"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, março 08, 2007

Velhos Poemas


Tenho aproveitado o meu "retiro espiritual" para arrumar ideias e alguma da muita desarrumação da casa onde morei sempre...
Três caixas de plástico transparente, daquelas que se compram nas lojas chinesas, repletas de versos foi a ocupação do dia de hoje...
Deitei muito papel fora, enquanto encontrava poemas adormecidos, que o tempo parece não ter envelhecido...
Partilho com todos os que habitualmente visitam este espaço. E deixo tradução em francês para que os amigos tunisinos possam, também eles, ler esta minha velha poesia.

De certos dias guardo violetas
de outros apenas a dolorosa
ausência das gaivotas...
1984


De certains jours je garde des violettes
d'autres, rien que la douloureuse
absence des mouettes...
1984


Conhecer
é ficar magoado.
30-9-1984

Connaître
c'est devenir blessé.
30-9-1984

Poemas e fotos de LFM

quarta-feira, março 07, 2007

Entrevista a Paula Cristina Lucas da Silva





A entrevista que se divulga hoje neste blogue, foi realizada em Alpedrinha em finais de Novembro de 2006 e publicada já este ano, no Jornal do Fundão. Volto a apresentá-la, agora neste formato, porque recebi há poucas horas o projecto de livro que a Paula prometeu em Alpedrinha, durante o Encontro de Poetas e que no preâmbulo da conversa revelamos. As imagens têm a ver com o título do livro, cujo segredo não revelamos. Sabemos apenas que vai ser um reencontro da autora com a sua terra, as suas gentes, o verde e o granito, muito intenso. E que embora todos nós passemos por este mundo, caminhando para a partida, a palavra e a montanha ficarão.

A POESIA SURGIU COMO UMA ESPÉCIE DE CHAMAMENTO E PASSOU A FAZER PARTE DA MINHA VIDA

Paula Cristina Lucas da Silva nasceu em Alpedrinha, em 1966. Filha e neta de alpetrinienses, foi naquela vila que casou.

Estudou no Externato Santiago de Carvalho, fez o Ensino Secundário na então vila do Fundão (hoje cidade).

Aos 17 anos saiu de Alpedrinha para se licenciar em filosofia, na Universidade Nova de Lisboa. É professora do Ensino Secundário há mais de dezassete anos.

Foi colaboradora activa da “Informação” da Liga dos Amigos de Alpedrinha, desde os 14 anos, onde publicou desde poemas a entrevistas e artigos de opinião.

Já escreveu prefácios para livros do poeta Luís Maçarico (que hoje a entrevista para o JF) do qual apresentou algumas obras de poesia.

Dirige o jornal escolar “Atitudes” há mais de seis anos, onde estão publicados os mais variados textos.

Reside no Cacém.

O seu primeiro livro de poesia aparecerá durante o próximo ano.

-Quando é que a Poesia surge na tua vida?

-Surge na pré-adolescência, por influência da leitura da literatura da escola, digamos que foi assim uma espécie de chamamento, por identificações e passou a fazer parte da minha vida.

-Tiveste algum professor que te marcasse, em termos de Literatura?

-Tive uma professora de português e em termos do re-escrever, do cinzelar foi mais da parte do dr. Fernando Paulouro, como professor de Jornalismo.

-Como eram os primeiros poemas?

-Tenho a ideia de uns sonetos que neste momento não faço a mínima ideia onde é que andam. Sei que um deles foi publicado na Informação da Liga dos Amigos de Alpedrinha e na altura já tinham a ver com Alpedrinha. A partir daí passaram a conviver poemas sobre Alpedrinha e os intimistas, sentimentais...

- No VIII Encontro de Poetas em Alpedrinha, no passado dia 18 de Novembro, disseste pela primeira vez poesia tua na terra que te viu nascer. Quando começaram a surgir aqueles versos?

-Embora seja um conjunto, são muito dispersos em termos temporais, porque estavam ali poemas escritos de 93-94 até 2006.

-Escreveste na Informação*...como reagiam os leitores?

-Na altura em que eu escrevia na Informação tinha sempre um feed-back muito carinhoso por parte das pessoas, nomeadamente nas crónicas que se transformavam em prosa poética...Como exemplo: a entrevista que fiz à pessoa na altura mais velha de Alpedrinha, a dona Auzenda...tive o prazer de entrevistar o Fernando Namora.

-Durante quantos anos escreveste na Informação?

-Cerca de 20 anos.

- O que sentiste ao dizer poemas diante da tua gente?

- (sorriso)...Bem é um bocado complicado conseguirmos dizer por palavras. Principalmente, porque já tinha 3 experiências prévias. Por exemplo: a leitura que fiz de poemas no 1º Aniversário da Associação Aldraba, embora em contexto diferente e um público heterogéneo.

Aqui, o sentimento é diferente, porque escolho poemas sobre pessoas de e sobre Alpedrinha.

Em termos de público sabia que ia ser mais partilhado e sentido.

Depois, era a timidez. Porque as pessoas, à partida, se calhar, entre o que sou e aquilo que as pessoas conhecem de mim, vai um abismo, que é sempre inultrapassável.

Nestes momentos, parece que estou...que os abismos nos aparecem ali à frente e pensamos “será que isto vai alterar a imagem que as pessoas têm de nós”. Embora haja muita vontade de partilha. Mas há sempre esse receio...”

* Boletim da Liga dos Amigos de Alpedrinha

Entrevista e fotos de Luís Filipe Maçarico

segunda-feira, março 05, 2007

Entre El Almendro e Santa Comba: Memórias Dolorosas







Em Janeiro deste ano, quando gozei apetecidas férias, passei aqui, sobre a ribeira de Chança (volta falsa, como é conhecida). Sítio onde ao longo de anos os contrabandistas atravessavam para o outro país...
Essas memórias vão andar sempre comigo, pois ouvi-os contar o que sofreram. E Em Espanha, escutei histórias de fuga à Guerra. Francisco Moreno (Chico Serrenho) foi lembrado em várias conversas.
O mês passado, lutando contra inúmeras dificuldades, o Foro por la Memoria de Huelva evocou em El Almendro dezenas de republicanos assassinados pelo Franquismo e na pessoa de Maria Júlia Carrasco homenageou e agradeceu a João Carrasco e aos portugueses, a ajuda prestada pelas populações da raia aos foragidos de um regime monstruoso.
Em Portugal, como escreveu no Diário de Notícias a psicóloga Joana Amaral Dias,"Basta comparar o á - vontade com que se lança este museu (Salazar, em Santa Comba Dão) com as contrariedades para colocar uma simples placa-testemunho dos presos e torturados na ex-sede da PIDE para perceber que a nossa democracia ainda tem muito a fazer."
Texto e fotos de LFM

sexta-feira, março 02, 2007

Três Apontamentos Poéticos em Querença (Escritos em Outubro de 2001)




I
Olha-se em redor e
o verde das árvores e
das hortas é morada
de sussurrante silêncio
II
Rodeado de aves,
águas e rumores.
o largo contém
a paz do mundo
nos sorrisos.
III
O canto do galo
e o zumbido do
vento florescem
nestes horizontes
de ar lavado...

Nota: Conheci Querença com a Margarida Alves, que me levou àquele paraíso pela primeira vez. Sónia Tomé mostrou-me mais segredos da terra e, com o presidente da autarquia local e a Associação Aldraba, no início do último Dezembro, o esplendor foi possível.
Em 19 de Outubro de 2001, escrevi estes apontamentos poéticos que partilho, aconselhando quem quiser conhecer a terra a não hesitar esta Primavera.
Quem me dera viver num sítio assim, sem o stress da cidade que me mata. Faz hoje uma semana, que o meu médico me aconselhou descanso total, face à tensão alta, que subiu vertiginosamente.
O blogue, a net é a minha única ponte para o mundo, além das três janelas da casa onde moro. Desliguei telefone e telemóvel, para que nada me incomode.
Preciso de recuperar e só tenho esta vida. Não posso perder mais saúde.
Em Querença, seria certamente mais feliz...
Fotos de Mário Rui Sousa

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Marguerite Yourcenar


Yourcenar, escreveu que "Quando a um governante falta o tempo para ouvir, falta o tempo para reinar."
Fotografia de Francisco Palma Colaço

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Crítica à Moda do Castrim


A SIC, depois da chachada do Jura estreou com gritaria "a melhor telenovela de sempre feita em Portugal", "ao nível das melhores telenovelas brasileiras", etc.
Não acreditei, até porque o guião veio da Argentina, e a fonte é Alexandre Dumas e o Conde de Monte Cristo. Ou seja: os tratos de polé que um clássico sofre triturado pelo efeito xaropada.
Ontem, fiz zap enquanto não começava o filme sobre Che Guevara para espreitar o Compacto da primeira semana de Vingança, e ver se a Hora H estaria por perto e qual não é o meu espanto quando transmitem duas imagens extraordinárias da novela, em que primeiro Diogo Morgado está com a face esquerda desfigurada e logo a seguir, Maria Rueff opera o infeliz protagonista na face direita, que está visivelmente transfigurada.
Ainda não vi ninguém referir esta gaffe. Mas também no meio de um sistema que deturpa tudo, que promete paraísos e lança-nos no inferno, que mal fará ao mundo a caracterização de uma novela ter-se enganado colocando num episódio o actor esfacelado de um lado do rosto e no episódio seguinte mete o personagem esfacelado no lado oposto.
Somos os melhores em pantemineirice não haja dúvida...não é verdade, Mário?

sábado, fevereiro 24, 2007

José Afonso Faz (Muita) Falta



Estive no Coliseu, no derradeiro espectáculo. Não esquecerei.
Acompanhou-me em dias de sombra e névoa.
Aqui o relembro com um poema igualmente inesquecível e bem actual, porque os dias tornaram a ser de névoa e sombra:
Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta