"Um Barco atracado ao cais é sempre um sonho preso"

domingo, fevereiro 22, 2009

Adágio, de José Carlos Ary dos Santos


ADÁGIO

Quanto caminho andado
desde o primeiro poema
ai quanto amor amassado
com mãos de alegria e pena
ai quanto caminho andado
serena.

Quanto verso ensanguentado
quanta distância de mim
quanto amor desesperado
quanto secreto jardim
ai quanto caminho errado
sem fim.

Morro por ti mas tu não vens
dentro de mim te chamo
mas tu não estás
mas tu não vês
o que arranquei de mim
meu amor tu não és
quem amo.

Ai quanto caminho andado
sozinha dentro de mim
ai quanto caminho errado
sem fim.

Canto por ti mas tu não és
dentro de mim te choro
mas tu não estás
mas tu não vês
já te arranquei de mim
é só por te não ter
que eu morro.

Poema de José Carlos Ary dos Santos; Fotografia de Luís Filipe Maçarico

sábado, fevereiro 21, 2009

Singela Despedida


Sendo um homem de palavras, perante a derradeira viagem do amigo -poeta Fernando Pinto Ribeiro, tenho dificuldade em escrever.
Agora mesmo, esperando o funeral, sentado num banco do cemitério do Alto de São João, alinho estas palavras, com uma tristeza que precisa de recolhimento.

Fernando Pinto Ribeiro, sempre presente no lançamento de livros meus, voz activa em inúmeras sessões pelas colectividades de Lisboa, dizendo a sua poesia, com Ulisses Duarte, Julião Bernardes, J. Leitão Baptista, Rosa Dias, Jorge Rua de Carvalho, faz falta a todos os que sentiam na sua presença, uma fraternidade luminosa, a exigência e o rigor, o sorriso amigo de um príncipe, com fortes convicções na vitoriosa luta dos oprimidos, que trazia sílabas de húmus na fala terrosa e elegante, com ritmos de eloquência e beleza, entranhados nos versos e nos gestos.

Tenho pena que as palavras que me disse não estejam escritas, pois dele guardo, além dos seus poemas e da personalidade incontornável do homem brando mas convicto, a efémera flor de várias conversas que permanecem na memória. Sei que o meu poeta será eterno, circulando nas veias da poesia cantada que fala da noite, do destino e de Lisboa, que tanto amou.

Fernando Pinto Ribeiro deixou uma semeadura vibrante de versos.
Todos os que se revêem na impetuosa e emocional lira do autor de "Pensando em Ti", encontram na sua poesia, incessantemente trabalhada, um território imenso para o voo do amor e do visionarismo, que hoje foi celebrada com a presença de muitos dos seus amigos-poetas, em silêncio, com saudade.
Bem Haja Fernando, pelo esplendor do seu percurso, quer como homem, quer como poeta, tão intenso e transversal por diversas gerações, quanto o sol desta tarde em que a Mãe-Terra o recebeu.


Luís Filipe Maçarico (texto - escrito hoje à tarde às 14:15 - fotografia e recolha de poema)

PENSANDO EM TI

Fado com letra de Fernando Pinto Ribeiro, música de Jorge Fontes, cantado originalmente por António Mourão

Acordei mas não te vi,
nem sequer o teu retrato
À cabeceira, sorri
na solidão do meu quarto.

Acordei como quem chama
por alguém que se deitou
No calor da minha cama
e de noite me deixou.

Pensando em ti... adormeci...mas acordei
Reconheci... que te perdi... e então chorei
Mesmo a dormir... julgo sentir... o teu calor
E o teu carinho... p'lo nosso ninho... oh meu amor

Acordei como quem ouve
o amor que bate à porta
Fui abrir, lá fora chove,
não há ninguém, noite morta

Acordei como quem chora
por alguém que já morreu
Neste quarto aonde mora
um fantasma, que sou eu
.

Pensando em ti...

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Fernando Pinto Ribeiro - Quando nasce uma nova estrela no céu...



Depois de ter sabido da notícia da morte do amigo-poeta Fernando Pinto Ribeiro, a minha amiga S, teclando comigo, partilhou estas palavras:

"quando uma pessoa morre nasce uma nova estrela no céu
assim, quando olhamos o firmamento podemos sempre ver os que partiram
velando por nós
guiando a nossa vida
quando era miúda, nas noites de lua cheia falava com ela pois para mim representava a minha querida bisavó
agora que sou mais crescida olho o céu em busca de respostas, para partilhar alegrias
não rezo a Deus
falo com o meu avô para que interceda junto de Deus por mim
soa a paganismo
mas alivia-me a alma..."

Biografia do Poeta (retirada com a devida vénia do blogue "Porosidade Etérea")
http://porosidade-eterea.blogspot.com/2009/02/fernando-pinto-ribeiro-1928-2009.html


O dia começou triste. Faleceu o poeta Fernando Pinto Ribeiro.
Natural da Guarda, Fernando Pinto Ribeiro nasceu em 1928 e escreveu aos catorze anos o seu primeiro soneto a que deu o título “Soneto dos 15 Anos”.
Colaborou nas revistas Flama, Panorama, Páginas Literárias, e em jornais como o Diário de Notícias, o Diário Ilustrado e em vários jornais regionais, tendo também sido publicados no Brasil alguns poemas seus.
Dirigiu, com Eduíno de Jesus e J. M. Pereira Miguel, a Revista de Letras e Artes “Contravento” (1968) com concepção gráfica de Artur Bual, da qual só se editaram quatro números, devido à censura.
Organizou com Alba de Castro, entre 1967 e 1983, as Pastinhas de Poesia, publicadas anualmente na Queima das Fitas da Universidade de Coimbra. Participou em múltiplas colectâneas e organizou algumas, como as da Tertúlia Rio de Prata.
Pertenceu aos corpos sociais da Sociedade da Língua Portuguesa, foi sócio da Associação Portuguesa de Escritores, cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores e sócio da Colectividade Grupo Dramático e Escolar “Os Combatentes”.
Fascinado pelas noites de fado lisboeta começou a escrever alguns fados que desde logo fizeram sucesso (inicialmente, com o pesudónimo Sérgio Valentino). Escreveu letras para: Ada de Castro, Alexandra Cruz, Anita Guerreiro, António Mourão, António Laborinho António Passão, António Severino, Arlindo de Carvalho, Artur Garcia, Beatriz da Conceição, Branco de Oliveira, Carlota Fortes, Chico Pessoa, Estela Alves, Fernando Forte, Francisco Martinho, Humberto de Castro, Julieta Reis, Sara Reis, Lenita Gentil, Lídia Ribeiro, Maria Jô-Jô, Pedro Lisboa, Lurdes Andrade, Natércia Maria, Pedro Moutinho, Salete Tavares, Simone de Oliveira, Toni de Almeida, Tonicha, Tristão da Silva, Xico Madureira, entre muitos outros.
Fernando Pinto Ribeiro era um homem de profundo saber, de grande afectividade e que prezava muito a amizade.
Procurava encontrar a perfeição, tentando que cada poema tivesse uma quadratura musicável, com rima e métrica. Foi assim que os seus poemas passaram a ser musicados e cantados.
«A poesia é para mim um acto natural, pelo que sou imediatamente compensado pelo simples acto de escrever poemas e de os rever continuamente. Vejo aliás na revisão permanente dos meus poemas uma espécie de volúpia, uma busca incessante pela perfeição, mas ciente de que nunca a atingirei».
Hoje despedimo-nos de um poeta a quem não foi feita justiça. Um poeta que, pela sua humildade, nunca procurou a ribalta e por isso não lhe chegou a ser reconhecido o seu grande valor. Um poeta perfeccionista que fazia poesia com amor.
O corpo do poeta irá hoje para a Basílica da Estrela e o funeral realizar-se-á amanhã pelas 14 horas.
Até sempre, Fernando!

Alguns Poemas

LISBOA VAI ! (MARCHA)
Letra de: Fernando Pinto Ribeiro

A bailar pela Avenida,

Num balançar de canoa,

vai de varina vestida

Rainha Dona Lisboa


Vai abraçar do Castelo,

Plo Tejo nos mares deitado,

O marinheiro mais belo

Das caravelas do Fado


Vai aonde a alma voa

Desde os mundos do passado

Até onde o mar entoa

Teu nome por todo o lado


Refrão

Vai, vai, Lisboa,

Santo Antoninho te guia

Da Estrela e da Madragoa

à Graça e à Mouraria.

Vai, numa boa,

Vai na vida ser vadia,

Vai, até que o andar te doa,

Rumo à Praça da Alegria!

Vai nos pregões a cantar

Camões, a Amália, Pessoa…

Vai na marcha popular

Rainha Dona Lisboa


(*)


Vai de Alfama e do Dafundo

a São Bento e a Belém

E sobe à Rua do Mundo

Do Poço do Borratém …


Vai sair na Boa-Hora,

Com foguetes e balões,

A São Vicente de Fora,

de dentro dos corações.



Mão Aberta

A imolar perguntas, degolar respostas
que a razão venera num altar de aborto,
sepultei nas vagas, despenhando encostas,
a torre nirvana, com o ídolo morto

como quem naufraga sobre as próprias costas
e o corpo cavalga contra o rumo torto,
hasteei nas trevas, já não de mãos postas,
o punho, em archote e a prumo, no porto

a escavar na terra os poros do povo
de onde irrompem chamas delirantes de água,
mato a velha sede renasço-a de novo:

lavado em suores da mais negra mágoa,
a pulso me arvoro – e esta mão que movo
reabro à semente noutras mãos afago-a.



Cilício

amar
sem loucura nem pecado.
beijar com as asas
soerguidas
num voo orientado
através de trincheiras sucessivas.
não mais ficar parado
na curva do prazer
(hão-de explodir um dia em vão as feridas
do laço em que te abraço a Lúcifer).
tenha o desejo fugido à nostalgia
da amarra no cais ultrapassado
e viva nas marés do dia-a-dia
rendido
à viril filosofia
da onda que vai vem contra o rochedo.
guardar
a seiva do segredo
e o pólen da pele
nos lábios túmidos
hoje e sempre
fiel
ao beijo heróico
mortal e permanente
em que te aguardo
em que me encontre
frontal
total
e eternamente.

Fernando Pinto Ribeiro

ver também no blogue capeia raiana esta entrevista:
http://capeiaarraiana.wordpress.com/2008/03/27/a-fala-com%E2%80%A6-fernando-pinto-ribeiro/

Luís Filipe Maçarico (recolha de textos e fotografia do anoitecer no Pulo do Lobo) S. (texto inicial). Agradece-se ainda a divulgação por Inês Ramos da fotografia do poeta, que com a devida vénia fomos buscar ao seu blogue "Porosidade Etérea".

Filigrana


Quero dizer-te
que nas árvores
dos pomares
cresceu
uma frágil
filigrana,
efémera
como as palavras
que não dizes...

Luís Filipe Maçarico (fotografia e poema)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Na pegada da Neblina




Quando penso em ti
mergulho os olhos
no Tejo e imagino
que estás ao meu lado
como na primeira noite
dizendo o que não esqueço.

Quando penso em ti
lamento que não venhas
para navegares comigo
pelos rios do amor
com o mel dos beijos
na pegada da neblina.

Luís Filipe Maçarico (fotografia e poema)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Água do Sonho


Desta água bebo,-
Purifica meu sangue
e ajuda-me a voar!

Desta água bebo:
Água de uns olhos
que cativo me fizeram
e Camões abrigou.

Desta água bebo,
Porque é do sonho
que me alimento
Por isso me reinvento.
E abro as asas
para cantar.

Luís Filipe Maçarico (poema e fotografia)

domingo, fevereiro 15, 2009

Rasto


Tudo em redor floresce
Porém, a voz acesa

e
v
a
p
o
r
o
u
-
s
e

As sílabas ternas são
árvores secas e os
gestos de lua gelaram
deixando o silêncio
em tudo.

O sol esmorece neste fim
de tarde.

Apenas o rasto ténue dessas
palavras meigas, que ficaram
perdidas na pegada
das l-o-n-g-a-s
noites de Inverno
queima as veias
para fazer o poema.

E a sede...

15-2-2009
Luís Filipe Maçarico (poema e fotografia)