Mas tal como na canção, a espera é estéril e como o quotidiano, dia após dia, se apresenta cheio de ruído e tragédia, apenas anseio a carícia de uma harpa de sol e a graciosidade de um grãozinho de silêncio...


3 comentários:

anjoazul disse...

Pois é, meu amigo, não sei se é da idade ou da maturidade (que é uma forma mais suave de falar da primeira), também eu já dei por mim a sonhar com Setembro em pleno Agosto. Hverá alma mais serena do que a que acompanha a véspera do Outono?

otraque disse...

Difícil convalescença a de Setembro de 88. Meu Deus, quanta ingratidão não ser lembrada, neste nostálgico momento a fabulosa Junta de Bardamédicos que com a sua mézinha milagrosa receitada com todo o esmero salvou o digníssimo escriba daquele e de muitos outros males. Melhorou muito, mas a convalescença seria menos dolorosa e mais rapidamente teria recuperado se como bom paciente tivesse seguido com desvelo os doutos conselhos daquela ínsigne e internacionalmente conceituada Junta Bardamédica. Olhe que o DUREX Gotas ainda hoje continua a fazer milagres.

P.S. Continuamos ao seu dispôr para acudi-lo em todos e quaisquer momentos de aflição. Lembre-se que detemos a patente dos melhores remédios para os mais variados males, na senda alíás do já referido Milagroso Durex Gotas.

Laura Garcez disse...

Há coisas engraçadas. Por vezes, certas circunstâncias são associadas a músicas que contragosto nos vêm à mente.

Eu, por exemplo, sempre que penso em Alcácer do Sal, ponho-me logo a cantarolar "Em Alcácer eram verdes..." do Carlos Mendes.

Quando chega Setembro, invariavelmente me lembro da canção da Madalena Iglésias, que na infância ouvi num programa de variedades na TV.

Também eu me fartei de procurar na Net pela letra dessa canção e nada. Contudo, a parte da canção que canto é outra:

"Setembro chegou
vestido de flores silvestres
com as frutas maduras
e os braços nús agrestes."

Portanto, se mais alguém souber mais alguma parte da canção, és capaz de a conseguir completa.