"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

quinta-feira, outubro 21, 2004

Férias de Outubro na Parvolândia

Este ano, as minhas férias coincidiram com acontecimentos importantes que ocorreram na terra do faz-de-conta.
Quando em 10 de Junho saí do torrãozinho luzu e fui deliciar-me nas "termas do vento", em Djerba, o povo de Azedal, também conhecido por Parvolândia, derrotou a direita nas eleições europeias, provocando a fuga de ZéManéli Cagão e a quebra do sr. Ferrol.
Na sequência destes factos, a rainha de Inglaterra fez subir ao trono D. Santanoso, vice rei dos pântanos.
Há duas semanas, em autêntico tratamento de "salute per acqua" dos remediados, tomei conhecimento do tremor de terra que o afastamento do picapau EsKarcelo causou levando todos os bobos a louvaminharem e a carpirem por tão douta telefigura.
Ao mesmo tempo, para a populaça se esquecer das taxas de saúde, dos aumentos dos transportes e da maquiavélica lei do arrendamento, Sua Alteza a Super Tricha, com o Porno Mordomo e Tinha Punhetim pavonearam-se na Têvêihihih das novelas tipo "Maria faz um filho ao patrão!"
O pior é quando se regressa de férias e o país do fingimento é um pesadelo quotidiano: finge-se que se governa para um povo, finge-se que se trabalha para o bem comum, finge-se que se prepara o futuro, finge-se que não se aceita, porque a verdade é que todos os fingimentos têm de ser reais porque na altura das eleições os trastes são eleitos e se cheirar mal ninguém tem a culpa...(esta é uma piscadela de olho para esse peidófilo blog "O Traque" que não consegue sair da merda em que se meteu...)
Perante este panorama, é claro que não resisti e fui mais uma semana para o sul luminoso.
O problema é que o sonho acabou.
Comecei hoje a trabalhar...

quinta-feira, setembro 30, 2004

Abutres e Escapadelas

Os dias passam rapidamente, talvez porque há alguma saúde e várias tarefas interessantes para desempenhar, a vida à espera de ser vivida, e a vontade sôfrega de sempre, de viver intensamente cada momento.
Os jornais leem-se pela rama, com os minutos contados, não há tempo para aprofundar artigos e notícias: há livros de poesia aguardando as mãos dos leitores, um livro -em preparação- sobre colectividades de Lisboa, a tese de mestrado, correspondência, telefonemas, teclagens no messenger, tanta coisa destes dias que voam.
Durmo ainda de janela aberta e o banho continua a ser de água fria, porque este Setembro está a ser uma boa surpresa para quem não aprecia chuva.
Apesar de tudo de vez em quando há uma escapadela...
A Feira da Transumância em Alpedrinha foi de novo um belo reencontro com o melhor das pessoas, mesmo quando se esgatanhavam para ver passar "o rebanho"...
Afinal, para meu espanto, eram apenas umas dezenas de animais que desciam a estrada romana, vindas do Fundão. Que tiveram direito a recepção de vips no chafariz D. João V. Com os chocalheiros de Vila Verde de Ficalho, gaiteiros de todo o país, bombos, os presidente da Câmara e da Junta e uma panóplia de fotojornalistas e de repórteres televisivos que queriam captar o momento etéreo da chegada das rezes.
A serra da Gardunha estava linda, ainda com amoras e lá do cimo foi magnífico escutar de novo o silêncio e um ou outro melro.
Setembro está a ficar quente, como se fosse Julho ou Agosto. O Outono vai começar com uma lua de lume. Sorrio, daqui a pouco vou ter um tempinho de férias e ainda quero voltar à praia, fazer inalações, dar uma banhoca...
Sorrio, eles não sabem nem sonham que Outubro é um mês de férias delicioso.
Vou-me embora para o sul, enquanto os abutres congeminam sacanisses.
Vou recuperar forças para lhes fazer frente.
A luz de Setembro não me ilude: eles andam aí e querem triturar-nos os ossos, depois de terem devorado a carne.
"Vou-me embora, vou partir/ Mas tenho esperança"
Obrigado Mané, obrigado Maria José, obrigado Luís, obrigado Chico, pela força que me deram este fim de semana, na terra mágica onde a música nasce nos olhos felizes das crianças e dos que não desistem de sonhar.

segunda-feira, setembro 06, 2004

Setembro

Setembro é um mês estranho...
Em 88, quando me preparava para partir para Cabo Verde, adoeci com uma hepatite e no dia 14 passei as passas no hospital modelar de S. Francisco Xavier, onde me deram, segundo a Liliana, as análises de um moribundo, trocando com ele as minhas...enquanto jogavam no computador.
A temperatura tinha subido aos 38 graus e o caos da dor nas urgências foi algo que tenho pudor em partilhar.
Setembro foi todavia mês de esperança.
Convalescente, recuperei e voltei à luta de todos os dias.
Setembro é agora o tempo da feira da transumância em Alpedrinha, festa de chocalhos e de transmutação de uma terra mágica em transcendente, graças à criatividade e entusiasmo dos seus habitantes...
Setembro era o tema de uma canção de Madalena Iglésias, que tinha esta quadra surpreendente, cujo poema completo não consigo encontrar em lado nenhum:
"Setembro desfolhou-se
Numa agonia lenta
Eu esperava Setembro
Para voltar a ver-te!"
Setembro é mês de vindimas. Mês de espera pelo vinho e pela transformação da vida.
Em Setembro os socalcos do Douro protagonizam o clímax de uma paisagem povoada de pernas e braços campesinos em movimento...
Quem dera ser ave para, entre a luz do fim do Verão e a dourada cabeleira das árvores, poupadas à inquisitoriais fogueiras de mais um Julho maldito, poder juntar a voz ao canto colectivo que anima as encostas durienses...
Gostava de mergulhar os olhos num rio de ternura.
Mas tal como na canção, a espera é estéril e como o quotidiano, dia após dia, se apresenta cheio de ruído e tragédia, apenas anseio a carícia de uma harpa de sol e a graciosidade de um grãozinho de silêncio...


Ângela Maria, Carmen Sevilha, Sarita Montiel...

De repente, sem avisar, a infância retorna.
Dou comigo a trautear canções dos anos sessenta, daquelas que ouvi tantas vezes no velho rádio roufenho, que Ângela Maria cantava:
"encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora..."
A Vanda deliciou-se, quando em pleno serviço desatei a cantar, com a Amélia, em dueto, a "Garota Solitária"...
Para quem tiver saudades, pode procurar no google, bastando escrever para pesquisar, entre aspas, o nome daquela artista...
Na semana passada, ao regressar de uma viagem a Campo Maior e às suas festas, onde tive oportunidade de conviver com a poetisa Rosa Dias, desatei a lembrar-me de músicas de filmes que vi no Odeon: "Violetas Imperiais", com Carmen Sevilha e Luís Mariano, "La Violetera" com Sarita Montiel, "A Noiva", com António Prieto".
Gostava de saber porque razão o meu cérebro congelou estas coisas e de repente vomitou-as, deixando-me sem jeito?
Será que estou a ficar louco?

sábado, agosto 28, 2004

O Piassaba

Mais um sábado. Agosto a dizer adeus e eu à volta de uma colecção de piassabas, na drogaria de bairro, da Dona Eugénia, hesitante...
Isto, porque o exemplar que tenho em uso, já lá vão alguns anos, oferta da Paula num dia de sorrisos, quando passei a ter uma casa de banho, tem desempenhado bem as suas funções, mas precisa de um duplo, nem que seja para ser utilizado em matar baratas, que às vezes chegam pela chaminé, ou por debaixo das portas, intrusas, cuscas, quais bruxas voadoras...
Quanto a osguinha de estimação, tão celebrada nos comments e que teve honra de abertura no blog da Daisy, mais dia menos dia está a rivalizar com os Xutos e Pontapés na obtenção de uma comenda...Deve ter sido ela que se banqueteou com as aranhas dos cantinhos do tecto, pois não há quem as veja...
Outra hipótese para o piassaba, seria limpar o cotão mental de muita gente, que está no desporto nacional, isto para ser soft e não chamar a porcaria pelo nome.
Ah, e a corrupção, que tem minado cada alvorada, nas páginas dos jornais e nos noticiários das rádios, e que em cada crepúsculo nos invade, com telejornais deprimentes...quando afinal os que não estão sujos, continuam a suar, para manter o país. No dia em que aprenderem a carregar no botão do off e não quiserem saber das Lillis e dos Castelos Brancos esta terra será mais respirável. Bem podem nessa altura os chernes pregarem aos incautos...
E não nos esqueçamos dos desgraçados comerciantes de tascas e cafés, que como é sabido são na sua maioria professores e têm de fazer férias todos os anos em Agosto. É fartar alarvagem! Ruas inteiras com 2, 3 cafés e tascas fechados, até Setembro começar...
País de lindas praias, paisagens excelsas e tradições que marcam, é o nosso.
Mas a precisar- como nunca -de uma boa limpeza, com um piassaba novo e eficaz, para tirar o sarro aos cérebros e as caganitas de rato que flutuam no sangue de tanta gente...

quarta-feira, agosto 25, 2004

Kátia e a contaminação do bom gosto

Escuto-a em transe até ao derradeiro acorde.
Escutei-a assim em 2003 na "Festa do Avante" e desde então distingo o timbre da sua garganta, que ganha asas quando vibra, cantando a essência desta estranha forma de vida...
Kátia Guerreiro prova, à saciedade, que o fado está bem vivo e que não se pode ficar à sua contaminação, quando ela aparece na rádio, num CD, num espectáculo.
Enquanto janto e me abstraio da minha osguinha de estimação que queria fugir para a rua, quando cheguei e me preparava para escancarar varandas, assustando-a e fazendo-a fugir de novo esbaforida, para dentro de casa (é o meu fado de Verão...), enquanto janto, dizia, após um duche refrescante, escuto "Nas Mãos do Fado" e fico extasiado com as palavras bem cantadas de Florbela, Lobo Antunes, Camões e Ary dos Santos.
Gosto desta voz e deste sorriso.
Das boas emoções que provoca.
Como diz José Nisa, este fado faz-se também com bom gosto e ideias.
E Kátia é autêntica e expressiva.
Uma flor entre as cordas da noite, no coração de uma guitarra...
...que mostra como Portugal pode ainda ser grande, sem barulho alarvóide, como todo aquele que os mass media e a turbamulta fizeram, em vão, em prol de um bando de pseudoatletas, mais interessados em fazer publicidade e pavonear-se como se fossem grandes vedetas de Hollywood.
Viva o Fado de Kátia Guerreiro ( ede mais alguns), que ao contrário do futebolismo patrioteiro não deseduca e até nos faz voar "nas asas de uma guitarra"...

Piropo(s)

Há pessoas que estão bonitas por fora e por dentro, neste Agosto criativo.
Desculpem o sectarismo, mas em primeiro lugar este piropo vai para a bloguista Margarida( http://vemosouvimoselemos.blogspot.com ), de linguagem coloquial e irreverente, trazendo à net um humanismo essencial e um sarcasmo delicioso. Digo com orgulho e prazer que ela é a mãe sábia deste blog. Mas o meu carinho é também para as filhotas deste "águas do sul":
A Cristina( http://oguardadordosilencio.blogspot.com ), que traz a serenidade, numa elegante simbiose entre a escrita poética e a reflexão filosófica.
A Ana ( http://acaminhodosol.blogspot.com ), cujas palavras conseguem retratar cromos do quotidiano que mexem com as emoções dos outros, na medida em que dirigem destinos e gerem desgraças como se criassem frangos de aviário ou administrassem uma empresa de salsichas enlatadas. O seu implacável humorismo, escrito à flor do sentimento, disfarçado de riso é um grito sério e uma gargalhada descarada contra a malfeitoria dessa gentalha importante que arrecada grossas somas de subsídios estatais, entretendo-se a manipular almas e a desventrar sofrimentos.
Todas estas criadoras (e comunicadoras) têm lugares solares na blogosfera e no meu coração, territórios a desbravar, partilhando nest nova forma de estar e dizer olhares cruzados sobre o mundo em que respiramos.
Até mesmo a "náufraga" Vanda, que adora morcegos e não atina com as lostphotos.
Salvé Moçoilas!Para vos ler vale a pena viver (olha: fiz um verso...)