"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

terça-feira, março 24, 2009

RECADO




(Escutar-te
é bom...)

Ver-te
deixou de ser
natural,
como a água
ou as flores.

E se a ausência física
custa,
o silêncio mata...

Luís Filipe Maçarico (fotos e texto)

24 de Março de 2008, 9:45

segunda-feira, março 23, 2009

Tempo de Estevas





Pelas olaias floridas
sei que é o tempo
das andorinhas voltarem
aos beirais...

tempo de escutar
a tua voz macia
e de sonharmos
o encontro.

quero aromas do sul
na tua pele ardente
línguas de terra
beijando mamilos orelhas
e o amor prometido
entre estevas e olivais
pinheiros rumores de mar

escrevendo os melhores poemas
com pernas entrelaçadas
lábios colados, braços ancorados
na fusão dos corpos
gulosos por ter mais tempo
para enganar a morte com o desejo
prolongando carícia e beijo.

Lisboa, 23-3-2009 15:00 e 21:35

Luís Filipe Maçarico (poema e fotos tiradas em Castro Verde/ miradouro de Nossa Senhora de Araceli

domingo, março 22, 2009

O Meu Fim de Semana em Mértola






Às sextas, quando o Pedro Carlos não pode dar boleia, é preciso sair mais cedo de Lisboa, no comboio para Beja e depois de aconchegar o estômago, partir para Mértola na camioneta, que passa por estes campos esplendorosos, ainda tão verdes.
E lá está o monte "Marrocos", perto da ribeira de Terjes e Cobres. A primeira vez que lá passei (em 1984) com a Cristina, o sr. Manuel, a D. Lucy e a avó da Cris...disseram todos em uníssono: "Quando Lisboa for derrubada, Marrocos será levantada!" Velha loa, passada de geração em geração, enigmática, que no carro do Pedro se repete, quando atravessamos aquela parte da paisagem...
As localidades sucedem-se: Amendoeira do Campo, Vale de Açor, Alcaria Ruiva...terras antigas, com pequenos rios, barrancos, estevas, trigais, campanários, silêncio e o sol bem forte do Alentejo.
Esta semana fiz a viagem na quinta feira, pois tinha de apresentar uma aula e de me preparar convenientemente, no sossego da biblioteca do Campo Arqueológico de Mértola.
Lá estavam umas favas à alentejana e um bacalhau com grão divinos no "Tamuje" à minha espera e as bifaninhas com muito alho do sr. Henrique do café "Guadiana" que vai passar a abrir aos domingos por causa dos espanhóis que chegam em catadupla e mais depressa através da nova ponte do Pomarão.
Cláudio Torres desvendou-me os meandros da Biblioteca que ofereceu ao CAM, a Armanda, a Filipa Medeiros e o Filipe aturaram-me no acesso à Net e a outros bens essenciais dentro daquele espaço: água, café, luz, simpatia.
Na sexta, a Sandra festejou os seus 33 anos e confraternizámos no excelente restaurante "Brasileiro"com algumas ausências de vulto: O Pedro fez falta, como a Ana Isabel e a Ana Dias. Mas em compensação, reapareceu a Fernanda Mestre.
Foi mais um fim de semana envolvente, que terminou com uma feijoada e o anúncio do candidato à Câmara de Mértola por parte da CDU - o professor e associativista Jorge Revés, rodeado de centenas de entusiastas daquela candidatura.
Estas eleições vão ser muito interessantes, pois do seu resultado dependerá o futuro, mais ou menos dinâmico, relativamente à identidade, à valorização do património e à imagem de marca que esta terra foi construíndo.

Luís Filipe Maçarico (texto e fotos)

terça-feira, março 17, 2009

ADEUS


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

domingo, março 15, 2009

MATANÇA DO PORCO: UMA TRADIÇÃO DIFÍCIL DE EXTINGUIR COM DECRETOS E POLÍCIAS


Foi num lugar de nuvens rasteiras, grávidas de chuva em Fevereiro, que é terra de lumes, mal a Primavera desabrocha. No sábado gordo, um grupo de citadinos, partiu para um convívio gastronómico no sul, cujo pretexto era a matança do porco.

A matação tradicional no Alentejo é referida por inúmeros autores, que sublinham o facto de ser uma festa íntima de família e amigos.

Leite de Vasconcellos, no volume V da Etnografia Portuguesa, afirma que “deve escolher-se o quarto crescente, para a carne crescer na panela.”

Joaquim Pulga, escreve em “Alentejanando Estórias e Sabores”, que é “velha como o passado, esta tradição alentejana de matar o bacorinho preto. Matança que assegurava a mantença.”

“O porco quando está vivo suscita a antipatia, quando está morto convida ao prazer”, assegura Alfredo Saramago em “Para uma História da Alimentação no Alentejo”.

E João Mário Caldeira na sua obra “Margem Esquerda do Guadiana As Gentes, A Terra, Os Bichos”, recorda que o ritual teve “direito a figurar até na ilustração, executada entre 1518 e 1535, do Livro de Horas do Rei Dom Manuel”. Caldeira diz que a matança é “imolação em prol da subsistência do homem”

Joaquim Pulga informa que “Cabia aos homens o sacrifício, o musgar e o lavar, o desmanchar do animal e o separar das peças grandes. As mulheres tinham de cor a sua labuta, aparar o sangue, lavar e preparar as tripas, fazer os torresmos e a banha mais a tarefa incontornável de tratar das comedias para o afago dos estômagos. Migar a carne do alguidar, temperar e fazer os enchidos eram tarefas também suas.”

Em “Memórias e Narrativas Alentejanas”, Brito Camacho lembra: “Engordam-se porcos desde que o mundo é mundo, e nunca se engordaram senão para se comerem”. Segundo este autor, “Ao primeiro golpe, havia sempre quem dissesse na roda: - Se queres conhecer o teu corpo abre um porco”.

Costa Caldas em “A Tradição” informa: “Do sangue, temos os chouriços d’esse nome. Da carne, temos os chouriços, paios, linguiça, salsichas, não falando nos assados de lombo, perna e costoletas. Das mãos e pernas, o presunto e o fiambre. (…) Da cabeça, os miolos com ovos; a orelheira (…) a língua é manjar saborosíssimo. Do interior, os rins (…) coração e fígado que com o sangue, dá (…) a surraburra do Alentejo; as tripas para o enchido; as banhas (…) o toicinho.”

Aníbal Falcato Alves registou em “Os Comeres dos Ganhões Memórias de Outros Sabores” este depoimento: “No dia da desmanchação (…) tirava-se o entrecosto, metia-se tudo no pimentão”

O jornalista Pedro Ferro escreveu: “O porco morre ao amanhecer. Três ou quatro homens arrastam o bicho que protesta e seguram-no sobre uma banca de madeira - a sua ara sacrificial. (…) Esforceja. Debate-se. Desesperadamente grunhe. (…) Cerimónia complexa é esta da matança. De véspera fica o animal sem comer. De véspera atarefa-se o mulherio na preparação dos alguidares que hão-de receber as vísceras e o sangue (…) o porco é chamuscado: queimam-lhe o pêlo com braçadas de tojos (…) Bocado a bocado o bicho vai para o alguidar.” (in “Errância pelos Comeres do Alentejo Onde o Pão sabe a Sol”, Imenso Sul, Nº 15, Verão 98).

Partilhado por cerca de quarenta pessoas, contactadas com recato para evitar intrusos, o cerimonial foi intenso.
À roda da mesa conviveu-se e saboreou-se. Provaram-se vinhos únicos. O porco pesava 70 quilos. “Já pouca gente sabe fazer a moleja”, alguém lamentou.
E houve um arroz confeccionado com mão de mestra, queijo fresco, caldo verde e doces que a aguardente caseira ajudou a digerir.
Passeou-se, para conhecer melhor uma realidade que raramente chega aos telejornais, ávidos por drama, porque este lugar é longe e sangue…só o da matança do porco!
A alegria reinou nesta convivência e o regresso aos meios urbanos fez-se com boas lembranças.
Afinal, ainda há gente que resiste, mantendo a tradição, da mesma maneira que todos os anos pinta as aldeias com cal ou apanha a cortiça e a azeitona.

Luís Filipe Maçarico*
*O texto foi escrito em Fevereiro de 2008 e publicado no Jornal "Conversas de Café". A fotografia foi registada hoje, no mesmo local

sexta-feira, março 13, 2009

Pele


Acordei de madrugada
com a lua cheia
que ardia no teu sorriso.
As tuas palavras irromperam
como flautas de espanto,
desinquietando o sono
dos jardins secretos.

Esperei toda a manhã
pelos teus lábios,
a cama lavada
e os dedos ansiosos
por tocar
na pele
da poesia.

São horas de partir
para outras paragens.
Deixarei a cidade
sem o teu olhar,
com a pegada triste
de viver sem ti.

Luís Filipe Maçarico, 13-3-2009, 12:45

terça-feira, março 10, 2009

FRASE DO DIA


Triste já é forma de estar, mas como há sol...disfarça-se!
Luís Filipe Maçarico (frase e fotografia)