"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

sábado, abril 11, 2009

O Nosso Tempo










"Quero essa mão a tocar em mim"

O tempo sobra
o tempo escasseia
porém
o tempo somos nós
sem saber o que fazer
com menos tempo
ou tempo a mais.
Quando chegará o tempo
de te ver e sorrir à vida?
Tempo de sentir o teu abraço
tempo de saber que me desejas
e te provar como te quero.
O tempo de não perder mais tempo
sonhando com o tempo
que tarda em chegar.
O tempo que fomos,
onde acreditei que havia tempo
para nós, apagado pela chuva
pelo vento, por esta ausência
que dói...
Prometeste um dia
"Vamos ter o nosso tempo"
E os dias passam
vertiginosos.
Só o silêncio é verdade
e esta solidão de não ter
os teus lábios
na pele do poema,
nem poder acariciar-te
para sentires
o "arrepio de suavidade"
que imaginas.
Porque tardas, meu tempo
com mãos e sexo,
para saciar esta sede de tempo?

Lisboa, 11 de Abril de 2009, 15:41

Luís Filipe Maçarico (poema e imagens)

Nota: As fotografias foram recolhidas em Alhandra, Lisboa, Vagueira, Vagos, Aveiro, Castro Verde e Mértola.

quarta-feira, abril 08, 2009

Saadane Benbabaali


Escritor, ensaísta, tradutor, o professor Saadane Benbabaali, ilustre argelino, ensina literatura clássica árabe na Universidade Paris 3.
Visitem o blogue deste homem sábio, que trouxe os poetas do Al-Andalus até Mértola... E oiçam esta canção, com as imagens que ele levou para França, da bela vila alentejana do Guadiana...

http://adabarabiqadim.blogspot.com/2009/04/ya-rasha-fattan-par-beihdja-rahal.html

segunda-feira, abril 06, 2009

SOLITUDE














"Abraço. Morro por 1..."

Entardece. A luz de ouro
lambe a cal das paredes.
Oiço o grito da coruja e o
imenso silêncio com vontade
de partilhar.

Entardece. Mas não estás,
para olhar a lua e escutarmos
as andorinhas ou me abraçares
sob as estrelas frias das noites
de Abril.

Esta noite vou beijar o rio
com os olhos, como se estivessem
aqui os olhos que eu queria.

E saboreando o licor
da solitude escrevo
mais um poema

para dizer
que migrarei
até bom porto
onde outras mãos
me desejam.

Anoiteço
Sem ti,
que és um barco
sem casco,
um verso sem rima,
uma voz sem corpo...

Mértola, 4-4-2009; 11:30h
Lisboa, 6-4-2009; 01:23h

Luís Filipe Maçarico

domingo, abril 05, 2009

O Brutamontes de Santa Margarida do Sado, Salazar, A Freira Paladina e Julie Andrews Travestida de Periquita ou Fim de Semana Surrealizante em Mértola












Desta vez parámos em Ferreira do Alentejo, pois o brutamontes do café de Santa Margarida do Sado, onde costumávamos abancar para fazer despesa, verter águas e retomar energias, foi ostensivo na sua já costumeira insolência de levar séculos a atender-nos e sempre com cara de carniceiro. Mudámos de tasca.
Em Ferreira, o Pedro foi cumprimentar um colega arqueólogo e aproveitámos para bisar o descansativo intervalo.
A estrada estava cheia de camions (desculpem as "interferências" sobre as imagens tiradas dentro do automóvel, porém esses sombreados são do vidro, repleto de insectos esparrinhados...), guardei uma vez mais na memória os morábitos e os oásis que reaparecem nesta e naquela curva do Alentejo...
(Já agora, cliquem em cima das fotografias para verem melhor os pormenores...)

Este fim de semana passei-me com algumas cenas burocrático-esquisitas.
Não queria acreditar em alguns sinais concentracionários, com que me deparei, que supunha serem incompatíveis com paraísos. Pelos vistos andava enganado e a Sacro-Santa Ordem Salazarenta arreganha a taxa onde menos esperamos.
Por este andar, o espírito da Freira Paladina, que "pulpitava" missas em Mértola, há alguns anos atrás, ainda se vai alojar nos mais insuspeitos lugares...
Confesso-vos que até pensei que tinha feito - sem saber - um casting para o remake de "Música no Coração", com Julie Andrews travestida de periquita...e que o filme começara, sem me terem dado o guião...A dado momento, senti-me vertiginosamente empurrado para outro remake, neste caso o 3º da Casa dos Bonecos de Cera, tal foi o surrealismo de uma conversa com que fui bafejado...quando, cheio de cansaços e problemas da minha vida diária, tentava sentir-me melhor.
E mais não digo, para ver se salvaguardo a relação de encantamento, que idealizei com Mértola, enquanto último refúgio contra o stress. A ver se os sacrifícios permanentes, desde Outubro, suportando com as poupanças do meu salário de funcionário, os gastos de transporte, alimentação, alojamento e propinas, não vão para o galheiro...

Para terminar com um apontamento positivo, em verdade vos digo que tivemos dois deliciosos dias com o professor Saadane Benbabaali, os melhores que o naipe de docentes estrangeiros e conferencistas portugueses nos proporcionaram, independentemente da sua categoria, pois nem toda a gente sabe comunicar (e cativar) como este senhor.
Vindo da Universidade de Paris, o professor Saadane Benbabaali ensinou rudimentos de árabe e canções da sua cultura, partilhada connosco dentro do belo espírito que trouxe ao Baixo Alentejo, uma mão cheia de estudantes
Enquanto fazia uma viagem pelos primórdios do Islão, pela vida do profeta, do Corão e dos poetas do Al-Andalus, o sono não perturbou os alunos, alguns dos quais, mesmo não sabendo falar francês, reconheceram em Benbabaali mestria na forma de partilhar o Conhecimento.

Um obrigado especial à juventude do carro onde vou e volto: Os irreverentes e fraternos Pedro Quintino Carlos, Rolando Melo Rosa e Ana Carina Dias. Foi graças ao ânimo que me deram, que vou continuar, pois gosto de fazer as coisas por prazer e vocês estiveram ao meu lado no momento certo...

Luís Filipe Maçarico

sexta-feira, abril 03, 2009

MURIEL







Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontro
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido

Ruy Belo, Obra Poética, Volume 2

quinta-feira, abril 02, 2009

O Sorriso


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade, do livro "O Outro Nome da Terra"

quarta-feira, abril 01, 2009

Desabafo




Tenho-me sentido adolescente. Porque estou a estudar com gente mais nova que eu, porque me apaixonei e embora não tenha corrido Seca e Meca, já procurei o amor prometido em Aveiro. Em vão. E a lira poética tem andado entre Tejo e Guadiana. Mas a verdade é que não podemos viver sempre de ilusão...
O quotidiano é este, tão real, que enfrentamos cada manhã, ao acordar. Os dias não esperam pelo desejo adiado, hesitante, ou inexistente, nem por frases matinais e muito menos se compadecem com o silêncio, esse silêncio tumular, indeciso, temeroso dos que pedem desculpa à vida por estarem vivos.
A solidão sente-se nestas coisas do amor, quando o motivo das nossas expectativas está ausente e fraqueja... se é que não brinca à cabra-cega...
Hoje adormeci e cheguei tarde ao trabalho. Tenho andado como um sonâmbulo, à procura do tempo perdido, do palácio dos sonhos, onde gostava de viver e ser feliz como milhões de seres humanos...nem que fosse uma cabana, uma ruína iluminada por dois sorrisos, duas bocas sedentas de música, dois corpos embalados pelas vagas nocturnas ou pelos gritos das gaivotas ao crepúsculo. Essa música, esse entardecer porém, nunca existirão, só porque houve alguém que não correspondeu, não explicou, não apareceu.
Mas como há um mínimo de dignidade que um homem não pode vender, nem em troca do próprio sol, resolvi cortar cerce a ansiedade e deixar este recado: Não há mais poemas, mais mensagens, o silêncio agora pertence-me e é desmedido como o cosmos.
Do outro lado, uma gota de juventude, que ficará a remoer a incapacidade de alcançar o abraço mais carinhoso do mundo; pela minha parte, a experiência e uma partilha, que se evapora no céu frio desta noite, como farinha numa peneira...sem eu querer.
Porque de quem eu falo sabe quem sou e onde moro, se tivesse sensibilidade, ousadia e o mesmo desvairado amor, poderia inverter tudo se aparecesse, não virtualmente, mas aqui à minha porta, desafiando-me a voar. Contudo, sei que isso não vai acontecer.
Desligo-me então do que me fazia estontear. Não espero mais pelo vazio.
Apago-me...Regresso à minha idade real, aos afazeres, às obrigações, ao que torna muita gente numa máscara, que proteje as lágrimas de amores infelizes dos olhares indiscretos.
Morri apenas mais um pouco...mas não se preocupem...já estou habituado a lamber feridas.

Lisboa 1 de Abril (mas é verdade) de 2009 23:53

Luís Filipe Maçarico