"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, junho 14, 2009

Poemas de Eugénio de Andrade nos Quatro Anos da Sua Morte


Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

***

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.


***
Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser -

se a luz é tanta,
como se pode morrer?

***

Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

***

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Poemas de Eugénio de Andrade, falecido em 13 de Junho de 2005.
Retrato do Poeta pintado por Artur Bual, falecido em Janeiro de 1999.
Dois Amigos que não esqueço.

sábado, junho 13, 2009

Notícias de Um Fim de Semana Quente






Sexta-feira retornei a Mértola. Estavam quase 40 graus... e o calor prosseguiu, fortíssimo.
Jean Pierre Van Staevel, catedrático da Sorbonne falou-nos da Arte Islâmica (Mesquitas) e proferiu uma Conferência sobre descobertas arqueológicas, em torno dos Almóadas, no sul de Marrocos, que seguimos com bastante interesse.

Visitei o Museu do Contrabando de Santana de Cambas, inaugurado em 10 de Junho. Sonho do autarca local, José Rodrigues Simão, concretizado por Miguel Rego e Manuel Passinhas.
Obra digna, que faz pensar no que sucedeu naquela terra no tempo da guerra e da fome.
Tem esse mérito. Ficou o povo de Santana retratado nas suas lutas por uma vida melhor.

Entretanto, tenho escrito poemas, que desta vez não vou partilhar.
Ficam guardados.
Talvez os publique, talvez os rasgue. Afinal de contas, que importância tem um poema, quando passamos de amados a esquecidos?
Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

sexta-feira, junho 12, 2009

Encontro de Poetas 2009 em Alpedrinha










Começou algum tempo depois das dezoito e terminou perto da meia-noite, com febras, entremeada, morcela assada, caldo verde e doçaria feita por mestras.
O pretexto foi a Poesia, mas depois da pausa gastronómica, o serão teve outro atractivo: o convívio proporcionado por Rosa Dias e José Caniça, dois animadores genuínos que deliciaram a assistência com saborosas anedotas.
A parte poética esteve a cargo das senhoras donas Laura, Odete e Pilar, além de Alice Peixeiro, Brás Ribeiro (antigo provedor da Misericórdia de Alpedrinha), Rosa Dias e o autor deste blogue.
Para que os poetas anónimos pudessem intervir, disse 4 poemas, um do livro "Cadernos de Areia" e os outros, já publicados neste blogue, como Pátio das Laranjas e Corpo da Terra.
O jovem Miguel fez questão de escolher um poema do meu último livro, que disse diante dos alpetrinienses: "Longe".
Para que a memória não se apague, aqui ficam algumas imagens, nomeadamente de Monia Roxo, presidente da Liga dos Amigos de Alpedrinha, entidade promotora da iniciativa, que se desenrolou no jardim da família Castro. E de Marília Hilário, também da direcção da Liga, que, entre outras tarefas se ocuparam do grelhador...
Bem Hajam!
Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

quinta-feira, junho 11, 2009

Donde Vens? (Ou as Auto-Fotos de um "Artista" a quem chamaram "Fofinho" e agora tem a mania que é Jeitoso)






Regressei a Lisboa durante a tarde, no Intercidades.
Amanhã é dia de aulas e não quero faltar ao Seminário sobre Arte Islâmica, que começa esta sexta, com o professor Dr. Santiago Macias.
Deixo as primeiras auto-fotos tiradas em Alpedrinha e uma derradeira, já no comboio.

- Donde vens?
- Da Festaaaaaaa...

*Peço desculpa pelo narcisismo, mas ainda cá estou para as curvas... Sou um velho gaiteiro!!!

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

quarta-feira, junho 10, 2009

Nome de Alentejano


Há coisas impressionantes. Há algumas semanas atrás, ao subir da estação de comboios de Beja para a gare da Rodoviária, encontrei esta tabuleta na fachada de um prédio.
Pois não é que no passado dia 7 me apareceu um senhor com este nome, na mesa 3 de votação da freguesia dos Prazeres, onde fui escrutinador?
Tratava-se do mesmo e não de alguém da família, como perguntei.
Nome de alentejano, pois concerteza!

Luís Filipe Maçarico

terça-feira, junho 09, 2009

Não Posso Adiar o Amor Para Outro Século





Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração António Ramos Rosa
Viagem através duma nebulosa (1960)
Antologia poética

segunda-feira, junho 08, 2009

Se Uma Gaivota Viesse...




Se uma gaivota viesse

trazer-me o céu de Lisboa

no desenho que fizesse,

nesse céu onde o olhar

é uma asa que não voa,

esmorece e cai no mar.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se um português marinheiro,

dos sete mares andarilho,

fosse quem sabe o primeiro

a contar-me o que inventasse,

se um olhar de novo brilho

no meu olhar se enlaçasse.



Que perfeito coração

no meu peito bateria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde cabia

perfeito o meu coração.



Se ao dizer adeus à vida

as aves todas do céu,

me dessem na despedida

o teu olhar derradeiro,

esse olhar que era só teu,

amor que foste o primeiro.



Que perfeito coração

no meu peito morreria,

meu amor na tua mão,

nessa mão onde perfeito

bateu o meu coração.


Alexandre O'Neil


(Este poema foi cantado por Amália Rodrigues, musicado por Alain Oulmain...e actualmente, Sónia Tavares dos Gift reinterpreta, com roupagem inovadora que, sendo uma interpretação diversa, volta a colocar estes versos na nossa boca...)