"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, janeiro 23, 2011

Dejá Vu


Porque razão não há mulheres a concorrer à Presidência da República, desde Lurdes Pintassilgo - e nunca mais houve um Primeiro Ministro do sexo feminino em Portugal?

Qual o motivo, porque nas eleições de 23 do corrente, algumas discursatas me fizeram lembrar um disco riscado, um déjá vu?
Parte dos senhores que se candidataram, parecia certos programas de rádio que, ao longo do dia repetem uma música, até ela ficar no cérebro do ouvinte...

Não consigo arranjar explicação para tudo. Nem transformar derrotas em vitórias...por muita pedagogia e solidariedade que queira compartir. Há décadas que colecciono "Vitórias" como quem apanha pancada.

Numa palavra: rifar a populaça - que vota em partidos que maltratam o cidadão - era uma hipótese...
Ou mudar de país. Mas o mundo não está um lugar pacífico.
Por isso, ocorre-me a frase de uma velha amiga de Cacia, que nos anos 70 se despediu de mim, na estação de comboio, gritando: "Coragem na luta, contra os filhos da puta!"

Texto: Luís Filipe Maçarico.
Imagem: pintura do artista moçambicano Malangatana, recentemente falecido.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Elegia ao Povo Tunisino


Um povo que nada tinha
condenado à infelicidade
fez sementeira de esperança
no lodaçal dos malditos
encheu as ruas com a força
dos seus claros gritos
e ousou a liberdade
para dar o pão aos filhos.


Esse povo libertário
trouxe o sonho solidário
contra a realidade sombria
pois quando um povo se une
para viver o futuro
não há tirano que vença
a força da poesia!


Luís Filipe Maçarico

20-1-2011.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Governo de Unidade na Tunísia com o Mesmo Primeiro Ministro, Sete Ministros do Anterior Governo e Alguns Opositores








Mudanças na Tunísia seriam previsíveis e desejáveis, após a chamada Revolução de Jasmim.
Não tenho todavia motivação para festejar, ao contrário de um ex-deputado, homem do sul, poeta, que embandeirou em arco, segundo a mensagem que me enviaram hoje.
O tirano-mor foi corrido, é verdade.
Mas o presidente interino é um ex-ministro, membro do parlamento desde 1964, eleito pelo partido de Ben Ali (RCD), que era o maioral dessa formação política nacionalista e socialista, integrada na Internacional Socialista).
O primeiro ministro (vice-presidente da mesma força política) é aquele que liderava o governo corrupto, causador da revolta popular... Pois é com ele ao leme, que o pouco promissor governo de transição, dito de unidade nacional vai tomar conta do poder.

É como se em 25 de Abril de 1974, Américo Tomás fosse borda fora, mas o Presidente da ANP passasse a presidente interino da República e Marcelo Caetano continuasse a liderar o governo, agora de unidade, com alguma oposição. Será motivo para nos congratularmos?

Ah! O Partido Comunista dos Trabalhadores Tunisinos, ilegalizado por Ben Ali, por esse motivo não entra no novo governo, mas retornam sete ministros do anterior governo para ocuparem lugares chave... Será razão para acharmos que os tunisinos estão bem entregues?

Democracia?
Revolução?
Coitado do povo, enganado sempre!
Libertação?
O polvo permanece.

Os amigos de lá dizem-me que estão expectantes, e exigem transformações consequentes.

O belo território, - corredor entre o mediterrâneo e o deserto, - depois de ter sido reino fenício, com a fundação da cidade de Cartago (VIII A.C.), tomada pelo Império Romano (II A.C.), passou no século VI para as mãos dos Bizantinos, depois para os Árabes até ser conquistado pelos turcos, em 1574, tornando-se no século XIX um protectorado francês, até se tornar independente em 1956.

O primeiro presidente da República Tunisina foi Habib Bourguiba, que esteve 30 anos na cadeira presidencial.

O segundo, Ben Ali, que depôs Bourguiba, num golpe de estado palaciano, permaneceu 23 anos no cargo.

O actual primeiro ministro, Mohamed Ghannouchi, que sucedeu nesse cargo a si próprio, esteve 1 dia (14 de Janeiro de 2011) nas funções presidenciais. Economista, escolhido há onze anos por Ben Ali para chefiar o governo, conduziu as negociações para a formação do "novo"governo, com 3 partidos da Oposição, que levará (conseguirá?) o país a eleições livres e a uma liberdade ampla, tão ansiadas.

O actual Presidente da República, é o 4º, desde 15 de Janeiro, assegurando o período da transição, que passou de 2 para 6 meses. Fouad Mebazaâ, advogado, foi ministro da Juventude e Desporto, da Saúde Pública e da Cultura e Informação, além de embaixador na ONU e em Marrocos, sendo presidente do Parlamento desde 1997...
A Tunísa teve 3 presidentes em 24 horas!

Pasmo com a ligeireza de alguns "jornalistas" de beco, que, sem avaliar a situação, emitem opiniões precipitadas. A verdade aqui fica para análise e aprofundamento. O tempo demonstrará quem tem razão...

Partidos da Tunísia:

Partidos com Assento Parlamentar

Partido de Ben Ali, que dominou os Governos, desde 1988:
Rassemblement Constitutionel Démocratique (RCD), actualmente com 161 deputados.

Oposição Parlamentar
Mouvement des Démocrates Socialistes, 16 deputados.
Parti de l'Unité Populaire, 12 deputados.
Union Démocratique Unioniste, 9 deputados.
Parti Social-Libéral, 8 deputados.
Parti des Verts pour le Progrès, 6 deputados.
Mouvement de la Rénovation -ETTAJDID, 2 deputados.

Outros Partidos da Oposição
Parti Démocratique Progressif;
Parti Libéral Démocratique

Partidos Ilegalizados
Congresso para a República
Hizb ut-Tahir
Parti de La Renaissance
Parti Comuniste des Ouvriers Tunisiens.

Luís Filipe Maçarico (pesquisa e texto) Fotos: recolhidas na Net

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Uma resposta e várias incógnitas


Em cada dia que passa, a corda estica mais e mais mas os socratinos têm uma garantia: podem fazer tudo que a corda nunca rebenta.
Novas taxas na saúde explodiram: uma vacina cujo custo era de quinze cêntimos passou a custar 100 euros. A Junta média que custava um euro passou a custar 50 euros.
Atestados que - e muito bem - eram acessíveis, somam-se, pelos aumentos escandalosos, à brutidade dos custos acrescidos de tudo.
E o enxovalho é tão grotesco que muitas famílias deserdadas foram "beneficiadas" pela EDP, onde o Estado tem participação determinante, com descontos de 50 cêntimos...
Nos países ditos do terceiro mundo, a revolta popular seria imensa. Em Portugal, parece que isto só incomoda os da "cassete", que é o apodo com que os comodistas e oportunistas chamam a quem protesta.
Os humilhados conformam-se, parecendo que ainda aguentam mais pontapés no orçamento: lamuriam-se, dizem umas ladaínhas de protesto no telejornal e amocham.
Povo boi manso, tirando aqueles que há muito não suportam isto e estão sempre a denunciar o carrocel alucinante de afrontas.
A maioria dos portugueses do Norte que me desculpe, mas perante tudo isto, apetece perguntar: de que lhes valeu então, votarem desde o 25 de Abril, nos partidos anticomunistas e reaccionários, que ao longo dos 37 anos deste regime, verdadeiro império da corrupção e da demagogia, enfraqueceram a cidadania com o desalento?
Mantiveram o seu saber fazer noutro trabalho, os operários das inúmeras fábricas falidas ou deslocalizadas?
Ficaram mais satisfeitos, os agricultores?
Tornaram-se mais felizes, os comerciantes?
Os pais sentiram mais benefícios do Estado, pela natalidade?
Os velhos foram mais apoiados na doença? E as reformas melhoraram?
Foi por votarem sempre nesses partidos que os nortenhos obtiveram mais qualidade de vida, ou seja, aproximaram-se na Educação, na Justiça, na Saúde, na Cultura e no Emprego, dos níveis europeus?
Infelizmente a realidade já respondeu a estas perguntas.

Será que depois de todos os enganos, uma parte substancial dos nortenhos (e um bom número de cidadãos do sul) mudam de voto, ou ainda vão continuar a pôr a cruz naqueles que, ano após ano aumentam o seu calvário? Ou pelo contrário, nem sequer irão votar, repetindo a lengalenga aleivosa do "são todos iguais"?
Num ano crucial para o futuro deste país, que parece continuar alegremente rumo ao abismo, saberemos a resposta para as várias incógnitas...

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, janeiro 11, 2011

Mulheres no Pódium




Elizabete Jacinto e Jessica Augusto são duas portuguesas notáveis.

Não andam atrás da bola, porém, e tal como os Mourinhos e os Ronaldos, triunfaram , enquanto desportistas, subiram ao pódium, merecem a nossa admiração por se destacarem em modalidades menos mediáticas. Também pela coragem de ousar vencer, sendo mulheres num mundo que continua a privilegiar os Homens, como Heróis, seja no Desporto, como na Política.
Só por isso vale a pena falar delas pois Portugal tem gente com percursos muito positivos que são estímulo para todos nós, além do Special One...
Elizabete Jacinto venceu a última etapa do rali Africa Eco Race, que terminou em Dacar, no Lago Rosa, classificando-se em 2º nos Camiões e em 7º na Geral.
Jessica Augusto é campeã europeia de atletismo, tendo obtido inúmeras distinções em provas disputadas ao longo de 2010, vencendo a S. Silvestre de Madrid.
Em Dezembro sagrou-se igualmente campeã europeia de corta-mato.

Luís Filipe Maçarico (texto)
Fotografias recolhidas na Net

domingo, janeiro 09, 2011

Calbi Arabi






Têm chegado notícias muito perturbantes, nada poéticas, nada turísticas, do Magreb.
Nomeadamente da Tunísia, com motins por todo o lado, que originaram mortos.
Os números de falecimentos e feridos são díspares. E à medida que este domingo foi passando, aumentaram.
Veja-se o que se diz no Liberation:
http://www.liberation.fr/monde/01012312547-manifestation-mortelle-en-tunisie
O Governo acusa extremistas que desejam desestabilizar o país.
Os governos do sul da Europa, e os partidos socialistas do sul do continente europeu, sempre tão expeditos em encher a boca com os direitos humanos estão em silêncio.
Ver notícia do Jornal El País de hoje aqui:
http://www.elpais.com/articulo/internacional/Gobierno/Tunez/confirma/muertos/enfrentamientos/policia/elpepuint/20110109elpepuint_4/Tes
E no Público de hoje, on line:
http://www.publico.pt/Mundo/tunisia-balanco-oficial-reconhece-que-14-pessoas-foram-mortas-por-balas-nos-motins_1474347
Esta revolta dura alguns dias.
Veja-se a notícia divulgada no dia de Natal, aqui:
http://www.abc.es/agencias/noticia.asp?noticia=636442
Dia 5, o Público on line noticiou isto:
http://www.publico.pt/Mundo/internautas-bloquearam-sites-governamentais-na-tunisia-para-protestar-contra-o-regime_1473775

Entretanto na Argélia, ondas similares de violência alastraram, com manifestações populares e repressão policial, despoletadas pelo aumento de bens alimentares e do desemprego.
Ver aqui notícia:
http://jornal.publico.pt/noticia/09-01-2011/tres-mortos-em-quatro-dias--de-motins-nas-cidades-argelinas-20980173.htm

Segundo dados de 2008 a Tunísia tem uma população de 10.383.577. A Argélia possui 33.769.668, de acordo com a mesma fonte estatística.

E tal como comentei na página do Facebook, de um amigo tunisino, que em Agosto passado tive a oportunidade de entrevistar em Mértola, aquando do seu estágio "Que mágoa ter sabido destes acontecimentos. O jornal "Público" referiu os problemas que se estão a passar aí, mas temos de procurar na Internet, se pretendermos obter mais informações. Pelos Amigos que tenho em várias regiões, lamento sinceramente Mortos e Sofrimentos, desejando que a Paz volte. E que Liberdade, Justiça e Democracia sejam palavras para valer."

O meu coração está com todos os meus amigos do Magreb.

Calbi Arabi (O meu coração é Árabe)*


Texto e Fotografia de Luís Filipe Maçarico

* Título de um livro de poesia luso-árabe, da autoria de Adalberto Alves.

sábado, janeiro 08, 2011

A Primeira Semana de 2011


Amigos: O regresso à actividade profissional diária, depois de uns dias de quebra da rotina em Alpedrinha, a participação activa em reuniões da Aldraba e do Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades e a pesquisa bibliográfica para a tese (ainda ontem passei o dia na Biblioteca de Arte da Gulbenkian assinalando o número de vezes em que a palavra mão aparece no Corão), a par de uma actividade virtual mais intensa no Facebook, atrasaram a postagem de mensagens aqui.
Regresso, assinalando:
- A perda de Malagatana, esse estupendo cidadão do Mundo, que nos legou uma obra ímpar.
- Uma Europa execrável, com Merkel, Sarkozy, Berlusconi e agora o primeiro ministro da Hungria, a dinamitarem a frágil unidade, lambendo os mercados financeiros, asfixiando os países com dificuldades, cerceando a liberdade...
- A pré-campanha para a Presidência da República, com uma maioria de candidatos proclamando purezanum mar de nódoas. Não meto todos no mesmo saco. Francisco Lopes é o candidato em que vou votar, por convicção, mas também porque tem mostrado que sabe o que é melhor neste contexto e porque assume posições que se inserem no país que desejo. E digo-o com a forte certeza de quem recusou votar Salgado Zenha numas eleições já distantes, pois fui sindicalista e não pude aceitar a ligação dele à tentativa de destruição da CGTP. Tal como nunca votarei Alegre. Os caçadores são-me desprezíveis e os zigue - zagues daquele senhor já me fizeram oferecer livros dele que recuso ter na minha Biblioteca, pois a bota não bate com a perdigota naquele caso, como se continua a ver...
- A insistente e vomitadora demagogia do Primeiro Ministro, mergulhando-nos no abismo, com mais um arroto no processo de nacionalização do Banco das Trapaças, dividindo-o em 3 empresas, onde uma (a dos Prejuízos Impagáveis) vai envenenar ainda mais a debilidade do Estado.
- Ainda a cegueira desvairada do Condottieri do Socratinismo, que face a todas as ameaças dos Mercados de Agências de Rating e outros Malfeitores da Gula Capitalista, apresenta continuamente números risonhos, de um país surreal, que só ele e os apaniguados vêem...
- A imensa confusão gerada na Saúde, na Educação, na Função Pública (com os cortes salariais), na Justiça (em que escutas mandadas destruídas afinal...), na Mobilidade Territorial (com o fecho de linhas ferroviárias), que aumenta o fosso entre Interior e Litoral e consequentemente o desiquilíbrio/Desigualdade entre cidadãos do mesmo Portugal divido em dois e também no Salário Mínimo (rebaixado), na maioria dos Reformados (penalizados com aumentos de remédios, alimentos, transportes, tudo, face ao congelamento das pensões - já de si irrisórias) e nos Trabalhadores no activo (ameaçados pela agilização do Código Laboral, que lhes promete despedimentos, para não reivindicarem aumentos e regalias sociais) e no Desemprego (que perdem os apoios a que tinham direito...)
Convenhamos que para um Governo de um Partido que se diz Socialista, assumindo nos discursos que defende a todo o custo o Estado Social e provoca este Caos, a identidade está depauperada. Tenho amigos no espectro partidário, que ultrapassam o campo das minhas convicções, pessoas que respeito, porque sendo o que são nas suas "crenças", constroem pontes, partilham questões que tocam a todos, são, em suma, humanos como eu.
No PS também. E penso no mal estar que alguns devem sentir por assistir ao desenrolar, cada vez mais assustador, do tempo - que se esgota... A não ser que tivessem desistido de ser humanos, o que não acredito.
Também não consigo compreender como se consegue estar na cadeira do Poder anos e anos, numa degradação permanente e acelerada, como é o caso dos governantes. Como é possível dormirem descansados depois de prometerem uma coisa, fazerem o oposto?
E é assim que observo o começo de 2011...

Luís Filipe Maçarico