"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

segunda-feira, dezembro 07, 2015

LEANDRO VALE: O SEMEADOR REINVENTADO




Vejo-te na derradeira película, nos últimos dias de resistência e ironia, coroando um percurso de Semeador.
Imagino-te em andanças aldeãs, procurando deixar uma pegada, que faça irromper, entre pedras e gestos crús, a flor que embalas desde os sonhos trazidos desse Abril por cumprir.
Oiço as tuas palavras, sigo os actores, peregrinas neles, estamos ali em Morille, num fim de tarde de lumes.
Acompanho o rasto da tua memória, nesse território onírico, com cheiro a rosmaninho e o Carlos d’Abreu distribui vinho do Porto, na celebração de um Sol que és Tu, entre a Terra e o Céu, entre Portugal e Espanha, entre os Humanos e o Silêncio.
Ficas ali, num denso lajedo com o teu nome gravado.
Um dia, alguém esquecido da tua vida rebelde dirá: Leandro, és um Poeta, que lança sílabas no vento secreto de algumas noites.
E talvez te encontre no cerne dos vocábulos, que respiram nas pétalas selvagens de Maio, vermelhas, cintilantes. Papoilas. Hinos perturbantes…
Procurei-te, em Setembro. Perguntei por ti, na Festa. Não vi um retrato teu, nem o “Aqui Jaz a Minha Casa”. Uma frase tua, sequer. Apenas gente sequiosa, emborcando vinho, saboreando a gastronomia transmontana, farta e gostosa, parecida com aquela que alimentou os teus dias de luta. Apenas enxerguei a ignorância do encolher de ombros de um militante, que dizem que é intelectual transmontano. Gente que nunca irá a Morille. Que nunca percebeu o sentido da tua vida. Há muito afastada das aldeias que calcorreaste. Gente que está morta sem saber, enquanto tu continuas VIVO!

 Luís Filipe Maçarico
[Poeta; Antropólogo]

1 e 7 de Dezembro de 2015

5 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Um texto emocionante.A amizade, a admiração e a poesia, percorrendo cada linha.
E a perda...
Deixo um abraço

Maria João Marques disse...

Grande Leandro! Enorme! Lembro-me bem dele quando ainda mal sabia andar e ele me pegava ao colo. No bairro em Bragança onde ele guardava os cenários, ao qual me desloquei várias vezes acompanhando o meu pai. À sua casa, na altura, também em Bragança, onde para conseguir chegar à sala era necessário todo um zig zag, entre livros e jornais. Pedaços de cultura. Pedaços dele. Encontros entre Trás-os-Montes, o Porto e claro a Festa do Avante. Encontro ritual sem marcação mas que nunca falhava. Nem será jamais esquecido. Pela sua humanidade, pelo teatro, pela poesia, por todos os detalhes, sem excepção. Até pela colecção de cachimbos! Até sempre camarada!

ana goncalves disse...

Bela homenagem, até sempre camarada.

Mar Arável disse...

Um forte abraço

Mar Arável disse...

Um forte abraço