"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, abril 10, 2011

Carlos Consiglieri conduziu mais uma Rota da Aldraba, "Do Castelo à Mouraria"
















































Esta manhã, a Aldraba realizou a sua terceira iniciativa, em três semanas - um passeio por Lisboa, denominado Rota da Aldraba - Do Castelo à Mouraria, animado por Carlos Consiglieri, conhecido olisipógrafo.

A Rua Bartolomeu de Gusmão foi a primeira do percurso, seguindo-se a Rua do Milagre de Santo António, rua de jardins suspensos e azulejos representando os milagres do Santo Popular dos Lisboetas, patrimonializado pelos italianos, em Pádua.

"Lisboa está cheia de marcas, sinais inteligentes, que as pessoas pisam sem ver", começou por dizer o nosso "guia", encantando-nos com as inúmeras revelações que partilhou. Os mais de vinte "peregrinos" do sol e do azul da manhã belíssima, primaveril, tiveram além desse privilégio, a felicidade de desfrutar as preciosas informações daquele homem, que conhece bem o património da cidade.

Consiglieri chamou a atençaõ para os quintais populares, onde reinam a nespereira, árvore emblemática da capital, pela cultura árabe e também o limoeiro e a videira, as latadas...

Admirámos pedaços da muralha fernandina, que serpenteia pela colina onde a iniciativa decorreu, calcorreando o antigo território da Comuna Muçulmana (que ia da Rua do Benformoso à Calçada dos Cavaleiros).

Ainda pudemos observar e admirar belas fachadas, como a do Palácio da Rosa e da antiga casa do Poeta Afonso Lopes Vieira.

Um grande Bem Haja a este Amigo, que pela segunda vez nos presenteou com os seus conhecimentos e uma energia fabulosa, proporcionando uma caminhada pela História da urbe, que a todos encantou.

Luís Filipe Maçarico (Texto e fotografias)

sábado, abril 09, 2011

Por Quem os Sinos Tocam a Rebate


Os sinos tocam a rebate, por um país que insistiu em escolher maus políticos, década após década, não obstante a Liberdade que lhe foi dada.
A Igreja aproveitou sempre a ignorância e fez - desde há séculos - eleger os senhores, com ligações ao mundo da especulação económica, peritos em criar abismos sociais.
Gente como Mário Soares, que hoje diz raios e coriscos sobre quase tudo e todos, achou logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, que o melhor para os portugueses era seguirem-no, na sua caminhada subserviente perante os patrões Brandt e Carlucci.
Os partidos dominantes preferiram então perder o escudo e ir atrás da miragem de Euro, acompanhando a CEE, depois UE, pois isso trazia emprego pago a bom preço para os burocratas e carreiristas da sua clientela partidária
Nos anos 80, nunca me esqueço disso, uma voz contra a corrente, acusada de ser cassete, a voz de Álvaro Cunhal alertou-nos para os perigos futuros.
Não o quiseram ouvir...
E eis que dobrada uma década, sobre o novo século (e milénio), estamos de joelhos, por causa de gentalha sem nível, demagogos sem categoria, indivíduos sem escrúpulos, que se julgam donos da verdade mas não têm palavra, que nos conduziram ao mais abjecto abismo de toda a História de Portugal.
Contudo, a populaça estremece ainda com algum prazer masoquista, quando um populista como Sócrates lhes arranha a alma, com uivos e zurros, prenunciando o caos sem ele, ou como dizem os brasileiros, "me engana, que eu gosto!"...
Portugal parece não ter remédio, senão capitular perante ditaduras - agora é a do FMI, tudo disfarçado com pseudo - eleições, na sequência das ditaduras europeia, da neonazi Frau Merkel e mundial, do catastrófico Bush bastardini.
Os sinos tocam a rebate por um país de gente tola, que, como no poema de Brecht, quando acordar, já é tarde, pois quando o saque atacar os incautos de hoje, já o restante povo estará sem cheta. Na desunião, eles emergem como salvadores ou orientadores da cegueira popular.
Que bela gastronomia, que deliciosas paisagens, que pessoas tão hospitaleiras mas que povo tão estúpido que permite transformar o paraíso no inferno.
Como não me conformo com o carneirismo, não votarei na grande coligação de destruidores do país e esta tarde, na Rua Augusta, gritarei contra os ladrões encartados - doutores e engenheiros -que me andam a roubar!
Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

segunda-feira, abril 04, 2011

Como se o Alentejo Fosse um Desmesurado Jardim Botânico, Sem Gente...










Em Castro Verde, a população não baixou tanto, como noutros concelhos alentejanos.
Há juventude, há actividades, que mantêm as pessoas ligadas às tradições, da gastronomia à música, do associativismo ao cante.
Pena é que os alentejanos, que estão fora da sua terra, não falem destes resistentes, como se o Alentejo fosse um desmesurado jardim botânico, - onde só houvesse papoilas, estevas, malmequeres, rosmaninho, uma bebedeira de cores, sem gente...
Como se falar da nossa gente fosse vergonhoso...
Porque não mostram pessoas, aqueles que dizem gostar - e ter muitas saudades - do Alentejo?

A propósito, vale a pena lembrar este breve poema de Bertolt Brecht:

O FUMO

"Casinha debaixo de árvores junto a lago,
Do tecto sobe fumo.
Faltasse ele,
Que tristes então seriam
Casa, árvores e lago."

BRECHT, Bertolt "Poemas e Canções", Selecção e Versão Portuguesa de Paulo Quintela, Livraria Almedina, Coimbra, 1975, p. 36.

Texto, recolha e fotografias de Luís Filipe Maçarico

domingo, abril 03, 2011

A Aldraba em Castro Verde - 2ª Parte






















Há no concelho de Castro Verde locais fascinantes, como é o caso do cerro de Aracelis. Esta manhã, a Aldraba visitou o famoso miradouro, com 270 metros de altitude, que ainda é centro de peregrinação de agricultores, vindos de Mértola e Ourique, além dos de Castro.

A lenda diz que a Senhora de Aracelis (Ara Coelis) se encontra no altar do céu, podendo ser uma reminiscência de Ceres ou Ísis, deusas míticas do passado pagão, que o cristianismo absorveu.
Também se diz que daqui se observam capelas altaneiras de Mértola, Serpa e Castro Verde perfazendo o número de sete. Noutra versão, a visão atinge outras colinas, sendo algumas mais distantes (Aljustrel, Martim Longo e Loulé, além de Ourique e Serpa).

O jornalista Alberto Franco apresentou, na Junta de Freguesia de São Marcos da Atabueira a vida e obra de Gonçalves Correia, caixeiro viajante, vegetariano, tolstoiano, anarquista, natural desta freguesia de Castro Verde, que fundou em 1917 a Comuna da Luz na Aldeia de Vale de Santiago.
Gonçalves Correia, que trocou correspondência com Ghandi, não convertia os outros à sua causa pela violência, mas pela razão/diálogo.

Defendia uma religiosidade sem dogmas (Panteísmo), acreditando que Deus estava dentro de cada um dos humanos e em todas as coisas do universo.
Uma greve geral contra o Sidonismo, em 1918, leva as autoridades a incriminar Gonçalves Correia como instigador da agitação social que nessa altura originou uma ocupação de terras, reprimida pelas forças policiais.
No entanto, ele reincide, fundando no início dos anos 20, em Albarraque, a Comuna Clarão.

Com o 28 de Maio de 1926, o Anarquismo foi perseguido.
Mas Gonçalves Correia permaneceu fiel às suas causas, comprando passarinhos em gaiolas, para depois organizar, cerimoniais de solta dos animais, no Jardim de Beja.
Segundo Alberto Franco, biógrafo de tão fascinante personalidade, Gonçalves Correia com o seu ideário de progresso e justiça social, esteve à frente do seu tempo.
João Coelho sublinhou a importância daquele libertário, o qual, como Adeodato Barreto, certamente terá influenciado conterrâneos seus, que professaram as grandes causas pacifistas.

As Atabuas, grupo feminino de cante, completou a sessão, participada e riquíssima de conteúdo.
Antes do regresso a casa, os convivas tiveram o ensejo de saborear iguarias confeccionadas num restaurante de São Marcos da Atabueira, que encheu as medidas.

A Aldraba está de parabéns, por mais este êxito, que contribuiu para todos os participantes trazerem na bagagem a satisfação de uma jornada bem sucedida.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotografias)

A Sereníssima Beleza de Castro Verde














Durante o Encontro da Aldraba, realizado este fim de semana em Castro Verde, apreciámos os pormenores do património que se revela ao olhar atento.
Aqueles que apreciam o silêncio, um ritmo de vida harmonioso, a arquitectura à escala humana, devem procurar esta terra.
As termas do espírito estão aqui. Em cada recanto, em cada edifício. Em cada rosto. Em cada conversa.
Em Castro Verde, o sorriso é a medida do encontro. E a poesia, a janela encantada dos momentos... Mágicos!

Texto e fotografias: Luís Filipe Maçarico

A Aldraba em Castro Verde - 1ª Parte
























A Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, foi este fim de semana a Castro Verde. Nas viaturas de alguns dos associados, viajaram os que quiseram participar, partilhando portagens e gasolina.
Na Aldraba, desde sempre, o Comunitarismo faz caminho, até porque os associados que privilegiam o conhecimento de costumes, tradições e patrimónios dos mais diversos pontos do país, de Loulé ao Fundão, passando por Montemor-o-Novo e Alcoutim, não dispensam a ida aos concelhos, para contactar os protagonistas do desenvolvimento local, pelo prazer de reflectirem em conjunto as grandes questões da nossa identidade colectiva.

Neste sábado, 2 de Abril, após a viagem inicial, os visitantes, oriundos de Loures, Lisboa, Aljustrel e Mértola, foram-se juntando ao longo do dia, durante as diversas fases do evento.
Tudo começou, à medida que íamos chegando, com um passeio exploratório, pelo centro histórico de Castro Verde. À hora marcada, a direcção da Aldraba orientou, com o apoio do jovem guia do majestoso templo, uma visita à Basílica Real e seus tesouros sacros, que deliciou todos, pelas descobertas que proporcionou.
Subimos depois ao Coro e à torre sineira, desfrutando de uma panorâmica belíssima.

Seguiu-se o almoço, de cozido de grão, uma caminhada para desmoer e nova surpresa, com a fabulosa revelação do museu da Lucerna, tendo a guia do Museu sido excepcional ao revelar os segredos dos inúmeros exemplares de lucernas apresentados.

António José Brito, responsável pela Cortiçol desvendou o percurso daquela associação cultural, nas suas vertentes de promotora do Cante e da Rádio Local, proporcionando uma simpática visita à sede da instituição que coordena e às instalações (estúdio) da entidade radiofónica castrense.

Paulo Nascimento (vereador da Cultura da Câmara Municipal de Castro Verde), Manuela Florêncio (professora), Manuela Barros (investigadora), Alice Fernandes (investigadora) e Miguel Rego (historiador), dinamizaram a acção cultural mais relevante da tarde, onde foi debatida a forma de falar dos alentejanos. Duas horas de puro prazer, com grandes intervenções e uma participação e envolvência dos que assistiram, que vale a pena realçar.
O barranquenho, a dialectologia algarvia, as características galego-portuguesas e moçárabes, os traços galegos e minhotos no falar dos alentejanos, foram algumas das pertinentes abordagens.

O guisado de borrego coroou o intenso dia dos peregrinos do Saber, que diziam uns aos outros ter sido este um dos grandes momentos, que a Aldraba já promoveu, ao longo da sua existência.

Texto e fotografias: Luís Filipe Maçarico