"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"
domingo, fevereiro 19, 2006
"Diários de Motocicleta"



Walter Salles realizou "Diários de Motocicleta", com um ritmo e uma sensibilidade que desempenhos e imagens comprovam tratar-se de um trabalho de mestria.
sábado, fevereiro 18, 2006
"Memórias do Contrabando em Santana de Cambas"- A Opinião de Sónia Frade

"Quero começar por saudar todos os que estão aqui presentes e agradecer o amável convite que me foi feito para apresentar a obra “Memórias do Contrabando em Santana de Cambas – um contributo para o seu estudo”, editado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Uma obra fundamental e um contributo valioso ao estudo aprofundado do contrabando, prática que faz parte da identidade dos povos da região da Raia.
Quero saudar também, com bastante apreço,a junta de freguesia de Santana de Cambas, que com este projecto, tem por objectivo não deixar morrer a memória de um povo, da sua identidade e do seu património, infelizmente, pouco comum no nosso país.
Por último, quero dar os meus parabéns ao Luis Filipe Maçarico, Antropólogo, Poeta, amigo e autor da obra, pela sua firmeza em gravar na escrita as nossas tradições, os nossos costumes, o nosso património, e ofereço-lhe, com muita humildade, um singelo verso do seu poeta, Eugénio de Andrade “(...) o sonho é sempre verdadeiro se no exílio a voz foi de coragem.”
Este livro é o resultado das memórias de um povo, é o retrato de uma época de sofrimento, mas também de arrojo, de risco e de aventura. São narrativas que já fazem parte do imaginário das pessoas que, tal como eu (no meu caso relacionadas com o contrabando praticado pelo mar), cresceram a ouvir histórias rocambolescas, quase inacreditáveis mas acima de tudo, reais.
O contrabando é parte fundamental na história e na cultura das terras no limiar da fronteira. As suas práticas modificaram a estrutura económica e a realidade social. Quando a fome e a miséria desabou sobre a raia, muitos emigraram, enquanto os que ficaram tentaram sobreviver dedicando-se ao contrabando.
Durante gerações foi o principal sustento das suas gentes. Foram muitos exercícios diários de carrego às costas, de iludir a guarda fiscal e os carabineros por caminhos escuros e sinuosos, de perigos até da própria vida, e tudo isto para alimentar e criar os filhos, para continuar simplesmente a existir. Histórias de vidas de fortuna mas também de vidas atingidas pelos limites da sobrevivência. Não existe povoação na zona da Raia, que não traz à memória histórias de sofrimento, em busca de mercadorias que lhe trazia o sustento.
Do contrabando e da sua dimensão social nasce outro fenómeno: a cumplicidade e a intimidade com o “outro lado”, expressão usada pelo autor, o outro lado da fronteira. Exerce uma influência profunda nas relações sociais entre os povos da Raia.
Estas relações económico-sociais foram fortalecidas e complementaram-se, inclusive nos padrões culturais, sendo até possível de falar de uma cultura de fronteira. Segundo a professora e Antropóloga Paula Godinho, a identidade fronteiriça apoia-se em relações ilegais, de risco e em memórias (fulcrais) da fome.
Não existem muitos estudos sobre o contrabando, e são raros os investigadores sociais que se têm debruçado pelo assunto. Assim sendo, este livro tem o mérito de ser um projecto pioneiro no concelho de Mértola e de abrir as portas para futuros trabalhos de recolhas e de investigação que são fundamentais para a preservação da história social, cultural e económica da raia alentejana.
Toda a zona raiana é um museu vivo repleto de histórias de contrabando que passaram de geração em geração. É essa a memória oral que deve e tem que ser preservada.
E são essas recordações de um mundo e de um tempo tão adverso que o Luis tornou eternas.
Termino com um depoimento retirado do livro, que penso ser a melhor forma de contextualizar o que disse anteriormente.
“A minha mãe ficou viúva com trinta e oito anos, era mãe de seis filhos, a mais velha com dezassete anos e o mais pequeno, de dezasseis meses. A minha mãe, a maneira que arranjou de ganhar o sustento para nós, trabalhava para um lavrador que estava aqui na terra – Montes Altos – amassava o pão, ia à ribeira lavar a roupa e ia ao contrabando.
A minha mãe levava café, açúcar. De tudo um pouco. Mas mais o café. Porque a Espanha nessa altura, foi quando a guerra civil, estava numa miséria. E depois traziam calçado de borracha, daquela sola que parece corda. Alpergatas! A minha mãe deve ter feito contrabando, ora à volta de uns oito anos. E passavam três ribeiras: Chança, Malagão e Cúbica, com a água debaixo dos braços, quando chovia muito. Tinham pontos onde elas podiam passar, eram pessoas cheias de coragem!”
Sónia Tomás Frade
Querida Sónia: Bem Hajas por esta partilha e sobretudo pelas tuas palavras amigas, que me visitam com regularidade, transmitindo-me coragem, estímulo para fazer mais e melhor.
Retribuo desta forma, que sendo singela é sincera, pois no meu vocabulário comportamental não há lugar para salamaleques e adulação. Há quem diga até que sou um bocado "bota abaixo", talvez por neste país ser bastante apreciada e premiada a postura do "deixa andar", do fingir que não é nada connosco, chacun que se amanhe, etc.
Sónia: Gosto de ti, do teu trabalho, da tua postura humana e da partilha de conhecimentos que diariamente demonstras saber fazer. É por isso que tens um lugar grande no coração deste teu amigo.
(foto de JF)
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
"Memórias do Contrabando em Santana de Cambas-A Opinião de António Elloy

“Memórias do Contrabando em Santana de Cambas”, de Luis Filipe Maçarico é um documento notável. Porque faz um registro detalhado, antropológico, de algumas dezenas de informantes, das suas histórias, das suas angustias. Porque recolhe estórias da nossa literatura sobre o contrabando e assim abre um capítulo de estudo da história sobre as estórias deste.Num livro cuidadosamente apresentado, com uma bonita capa e um texto lindo de Miguel Rego em introdução, Luís Maçarico fornece-nos ao seu estilo escorreito, que mesmo em prosa faz a luz que da poesia emana, um documento precioso sobre as memórias do contrabando.As memórias são, há que dize-lo, muitas vezes invenções sobre a história e destas tem que se tirar ilações com luvas de pelica, destas tem que se deixar assentar a poeira para fazer história. A história do contrabando ainda está por fazer, o seu enquadramento e definição.Este é um importante levantamento antropológico e um belo escrito de estórias.A outra história, a história das relações sociais de produção, das lógicas econômicas, da interligação do poder político, da organização do Estado, da função punitiva deste sobre um quadro legal, e numa lógica de direito, essa ainda falta escrever. Essa terá que resultar de um confronto com outras realidades locais e de uma discussão sobre o fazer história.Essa terá que passar sempre por esta pequena pérola do Luís.Para que com esta façamos sentido contribuiremos."
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Mértola, O Último Porto do Mediterrâneo



"Mértola, O Último Porto do Mediterrâneo" obra monumental, dividida em três volumes, é o resultado de duas décadas de trabalho estimulante no terreno, escavando um chão repleto de tesouros e de respostas para perguntas pertinentes, respostas essas que certamente também passaram pela observação e interpelação da peculiar forma de estar do povo.
Consequência de imensa pesquisa, inúmeras reflexões, intensos registos, este livro foi apresentado pelo vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, pelo presidente da Câmara Municipal de Mértola, pelo orientador do arqueólogo, pelo director do Campo Arqueológico de Mértola e pelo autor, que de uma forma muito envolvente passou em revista o percurso que originou este documento fundamental para o conhecimento da bela terra do Baixo-Alentejo.
Terminou o investigador - que é, desde Outubro, vereador na Câmara de Moura - dizendo: "O futuro está à esquina".
Ficaram também na memória as palavras de Cláudio Torres, que reafirmou o empenho do Campo Arqueológico de Mértola no estreitamento de laços com os povos magrebinos, numa altura em que as portas que se foram abrindo estão agora a ser mediatizadas pelos piores motivos.
O evento terminou com um beberete, que incluía um tinto excelente, acompanhado por espetadas de tâmaras com rodelas de banana, entre outras iguarias de chorar por mais, que desapareceram num ápice.
A lua crescia ao lado do castelo e apesar da noite fria e ventosa soube bem ser embalado pelas ruas de Lisboa, no regresso a casa, com estórias à mistura e uma grande satisfação por poder ter estado ali e ter convivido com amigos com quem sabe sempre bem partilhar as pequenas grandes coisas do quotidiano. Obrigado Santiago!
(fotos de LFM)
domingo, fevereiro 12, 2006
Blogue da Aldraba Fez Um Ano

O primeiro texto começava assim: "É uma associação que está a ser pensada há três meses. À volta desta ideia, nascida em Novembro de 2004 e semeada em Montemor-o-Novo num almoço festivo, com duas dezenas de entusiastas, várias simpatias se manifestaram. Dia 3 de Fevereio reunem 7 dos semeadores, indicados pelos outros para tratarem dos preparativos para a festa maior que é concretizar o sonho."
Um ano na vida de um blogue é algo que merece ser celebrado. No caso deste, tem servido para divulgar as iniciativas da associação do espaço e património popular, que adoptou o velho utensílio que servia para bater à porta como símbolo.
Com visitas assíduas de associados e amigos, esperemos que, não obstante dentro de semanas a associação passar a ter um site, o blogue se mantenha como espaço de diálogo e partilha, e que Margarida Alves, vice-presidente da direcção da Aldraba, continue a divulgar o património que vai descobrindo nas suas andanças...
(fotografia de LFM: porta e batentes de Vendas Novas, perto do restaurante Pastor)
sábado, fevereiro 11, 2006
Intervalo III

